Dos males, o menor

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É o tema da vez: o norte da África anda em polvorosa com o que andou acontecendo na Tunísia, e mais recentemente no Egito. Com o ineditismo do modo como os protestos são organizados (é a informatização da revolução!), já há quem diga que podemos esperar um efeito dominó em diversos países africanos, com relatos de protestos estudantis no Sudão e pela renúncia do presidente do Iêmen. Será? A cautela é necessária em todo tipo de análise, e não sei se podemos dizer que está havendo algum tipo de revolução naqueles países.

A Tunísia parece um caso exitoso. O malvado Bem Ali foi removido do poder e as massas populares terão seus anseios respondidos. Bem, a coisa não é tão simples – boa parte da estrutura política e social do “antigo” regime permanece intacta (já se fala em governo de coalizão); ademais, foi um movimento de cunho popular, mas surgido de massas estudantis, letradas, não algo espontâneo. Não sei se podemos encarar como revolução em seu sentido próprio algo que foi gestado por uma elite intelectual insatisfeita e que não tirou do governo peças-chaves do antigo establishment.

Já no Egito, a coisa está mais complicada. O país é muito diferente da Tunísia em termos políticos e econômicos, com a semelhança de terem um presidente longevo e tirano. No país dos faraós a revolta popular se origina no caos e no colapso da economia, por isso é bem mais visceral que na Tunísia, mas provavelmente terá problemas em conseguir algo de concreto. Hosni Mubarak já cortou a internet e telefone (meios de mobilização para os protestos) e rapidamente articula sua defesa com os militares, enviando os tanques às ruas e colocando militares e pessoal do serviço de inteligência em postos importantes de seu governo (incluindo a vice-presidência). Há sinais de divisão nas fileiras do exército (com tropas se negando a usar a força contra a população), mas com as manobras de Mubarak o cenário é tenebroso no Egito, indo de possível continuidade de seu estilo com os militares (mesmo que saia do poder) a uma guerra civil.

A isso permanecem atentos os EUA, especialmente no caso do Egito, aliado histórico em um dos mais importantes atores na política externa da região. Mudanças nas políticas desses países podem ter conseqüências graves no jogo das relações regionais, e fazem com que surja, por exemplo, o temor da ascensão do radicalismo islâmico (possível nos dois casos, apesar de improvável, na Tunísia dada a moderação dos que se encontram no poder e no Egito pela força dos militares). Mas há necessidade de ação?

Não considero que essas manifestações tenham pouco significado, nem que deixem de ter seu valor contestatório. Há insatisfação com governos tirânicos, e isso é um indício dos mais saudáveis por aquelas bandas. Por menores que sejam, mudanças são sempre bem-vindas; contudo, precisam de um evento muito drástico para que ocorram em um espaço de tempo curto: via de regra, são bem demoradas. Por mais que possam estar inspirando outros movimentos semelhantes, provavelmente não vão causar grandes inflexões. No caso, parece que está havendo, no máximo, a opção pelo “menos pior”. E assim, por enquanto, a insatisfação popular ainda não conseguiria seus objetivos. Por enquanto…


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Otimismo x Ação?

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“Being an optimist does not mean simply looking at the world through rose-tinted glasses, and declaring everything to be for the best, despite an endless array of misfortunes. Being an optimist, as I see it, means to refuse to make do with the status quo, and instead to consciously look for ways to make the world a better place and help address the practical challenges faced by people here and now. I call this ‘optimism by action’, and I believe that such a philosophy of life can provide the catalyst for our much-needed transformation to sustainable development”.

