Uma vez mais…

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Uma vez mais, os desastres naturais ocupam as manchetes do início de ano. Claro que a desgraça doméstica ocupa uma porcentagem muito maior na nossa mídia, e não poderia deixar de ser diferente, com mais de 600 mortes e milhares de desabrigados. Contudo, parece que a natureza resolveu causar no mundo todo, das tempestades de neve em Nova Iorque às enchentes que cobrem uma área igual à da Alemanha e França somadas na Austrália. Isso abre uma série de questionamentos.

A quem culpar? É justo falar apenas da natureza? O elemento da imprevisibilidade e a força das intempéries são, claro, o elemento principal dessas catástrofes. Por ouro lado, também é muito fácil culpar as pessoas e os governos. No fim das contas, a responsabilidade pode ir de elementos que vão do aquecimento global à ocupação irregular de terrenos. É uma questão tão ampla que acaba sendo impossível determinar exatamente um motivo principal, e a prevenção se torna impossível sem que seja necessário aplicar um plano muito ambicioso e complexo para sanar esse emaranhado de possíveis causas. A única coisa perceptível (e até mesmo um lugar-comum nesse tipo de discussão), no fim das contas, é que pra variar são os mais pobres que pagam o pato.

É fácil comparar tragédias desse tipo ocorridas em países com governabilidade distinta. Basta vislumbrar a reação do Chile e do Haiti aos terremotos que os castigaram ano passado: o Chile já está recuperado, enquanto o Haiti sofre com revoltas, eleições problemáticas, epidemia de cólera e a volta da praga Baby Doc, que roubava dinheiro de ajuda humanitária. Um artigo interessante mostra que existe uma relação perceptível entre corrupção e fragilidade democrática e o número de mortes em desastres naturais.

Outro ponto é o da percepção. Vejam as inundações na América do Sul. A Colômbia enfrenta uma catástrofe de dimensões semelhantes, ou até mesmo piores que as do Brasil – as chuvas torrenciais dos últimos meses, até o momento, causaram menos mortes, mas já arruinaram produção agrícola e deixaram mais de 2 milhões de pessoas desabrigadas. Situação semelhante ocorre na Venezuela. Se esse tipo de notícia passa como nota de rodapé por aqui, quanto mais nossas enchentes devem ser exibidas em alguns segundos do noticiário internacional nos EUA ou Europa, como se fosse algum tipo de incômodo passageiro num mundo distante – enquanto as inundações na Austrália tomam grande parte de seus noticiários.

E é essa justamente a questão: todo ano esse tipo de notícia se repete, pelo mundo inteiro. E as pessoas se acostumam. É sabido que muitos morrerão e pouco se faz. Nos países mais pobres (e propensos à corrupção/democracia frágil), esse filme será repetido indefinidamente enquanto não houver a solução das mais variadas vicissitudes sociais, que vão de habitação a corrupção política – e isso não tem prazo para ocorrer… Enquanto isso, nos países mais abastados, seus problemas são suficientes, cada um na sua, e a falta dessa percepção global dos problemas pode levar a agravar o quadro atual. Debater e (quiçá) reverter as mudanças climáticas? A existência de refugiados climáticos? Fome pela destruição de áreas agrícolas? Uma hora esse tipo de situação sairá do controle. E quando uma atitude for tomada, poderá ser tarde demais.


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ISO 26.000

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A gestão da Responsabilidade Social para a sustentabilidade nos negócios

A revista “The Economist”, uma das vozes mais influentes junto ao mundo corporativo, tomou uma posição interessante em relação à Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Em 2005, divulgava artigos reconhecendo a relevância do debate, mas mostrava-se cética a sua plena validação. Definia a RSE como “uma análise equivocada de como o capitalismo serve a sociedade” e que “não poderia substituir políticas inteligentes nessas áreas”. Isso gerou frustração entre os especialistas e ativistas da RSE.

Eis que em 2008, a mesma “The Economist” reservou um edição ao mesmo tema. Dessa vez, a visão foi bem diferente: “uma pesquisa da Economist Intelligence Unit demonstrou que a responsabilidade corporativa tem ganhado força nas prioridades dos executivos” e também que: “bem feita, não está separada da atividade principal, como uma área reservada à virtude, mas é um bom negócio”. Há uma tendência de evolução da percepção da responsabilidade social empresarial (ou responsabilidade corporativa) por parte das empresas. Justamente o que foi capturado pela renomada revista.

