Lições de 2011

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E 2011 vai se esvaindo. Estamos nos últimos minutos de um ano mais que emblemático para a política internacional. Ano de grandes desastres naturais e econômicos, dos terremotos, tsunamis e problemas nucleares às elevadíssimas dívidas públicas e pacotes de ajuda dos países da zona do Euro. Ano de incertezas para o meio ambiente e indignações para as populações. Das novas dúvidas sobre o uso da energia nuclear, das já antigas críticas aos programas nucleares de alguns poucos países e das Conferências da ONU que são louvadas como grandes passos para a política quando, na verdade, representaram apenas curtos passos para mitigações das mudanças climáticas.

Um ano ímpar para o Brasil. Tornamo-nos a sexta maior economia do mundo e estamos tentando achar um novo lugar internacionalmente, arriscando algumas novas posições em órgãos da ONU. O ano de desentendimentos no Mercosul, adoção de medidas mais duras com os vizinhos e novos projetos de integração regional.

Se quem tem boca vai a Roma, quem tem rede social vai muito mais longe! 2011 nos mostrou que é possível juntar indignação com internet e se obter uma mistura bem positiva. Um ano que Guy Fawkes, famoso personagem da história inglesa, passou a ser mais conhecido pelas máscaras no estilo “V de Vingança”. Vingança contra a incoerência, a incerteza, os autoritarismos e as crises. Assim, os protestos se manifestaram pelo mediterrâneo turco e as áridas praças do Egito e, sem preconceitos, demora ou vacilação, encontraram também seu caminho pelo velho mundo, deixando rastros dos pioneiros navegadores até o insular Reino Unido. Nem mesmo os Estados Unidos ficaram de fora.

Theodore White, famoso jornalista político estadunidense conhecido por suas novelas e reportagens durante a Guerra Fria, disse uma vez, logo ao final da II Guerra, que o “mundo era fluido e estava prestes a ser refeito”. Essa frase transcende seu tempo e perdurará por muitos anos ainda. E acredito ser muito pertinente para encerrar o ano de 2011. Não temos nenhuma grande ruptura, mas estamos vivendo um processo histórico de transições. Lentas, mas com efeitos rápidos, assim é a fluidez de nosso mundo.

Perduram os interesses políticos e nacionais, as dificuldades de se negociar assuntos delicados, a prostração e procrastinação em muitos temas globais. Perduram as indiferenças, genocídios, preconceitos e discriminações. Mas a fluidez do mundo nos mostra que a participação pode levar a superações de situações de longa data e simples manifestações mostram o desânimo das populações frente ao status quo. Um desânimo que ainda denota otimismo e crença nas mudanças.

Sendo assim, gostaríamos de desejar a todos, que o ano de 2011 nos dê muitas lições da política internacional para nossas vidas para os próximos que virão. Desejamos a todos um excelente 2012, repleto de realizações, alegrias e saúde a todos vocês, nossos queridos leitores! Se esse ano foi excelente para nosso blog, com toda certeza foi devido à participação de todos vocês.

FELIZ 2012!!


Equipe Página Internacional


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Riscos humanitários

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E o ano de 2011 termina com tristes acontecimentos no meio humanitário. Em Mogadishu (Somália), dois agentes humanitários da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) foram mortos em um atentado local, ainda com autoria indefinida. Este é o segundo caso grave em pouco tempo no país, pois outros três funcionários somalis de organizações humanitárias foram também vítimas fatais na última semana.

A Somália vive a pior seca de sua história que tem gerado, por conseguinte, o pior surto de fome da região (veja post no blog a respeito aqui). Esses fatores tornam urgente o desenvolvimento de ações humanitárias em grande escala no país, porém estas sofrem muitas vezes consequências graves advindas da falta de estrutura local. Grupos rebeldes lutam entre si e as principais vítimas são a população e os agentes humanitários. No último mês o grupo somali Al Shabaab (vinculado à Al Qaeda) chegou a proibir a presença de agências humanitárias no território.

Entretanto, o risco aos trabalhadores humanitários não se restringe à Somália. Segundo relatório recente publicado pelo Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), os ataques violentos triplicaram na última década, vitimando mais de 100 pessoas por ano. Apesar da proteção garantida pelas Convenções de Genebra do Direito Internacional Humanitário, a percepção local de que os agentes são cúmplices das políticas praticadas pelas partes envolvidas nos conflitos, bem como os ataques terroristas em áreas de risco, tem criado complexas situações de risco nos últimos tempos.

