quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Post Especial [update]


Quito, Equador

[21:16]

Tensão aumenta. Militares tentam "resgatar" Correa do hospital policial. Há troca de tiros entre policiais e militares. Correa segue impedido de deixar o hospital e rumar para o Palácio de Governo.

Rumores dão conta de um possível envolvimento de Lucio Gutierrez na conflagração da revolta de setores da polícia nacional. Congressistas, em entrevistas a veículos de imprensa locais, já admitiram rever a aprovação da Lei sobre o funcionalismo público, que deflagrou a situação.

[21:30]

Os militares tentam despistar os insubordinados. São vários carros que deixam o hospital. Não se sabe se, por fim, Correo conseguiu deixar o hospital. Os carros escoltados por militares foram alvejados por tiros. A primeira vista, o objetivo era efetivamente matar Correa. Policiais insubordinados também tentam controlar as antenas de transmissão dos canais de televisão locais.

[21:35]

Populares esperam a possível chegada de Correa ao Palácio de Governo. A informação é que a operação de resgate foi bem sucedida e que o mandatário chegará em poucos minutos. Possivelmente se organizará uma entrevista coletiva.

[21:45]

O presidente Correa chegou em segurança ao Palácio de Governo, discursa para a população reunida na Praça Grande. O povo ecoou "o povo unido jamais será vencido". Fala em democracia, revolução cidadã e do sangue equatoriano derramado.

Link para transmissão ao vivo:

Post Especial


Quando a estupidez tenta vencer a sensatez
[15:10] Quito, Equador

Acredito que todos já tenham sido atingidos por notícias, rumores e eventos do dia de hoje no Equador. Mais do que revisar as notícias, trago um relato do que tive a oportunidade de presenciar e a repercussão local.

Foi uma manhã confusa, para utilizar um eufemismo. Começo meu dia com um colega de trabalho me abordando com a seguinte frase “os militares tomaram o aeroporto de Quito”. Relembrando a recente história equatoriana, obviamente que a primeira menção que me veio a minha cabeça foi a um possível golpe de Estado. Minutos depois, acreditei que tudo estivesse melhor. Notícias davam conta que Rafael Correa estava dialogando com os manifestantes, primariamente membros das forças policiais e armadas contra a nova Lei para os servidores públicos, que propunha o presidente e que o Congresso colocava em discussão.

Caminhando pela região central de Quito, vi que policiais tratavam de causar desordem nos transportes, obstruindo ruas e impedindo o funcionamento dos corredores de ônibus por meio barricadas. Enquanto isso, criminosos tiveram oportunidade de agir sem a sanção policial, aproveitando para saquear estabelecimentos, roubar bancos e provocar ainda mais desordem. A ordem democrática foi exposta. Não só em Quito, mas também em Guayaquil e Cuenca.

Em pronunciamento na Praça Grande (onde está localizado o Palácio de Governo), Ricardo Patiño, ministro de Relações Exteriores, conclamou o povo a sair às ruas para defender o Estado equatoriano. Os populares reunidos na Praça Grande ecoavam “a pátria unida jamais será vencida” com suas bandeiras em punho. Patiño ainda pediu aos cidadãos que se dividissem em dois grupos, o primeiro que rumasse junto aos ministros do Estado a resgatar o presidente e um segundo grupo que permanecesse no local para defender o Palácio do Governo.

Rafael Correa está no hospital da polícia e, segundo seu próprio relato, havia tentativas de invadir seu quarto para ameaçar sua integridade física. Meios de comunicação locais afirmam que o presidente está seqüestrado e foi ferido durante a manhã. Correa fora contundente em discurso aos policiais reunidos em um quartel de Quito, citando os inúmeros benefícios e melhorias que seu governo teria oferecido a categoria. Terminou dizendo: “Querem matar o presidente? Estou aqui!”

A mensagem dos dois setores, policial e militar, foi clara. Veio de várias formas: tomada da pista do aeroporto de Quito, recusa ao diálogo com o ministro da Defesa, impedimento do acesso de congressistas ao prédio do Congresso Nacional, forças policiais descumprindo seu dever constitucional, ruas bloqueadas e uma suposta tentativa de impedir a transmissão dos meios de comunicação públicos. A comoção é grande, a incerteza também. Um golpe a democracia ou a uma figura política poderia desencadear eventos ainda mais graves. A institucionalidade democrática foi defendida por governos latino-americanos, prefeitos de cidades e regiões importantes no Equador, pela Cúpula militar do país, além de setores populares.

Mais que uma análise, fica meu relato. Esperemos que os pedidos de pacifismo abram caminhos para o diálogo e a plena restauração da ordem, serviços e instituições democráticas. E que a sensatez prevaleça.

Obs: Todos os canais de televisão aberta estão transmitindo a cadeia nacional, através do canal público.