O conceito de Responsabilidade Social não é novo. De fato, remonta a exemplos ainda do século 19 e início do século XX. Seja via a percepção que uma melhor qualidade de vida dos trabalhadores gera maior produtividade ou através da regulação estatal mais estrita, o conceito já apresentava suas bases. Desde então, passamos pela filantropia corporativa, investimento social, investimento social estratégico, até, finalmente, chegarmos à gestão da Responsabilidade Social. Passamos de iniciativas que não tinha relação com os negócios (a filantropia ou caridade) até uma de ampla grande vinculação com os negócios (a RSE integrada a gestão corporativa).

A ISO (International Organization for Standardization, em inglês) é uma federação mundial de organismos nacionais de normatização, a qual desenvolve normas internacionais por intermédio de comitês técnicos. Sua missão é desenvolver normas que sejam relevantes para os mercados a nível global e que ajudem a criar um mundo sustentável. Em imensa maioria, são normas técnicas, mas também existem as normas vinculadas à gestão e agora a responsabilidade social. A ISO 26.000 foi resultado de um virtuoso processo, que abrangeu governos, sindicatos, organizações internacionais, consumidores, indústrias e observadores; culminando em um guia para empresas que desejem aplicar a Responsabilidade Social de uma maneira integrada a sua gestão corporativa.

É uma falácia a velha história de que a RSE só se aplica quando tudo vai bem. A crise de 2008 demonstrou isso, através da redução somente dos investimentos em projetos filantrópicos e não em outros campos da Responsabilidade Social. Há a percepção que cuidar do financeiro, ao mesmo tempo em que do social, ambiental, desenvolvimento comunitário, relacionamento com fornecedores e direitos humanos; tende a gerar sustentabilidade no longo prazo. A norma, tal qual a RSE em si, não se aplica somente a empresas e sim a todas as áreas de atuação humana. É uma forma de desenvolvimento intimamente interligada à sustentabilidade. Reconhece-se, neste sentido, que não obstante ao horizonte é comum, cada país tem uma posição de largada diferente, por isso devem ser avaliados de acordo com seu contexto nacional de partida. Cabe ainda ressaltar também que somente cinco países foram contra a norma: Índia, Cuba, Estados Unidos, Turquia e Luxemburgo.

Não deixe também de acompanhar a Tunísia fazendo história: 1,2


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Conversando com a Teoria

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Adeus Marx? Adeus Lenin?

Na época da eclosão da atual crise financeira, o historiador britânico Eric Hobsbawn concedeu uma entrevista ao jornalista Marcello Musto, na qual se abordou a atualidade do pensamento de Marx e o interesse renovado por este autor. Pela entrevista, percebe-se que o marxismo – tão preconizado na filosofia, sociologia e economia – também pode contribuir para o entendimento das relações internacionais.

Já afirmava categoricamente Marx, em pleno século XIX, que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes. Em todos os tempos, sempre houve uma classe opressora e outra oprimida, freqüentemente explorada. No plano internacional, tal situação se repetia. Diferentemente dos pensadores liberais que acreditavam que o livre comércio era benéfico a todas as nações, Marx defendia que, na verdade, as relações econômicas reproduziam a exploração e acentuava as desigualdades. Ainda assim, não é propriamente o filósofo e economista alemão que produziu uma teoria marxista para as relações internacionais, mas suas idéias contribuíram decisivamente para uma leitura crítica das mesmas.

Ora, justamente as premissas de Marx acima mencionadas inspiraram a primeira teoria marxista propriamente dita para as relações internacionais, qual seja, a teoria do imperialismo, elaborada por Lênin. Aprimorando o pensamento anterior, este autor substituiu o termo “classes” por “Estados”, os quais reproduziam também relações de domínio e exclusão em suas interações. Internamente, há a exploração da classe dominante, externamente, pode haver a associação entre classes dominantes de diferentes países ricos com a finalidade de explorar os países pobres, bem como pode haver desacordos quanto à exploração.