Segundo Florian Westphal, representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o maior desafio da atualidade nesta área é encontrar o equilíbrio entre resolver as necessidades humanitárias como organizações neutras que normalmente trabalham sem proteção armada e, por outro lado, assegurar um nível mínimo de segurança para as equipes.

Apesar dessa triste constatação, o supracitado relatório da OCHA reconhece ainda que os esforços humanitários continuam sendo realizados, buscando-se alternativas aos possíveis impedimentos existentes. Afinal, “The humanitarian principles of humanity, neutrality, impartiality and independence do matter


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Post do Leitor

Post do Leitor – Cairo Junqueira

[Pessoal, recebemos mais um post do leitor de Cairo Junqueira, recém-formado em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Dessa vez, ele faz uma breve e interessante retrospectiva dos acontecimentos que marcaram em 2011. Vale a pena conferir!]

2011: O ano de todas as quedas!

Inicio dizendo que o título deste post foi copiado de uma matéria do Le Monde intitulada “2011, l’année de toutes les chutes”. Na verdade, estava eu procurando alguma notícia que serviria de inspiração para uma retrospectiva do ano que se passou e esta frase me agradou bastante. Nela aparecem fotos retratando as mortes de Bin Laden e Kadafi, bem como as quedas de Mubarak, Berlusconi e Strauss-Kahn.

Foi um ano ímpar para a Política Internacional e, evidentemente, para as relações internacionais. Não só pelos fatos retratados no parágrafo anterior. Com as personificações, quando são apontados nomes de ditadores, políticos ou figuras públicas, torna-se bem mais fácil entender o que se passou nos últimos doze meses. Entretanto, meu intuito no presente tópico é mesclar tais acontecimentos com outros que também merecem análise aos leitores da “Página Internacional”.

Comecemos pela morte de Bin Laden. Talvez, somente neste episódio os Estados Unidos mereceram grande atenção por parte da mídia internacional. Quero dizer que 2011 não foi um ano “à moda” norte-americana, uma das poucas atitudes destacadas foi a retirada das tropas do Iraque. Mesmo assim, na última semana, saiu a notícia de que a solicitação de seguro desemprego no país diminuiu consideravelmente, alcançando níveis mais baixos desde 2008 e evidenciando uma possível recuperação e reestruturação política interna muito divulgada por Obama. Não acho que os EUA ficaram um pouco inertes no cenário internacional, sua presença é e continuará a ser necessária para as relações internacionais, contudo, outros acontecimentos abafaram sim algumas de suas ações.

Falemos do Fundo Monetário Internacional e da crise econômica na União Europeia, por exemplo. Era só abrir o jornal ou ler qualquer newsletter que lá apareciam os elevados índices de desemprego na Espanha, chegando à casa dos 25%, o suposto calote grego e as “mãos de ferro” de Sarkozy e Merkel para tentar controlar o abismo econômico e financeiro apresentado pelo bloco. Não sou especialista no assunto, mas o que eu destaco nestes episódios resume-se em dois simples fatos: de uma maneira ou de outra, a Europa aguentou a pressão, todavia… o medo de uma recessão econômica chegou aos países desenvolvidos! Juntamente com os presidenciáveis, Strauss-Kahn representou um pouco esta desordem nunca antes imaginada, principalmente no século XX, nos países do norte. Sinal dos tempos modernos ou, quem sabe, pós-modernos…

T

ambém na Europa ocorreu um episódio que, para mim, teve papel central neste ano: o duplo atentado na Noruega. Aquele massacre na Ilha de Utoya trouxe ao debate algo muito visado nas relações internacionais, seja ela a questão multicultural. O autor do ataque identificou-se como nacionalista extremo e ultradireitista, mas o mais notável foi tudo isso ter acontecido em um país que tem uma cultura e um histórico voltados para a paz. Quero dizer que ninguém esperava estes acontecimentos que demonstram os sinais dos tempos. Para o bem ou para o mal, a interdependência entre os países existe e o ataque com carro-bomba em Oslo demonstrou, também, que nenhum país passa ileso pelas questões contemporâneas envolvendo, além da supracitada questão cultural, movimentos racistas, pressões governamentais e problemas com segurança internacional.