Quer saber mais: 1, 2, 3

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dois gigantes sem condomínio


Condomínio foi um termo comumente empregado na vigência da Guerra Fria. Designava um ordenamento no qual os países de todo o globo permaneciam ao lado de um dos condôminos, Estados Unidos ou União Soviética, e, assim, coexistiam. Na Ásia, poder-se-ia verificar similitude do condomínio bipolar, não fosse o autonomismo chinês e a inteligência inventiva nipônica, ainda que, em grande medida, apoiada pelos norte-americanos. Adicionalmente, a emersão dos tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan) também evitaram uma fria polarização na porção mais oriental do continente. Embora os gigantes – um comunista, o outro capitalista – não tenham constituído um condomínio sub-regional, não se supõe, de modo algum, a ausência de rivalidades e competição sino-japonesas.

Na classificação de Marcos Aguinis, autor de O atroz encanto de ser argentino, há quatro tipos de países. O Japão pertence a uma categoria exclusiva, qual seja de um país que tinha tudo para dar errado e deu certo. A China, por sua vez, seria uma exceção que tende a se confirmar, à semelhança do Japão, ou um país da primeira categoria, que teve tudo para dar certo e deu certo. Fato é que, por enquanto, observa-se que a China deixou de ser apenas o milenar “império do meio” – raiz etimológica do nome – para se tornar um império global. O Japão não se apequenou perante as suas extensões territoriais e também alcançou o mundo. Enquanto este investiu na produção de bens de elevada tecnologia e adentrou os países, aquele se dedicou à produção (ou replicação?) de bens de consumo em massa e atingiu as esquinas.

Do ponto de vista econômico-comercial, Japão e China tanto se lançaram a conquista do mercado asiático individualmente, quanto cooperativamente, através de arranjos regionais, como em acordos com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ou na Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC). No plano político, as divergências são acentuadas. Não por causa dos sistemas políticos, imbuídos de ideologias diferentes, mas em decorrência de mágoas históricas – a ocupação japonesa da Manchúria nos anos 1930 – que repercutiram nos sistemas de educação, nas desconfianças militares e geopolíticas traduzidas na prática da espionagem e na não-aceitação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança, pleito do G-4.

O mais recente episódio que ilustra as rivalidades entre ambos foi a colisão entre dois navios da Guarda Costeira japonesa e um barco de pesca chinês. Aparentemente, o que era um acidente se tornou um incidente diplomático, que envolveu desde a prisão do capitão chinês, passando pela retaliação chinesa ao bloquear a exportação de minerais raros para o Japão, até o pedido de compensação do prejuízo por parte do último. Por que tanto alarde? Será que não é uma questão de orgulho ferido? Não faz tanto tempo, a China se tornou a segunda maior economia do mundo (aqui), ultrapassando o PIB japonês, posição que o Japão sustentava desde 1968, quando superou a Alemanha Ocidental. (Vejam notícias e análises sobre os acontecimentos aqui, aqui, aqui e aqui)

Segue, então, os dois gigantes asiáticos, sem condomínio e nem plena harmonia. Entre a cooperação e a rivalidade, China e Japão caminham para o cumprimento de seus respectivos destinos, de modo que um permanece atento as ações do outro.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Página Internacional vai virar livro!

“Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.”

Eis uma estrofe dos Cem Sonetos de Amor do poeta, e também diplomata, Pablo Neruda. Eis o amor de cada membro da Página Internacional pelo blog. Amor e dedicação, ingredientes essenciais para qualquer sucesso. O mais recente: a conquista do concurso “BlogBooks” na categoria Política, promovido pelo Portal Ediouro, e, conseqüentemente, a possibilidade de se tornar livro (confiram a premiação aqui). É uma emoção indescritível, a ponto de as palavras não alcançarem a voz, mas capazes de inundarem o coração e o espírito. Um sentimento para se sentir, um amor para não amar o suficiente nunca e, assim, prosseguir amando o blog e o que fazemos.

E quem diria que chegaríamos onde chegamos? Por certo, em nossas pretensões iniciais com o blog, não sonhávamos tão alto. Iniciativa capitaneada pelo Alcir e que logo ganhou coro entre os membros. Dedicávamos a analisar criticamente os principais fenômenos em curso das relações internacionais, de modo que qualquer público externo à área pudesse ter facilidade em compreendê-los. Queríamos nos ocupar criativamente do aprendizado em sala de aula. Fomos além, ganhamos popularidade, traduzidas em carinhos, sugestões e apoio. Ganhamos inclusive o Top Blog, no ano passado, também na categoria Política, eleito por um júri acadêmico.

O mais interessante deste projeto é que éramos (e somos) analistas e, ao mesmo tempo, aprendizes, estimulados pela mensagem da frase que passou a nos guiar: a incompreensão do mundo. Evidentemente, não pretendemos trazer respostas prontas e acabadas, mas exercitar as nossas dúvidas mutantes e as nossas conclusões inacabadas, em meio ao dinamismo da realidade que nos cerca. As discussões, na parte dos comentários, são fundamentais para esse exercício e os leitores muito nos ensinaram.