(Mikhail Gorbachev)

Otimismo: característica notadamente importante àqueles que acreditam em mudanças e trabalham para torná-las possíveis. Ação: meio através do qual tais mudanças se manifestam. Seriam estas duas palavras contraditórias? Em tese, não. Na prática, freqüentemente sim. A infindável discussão em busca de consenso acerca de um acordo ambiental para suceder o Protocolo de Kyoto que o diga…

O desenrolar (mal-sucedido) destas discussões desde 2007 já foi abordado aqui no blog (vejam os seguintes posts, por exemplo: 1, 2 e 3) e sabe-se que o desenvolvimento deste acordo tem predominado apenas no plano das idéias há meses, sendo que poucos foram os avanços dignos de destaque na mídia. Contudo, ao adotar-se o otimismo, deve-se acreditar que tais avanços são possíveis, desde que a mobilização político-estratégica internacional aos poucos volte sua atenção a esta demanda.

Deve-se destacar que, ao longo do século XX, vivenciou-se no cenário internacional uma considerável expansão da consciência ambiental, sendo que, segundo Castells, teórico de importância destacada para a análise das Relações Internacionais, a presença constante de temas ambientais na mídia dotou-lhes de uma legitimidade bem maior que a atribuída a outras causas. Entretanto, não basta que exista otimismo e legitimidade apenas no plano teórico enquanto na prática os obstáculos às ações efetivas ainda se mostram tão amplos.

Hoje foi anunciado pelas Nações Unidas que haverá uma “sessão extra” de negociações com a presença de representantes de quase 200 países na capital asiática de Bangcoc durante o mês de abril, precedendo a sessão já anteriormente prevista de conversações durante o mês de junho na Alemanha e no final do ano na África do Sul. Este será mais um momento em que as partes poderão avançar nas discussões para a efetivação deste acordo até o final de 2011. Seria esta uma perspectiva exageradamente otimista? Talvez sim… porém urge a busca por ações que possibilitem a assinatura deste acordo internacional com metas plausíveis para o desenvolvimento sustentável durante a próxima década.

Diante do caos climático vivenciado em tantas partes do mundo de maneiras tão distintas – provocando secas, enchentes e catástrofes de amplitude notável – espera-se que seja possível, a exemplo da citação inicial deste post, construir a perspectiva de “otimismo pela ação”. Apenas desta forma estes conceitos essenciais podem deixar de parecer antagônicos e virem a se complementar, almejando-se que os Estados busquem esta construção no sentido de promover avanços na discussão ambiental (e em tantas outras áreas de atuação).


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Conversando com a Teoria

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[Hoje, contamos com uma participação especial e bastante oportuna na CCaT. É também algo inédito, temos um post do leitor nesta coluna. Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, é quem nos escreve. Teremos uma sequência de dois posts sobre a temática abordada, que é a democracia muçulmana, tão em evidência após os acontecimentos na Tunísia e no Egito. Ressalta-se que parte do conteúdo tratado consta na própria Tese de Conclusão de Curso (TCC) do autor, apresentada à Unesp-Franca em 2009, e que suas pesquisas contaram com o financiamento da Fapesp.. Eis a referência, para quem se interessar: “A Democracia Muçulmana e o Afeganistão – A atuação da International Security Assistance Force e seus reveses”, sob orientação da Prof. Drª. Regina Laisner.]

Breve reflexão sobre a ‘democracia muçulmana’ – Parte 1

Os acontecimentos políticos recentes na Tunísia e no Egito são claras demonstrações de que a aspiração pela liberdade, pela auto-determinação dos povos e pela ‘democracia’ – na sua acepção básica de advento de um governo representativo – não são ‘valores’ ou ‘demandas’ Ocidentais. O fato é que se caminha em busca de novos tempos políticos nos países muçulmanos, que pululam em variações políticas, que vão dos mais extremistas (como os islamitas, tendo como exemplo a Irmandade Muçulmana no Egito) aos mais liberais (inclusive alguns que defendem a separação do Estado da religião). As ditaduras que se instalaram nestes países, ou logo após o processo de independência, ou por conta de golpes de Estado, promoveram não sem auxílio externo, a homogeneização forçada do povo, o que não coibiu, como se sabe, o desenvolvimento de forças políticas contrárias.