Para Lênin, o final do século XIX era marcado por um estágio superior do capitalismo: o imperialismo – situação em que havia uma intensa disputa entre os países ricos (opressores) por matérias-primas e mercados consumidores nos países pobres (oprimidos). Esta, por sua vez, contribuía para a formação de monopólios e conflitos. Por este viés, a guerra é causada a partir das desavenças econômicas e não pela busca incessante da sobrevivência, como crêem os realistas.

Em geral, a teoria leninista, partindo do senso crítico de Marx, é a mais aceita como a teoria marxista das relações internacionais, embora haja bastante divergência sobre a existência ou não desta teoria. Apesar dos desacordos, ressalta-se que as premissas do marxismo são indispensáveis para uma boa compreensão do cenário mundial, inclusive, da atual conjuntura em que vivemos. Deixemos uma análise mais profunda para outra ocasião.

Apenas uma questão final: em 2003, Wolfgang Becker dirigiu o filme “Adeus Lênin”, no qual é narrada a trajetória de uma professora entusiasta do socialismo que entrou em coma antes da queda do Muro de Berlim e só recuperou a consciência após o evento. Ela acordou em mundo completamente diferente, mas seu filho esforçou-se para lhe ofertar um mundo antigo. Teria o socialismo soviético morrido de fato para ela? Será que realmente dissemos adeus para Marx e Lênin? Ao que parece, a resposta é negativa.


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Na dança da geopolítica mundial

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A reflexão final com o que o Álvaro encerra o post de ontem pode abrir o de hoje: a tolerância entre os povos na questão nuclear. O Irã deseja retomar as negociações sobre o seu programa nuclear com o grupo 5+1, composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, e aproveitar a oportunidade para envolver a Turquia, país que sediará reuniões nos próximos dias 21 e 22. A Índia, por sua vez, afirmou que aumentará a matriz energética nuclear de 2,5% para 25% nos próximos anos, e é o segundo país que recebe investimentos estrangeiros no setor, perdendo para China. As mesmas potências que condenam de um lado, apóiam de outro. Isso nos conduz a um olhar mais dilatado.

Não é novidade para ninguém que a geopolítica mundial está mudando. O declínio norte-americano – a priori, econômico – é capa da edição da Foreign Policy da primeira edição deste ano. O tema também ocupou grande espaço no noticiário, concomitante a ascensão de novas potências. Por certo, os compassos geopolíticos desenham novos círculos de influência já não tão globais, mas regionais, cujo cálculo da atuação deve levar em conta a geometria de outros poderes.

No caso iraniano, faz-se apologia à vitória das potências ocidentais e ao êxito esperado com a adoção de sanções. A solução negociada para com o Irã e o seu direito ao desenvolvimento de um programa nuclear pacífico pertencem ao ataúde da memória. O emprego da força, na vertente da pressão econômica, acrescenta outro fracasso para a coleção de insucessos de gerir uma nova ordem internacional à luz de uma estratégica de segurança internacional EUA-OTAN do pós-Segunda Guerra.

Na Índia, por sua vez, o programa nuclear não apenas é apoiado, como fomentado. Nas últimas visitas dos presidentes de Estados Unidos, França e Rússia, foram firmados importantes acordos de cooperação na área. Mas, afinal, por que essa diferença de tratamento quando Índia e Irã se parecem tanto? Os dois não ratificaram o TNP; a primeira tem arsenal nuclear, inclusive já testado, o segundo pretende desenvolvê-lo (embora não assuma e se já não tem); ambos têm fortes inimizades, Paquistão e Israel, respectivamente, e ambição por aumentar a influência regional.

Só que a Índia é bem vista pela comunidade internacional, o Irã, não. Em cenário prospectivo, a Índia pode se consolidar como potência, abandonando o adjetivo “emergente”. O crescimento econômico impressiona – no período de crise, a economia cresceu 6,7%, no ano passado, 8,5%, e a projeção é que cresça entre 9 e 10% este ano (aqui) –, mas as relações diplomáticas, sobretudo na vizinhança imediata, levantam desafios no horizonte político. Como lidar com a China em espaço de influência que também lhe é próprio? E as rivalidades com o Paquistão, que, por sinal, faz parte da estratégia ocidental de combate do terrorismo global? Como o Ocidente lidará com a Índia e o Paquistão simultaneamente? Do lado iraniano, mais marcado pelas polêmicas do que projeção concreta de poder, abre-se caminho para uma maior aproximação entre o país e a América Latina, bem como para a busca turca por influência no Oriente Médio.