Nesta hora de comemoração e celebração, é cabido também um relato particular sobre a organização interna do blog. Nós sempre nos cobramos muito! Em momento algum, deixamos a tocha cair. Ocupamo-nos de passar diariamente a responsabilidade compartilhada, um para o outro, para sempre nos mantermos atualizados. É uma equipe fantástica, cujo profissionalismo excede o formalismo: antes de sermos colaboradores, somos amigos! Uma amizade que percorre toda e qualquer distância. Nossos laços fraternais se desenvolveram logo nos primeiros meses da graduação e, ao término dela, permanecemos unidos, como se a ausência não pudesse ser sentida um dia sequer. Alguns membros acabaram por nos deixar, mas permanecerão atados à história da Página Internacional. Não é, Ana? Não é, Adriana?

Por fim e o mais importante, os agradecimentos. Agradecemos imensamente a você, leitor, que, dia após dia, nos acompanha nesta aventura de desbravar a incompreensão do mundo. Deixamos expressa a nossa gratidão a todos os parceiros, apoiadores e professores – em especial, da Unesp-Franca – por contribuírem com esta iniciativa. Às vezes, a memória momentaneamente fraqueja na nomeação, portanto esperamos contemplar a todos os que contribuíram através desta mensagem, sem citações e tampouco esquecimento. Em nome de toda a equipe da Página Internacional, encerramos com o nosso muito obrigado pelo respeito e pela confiança. Fiquem todos certos de que o nosso insuficiente amor sempre brilhará no amanhã!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

É de matar...


Bom, agora é oficial: Sakineh Mohamadi Ashtiani, a iraniana cuja pena de mote causa uma celeuma internacional, vai ser executada por crime de homicídio. Claro que de um jeito um pouco menos desumano que a dilapidação, mediante o popular enforcamento (método favorito dos suicidas e ainda em uso em países mais civilizados como o Japão, outros nem tanto, como o Irã e a China, e alguns estados norte-americanos). Certamente parece menos assustador morrer com o pescoço quebrado e inconsciente do que tendo a cabeça acertada por pedras cortantes. Contudo, apesar desse caso suscitar discussões variadas que vão do feminismo e direitos humanos ao programa nuclear iraniano (pra variar), cabe uma visão ainda mais profunda acerca da própria questão da pena de morte, jurídica e eticamente.

Bem, se perguntássemos hoje a um cidadão qualquer nas ruas do Brasil, não seria difícil achar quem defendesse a pena capital no nosso país. O estado atual de coisas faz com que muitos não se façam de rogados ao defender um modo de lidar com criminosos que no Brasil é restrito a crimes de guerra e não é praticado como punição a crimes comuns desde a proclamação da república, nos idos de 1889. Provavelmente, nunca virá a ser adotado, mesmo por que a Constituição não permite. Agora, é de estranhar que um brasileiro médio coadune com um tipo de mentalidade que pode ser vista em regimes autoritários e violadores de direitos humanos – matar criminosos comuns não é a regra em países democráticos. No Equador, por exemplo, a pena de morte é prevista apenas para o crime de pirataria em alto-mar. Já na Ásia, por exemplo, a maioria dos crimes que resulta em pena de morte estão relacionados ao narcotráfico e essa política tem reflexos na saúde pública. Claro que há casos extremos como China e Cingapura, onde crimes como latrocínio e ofensas ao presidente (!) são passíveis de execução.

Mesmo nos EUA, país onde as execuções são mais famosas, a pena capital é reservada aos crimes mais hediondos, e tende-se a comutar a pena, exceto nos estados mais conservadores. Por isso causou muita repercussão (e acusações iranianas de hipocrisia) o caso de uma senhora executada há pouco tempo (ela, que sofreria de problemas mentais, foi morta como mentora do plano, enquanto os executores foram condenados à prisão). Não vamos entrar nos méritos de discutir o sistema penal dos EUA. A questão é encarar por que a pena de morte é tão bem vista em um país pacífico como o Brasil.

Esse tipo de medida daria certo aqui? No Japão, a pena de morte é prevista para casos simples de homicídio com agravantes – e plenamente apoiada pela maioria da população. Mas isso em um país onde a taxa de criminalidade é baixíssima, e nem vamos comparar indicadores sócio-educacionais. O apoio no Brasil teria como fonte essa indignação com o crime em si e seu efeito de “anormalidade social” ou com a simples ineficácia do sistema em manter a ordem? Me parece que a segunda opção é mais plausível – e por isso invalida essa simpatia pela pena de morte.

Por que aceitaríamos que um assassino fosse morto quando nos horrorizamos com a condenação da senhora iraniana? Pessoas são pessoas, e o fato é que a pena de morte é algo inaceitável, que não seja pela combalida defesa dos direitos humanos, seja pela possibilidade sempre presente da execução de um inocente ou pelo fato de que nunca diminuiu a violência onde é aplicada. Isso quando é aplicada com "justiça". Não vai ser tirando a vida de marginais que vamos resolver os problemas sociais do Brasil, a solução é muito mais complicada que isso. Deixemos essa medida extrema para aqueles da laia de Ahmadinejad.

domingo, 26 de setembro de 2010

Divisão


[Pessoal, depois de alguns meses ausente deste blog por conta da falta de tempo, resolvi voltar! A partir de hoje volto a escrever regularmente para a Página Internacional]

Um país vítima dos desmandos de um ditador. Alguém que tem repulsa pela democracia, pelas instituições e que só faz por criar mecanismos que o sustentem em seu plano de poder sob o disfarce de uma suposta revolução social: Essa é a Venezuela de Chávez.