Por muito tempo procurou-se negar que o Islã seria incompatível com a democracia. Isto se deu por forças em vários lados, e por conta da reificação do ‘relativismo cultural’ muitos se eximiram de analisar a questão. Todavia, frente aos acontecimentos recentes em Túnis e no Cairo, é importante fazer-se uma reflexão acerca do que é (ou pode vir a ser) uma ‘democracia muçulmana’, análise que será feita em duas partes.

O ex-presidente iraniano Mohamed Katami conclama que há três posições para se avaliar a relação Islã – Democracia. A primeira advoga que não há compatibilidade entre os dois; a segunda acredita no vínculo, mas diz que é necessária a revisão dos fundamentos da religião. A terceira posição defende que não só são compatíveis, bem como se devem buscar na religião os fundamentos da democracia. Para Katami a segunda posição é a mais coerente, tendo em vista que a democracia, na sua perspectiva é um método de governo no qual o ‘povo’ é a fonte do poder, além de ser o método menos custoso de manejar as sociedades humanas.

Para Katami, de um ponto de vista do Islã moderno, se a democracia for tomada então como uma ferramenta para governar a sociedade e se diferentes sociedades lhe dão valores especiais de acordo com sua própria cultura, então há sim compatibilidade entre democracia e islamismo. Além do mais, apesar de os valores gerais da democracia – na perspectiva das regras do jogo – serem constantes, os muçulmanos podem adicionar a ela valores que a tornariam mais ética.

Vali Nasr, um irano-americano, é um dos que traduz o debate de Islã – Democracia na expressão “Democracia Muçulmana”. Nasr enfatiza que a democracia muçulmana não é um valor teológico e ideológico abstrato, acomodada entre o Islamismo e a democracia, mas é uma síntese prática que surge no mundo muçulmano em resposta às oportunidades e demandas criadas por eleições.

Para Nasr, a idéia de “Democracia Muçulmana” tem a ver com a criação de um espaço para ação de forças políticas dentro de países islâmicos, para que em um ambiente de competição, os islamitas tenham que moderar seus pontos de vista para competir e os secularistas tenham que se ‘islamizar’ um pouco, o que determinaria um middle ground.

O foco, nos países de maioria muçulmana, deveria ser então para fomentar e fortalecer a democracia, criar uma ‘cultura de eleições’ e enfatizar mudanças reais nos governos. Neste ponto, é de extrema importância ressaltar que as democracias não estão isentas de produzir governantes conservadores, religiosos, e obtusos, e como Nasr defende, não se deve esperar que as eleições no mundo muçulmano levem ao poder governantes pró-Ocidente, tendo em vista que há demandas específicas no mundo do Islã, e estas têm que estar representadas nos parlamentos e instituições políticas dos países com população majoritariamente muçulmana.

Assim, o que se procurou mostrar nesta primeira parte é que há debates dentro e fora do mundo muçulmano que eliminam os estigmas vinculados ao Islã, de que este seria retrógrado, e incapacitado a fomentar debates de divergência e frutíferos à democracia. Como toda religião/cultura, as incompletudes do Islã precisam ser compreendidas, e o debate político aberto dentro destes países seria o caminho para tal. Mas para tanto, deveria haver este espaço, e a forma de consegui-lo é através de maior democracia. Os protestos na Tunísia e no Egito tem lutado justamente por isso.


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Tempestade constante, calmaria distante

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Diz-se, para acalmar os ânimos daqueles envolvidos em conflitos duradouros, que o fim de longos períodos de tempestade acompanha o inicio de uma calmaria. Espera-se sempre que sim. Todavia, na Costa do Marfim, é difícil vislumbrar um fim para os conflitos. Se a esse cenário, o provérbio pode não ser usado em sua forma original, uma releitura sua poderia adaptar-se bem à tensa situação.

Nas décadas de 1970 e 1980 o país era tido como uma jóia rara em meio ao solo africano de pedras rígidas e sangrentas. Sob os auspícios de Félix Houphouët-Boigny, líder do país desde a independência, a Costa do Marfim crescia cada vez mais rica e com estabilidade invejável (para mais visitem esse interessante artigo da revista The Economist).