Dos grandes assuntos globais, nascem oportunidades regionais. Nos vácuos de poder que se criam nessa geopolítica mundial em gestação e mutação, os países se articulam e se movimentam para encontrar o seu “novo” lugar, sem os encantos nacionalistas de outrora, mas de acordo com a realidade que se interpõe.


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Convívio difícil

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O ano de 2011 começou, por assim dizer, pouco propício às diferenças. Alguns fatos da última semana reafirmaram que, via de regra, ainda é o foco no que separa as pessoas que pauta suas relações, em vez do que as une. Não que isso seja novidade, infelizmente. Mas a proporção que suas conseqüências tomam acaba reverberando de maneira duradoura.

Veja, por exemplo, o caso da congressista norte-americana Gabrielle Giffords, baleada durante um evento. A hospitalização da deputada democrata, que colecionava desafetos políticos, fez com que a pauta do Congresso dos EUA dessa semana fosse paralisada (incluindo a blitzkrieg republicana contra a reforma da saúde de Obama) e pode até mesmo atrasar o último vôo do ônibus espacial Endeavour (cujo comandante é marido da deputada). No que pese o aparente transtorno mental do atirador, não podemos descartar a intolerância como motivo: Giffords é crítica da lei anti-imigração do Arizona, e um teor mais radical de repulsa, or exemplo, aos latinos (e aos que os defendem) não seria nada improvável como razão para essa chacina. Há ainda indícios de que o atirador integraria uma organização antissemita – e a deputada é judia.

De fato, a intolerância religiosa parece ser a mais perigosa. Logo no começo de janeiro houve os ataques a cristãos no Egito e no Iraque. Já no Paquistão, por exemplo, existe a tal lei de blasfêmias (já comentada aqui), oriunda das sombras do regime militar islamizado radical dos anos 80 e que faz vítimas até hoje, sendo a mais famosa o governador Salman Taseer, morto por seu segurança na semana passada. A razão? Taseer era contrário à lei (que condena à morte ou prisão perpétua quem ofender o Islã; geralmente é uma sentença de morte, mesmo para os que são absolvidos da acusação) e apoiava publicamente uma senhora condenada à morte por tal mecanismo. Uma vez mais, os que defendem os direitos do “outro” pagam caro.

E quando a intolerância religiosa se une à étnica, sendo a mistura temperada pelo vil metal, surge o caos. Vejam o caso do Sudão: o maior país africano está no meio de um processo que referendará, muito provavelmente, a separação da região sul, criando um novo pais. O conflito econômico é iminente: o sul herdará 80% do petróleo, mas as tubulações para escoá-lo ficam com o norte. Se o presidente Omar Al-Bashir não conseguir segurar o ímpeto dos mais exaltados, provavelmente o que era uma guerra civil apenas se transmigrará para uma guerra convencional entre Estados. O Sudão é um micro-cosmos da África: etnias e religiões diferentes, em conflito perene, assentadas em recursos naturais abundantes e sob o olhar atento de fora. Certamente, haverá estatais chinesas prontas a oferecer o suporte para que a produção continue sem estorvos, em troca da boa e velha blindagem nas organizações internacionais, mas esse enlace econômico vai manter em contato grupos conflitantes, e vai ser praticamente impossível controlar as rusgas entre a maioria muçulmana do norte e minoria cristã do sul. Basta ver os conflitos e escaramuças que houve no primeiro dia de votação para se ter uma ideia do que espera esse país. E na falta de mais motivos pra intolerância, o futuro presidente do Sudão do Sul prega a democracia e igualdade para todos em seu país – exceto os homossexuais…

Todo ano novo, fazemos votos de paz e prosperidade. Talvez fosse o caso de pedirmos tolerância , acima de tudo, em 2011…


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Eu vou devolver

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Em muitas ocasiões, uma pessoa tem que fazer uma escolha: entre fazer o certo (seja por valores pessoais, medo de uma possível sanção, entre outros) ou tentar obter uma vantagem ilegal com seus riscos inerentes. O que obriga o cidadão a agir de acordo os imperativos legais e morais? Estou entre as pessoas que acredita que o receio do castigo apropriado é um dos principais mecanismos para garantir o funcionamento de uma sociedade, evitando assim que a desordem impere.