Um país democrático, onde o povo, de forma direta e legítima, escolhe os rumos da nação, mesmo que isso signifique contrariar os interesses de uma elite que vem perdendo força há mais de 10 anos. Povo que decidiu manter-se liderado por um homem que revolucionou o país através do 'Socialismo do Século XXI": Essa é Venezuela de Chávez.

Qual é a Venezuela de fato? Depende de quem responde.

Inflação altíssima, baixo crescimento econômico, desrespeito à democracia e aos direitos humanos?

Democracia direta, revolução social, crise econômica, sim, mas em um país que há alguns anos crescia a taxas de 15% ao ano?

Hoje os venezuelanos vão às urnas para as eleições legislativas e, quem sabe, o mundo pode ter uma prévia sobre o que eles pensam, ou pelo menos sobre o que pensa a maioria (isso se não houver fraudes).

Ao contrário das últimas eleições legislativas, quando a oposição teve a brilhante idéia de boicotar o pleito, desta vez há a possibilidade de que não se eleja um legislativo chavista. Pesquisas indicam que os eleitores estão divididos e não apontam vantagem significativa de nenhum dos lados.

Em meio às crises pelas quais vem passando a Venezuela recentemente, sejam elas econômicas ou políticas, seria de se esperar que as pesquisas apontassem alguma vantagem da oposição. Manipulação das pesquisas pelo governo? Manipulação da nossa mídia sobre uma suposta grave situação na Venezuela que na verdade não é tão grave assim? A Venezuela às vezes parece uma caixa preta...

Esperamos o resultado das eleições, certamente trarão mais certezas e ainda mais dúvidas. Para ambos os lados.

sábado, 25 de setembro de 2010

Equador: a instabilidade política e suas lições

Em 2005, Lúcio Gutierrez tornou-se o terceiro presidente forçado a renunciar a seu posto em menos de oito anos. O então chefe de Estado era acusado de corrupção, culminando na sua tentativa de fuga em um helicóptero com destino ao aeroporto de Quito. Não chegou a seu destino final, terminando abrigado na Embaixada do Brasil, já que intensos protestos populares e movimentações de militares não permitiram que deixasse o país. Por fim, teve seu pedido de asilo político aprovado pelo governo brasileiro e deixou o Equador.

Se algum dia qualquer pessoa não compreender o significado de instabilidade política, estudar a história recente do Equador será um exercício definitivo. Impossível não entender o conceito depois disso. Em grande parte, denúncias ou rumores de enriquecimento ilícito, uso da máquina pública em benefício próprio ou corrupção geraram grande revolta popular, provocando, em grande medida, as inúmeras reviravoltas políticas equatorianas.

Alberto Dahik, vice-presidente em 1995 e atualmente exilado na Costa Rica, evadiu do país antes que fosse submetido a julgamento em decorrência das denúncias de seu possível envolvimento em escândalos de corrupção. O acusado, em contrapartida, entrou com uma petição contra seu país na Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando que teve seu direito de defesa cerceado pelo Estado equatoriano. Atualmente se discute a anistia de Dahik, a partir de uma iniciativa de Correa.

Em 2000, o então presidente Mahuad, frente à crise econômica que assolava o país, apresentou a proposta de dolarização da economia equatoriana, em outras palavras, extinguir a moeda nacional (o sucre) e adotar o dólar norte-americano em substituição. Viu o país tomado por protestos populares, unidos estavam indígenas, oposicionistas e sindicatos trabalhistas. Formou-se então uma Junta de Salvação Nacional, com participação militar, que dissolveu o Congresso (que já aprovara o plano de Mahuad), substituindo não só o presidente como todos os membros do legislativo. Como em um golpe do destino, o mesmo Gutierrez que esteve nos “braços do povo” – à medida que teve papel fundamental neste processo – teve um final ainda mais dramático.

Rafael Correa tomou posse em 2007 e ruma a completar seu quarto ano (consecutivo) no poder. Um grande feito na história dos últimos anos de seu país. Na mais recente pesquisa, Correa atingiu 73% de aprovação popular, suficiente na visão de analistas para alavancar tal apoio na forma de nova vitória política – caso proponha um referendo que lhe permita um novo mandato presidencial. Seu governo tem paralelos com o modelo implementado por Lula no Brasil. O equatoriano, no entanto, assumiu o comando do país em um momento de maior instabilidade e fragilidade política em relação ao brasileiro, tendo consolidado uma Revolução Cidadã plenamente respaldada pelos setores populares.