Com o falecimento de Boigny, em 1993, as instabilidades ampliaram-se e as rusgas entre grupos étnicos cresceram, até o estouro de uma guerra civil em 2002. Dada a situação do país, o então presidente, Laurent Gbogbo, não pode conduzir as eleições no ano marcado de 2005. E os anos seguintes foram marcados por constantes postergações no pleito. Em um período de cinco anos, remarcou-se seis vezes.

O desfecho dessa tempestade não foi uma calmaria e sim mais raios e trovoadas. Observa-se a coexistência de dois presidentes. Aquele que luta para manter-se no poder, Gbagbo, e aquele que luta por seu direito de assumí-lo, Alassane Ouattara. Ao observar-se o histórico construído nos últimos anos, é possível perceber que o longo processo de instabilidades no país alimentara uma fome insaciável por poder de Gbagbo.

Os eventos recentes motivaram as Nações Unidas a ampliar o número de peacekeepers no país e repercutiram em fortes pressões externas, especialmente da União Europeia e de países da União Africana. Assim, foi construído um novo cenário que oscila entre o genocídio e a disputa política (como afirma um interessante artigo da Foreign Policy). Enquanto dois protagonistas lutam pelo poder, centenas de coadjuvantes lutam pela sobrevivência, quando forças policiais de Gbagbo eliminam opositores e provocam mais destruição.

O cenário está dado. As opções para findar a crise são escassas e oscilam algum lugar entre a intervenção militar e sanções comerciais. É difícil optar por uma violação da soberania da Costa do Marfim e é provável que o país seja condenado ao ostracismo até que Gbagbo desista de sua empreitada. Qualquer que seja a opção, militar, diplomática ou comercial, os castigados ainda serão aqueles que há uma década experienciam guerras: a população. E em casos como esse, quando a tempestade é quase a normalidade, a calmaria torna-se uma memória distante, quase que esquecida.


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Qual o preço da esperança?

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Esta é uma pergunta difícil, ainda mais nestas eras divididas entre a incerteza – não apenas econômica, mas política – e a perspectiva de mudança. O incerto pode tanto ser o ponto de partida da mudança, como conseqüência dela. Quatro eventos são de interesse deste post: os atentados na Rússia, o novo premiê libanês e as manifestações na Tunísia e no Egito. Como mudar e o que esperar?

Ontem, a Rússia esquentou. Um atentado terrorista no aeroporto de Domodevo, em Moscou, matou 35 pessoas e deixou 180 feridas. Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado, sabe-se apenas que foi um homem-bomba e se suspeita que provenha do Cáucaso. Tal ato pode ser interpretado como uma pressão por parte de militantes separatistas para a independência de Estados do norte do Cáucaso e frear as ambições de Putin, que pretende voltar à presidência, com seu discurso de contenção dos separatismos pela violência.

No Líbano, o negócio está bem confuso. Uma hora, o país é cristão, noutra, é islâmico. Quando é islâmico, vem o impasse entre xiitas e sunitas. Nesta terça, os seguidores do ministro interino Saad al Hariri (sunita) protestaram contra a nomeação do novo premiê, Najib Mikati (xiita) (vejam o seu perfil), que é apoiado pelo Hezbollah. O protesto foi intitulado como o “dia de fúria”, em resposta à queda de Hariri do cargo, há duas semanas, quando o grupo político e paramilitar (para muitos, também terrorista) deixou de apoiar o governo em vigor.

Tunísia e agora o Egito retratam uma realidade interessante: a sociedade está se levantando do jugo do tempo e decidindo o próprio destino. Os protestos na Tunísia culminaram na renúncia do presidente Zine Al-Abidine Ben Ali e servem de exemplo para os egípcios. Hosni Mubarak está no poder desde 1981, seis a mais que Ben Ali. A síndrome faraônica, de governos vitalícios, pertence à história. À custa de muita revolta, o povo luta pela nação que construiu.