Mudemos para o Oriente Médio e a África. 2011 foi, com certeza, o ano da Primavera Árabe. Manifestações públicas, guerra civil, descontentamento com governos autoritários, renúncia de Mubarak e morte de Kadafi representaram a volta pelos anseios democráticos. Este é o principal ponto para minha análise: a democracia! Não entrarei no mérito de especificar o que é ou o que dá as bases para um governo democrático, mas usarei o pensamento de Robert Dahl, professor emérito de Ciência Política da Universidade de Yale, para analisar este processo. No Egito e na Líbia, principalmente, foram vistas lutas para uma mudança total da organização política e, consequentemente, social, culminando em aspirações democráticas, tanto no âmbito real, quanto no ideal. Pelo primeiro, evidenciam-se as bases para um sistema representativo de governo e, para o segundo, estabelecem-se valores universais a serem alcançados para o bem-estar geral. Ambos foram vistos este ano na região, as manifestações objetivaram a queda dos governos e, ao mesmo tempo, uma maior participação política da sociedade.

A Ásia passou por uma série de turbulências. O tsunami que devastou o Japão talvez tenha sido a materialização de como 2011 foi um ano “incomum” no continente. Perdeu o posto de segunda maior economia mundial para a China e, tendo o nível de tecnologia reconhecido mundialmente, falhou por não ter previsto a dimensão da catástrofe natural. A morte de Kim Jong-Il entrou para o rol histórico e colocou ainda mais dúvidas sobre o futuro político e nuclear da Coreia do Norte. Somente os chineses continuaram a sua caminhada de liderança, fortalecendo os BRICS e ganhando reconhecimento e prestígio internacionais.

Passemos à América Latina e ao Brasil. No meu primeiro post aqui no blog já havia comentado sobre a integração na nossa região. Continuo destacando estas iniciativas neste ano, pois CELAC e UNASUL procuraram e deram uma nova roupagem positiva para o subcontinente nas relações internacionais. No nosso país, o que ficou em evidência foi a crise nos ministérios, sete ministros deixaram seus postos, todavia a presidente Dilma não perdeu sua popularidade. Mesmo assim, não foi nada bom para a imagem do Brasil no exterior, que fechou o ano como a sexta maior economia do mundo, ultrapassando o Reino Unido, de acordo com o Centre for Economics and Business Research.

E por ai vai… 2011 também foi o ano em que Steve Jobs faleceu, mas as redes sociais alcançaram patamares incríveis de popularidade evidenciados, principalmente, no movimento Occupy WallStreet. Foi o ano em que nasceu mais um Estado, o Sudão do Sul, e que outro, a Palestina, foi reconhecido pela UNESCO. Foi o ano que marcou uma década dos atentados de 11 de Setembro e duas da queda da União Soviética. Por fim, reafirmo que foi o ano das quedas e, ao mesmo tempo, o ano da elevação da classe média, segundo Eric Hobsbawm. Foi o ano em que o “11” passou a ser bem mais que um simples número.


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Indústria de Defesa: afinal, e as RIs com isso?

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Damos continuidade a nossa série sobre Indústria de Defesa. Hoje, lidaremos com algumas implicações desse setor para as relações internacionais, e vice-versa.


Nas últimas postagens, vimos um pouco sobre Indústria de Defesa (ID) e questões de orçamento e políticas. Agora, vamos entrar um pouco mais na relação do tema com questões internacionais. Afinal, clientes de uma boa ID são não apenas as Forças Armadas de seu país, mas de outros. E quando se fala em ID, estamos pensando em planejamento de Defesa. Aumento de gastos com essa indústria, por um lado, pode pressupor uma corrida armamentista ou despertar algum tipo de incômodo da parte de vizinhos ou rivais; ao mesmo tempo, tratados de cooperação podem render investimentos valiosos para o setor. A linha entre competição e cooperação é bastante tênue quando se fala em Defesa…

Nisso entramos em um dos aspectos mais importantes do tema, a questão do “offset”. Esse termo, que ficou meio famoso por causa do Projeto F-X2 (de reaparelhamento da Força Aérea Brasileira), não é exclusivo de compras militares, mas no caso assume uma faceta mais importante. “Offset” é um pacote de, por assim dizer, “benefícios” que se obtêm ao comprar algo de fora – geralmente como acesso a códigos-fonte, financiamentos ou mesmo pessoal de fora, por um tempo limitado, como forma de “indenizar” o gasto feito pelo comprador. No caso do F-X2, por exemplo, a ideia é que, seja qual for o caça comprado pela FAB, fique disponível para o Brasil uma série de itens de alta tecnologia a fim de que o país consiga engrenar uma indústria efetiva no setor e, futuramente, ser capaz de produzir suas próprias aeronaves.