Durante este período de instabilidade, o povo equatoriano não se escondeu. Poderia ter escolhido a passividade, a descrença ou o desengajamento político. Não obstante, preferiu expulsar “na marra” políticos que julgou como traidores da nação. Identificou em Rafael Correa, com seus méritos e defeitos, um via alternativa aos anseios populares, tão reprimidos e esquecidos por governantes anteriores. A democracia equatoriana, cerca de 10 anos mais velha que a brasileira, deixa o exemplo da mobilização popular efetiva contra a corrupção ou políticas que atentem contra seus direitos.

Faltam menos 10 dias para as eleições no Brasil. Mais do que um exercício cívico, tornou-se um verdadeiro martírio. Sobram acusações e candidatos pouco gabaritados, faltam debate e candidatos 100% “ficha limpa”. Caso, por exemplo, Gutierrez e Dahik fosse brasileiros, teriam sua vida política finita ou estariam vivendo um período de férias e reflexão antes das próximas eleições? Não poderiam logo ser nomeados ministros ou trabalhar na elaboração de leis no Congresso Nacional com o Tiririca? Afinal, “pior do que está não fica”.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Biodiversidade em questão


"A soma de todos os diferentes tipos de organismos que habitam uma região tal como o planeta inteiro, o continente africano, a Bacia Amazônica, ou nossos quintais". Esta é a definição que Andy Dobson nos oferece ao conceito de biodiversidade e que parece bastante completa.

Esta idéia, amplamente divulgada e compreendida sob diversos aspectos no mundo, tem representado o foco midiático da Organização das Nações Unidas (ONU) neste ano: 2010 foi proclamado o “Ano Internacional da Biodiversidade” por esta instituição para chamar a atenção aos problemas e desafios existentes neste sentido – seja no mundo, no ambiente interno de cada país, ou em nossas próprias residências.

Discutir questões ambientais nas Relações Internacionais certamente constitui um dos aspectos que, apesar de – teoricamente – representarem práticas consensuais de ação, na prática demonstram a urgência da demanda por ações coordenadas para proposições efetivas. Tal como os problemas, também as soluções ambientais devem ser transfronteiriças.

A proposta de promulgar “anos internacionais” constitui uma interessante estratégia da ONU para midiatizar questões específicas de forma a enriquecer a visibilidade e mobilizar os diferentes setores da sociedade em prol de uma causa específica. E, apesar de não parecer, vale ressaltar que a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e cresce exponencialmente...

No ano de 2002, houve uma Conferência das Partes (COP) para estabelecer metas a serem alcançadas em 2010. Oito anos se passaram e haverá mais uma COP da Biodiversidade no próximo mês para avaliar os resultados e entender o contexto atual nesta esfera. Diante de frustrações como aquela vivenciada por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ao final do ano passado, talvez otimismo não seja exatamente o tom da discussão da realidade.

Quiçá será um dia. Ou assim esperemos, trabalhando para visualizar este futuro sobre o qual não podemos apenas teorizar, mas que deve ser construído diariamente em termos de sustentabilidade por meio de ações conjuntas no mundo. Ações estas que começam, é claro, pela mudança em nossos próprios quintais.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Podcast #19 - Brasil e Direitos Humanos


É com prazer que a Equipe Página Internacional disponibiliza neste espaço mais um podcast!

Nesta oportunidade, gravada por ocasião da VIII Semana de Relações Internacionais da UNESP ocorrida entre os dias 09 e 13 de agosto na cidade de Franca/SP, tivemos a oportunidade de entrevistar o Prof. Dr. José Blanes Sala, graduado em Direito pela Universidade de São Paulo e doutorado em Direito Internacional pela mesma instituição. Atualmente é pesquisador vinculado a projeto temático do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e professor da “Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Campus Marília.

O tema da entrevista é a questão dos Direitos Humanos na América Latina e a posição desempenhada atualmente pelo Brasil neste âmbito. O professor nos apresenta uma visão bastante interessante neste sentido, vale a pena conferir!

Agradecimentos especiais devem ser destinados ao Pedro Henrique de Carvalho Costa, membro do Centro Acadêmico de Relações Internacionais “João Cabral de Melo Neto” da UNESP – Campus Franca, que nos ofereceu importante apoio para a realização deste podcast.

Aproveitem a discussão e sintam-se à vontade para comentar a respeito!

Faça o download aqui.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Há um ano...

E cá estamos mais uma vez com esse exercício de memórias. E memórias de um passado não muito distante que parecem jamais ser apagadas da história da política externa brasileira. Há exatamente um ano o Alcir postou um texto sobre uma volta triunfal. Após ter sido expulso de seu país, o presidente de direito de Honduras à época, o excêntrico Manuel Zelaya, misteriosamente retornou a Honduras. E onde? Na nobre embaixada brasileira.

Coincidência ou ingerência? Esse foi o ponto bem levantado pelo Alcir há exatamente um ano. E que repercussão teve tudo isso. Bombardeios de artigos em jornais brasileiros, hondurenhos e internacionais sobre o Brasil.