Diante do quadro que se esboça, percebe-se que a mudança é conduzida de modos diferentes, seja por meio da prática do terrorismo ou pela própria sociedade, travando lutas sangrentas. É natural que, no espírito evolucionário, a humanidade sempre busque a mudança – e para melhor –, todavia, quando dela se distancia, recorre a meios mais complexos, variando no preço a ser pago pelo que se esperar.


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Será que agora vai?

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2011 é ano de festa. O F-X, projeto de compra de caças avançados pela Força Aérea Brasileira, completa seus 15 anos, e virá com um novo visual. Mas não seria esse o projeto, sob sua nova roupagem de F-X2, que deveria ter tido seu resultado final revelado em outubro de 2009? Sim, esse mesmo.

Não vamos criticar o governo, afinal um atraso de dois anos é compreensível – um negócio de 12 bilhões de reais não se fecha de um dia pro outro! O que embolou a escolha foi a decisão da presidente Dilma Roussef de reavaliar as ofertas das empresas competidoras (F/A-18 da Boeing, Girpen NG da Saab e Rafale da Dassault). Isso pois o relatório técnico da FAB já estava pronto desde o começo do ano passado, e avaliou todas as aeronaves como aptas às necessidades brasileiras. Com isso, restou o drama da escolha: a opção francesa, mais cara e de preferência do ex-presidente Lula, era uma escolha política e que batia com um ambicioso projeto de cooperação em defesa com a França que passa pelo submarino nuclear; a opção norte-americana é a mais confiável em termos de desempenho e batismo de fogo, mas sempre pairou sobre ela a desconfiança da retenção de tecnologia norte-americana; e a opção sueca seria a mais interessante para o desenvolvimento de tecnologia, inclusive se adequando aos objetivos da Estratégia Nacional de Defesa, mas seria uma aposta potencialmente arriscada. Nada foi decidido por Lula e o abacaxi ficou com Dilma. Pouco adiantaram as conversas de seu antecessor com Sarkozy: a presidente optou por reavaliar todas as ofertas e aguardar um parecer em conjunto com o Conselho de Defesa nacional.

Basicamente, o programa volta à estaca zero. Todas as empresas parecem ter voltado ao páreo, e inclusive há quem diga que as já eliminadas em uma primeira etapa do projeto poderiam voltar a apresentar propostas (como o consórcio europeu do Eurofighter e a Rosoboronexport, dos aviões russos Sukhoi), ou que o programa de compra de aviões de 4ª geração seja definitivamente cancelado e se comece o puro e simples desenvolvimento de um caça de 5ª geração desenvolvido aqui.

Várias questões podem ser levantadas. Primeiro, se a compra dos franceses era quase certa, por quê recomeçar toda a análise? Lula passou por cima de critérios técnicos para prevalecer uma decisão política. Estaria Dilma sendo cautelosa quanto aos termos de transferência de tecnologia, ou simplesmente estaria dando mostras de que lida de maneira diversa que seu antecessor tais assuntos? E se o projeto for mesmo cancelado como compra e se tornar um processo de desenvolvimento de caça nacional, haverá a transferência de know-how necessária, e conseguiremos algo em um prazo útil, ou isso se delongará por mais 15 anos? A única certeza é que esse investimento é um dos principais para a reorganização do setor de Defesa brasileiro, e enquanto essas questões não têm respostas em curto prazo, resta ao país continuar a modernizar a maior esquadrilha de F-5s do mundo…


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Enquanto isso, na Tunísia…

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Certamente não é todo dia que a Tunísia, país localizado ao norte da África, estampa os noticiários internacionais. Contudo, esta tem sido a situação há algumas semanas, quando os acontecimentos políticos tunisianos têm gerado discussão e promovido instabilidade no âmbito de um país conhecido, usualmente, por sua riqueza cultural no seio da sociedade islâmica.

O cartaz de “Game over” na imagem acima se refere ao (ex-)presidente Zine El Abidine Ben Ali que deixou o poder depois de mais de vinte anos em que ocupava este cargo – atingido a partir de um golpe de Estado no ano de 1987.