Se isso vai acontecer, ou não (o mais provável), é outra história. Existem casos de offset que funcionam, geralmente entre parceiros muito próximos ou estratégicos, mas via de regra nenhum país do mundo simplesmente repassa esse tipo de item de boa vontade. Não é o fim do mundo – nesse sentido, entram outras possibilidades, das mais divertidas como a engenharia reversa ou a espionagem, às mais pragmáticas, como o investimento para desenvolvimento interno e apoio a centros de excelência para desenvolver por conta própria. É um caminho duro, mas que dá resultado em longo prazo, e tema pra conversas mais pra frente.

Nesse ponto, vemos que cooperação internacional nesse setor sensível é algo bastante complicado… Mas, ao mesmo tempo, pode render dividendos muito bons. Se o desenvolvimento de capacidades estratégicas não acontece, pelo menos se formam laços de confiança, políticos e comerciais – por mais que não se repasse a tecnologia sensível, ainda se trata de um setor fundamental para a segurança e defesa dos países, e manter boas relações nessa seara é um bom sinal para as demais.


Categorias: Brasil, Defesa, Economia, Paz, Segurança


Quem quer SOPA no Natal?

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É dessa sopa  que o pessoal tá com medo tio Obama? 

Tem muita gente querendo nos EUA empurrar SOPA goela abaixo na internet em 2012, e se eles conseguirem ninguém sabe quão grande será essa dor de barriga. SOPA – sigla em inglês para Lei Contra a Pirataria Online – é proposta por um deputado republicano com o intuito de proteger a propriedade intelectual e combater mais fortemente a pirataria. Daria poder às autoridades para ordenar aos servidores e provedores bloquear partes ou sites inteiros que forem acusados de pirataria, retirar links “piratas” de sites de pesquisa, entre outras ações. Também aumenta as punições já existentes para esse tema, além de incluir novas ações no rol de atos ilícitos (como o streaming).

Pode parecer a primeira vista uma questão de “pirataria é algo bom?”, mas ela vai muito além, pois da forma que esse pacote legal está escrito, ele ataca um número muito maior de alvos do que esse, chegando para muitos representar o fim da internet como ela é hoje.

Ouvimos muitas vezes que a internet é o ambiente mais livre de expressão e criação dos tempos de hoje, por oferecer a estrutura a um baixo custo e quase nenhuma repressão oficial, e que muitos das inovações e criações – sejam elas softwares, novas músicas, filmes, textos, e até mesmo esse blog – só existiram por causa dela. Afinal, parte considerável dessa estrutura usada para criação – servidores de internet, plataformas de blog, redes sociais, editores de vídeo – conseguiram nascer por não terem sido podadas enquanto cresciam, já que a linha entre que divide o público e o privado é extremamente turva na web.

Com um controle ativo e efetivo do que pode estar online e o que não pode, o número de pessoas se arriscando em novos projetos irá diminuir no mundo inteiro – por medo de tomar um processo ou ter parte do seu site bloqueado. Os investimentos em novos negócios online certamente irão reduzir, já que nunca se sabe ao certo quão nova e original é uma idéia na internet, e na dúvida o investidor não vai se associar a um risco legal.

Essa SOPA pode trazer mais uma azia: o precedente para ações futuras. Toda lei sobre um determinado tema segue os precedentes já existentes sobre o mesmo. Caso se abra esse precedente e a lei seja posta em prática, quem sabe quais serão os próximos passos? Todos os ingredientes para censura unilateral já estarão na mesa, dependerá do cozinheiro como utilizar, e a internet só está no estado de hoje por essa não ter nenhuma organização com o poder total de tomar esse tipo de decisão – exceto em países com controle de acesso online como a China.