O que fazer quando os próprios representantes do povo, me refiro mais especificamente aos Poderes Executivo e Legislativo, se comportam à margem de condutas morais e legais? Não bastasse legislarem sobre seus vencimentos e benefícios, ainda gozam, na maioria das vezes, da conivência de seus colegas no que concerne a condutas irregulares. Afinal, a maioria deles adotam procedimentos similares. No caso de uso indevido de cartões corporativos e da verba indenizatória isso fica evidente. Quantos casos surgiram? Havia limite? Em face de indícios irrefutáveis, seja pessoalmente ou por meio de sua assessoria, o acusado em questão prontamente garantia o reembolso do gasto indevido. Era tudo, fim de história.

Todos conhecemos os méritos de Lula. Por outro lado, sob sua tutela algumas questões tiveram abordagem personalista. Os erros não só eram perdoados como também atribuídos em certas ocasiões a perseguições dos veículos de comunicação. O mais recente evento se refere aos passaportes diplomáticos emitidos para os filhos e o neto do ex-presidente Lula. Eles têm direito ou representam um interesse legítimo do país? Para a OAB não. Diante da ampla divulgação da situação, um dos filhos de Lula já prometeu devolver seu passaporte diplomático. Isso, provavelmente, bastará.

Existe algum tipo de sanção para esse tipo de comportamento? À primeira vista, como leigo em questões legais, parece que sim. Imaginem que os acusados terminem devolvendo o obtido/utilizado de maneira ilegal. Basta, não? Esse é o exemplo dos nossos representantes. Agora imaginem se essas prerrogativas pudessem ser aplicadas plenamente à vida em sociedade. Uma pessoa resolve roubar um pequeno item em uma loja. O máximo que pode acontecer é que, caso o roubo seja descoberto, o acusado tenha que devolver o item em questão. Nada mais. Na prática, na minha concepção, é isso que acontece com nossos representantes ou políticos. Obviamente que tais práticas, quando tomadas por um cidadão “normal”, são objeto de algum de tipo de sanção. Não importa, para a classe política devolver, ante a comoção pública, é a lei na prática. Muito diferente do aplicado aos cidadãos “normais”.


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Babel sudanesa

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Segundo o mito bíblico, a Torre de Babel teria sido uma tentativa de os descendentes de Noé eternizarem seus nomes, construindo uma torre tão alta de forma que pudessem alcançar o céu. Por conseqüência de tamanha soberba, o castigo de Deus aos homens foi a diversidade de idiomas, dificultando-lhes a comunicação e espalhando-os por toda a Terra…


De forma metafórica, alguns elementos deste mito podem ser utilizados para uma análise acerca da atual situação do Sudão, um dos países africanos menos desenvolvidos no mundo e assolado por uma das maiores crises humanitárias dos últimos tempos. A artificialidade das fronteiras na África advindas do processo de colonização do continente pode ser considerada uma demonstração da soberba humana em sua ânsia colonizadora, desprezando as características humanas locais para a constituição fronteiriça – estabelecida unicamente de acordo com interesses estratégicos e econômicos. Desde então, o castigo que os próprios homens atribuíram (inevitavelmente) a si mesmos foi a falta de diálogo entre comunidades vizinhas – muitas vezes localizadas sob a alcunha de um mesmo país –, situação em que se enquadra a população sudanesa.

Desde 1956, quando o Sudão se tornou independente, guerras civis entre as regiões norte e sul têm marcado a história do país, somando mortes já na casa dos milhões desde então. Estas regiões possuem muitas diferenças entre si, situação que dificulta enormemente o diálogo entre os povos. Dentre as grandes distinções, a religião se enquadra como uma das principais, sendo o norte predominantemente islâmico e o sul predominantemente cristão. Também as riquezas naturais do país (localizadas notadamente no território ao sul) causam desentendimentos na região.