O clima de contestação social domina o país desde o final de 2010 e tem promovido fortes confrontos entre os populares e a segurança tunisiana, especialmente desde o suicídio de um jovem desempregado que provocou comoção nacional. Somam-se a isso as denúncias vazadas pelo Wikileaks a respeito da corrupção por parte de Ben Ali e sua família; bem como os efeitos ainda persistentes da crise financeira internacional no país que abalam sua antiga estabilidade.

Assim, com tamanha pressão popular e a instabilidade dominante, o ditador deixou a Tunísia – declarando estado de emergência – e rumou em busca de asilo político em outros países, mas não sem despertar ainda mais polêmicas (veja aqui e aqui). O primeiro-ministro assumiu o poder de forma interina, sendo que já existem candidatos para as próximas eleições, que devem acontecer em alguns meses.

Tamanha instabilidade percebida em meio à população tunisiana reflete o anseio por mudanças e melhoras nas condições de vida da sociedade, especialmente diante de denúncias tão graves de corrupção por parte de um governo ditatorial. Devem ser lamentadas as mortes advindas dos confrontos internos nas últimas semanas, mas espera-se que o país possa atravessar suas dificuldades e rumar para novos horizontes políticos, econômicos e sociais a partir de esforços conjuntos que reflitam efetivamente uma necessária renovação no que tange ao ativismo árabe diante da repressão de liberdades individuais…


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Conversando com a Teoria

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Sobre lucros e soluções

[Um detalhe, pessoal: este artigo foi escrito em 2008, quando a atual crise financeira explodiu. Hoje, poderíamos ainda inserir a quebradeira na Grécia, na Irlanda e, logo mais, nos países ibéricos. A lógica do que anda ocorrendo talvez não seja tão diferente de dois anos passados, afinal, seguimos nos desdobramentos dela.]

Primeiramente, façamos algumas considerações: não nos caberá apontar quais estão sendo os resultados, as atuais discussões e outras questões que todos podem acompanhar no noticiário diariamente. Nosso objetivo será avaliar as medidas que privilegiam a manutenção do sistema capitalista existente, alvo de críticas pelo viés marxista.

Fazendo alusão à entrevista recente do economista Renato Gonçalves para a revista Ciência Hoje, a locomotiva do atual sistema capitalista descarrilou e, por conseguinte, seus vagões foram saindo do trilho. Sim, estamos falando dos Estados Unidos e dos demais países. Todos entraram na crise norte-americana. As pessoas foram seduzidas a comprar, os bancos não tinham dinheiro para emprestar. E lucram aqueles que não têm dinheiro. É engraçado, não?

Entre os extremos da sedução e do consumo, a especulação. E a ganância, por que não? Mas, sinceramente, as principais instituições financeiras souberam dissimular muito bem. O comportamento fraudulento e até mesmo criminoso delas alienou os consumidores a ter o que nunca tiveram pagando por aquilo que perderam. É, realmente, o sistema opera de tal forma que somente produz exclusão e privilegia àqueles que detêm o capital.

Ora, se não fosse assim, será que os Estados Unidos teriam uma dívida pública de 10,5 trilhões de dólares? Para efeito de comparação, o PIB (Produto Interno Bruto) mundial é da ordem de 55 trilhões de dólares, ou seja, a dívida norte-americana corresponde a um quinto deste percentual.
E as soluções adotadas até então? Adivinhem? Vamos salvar os criminosos, opa, as empresas que criaram a crise. Empresas cada vez mais soltas numa economia completamente desregulada. E quem as salva? Os Estados. E o que são os Estados? O instrumento de dominação das classes dominantes. Bem-vindos ao marxismo.

Vocês sabem qual a primeira reação dos especuladores norte-americanos sobre o anúncio da liberação de 700 bilhões de dólares do governo para a economia? The happy days are back. O que é que podemos dizer? Só nos resta concordar e dizer que realmente estão de volta para eles.