Como toda lei em trâmite, sempre tem gente de fora do congresso fazendo lobby. Quem faz lobby a favor? Basicamente, os grandes grupos de mídia, gravadoras, a galera de sempre. E quem faz contra? Google, Facebook e vários outras grandes empresas da internet, além de uma legião de jornalistas, blogueiros, donos e usuários de sites de compartilhamento de arquivos (nome técnico pra site onde você baixa aquele CD que acabou de lançar). Em outras palavras, o combate está armado entre aqueles que lucram com regras estritas e claras X quem lucra com a falta delas. 

Nenhum deles é herói e todos querem garantir seus trocados, uns dizendo que seus artistas perdem muito dinheiro, que a pirataria diminui a expansão da produção cultural, etc; outros afirmando que só em um ambiente totalmente livre todos podem ganhar, inclusive oferecendo novos modelos de renda para as mesmas produções.  E quem está no meio? Nós usuários – inclusive os brasileiros – que sempre utilizamos a web de maneira quase-livre, pirateando ou não. Estamos preparados para tal mudança na internet?

O Obamis diz que vai vetar essa lei, mas não dá mais pra contar com a palavra dele *cof* apoio a palestina *cof* igual antigamente. O que podemos fazer para que não tenhamos nossa liberdade ameaçada? Passar essa história adiante e fazer com que isso se torne um tema caro aqueles que buscam eleitores. Ou que o lobby do lado da sua torcida vença.  


Categorias: Estados Unidos, Mídia, Polêmica


BRICS: em busca da integração cultural

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O que nasceu como forma de denominar um conjunto de países com determinadas características comuns, ganhou novos contornos. Inicialmente foi uma iniciativa conceitual, advinda de um estudo de Jim O´Neill, mas logo transformou-se em um desejo dos países envolvidos em trabalhar conjuntamente frente à comunidade internacional. Tal movimento justifica-se, uma vez que o grupo representa 40% da população global; 38,7 % da expansão econômica do PIB mundial entre 2003 e 2010; e constituiu uma peça chave para a nova ordem multipolar.

Hoje, apesar da inexistência de uma organização formal, são realizadas reuniões entre Chefe de Estado/Governo com o objetivo de expandir diálogos e aumentar a influência dos emergentes nas reuniões internacionais, em diversas temáticas. Segundo o Itamaraty: “O BRICS abre para seus cinco membros espaço para (a) diálogo, identificação de convergências e concertação em relação a diversos temas; e (b) ampliação de contatos e cooperação em setores específicos”. Os resultados não são sempre tangíveis, o discurso por vezes perde-se da prática. Mesmo assim, cresce a importância deste conjunto.

Munidos dos dados econômicos (expansão dos emergentes e retração dos desenvolvidos); sabedores do crescente prestígio e influência que gozam; e conscientes da necessidade de alinhamento político, os países geram novas iniciativas para incrementar a integração. Quanto efetivamente sabemos sobre Rússia, Índia, China e África do Sul? Por trás da pujança econômica, depreende-se uma ignorância mútua dentro do BRICS. Trata-se, na verdade, de um desafio enfrentado por tentativas de integração, mesmo as regionais.

No nosso caso específico, a reconfiguração econômica e política do mundo incluirá uma tentativa de aprofundar os conhecimentos relativos aos nossos pares emergentes. O Itamaraty organizou o Catálogo bibliográfico dos BRICS, no qual estão reunidas indicações de leitura e resenhas de mais de 400 livros selecionados de autores do bloco. Impossível abarcar um universo cultural tão vasto, mas a publicação busca criar novos incentivos à cooperação por meio do intercâmbio cultural. A literatura nos conta muito do que somos, de onde viemos e o que vivemos. Certamente, entender estes países será cada vez mais importante. Integrar passa por, ao menos, saber um pouco da cultura dos demais. 


Categorias: Política e Política Externa


Perguntas recorrentes sobre a Indústria de Defesa

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Retomemos a nossa série sobre a Indústria de Defesa. Anteriormente tratamos da relação entre orçamento militar e esse ramo industrial. Agora, abordaremos um pouco sobre o que é a tal da Indústria de Defesa e tentaremos responder a algumas perguntas recorrentes sobre a área.

Comecemos da pergunta mais básica. O que é essa tal de Indústria de Defesa? Trata-se de um conjunto de empresas, tanto públicas quanto privadas, que produzem material de emprego militar (também conhecida como indústria bélica). Isso inclui empresas específicas de produção de armas como a IMBEL (de material bélico) ou a Avibrás, e aquelas que trabalham para o setor civil e militar, como a Embraer, ou uma indústria têxtil qualquer que produza uniformes para as forças armadas. De modo geral, refere-se a todas as indústrias que produzem material que pode ser usado pelos militares que vão desde capacetes até aeronaves não-tripuladas e tecnologia aeroespacial.