Se a intenção do projeto de inserção internacional brasileira era expor-se mais no cenário internacional, tal evento fez o papel de anos de política externa. Agora se os efeitos foram positivos ou não, aí a história é outra.

Enquanto a questão hondurenha era a peça do momento segundo a mídia, o Alcir mais uma vez tentou lembrar cantos do mundo e temas esquecidos à época. A exemplo da 64ª Assembleia Geral da ONU como palco de outro show, tratando de pirraças, hipocrisias e inquietações dos estadistas. E a atuação do então presidente da Líbia, Muammar Kadafi - rasgando cartas das Nações Unidas e defendendo o Talibã - foi literalmente teatral.

Outro colaborador, o Rafael Braz, também fez bem o trabalho de focar em partes do mundo esquecidas, em um post sobre a atual situação da polêmica República Democrática Popular da Coreia (RDPC). Vale a pena reler, pois retoma aspectos bem importantes à análise dessa intrigante questão.

Recordar é viver. E assim vamos, postando e relembrando!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

65ª Assembléia Geral da ONU: entrada para raros, saída para raridades


Há uma semana, deu-se início a 65ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (aqui), na qual entram os raros e da qual saem raridades. Não no sentido de Fernando Anitelli e sua trupe de “O Teatro Mágico”, transformando qualquer espetáculo num grande sarau, mas com nações e diferenças que devem dialogar em prol do mundo todo, sem lirismos nem fantasias. Ninguém coopera porque é bonzinho e ninguém guerreia porque é naturalmente mau, há interesses em jogo, que excedem os discursos poéticos e entremeiam o binômio realidade/transformação.

No novo milênio, os líderes e representantes de todas as nações do mundo lançaram os chamados Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e então se dedicaram a persecução de cada um deles até 2015. Esforço raro, notável e necessário. É também, como de práxis desde 2001, objeto de avaliação durante esta Assembléia. O tempo está encurtando e menos da metade dos países alcançarão essas metas audaciosas.

E a paz e segurança internacionais, objetivo primordial da Carta da Organização? Hoje, o Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, abordou várias dimensões dos problemas para o cumprimento desse objetivo (aqui), bem como das iniciativas que se têm adotado, indo muito além da questão nuclear iraniana ou do secular conflito israel-palestino. É bem verdade que Ahmadinejad não poderia deixar de polemizar e atrair a atenção da mídia, por meio de idéias como “guerra ilimitada” ou “fim do capitalismo”. Mas suas declarações impactantes não devem parar por aí, porque na sexta é que se discutirá sobre o desarmamento.

Outro assunto caro para esta Assembléia Geral é a biodiversidade – não nos esqueçamos, este é o Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela ONU. Não faz muito tempo, Jeffrey Sachs, renomado economista norte-americano e idealizador dos ODM, declarou que era preciso mudar para sobrevivermos, o que inclui o aproveitamento responsável da biodiversidade, compatível também com o desenvolvimento humano. Aqueles que estão presente neste período de sessões estariam cientes disso? Saberiam como fazê-lo? Muitas vezes, até sabem, mas escrevem fórmulas que não ultrapassam os limites de uma resolução, declaração ou qualquer outro documento oficial.

Sempre o ceticismo ronda as Assembléias Gerais das Nações Unidas, caracterizadas como um espaço de encontro de cavalheiros de suas cortes nacionais para discutir o mundo de modo sofisticado – atualmente, há também ingresso para os representantes da sociedade civil organizada. Substituamos ceticismo por raridade. Entram os raros, um seleto grupo que responde por praticamente sete bilhões de pessoas. Saem decisões raras, que abrangem todo o conjunto de povos. As Nações Unidas ainda não estão à altura dos desafios vindouros do século XXI, conforme questionou Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU, em 2000.

Post Especial

Caríssimos leitores,

Pensando em vocês, e sempre na modernização e adaptação de nossa Página Internacional a esse mundo em constante mudança, que agora temos um logo oficial!

Isso não seria possível se não fossem os esforços de Lucas Alfaro, graduando em design pelo IED, que, com maestria, conseguiu sintetizar muitas das características do blog nesse criativo logo. A você Lucas nossos sinceros agradecimentos por esse trabalho.

Aproveitem o novo design da nossa querida Página Internacional. Porque afinal, se o mundo está sempre mudando, devemos sempre mudar com ele!

Atenciosamente,

Equipe Página Internacional

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Laços de petróleo

Existe um famoso dizer popular que exalta o trabalho como forma de desenvolvimento de muitas qualidades do indivíduo. Este, por sinal, é muito conhecido e muito utilizado como forma de incentivar massas e pessoas ao labor: o trabalho enobrece o homem.

Engrandecer os indivíduos é sim um objetivo muito nobre. E soaria até nobre demais se os chineses dissessem que até hoje se importam com as ilhas desabitadas de Diaoyu – cuja tradução ao pé da letra de seu nome significaria Plataforma pesqueira – pelas possibilidades de pesca da região e, portanto, de trabalho para sua população.