Até mesmo nas situações de maior fragilidade econômica, a doutrina salvacionista é o lucro. Ou melhor, a concentração dele. Quando a economia cresce, ele é acumulado; quando declina, ele é expropriado: independentemente do que ocorrer, sempre se socializará os prejuízos, não os ganhos. Querem um exemplo, na Inglaterra, primeiro se salvou os carros, para estes salvarem as pessoas. Não há espaço para os pequenos, para os que fazem a economia se mover, apenas para aqueles que a controlam.

Se os liberais defendem o estímulo ao consumo e a recuperação do atual sistema econômico e financeiro, os marxistas são mais apocalípticos. O sistema chegou ao seu colapso? Inevitável mundo novo? Não. Para recordarmos, ainda não dissemos adeus para Marx ou Lênin. Não enquanto não nos ajudarem na procura de respostas. E de críticas.


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Entre palavras de amor e ódio, há dependência

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Há muito se estima o papel que a China assumiria no sistema internacional. Uma população de aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e um crescimento do PIB que continua a surpreender qualquer um (ano passado atingiu 9,5%). Um dragão de extensão incomensuráveis e dimensões que parecem infinitesimais tem despertado um sentimento que os Estados Unidos de Obama não esperavam reviver desde uma adolescência muito remota, mistos de amor e ódio.

Como era de se esperar, a ascensão da China tem provocado certo desconforto no governo estadunidense, que alimenta uma pitada de ódio. Isso poderia ser atribuído às posturas divergentes referentes a direitos humanos e a conflitos (como a questão das Coreias) ou mesmo a uma apreensão quanto às capacidades militares não muito divulgadas – exaltada no teste nada escondido de caças furtivos durante a visita da comitiva estadunidense no dia 11.

Apesar de ser possível reconhecer uma conjunção de fatores que justifica essa postura estadunidense, o fato da China estar clamando sua posição no sistema internacional e não mais estar satisfeita como ser aclamada como nova potência, incomoda, e muito. Em artigo essa semana, a revista The Economist defendeu que o governo chinês tem agido de maneira irresponsável tendo sempre em vista o declínio do poderio estadunidense e que era preciso lembrar ainda que os Estados Unidos detenham um poder militar ainda não-equiparável.

O que a revista não considerou é que o poder econômico chinês seria capaz de solapar qualquer superioridade americana. Assim, o ódio rapidamente transforma-se em amor. A dependência estadunidense da China é tamanha que a pressão interna por um fim nas baixas taxas de câmbio é enorme. Estima-se que os investimentos dos EUA na China em 2010 foram de aproximadamente 60,5 bilhões, enquanto que os investimentos chineses nos Estados foram de apenas 4,4 bilhões. Uma diferença muito significativa para ser desconsiderada em qualquer cálculo estratégico.

Um cálculo que Obama não tem ignorado. Dois encontros bilaterais visando fortalecer a confiança entre ambos foram realizados em menos de duas semanas. O primeiro ocorreu no dia 11 e o outro foi realizado hoje entre Obama e Hu Jintao. Os temas não são novos: flexibilização do Yuan, uma postura mais rígida sobre direitos humanos e incentivos a investimentos estadunidenses na China.

Como era de se esperar, não se destrava um impasse em apenas uma tarde. O diálogo já é um passo representativo na relação entre esses dois países e isso deve continuar sendo uma característica marcante para evitar maiores atritos. Uma relação que parece oscilar entre o amor e o ódio, na realidade oscila entre dependência e ódio, despertando sentimentos que os estadunidenses há muito pensavam estar esquecidos.

[Para mais sobre o assunto, clique aqui]


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Post do Leitor

Post do Leitor – Christiane Matos

[Olá, pessoal! Recebemos um interessantíssimo Post do Leitor esta semana. Desta vez, quem nos escreve é a jornalista e publicitária Christiane Matos, formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). O assunto em tela é o Facebook e as suas implicações para as comunicações e relações sociais Em especial, a leitora comenta boa parte do tão premiado filme “A rede social”. Não deixem de conferir!]