O que é interessante dessa área é que, diferentemente das demais empresas, sua característica principal é ser um ramo que funciona de maneira “deficitária”. Em outras palavras, isso significa que primeiro vende-se o produto para depois produzir (diferente da lógica das outras empresas que tendem a produzir para vender). Há um cliente principal, considerado também como um grande parceiro: o governo nacional. Isso não implica que não haja exportação, muito pelo contrário, a exportação é uma das formas de se manter uma indústria vigorosa já que o governo não possui uma demanda tão elevada considerando o baixo volume do orçamento destinado às renovações.

Agora, qual a importância efetiva dessa área para o país? Esse é o ponto no qual emergem grandes paixões na área e há pouco consenso. Nos dois extremos, há, de um lado, quem diga que o país está muito bem comprando aquilo que nos é fornecido pelas empresas estrangeiras, já que seria muito custoso tentar desenvolver a indústria nacional e não se obterá o retorno visado no longo prazo; E, de outro, aqueles que dizem que a Indústria de Defesa não é só uma área estratégica, mas também um campo capaz de delinear o nível de soberania nacional brasileiro e abrir caminhos para o desenvolvimento, por isso sua essencialidade. Isso porque, sem produção interna, a Defesa nacional ficará refém daquilo que os principais exportadores quiserem vender e, dessa forma, pode-se controlar as capacidades do país que apenas compra.

Existe também um fator complicador dessas posições. As decisões no campo da indústria de defesa representam um jogo de interesses que envolve a sociedade civil, os militares, o governo e as empresas. Por isso a dificuldade da formulação de políticas na área, já que elas não envolvem apenas o mero interesse do governo, mas os de diversas outros atores envolvidos nesse complexo xadrez.

E em que vias anda a nossa indústria? Bom, o Brasil teve uma indústria bem eficaz durante as décadas de 1970 e 1980. O fim da tensão bipolar aliado ao crescimento do otimismo da “paz mundial” na década de 1990, aos efeitos do neoliberalismo e à severa crise de hiperinflação que vivemos no período, levou à falência de muitas das nossas indústrias (dentre elas temos o caso da Engesa, famosa pelos tanques e blindados) e a falta de políticas na área durante a década desmotivou muitos a ingressarem nesse campo. É importante lembrar que mesmo nos “anos dourados” de nossa produção de Defesa, nos inserimos em um mercado extremamente concentrado, o que dificultava a expansão dessas empresas. Um dado interessante é que, na última década, o Tio Sam apenas foi responsável por aproximadamente mais de 56% das exportações mundiais. Adicionando-se o valor exportado pelos demais membros do Conselho de Segurança (Rússia, China, Reino Unido e França) e a Alemanha, obtêm-se quase 90% do total exportado internacionalmente. Essas estatísticas sustentam também os argumentos daqueles que veem na produção nacional algo muito custoso, tendo em vista que qualquer indústria brasileira que vise o mercado exportador, deverá enfrentar novamente esse cenário e estar preparada para os efeitos e humores dos países que dominam o mercado.

Bom, concluindo, ao se compreender esse cenário é que começam a emergir as dúvidas de fato. Agora que o Brasil tem indicado o interesse em um movimento em busca da revitalização dessas empresas, será que com nosso orçamento atual teremos demanda interna para suprir essas empresas? Caso comecemos a buscar exportações mais a fundo, será que é de interesse dos grandes exportadores que um novo país cresça nessa área? Esses são apenas alguns dos muitos questionamentos. Principalmente porque quanto mais fundo entramos nesse tema, mais deles surgem.

Esperamos ter sido capazes de sanar alguns e despertar muitas outros. Até uma próxima postagem!


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Tarda… mas não falha?

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Nessa última semana relativamente histórica, em vários eventos deram fim a processos longos (o fim dos 9 anos de ocupação dos EUA no Iraque, a morte do longevo ditador norte-coreano…), o anúncio da entrada da Rússia na OMC não foge a essa regra – o processo estava em negociação há cerca de 18 anos já. Na verdade, tecnicamente, a Rússia ainda não entrou – sua adesão foi autorizada, e o processo de adequação ainda vai demorar até a acessão definitiva no meio do ano que vem. Muito longo, diga-se de passagem, mas o esperado em uma organização em que a entrada de novos membros tem que ser negociada em acordos bilaterais com todos os demais e aprovada por consenso na Conferência Ministerial.