No ano de 2005, foi firmado um acordo de paz entre o norte e o sul sudaneses de forma a amenizar a situação de insegurança local – acordo este que previa a realização de um plebiscito a respeito da possibilidade de independência de dez províncias do sul do Sudão em relação ao restante do país (mapa abaixo).

Desta forma, durante a próxima semana aproximadamente 3,2 milhões de eleitores decidirão o futuro do Sudão, quando ocorrerá o aguardado plebiscito. Acredita-se que o cenário mais provável é efetivamente a independência da região sul, o que poderá caracterizar a criação do 54º país africano no mundo. Se isto acontecer, o Sudão terá uma diminuição de aproximadamente 25% de sua área – compreendendo riquezas naturais valiosas, diga-se de passagem – e o equivalente de sua população.

Muitas dúvidas ainda pairam sobre esta situação, a qual tem sido acompanhada pela Organização das Nações Unidas e pela comunidade internacional em geral. Muitos também são os desafios humanitários, econômicos e políticos existentes neste país africano, assolado por tamanha dificuldade de diálogo entre os próprios nativos. Esperemos que, a partir do resultado do referendo, essa situação de “babel sudanesa” existente entre o norte e o sul do país visualize um desfecho que possa beneficiar as partes envolvidas e propiciar – ainda que aos poucos – a construção da paz na região.

[UPDATE (07/02/2011): Independência alcança índice favorável de 98,8% em referendo no sul do Sudão.]


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Conversando com a Teoria

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Liberalismo: entre a retórica e a aurora

Enfim, vamos a nossa análise de caso pelo liberalismo. A proposta que aqui se segue é identificar qual a praticidade dos pressupostos da teoria liberal das Relações Internacionais. Isto não é tarefa muito fácil e, em grande medida, confusa. Seria mais fácil se falássemos da teoria neoliberal, mas tentemos nos aventurar por esses caminhos.

De modo geral, o liberalismo aparece muito em âmbito discursivo, mas pouco se concretiza na prática. Como toda teoria, serve para nortear um determinado tipo de conduta e instrumentalizar a ação. O problema é que muitas vezes não passa de um exercício de retórica. Exemplo claro disso é a política externa norte-americana. No discurso de posse do presidente Obama, quando deveríamos escolher a esperança ante o medo, um dos belos trechos diz o seguinte: “o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.” Foi o que assistimos?

Em outro discurso, proferido no Cairo, em 2009, Obama sinalizou uma aproximação com o mundo islâmico. Para muitos analistas, foi encarado como um marco significativo da política externa dos EUA. Uma questão curiosa foi o argumento do presidente norte-americano de que qualquer um tem o direito de investir em um programa nuclear pacífico, inclusive o Irã. E, no sopro dos ventos liberais, Obama chegou a dizer: “Para que venha a paz, é hora de todos – os diretamente envolvidos e nós também – agirem de acordo com as responsabilidades de cada um.” Ressalta-se que a paz apareceu vinculada aos direitos humanos, democracia e comércio, no espírito liberal.

Em The tragedy of great power politics, Mearsheimer – um realista por definição – endereça a crítica ao liberalismo no sentido exposto acima: no discurso, os Estados Unidos sempre se assumem liberais, mas agem pautados nos princípios do realismo. Ora, se tudo fica no âmbito discursivo, o liberalismo é inútil? Longe disso. Carr, previamente, havia destacado a importância de unir o idealismo e o realismo. Sem a perspectiva de um mundo “como deveria ser”, permaneceríamos estáticos no passado e no presente, sem mudança e tampouco esperança.

Nas relações internacionais, como em outros campos da vida, sempre precisamos de um norte. O liberalismo pode fornecer um importante norte para a conduta das nações, mas é preciso que as ações se voltem para ele. Não basta apenas o contínuo exercício de imaginar novas auroras, se não puder vivê-las e apreciá-las, com vigor e esplendor.

[Seguem duas leituras da Foreign Policy que valem a pena sobre o trabalho de Samuel Huntingon: uma de Fukuyama e outra de Zakaria. Por sinal, dois críticos de Huntingon.]