A face da nova era

Talvez já não surpreenda o fato de que se o facebook fosse um país ele seria o terceiro mais populoso do planeta, perdendo apenas para a China e para a Índia e desbancando os Estados Unidos, onde metade da população possui uma conta no site. Estima-se que uma em cada dez pessoas no mundo inteiro esteja cadastrada na rede social, disponível em 75 idiomas diferentes, mas ‘indisponível’ entre os chineses, pois, assim como o youtube e o twitter, o facebook consta entre os sites bloqueados pelo Governo Chinês.

A genialidade do facebook não é reflexo apenas da grande habilidade do seu fundador e diretor executivo, Mark Zuckerberg, em programar códigos de computador, mas também do seu senso de coletividade e da sua postura natural como líder. Arrogância e prepotência são características inerentes apenas ao Mark construído no cinema, no filme A Rede Social, lançado no final do ano passado. Com todo respeito aos produtores da obra, que recebeu o Globo de Ouro de melhor filme de drama no último domingo e está entre os favoritos para indicação ao Oscar, o roteiro não parece levar em consideração a verdadeira personalidade ou as reais motivações do seu principal personagem.

“O filme é legal, a história é interessante, foi bom relembrar coisas que me aconteceram nos últimos anos, mas estou certo de que a minha vida não é tão dramática assim”. De forma bem humorada, essa foi a resposta de Zuckerberg quando questionado sobre o filme durante entrevista no Oprah Winfrey Show.

Mark mora com a sua namorada, Priscilla Chan, numa casa modesta que fica a poucas quadras da sede do facebook em Palo Alto, Califónia. Ele faz questão de ir caminhando até o trabalho todas as manhãs, não dispõe de um escritório próprio em sua empresa, não usa anotações ou quadros para falar durante as reuniões e trabalha, em média, 16 horas por dia. O seu compromisso e a sua dedicação fazem de Mark um exemplo marcante de liderança.


Em entrevista para a revista Time, no artigo que Mark é apresentado como a personalidade do ano de 2010, o criador do facebook diz normalmente não gostar de falar muito sobre si mesmo e revela que o sucesso do seu projeto está no fato de o site ter como prioridade o estabelecimento de uma rede de conexão entre pessoas e não entre computadores. Aliás, o que pouca gente sabe é que antes de abandonar os estudos na Universidade de Harvard (como também fizeram Bill Gates e Steve Jobs), Mark cursava não apenas ciências da computação, mas também psicologia.

No artigo, Mark é descrito por seus colegas de trabalho como alguém bem quisto e que gosta de estar cercado por pessoas, e não como o geek obcecado pela aquisição de status apresentado no cinema. É inegável o fato de que manter uma conversa com ele não parece ser mesmo algo muito simples de se fazer, pois Mark fala rápido e pode facilmente perder o foco no assunto e se dedicar a outra coisa que julgue ser mais interessante. Sim, isso poderia torná-lo alguém frio e soberbo, mas, na verdade, indica apenas o quanto ele preza pela boa utilização do seu tempo, nada além disso.

“Quando as ordens são razoáveis, justas, sensatas, claras e consequentes, existe uma satisfação recíproca entre o líder e o grupo”. As palavras de Sun Tzu, em A Arte da Guerra, encontram sentido nas paredes da sede da empresa fundada por Zuckerberg, onde é comum a presença de frases de motivação como: Move fast, Take the risk, It’s ok to try big things ou Fail harder. Reafirmando a sua postura de líder, Mark entende a importância do uso de uma comunicação eficaz e do bom relacionamento entre os seus colaboradores para que todos possam alcançar os melhores resultados.

Muito se pode esperar de alguém que, aos 19 anos de idade, foi capaz de criar algo cuja missão consiste em “dar às pessoas o poder de compartilhar interesses comuns e de tornar o mundo mais amplo e conectado”. E por conectar mais de meio bilhão de pessoas ao redor do planeta, Mark Elliot Zuckerberg conquistou não apenas o título de personalidade do ano, mas também o reconhecimento pelo papel que exerce numa sociedade que ele tem ajudado a construir.


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