Em tese, a entrada da Rússia na organização (uma meta antiga de Moscou, que tenta isso desde o momento em que a OMC foi criada) é boa para todo mundo: abre-se um mercado consumidor com potencial bastante elevado, criam-se empregos e atraem-se investimentos no maior país do mundo, e aumentam as possibilidades de acesso para parceiros comerciais. Isso sem contar que é uma meta da OMC em si garantir o peso de mercados em desenvolvimento na discussão da liberalização comercial, e a Rússia (em especial ao longo dos governos Putin-Medvedev) é um dos mais expressivos nesse quesito. Para o Brasil, em especial, o interesse é na liberalização do comércio – seria o fim das barreiras sanitárias e das cotas aleatórias que são aplicadas esporadicamente a produtos brasileiros?

Esse é o problema. O grande benefício dessa entrada para o Brasil, a esperada redução no protecionismo russo, não vai ter muitos efeitos justamente pelo modo como as negociações foram conduzidas: a Rússia vai manter barreiras e taxas elevadas, que só vão cair pra lá de 2018, e em setores mais estratégicos como a carne permanecerão cotas. Ao mesmo tempo, com a adesão a Rússia vai estar sujeita aos mecanismos de defesa comercial (que o Brasil conhece muito bem) e vai ter de aprender como funcionam as coisas no sistema multilateral de comércio a duras penas. A Rússia entrando na OMC é um desejo antigo e ao mesmo tempo um desafio para o país, e o tempo dirá quais as conseqüências econômicas (e políticas) dessa adesão.


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Coreia do Norte: entre imagens e incertezas

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O que mais vale na política? A personalidade do líder, a construção de sua imagem ou as políticas por ele adotadas? Essa é uma pergunta bem capciosa porque há sempre um universo de outras variáveis a serem analisadas e, até poderíamos dizer, que esses três aspectos são essenciais em todo ambiente político. Agora, vamos reformular a questão. Qual desses aspectos mais pesa na política norte-coreana?

A pergunta continua difícil de responder. E essa é uma dúvida que tem sido exaltada após a morte do líder do país, Kim Jong il. O sucessor, indicado já há algum tempo, Kim Jong un, tem despertado incertezas entre especialistas, comentaristas, políticos e fofoqueiros mundo a fora. A inexperiência política e a falta de familiaridade do povo norte-coreano com o novo líder emergem como fatores de questionamento sobre a capacidade de Jong un, de governar o país e manter estável um regime estritamente fechado que é a Coreia do Norte.

Atualmente a Coreia do Norte é uma ilha distante e única em um mar de informações compartilhadas e interconexões que caracteriza nosso mundo contemporâneo. E, pela dificuldade de se obter informações sobre o regime, temos também problemas para analisar de maneira concisa essa realidade. O pouco que sabemos sobre a situação da população é por meio de estimativas de O.N.G.s, como a Anisita Internacional que estima a morte de quase um terço da população de fome desde o fim da União Soviética.

Por outro lado, esse bloqueio de informações oficiais também é um importante indicador. Sabe-se que, à imagem e semelhança de governos comunistas anteriores, os líderes norte-coreanos sobrevivem por meio intensa propaganda nacional exaltando suas características quase divinas e, paralelamente, por uma severa censura (a morte de Kim Jong il foi apenas publicada pelo governo dois dias após o ocorrido!).

Isso dito, retomemos à pergunta do início do texto. Qual aspecto mais valeria na situação norte-coreana? Desses três, do que se tem acesso até o momento, pode-se dizer que os dois primeiros são extremamente destacados. Destarte, não seria descabido ressaltar o questionamento: se foi possível construir a imagem de dois deles anteriormente, Kim Sung il, o primeiro presidente da recém separada Coreia do Norte de 1972 a 1994, e Kim Jong il, de 1994 a 2011, por quase 20 anos a fio para cada um deles, será que não seria possível construir outra?