Os leitores podem estar se questionando o porquê digo isso. Bom, pode-se dizer essas ilhas são vetores de disputas históricas entre Japão, China e Taiwan e estão bem em pauta atualmente. E, digamos que, foi uma das razões por trás do atual rompimento diplomático chinês com o Japão.

De modo geral, as ilhas eram consideradas, há um tempo, como parte da então província chinesa de Taiwan, e era base pesqueira para chineses. Todavia, com a eclosão da 2ª Guerra Mundial, o Japão tomou diversos territórios chineses, inclusive as famigeradas ilhas de plataforma pesqueira.

Até que em meados dos anos 1970, uma comissão das Nações Unidas (Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico – CESPAP) divulgou a existência de largas jazidas de petróleo na região.

Digamos que isso renovou os ânimos da China, do Japão e de Taiwan por busca da soberania da ilha. Oficialmente, a ilha está sob soberania japonesa. Contudo, isso não significa que os outros dois Estados aceitem pacificamente a decisão.

As investidas japonesas por investigações e impedimentos de navios pesqueiros chineses na região ainda hoje, mais de 58 anos depois dos acordos entre China e Japão, ainda provocam certo desconforto tanto nas populações quanto nos governos chineses e taiwaneses (para mais informações sobre o assunto, clique aqui).

Pode-se então ver que há uma questão muito maior por trás de uma rusga por pedido de investigação de navios pesqueiros. Há um desenrolar histórico e interesses geopolíticos também. Se o trabalho enobrece o homem, no caso, parece também que o petróleo enobrece os Estados. . .

sábado, 18 de setembro de 2010

Papai mandou

Imagine-se no posto de um líder de uma nação e/ou Estado. Foram grandes as decisões que os líderes mundiais tiverem que tomar no decorrer da história. Tais escolhas levaram países a catástrofes, guerras ou ao esplendor econômico, político e social. Portanto, nada mais justo que cada novo líder tenha a plena aprovação popular, tal qual a confirmação da classe política, não? A Coréia no Norte, notadamente um dos países mais fechados do mundo, possivelmente está consolidando um processo de transição em sua principal liderança. A sua maneira, é claro. Mas, a partir das indicações extra-oficiais, com a aprovação chinesa – atual maior aliado norte-coreano.

Não há confirmação oficial. Contudo, o estado de saúde de Kim-Jong-il somado a recentes movimentações em Pyongyang dão um forte precedente a rumores de sucessão no país. O primeiro passo, neste sentido, seria a conferência do Partido dos Trabalhadores (na versão norte-coreana), um grande evento de celebração popular acompanhado de intensa publicidade oficial e de uma grande parada militar. A expectativa era que a reunião, a terceira do gênero depois do término da Segunda Guerra Mundial, indicasse ou posicionasse o sucessor do atual líder perante os membros do Partido. Na década de 1980, um procedimento similar foi adotado para a nomeação de Kim-Jong-il.

Uma questão curiosa é que, ao contrário de outras sucessões hereditárias, o escolhido seria o terceiro filho do líder norte-coreano. Em uma entrevista na BBC, um especialista afirmava que este seria o filho mais “apresentável” entre as três opções que tinha o mandatário norte-coreano. O primogênito seria notoriamente um playboy, ao passo que o segundo seria “afeminado” demais. Por estes motivos, a opção seria pelo filho mais novo, Kim Jong-un, educado na Suíça, poliglota e com menos de 30 anos. As versões, mesmo na impressa internacional, são variadas sobre esta questão. The Economist, por exemplo, aponta outros fatores para defender a mesma decisão. Como não há versão oficial, os rumores se espalham, tratando mais de confundir do que esclarecer.

Trago uma definição pouco convencional para o conceito liderança:

Estar no poder é como ser uma dama. Se você tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é. (Margaret Thatcher)

Não seria justamente o oposto da Coréia do Norte? Um país que organiza uma convenção política para discutir a liderança no país, acompanhada por demonstrações militares e nenhuma transparência internacional. Qual seria o impacto de um líder jovem na Coréia do Norte? Lembrando também que tratamos de um país fortemente sancionado por organizações internacionais e com um programa nuclear obscuro. Sucessão não necessariamente gera mudança. O mesmo vale para o poder, que não significa automaticamente ter autoridade sobre seu povo. Se a liderança é uma habilidade que pode ser adquirida, este seria o caso norte-coreano, já que Kim Jong-um nunca exerceu uma posição pública, foi entrevistado ou mesmo fotografado.