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É hora da "hamanização"

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Particularmente, fui atraído por uma notícia que ocupou grande espaço na Folha de São Paulo no último domingo: a “talebanização” da Faixa de Gaza. Processo similar ao ocorrido no Afeganistão pode estar ocorrendo lentamente e de maneira imperceptível nessa região, com a perspectiva de se espalhar pelos territórios palestinos, à medida que o Hamas ganhe projeção política. Em outras palavras, expliquemos melhor o termo: assim como o Talebã, o Hamas está passando da resistência ao controle do país. Porém, diferentemente do primeiro, este se converteu em partido político no ano de 2006, abandonando a luta armada (será?).

À parte dos esforços travados e confusos pela paz no Oriente Médio, fato interessante é a reorganização interna de uma sociedade. Reorganização que passa, primeiramente, pelo intenso bloqueio promovido por Israel à Faixa de Gaza, mesclada com as ondas de aversão e inação. Os ataques à flotilha humanitária no ano passado, o fracasso das negociações diretas, a entrevista à Folha do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter sobre a incapacidade dos Estados Unidos de conduzirem sozinhos a paz na região são exemplos de fatores que induzem à reclusão palestina em territórios esfacelados e permitem a ampliação do raio de ação do Hamas, sob a justificativa da proteção de seu povo.

Agora é a vez a “hamanização”! Sob este altar, ocorre o casamento entre cultura e poder. Alguns costumes estão mudando, como a proibição ao fumo do narguile para as mulheres em locais públicos, o tom islâmico está aumentando, tal como a intolerância para com a oposição. O Hamas dissemina idéias para reforçar a sua autoridade. Procura se impor diante de uma sociedade que teme Israel e o Ocidente. Para tanto, precisa da relação biunívoca entre cultura e poder, crenças para serem seguidas e para ganhar poder, e poder para ditar crenças.

[Uma indicação bibliográfica indispensável sobre a discussão entre cultura e poder é o livro de Estevão Chaves de Rezende Martins, intitulado “Cultura e poder”.]

Se os impasses perduram externamente – a guerra bate outra vez na soleira das fronteiras, para os israelenses, Abbas teme pelo futuro caso não venha a paz –, no plano interno, a sociedade vai ficando sob o controle do Hamas. Como partido político ou milícia, ainda não sabemos. A história pode estar se repetindo, primeiro como tragédia, depois como farsa, numa paráfrase de Marx.


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Ano Novo, vida nova

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As festividades de Ano Novo são oportunidade ideal de confraternizar, refletir sobre o ano que passou e fazer planos para o ano vindouro. Também são momentos em que qualquer deslize pode trazer problemas como ressaca e ganho de peso. Bem, podemos fazer uma analogia com relação à economia mundial que se apresenta no momento para o ano de 2011.

Existe motivo para festa, em certo grau. Ao menos, na zona do Euro. Os últimos três anos foram marcados por crise financeira e o risco do bloco ir para o buraco. Eis que, surpreendentemente, um país relativamente humilde se comparado a outros membros do bloco, mas com déficit controlado com esmero, a Estônia, acaba de entrar para o Euro e dá novo fôlego e esperança à combalida moeda européia. Mesmo a Alemanha, rodeada de países em crise, conseguiu ter em 2010 o maior crescimento de seu PIB desde a queda do Muro de Berlim e já prevê altas nos salários em 2011. A crise européia passou? De modo algum. Mas tem solução ainda, e os convidados dessa festa têm que tomar cuidado com a bebida do déficit público e exagerar no remédio da austeridade.

Por outro lado, os países que enfrentaram bem a crise já sentem um irônico clima de fim de festa. Isso por que suas economias continuam aquecidas, até demais, e começa a surgir o temor da inflação. A estrela desse grupo, a China, já sofre com altas de juros e economia aquecida. O fantasma da inflação ronda não apenas o Império do Meio, mas a maioria dos mercados que andam relativamente bem, incluindo o próprio Brasil (claro que em menor grau – nosso país é um caso sui generis em termos de regulação financeira e corre um pouco menos de risco que os demais). Por isso, esses países se vêem forçados a acabar “mais cedo” com sua festa.

Por fim, o único que continua cambaleante, uma mistura de embriaguez de gastos públicos com surra da crise econômica, é o principal convidado da festa, os EUA. País que mais sofreu com a crise, ainda vai ter que arcar com pesados cortes de gastos internos e uma grande instabilidade política. Esse 2011 promete ser desafiante para todos.


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