O incondicional apoio do gigante chinês é um aspecto que não se pode descartar. Há até quem diga que a China poderia “adotar” a Coreia do Norte como outra de suas províncias frente a um líder menos expressivo. O teste de mísseis norte-coreanos detectado pelos radares da Coreia do Sul talvez seja uma mensagem de boas vindas de Kim Jong um dizendo que ali não haverá espaço para incertezas. Bom, esse foi um mero exercício de reflexão. Deixemos que o tempo dite os caminhos desse país. Disso tudo, talvez a única certeza é que o Tio Sam e China vão observar bem de perto esse desenrolar de eventos.


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Guerra sem fim

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Nos idos de 2003, eu estava no colegial e uma das minhas ocupações de intervalo era (vai entender…) ir à biblioteca e debater com alguns colegas as notícias do jornal do dia. O tema recorrente e que mais rendeu conversas animadas foi, claro, a invasão dos EUA ao Iraque naquele ano. Era primeira vez que para nós, aquele pessoal da geração do fim dos anos 80, se via todo o poder militar dos EUA em ação efetivamente (na I Guerra do Golfo éramos muito novos), e a conclusão era unânime: os EUA iriam destroçar tudo e acabar com a guerra em questão de semanas. O tempo foi passando, vieram as baixas, o “fogo muy amigo”, a tenacidade dos iraquianos, e no fim das contas todo mundo envolvido nessa conversa já terminou a universidade e a guerra foi acabar apenas na semana passada, com a transferência da posse do último quartel dos EUA no país para forças locais, e a saída definitiva dos últimos contingentes no dia 31 de dezembro.

Traçar conseqüências desses nove anos de ocupação é algo complicado e que vai demandar muito tempo – mesmo por que os efeitos, na região e no mundo, ainda vão reverberar por muitos anos. Afinal, o que deu errado para os EUA? Passar por cima da ONU (tornando a guerra impopular em qualquer lugar que não fosse os EUA)? A demora em encontrar Saddam? Ou em encontrar as tais armas de destruição em massa (que não foram vistas até hoje)? Uma guerra ancorada em mentiras, meias verdades e ignorância não poderia ter outro resultado. Se formos pensar em termos numéricos, foi um sucesso militar, já que morreram cerca de 5 mil norte-amercianos (e algumas centenas de aliados) contra mais de 100 mil iraquianos. A proporção de 1 pra 20 não está nada mal (apesar da maioria desses 20 serem civis que não tinham nada a ver com o conflito, mas enfim…). Mas, um país deixado em ruínas, com um arremedo de democracia imposta, é uma tragédia humana (bem representada nessa charge), bem documentada e do conhecimento de todos, e o saldo principal dessa guerra. Aliás, a guerra acabou para os EUA – mas prossegue o desafio diário de conviver com a incerteza e a morte para os próprios iraquianos.

E nem entramos no tema da incursão do terrorismo no país, coisa que não existia antes e foi uma importação do conflito…

Já na região, o drama é um pouco pior para os EUA. Eles removeram um inimigo em potencial, mas conservador, e conseguiram com isso fortalecer um inimigo declarado e radical, o Irã. O problema é que, desde o começo do século, o balanço de poder na região era uma espécie de triângulo, com a rivalidade entre Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os sauditas toleravam Saddam pois era sunita e mantinha o Irã, radical e anti-monárquico, ocupado – dos males, o menor. Com a saída do seu partido Baath de cena e a ascensão de representantes xiitas, a aproximação do Iraque com o Irã é natural e deixa os sauditas de cabelos em pé. Na verdade, a movimentação na região dá a entender que os países mais interessados em um eventual ataque ao Irã (e que estão fazendo campanha de todos os modos para engatar uma ação nesse sentido) são as monarquias tradicionais do Golfo, e não Israel. Se estamos à beira de um conflito maior na região, no que pese a petulância iraniana em espezinhar a comunidade internacional com suas idas e vindas no programa nuclear, boa parte dessa instabilidade se deve às aventuras de George W. Bush no Golfo e a quebra desse balanço numa das regiões mais instáveis do mundo.

O saldo é negativo para todos, dentro e fora do Iraque – inclusive para o Obama, que tinha a retirada como promessa de campanha e só conseguiu viabilizar isso depois de mais da metade de seu mandato. Mas, vendo pelo lado positivo, pior que está não fica, e pelo menos não é um Afeganistão – intervenção que começou antes, está a todo vapor até hoje e não tem previsão de terminar.


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