Como tudo que se escreve sobre a Coréia do Norte, há a possibilidade de que esta discussão torne-se obsoleta ou se comprove irracional. As recentes visitas de Kim-Jong-il a China e a convenção do Partido dos Trabalhadores serviram de combustível para aclamações de mudança – nem que seja somente de líder e não de posicionamento político. Um líder pode estar sendo construído. Não se discute, no entanto, que a transição estará mais baseada no consentimento do antecessor do que propriamente convencimento de seu povo. Afinal, quando há uma parada militar do lado de fora do auditório da convenção política na qual se trata da sucessão política, fica mais evidente que o espaço para a menção ao debate é extremamente limitado ou mesmo inexistente.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Conversando com a Teoria


Montando um quebra-cabeça teórico

Quem nunca brincou de montar quebra-cabeça na infância? Pois é, os teóricos, na disciplina acadêmica de Relações Internacionais, não parecem ter feito algo muito diferente. Escolheram algumas pecinhas e então teorizaram. No entanto, cada quebra-cabeça individual não apresenta as suas bordas regulares; há espaços para se encaixar outras peças, que conformam outras teorias.

Comumente, acredita-se que existem, ao menos, cinco valores sociais básicos que os Estados devem defender: segurança, liberdade, ordem, justiça e bem-estar. O enfoque teórico mais tradicional – por vezes, dito positivista – das Relações Internacionais recai no modo pelo qual são incorporados esses valores, ou seja, cada teoria preconiza um deles perante os outros.

A teoria realista das Relações Internacionais concentra-se no valor da segurança, entendendo que na política mundial prepondera uma constante luta pelo poder e, por conseguinte, o cenário internacional é notadamente marcado pelo conflito. O liberalismo, por seu turno, enfoca o valor da liberdade e procura abordar as perspectivas de cooperação nas relações internacionais para se alcançar a paz e o progresso da humanidade. Ordem e justiça são valores assumidos pela Escola Inglesa (ou teóricos da Sociedade Internacional) e reforçam a idéia de que existem interesses compartilhados, regras e instituições que regem a sociedade internacional. E, por fim, o valor do bem-estar é relevado pelos teóricos da Economia Política Internacional (EPI) – marxistas, neomarxistas, etc. –, os quais se atêm à explicação de como o sistema econômico mundial reproduz desigualdades, pobreza e conflitos.

Até aqui, nada de mistérios. Entretanto, como na infância, sempre há aquele amigo joselito, que resolve desmontar o quebra-cabeça montado com grande esforço. Nas Relações Internacionais, esse amigo é representado pelo conjunto de teorias não tradicionais – taxadas, com certo comedimento, como pós-positivistas -, mas não necessariamente novas: teoria crítica, construtivismo, feminismo e os pós’s (pós-modernismo, pós-colonialismo, pós-estruturalismo). Ora, justiça seja feita, ainda bem que tínhamos um joselito, do contrário, não teríamos avançado no campo teórico, no sentido de entender como esses valores são cunhados, que relações são traçados a partir deles e se pensar além do Estado como organização política ou provedor de tais valores. De uma profunda crítica até a desconstrução, eis o caminho dessas teorias.

Seguimos montando este quebra-cabeça teórico, pessoal. Olhemos as peças de cada teoria e as aberturas de suas extremidades que ensejem aproximações e completudes com outras teorias. E, ademais, continuemos a exercitar as nossas dúvidas e inquietações, ampliando os horizontes de nosso pensamento de maneira contínua...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Há um ano... especial!

Há um ano, o blog exalava a boa e velha Segurança e Defesa. Tínhamos textos sobre a repercussão da Estratégia Nacional de Defesa (que até hoje não mostrou muito a que veio...) e o lançamento da Estratégia Nacional de Inteligência dos EUA (sempre focado no uso da força contra insurgentes e que tanto resultado demonstrou no Iraque e no Afeganistão...). Mas o que mais teria repercussão hoje seria, provavelmente, o interessante texto acerca da aproximação da OTAN com a Rússia, por meio de seu secretário-geral. Como se sabe, a Rússia não faz parte da OTAN, mas afirmava-se que essa conexão seria muito importante para evitar conflitos e problemas diversos no barril de pólvora chamado Oriente Médio, além das crises pontuais de sempre como a da Coréia do Norte e do Irã.

Hoje? Essa aproximação não parece ter frutificado tanto (ou mesmo ocorrido). Isso é visível por exemplo no caso do Quirguistão, em que há elementos da busca russa por uma esfera de influência regional que inflamaram a discórdia no país e, sob o pano de fundo da rivalidade de bases militares com os EUA. Obviamente, a Rússia não vê com bons olhos a atuação da OTAN na região, e a formação de uma nova arquitetura de segurança na região não me parece viável em curto prazo.

Por último, mas não menos importante, há pouco mais de um ano a Página Internacional era laureada com o Prêmio de Melhor Blog de Política na categoria blog pessoal pelo Júri Acadêmico do Top Blog!

Ivan e Alcir, dinossauros do blog, na premiação

O prêmio reflete a filosofia da equipe de sempre buscar a análise de maior qualidade, mas com um espírito acessível e dinâmico. Relembramos este feito que contou com a participação e dedicação dos membros pioneiros, e os parabenizamos. E fica o convite aos estimados leitores para a votação deste ano, que continua até outubro!

É isso aí. Postando, relembrando, e votando pessoal!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A fênix cubana

Certamente, todos conhecem o mote da fênix, a ave que entra em auto-combustão ao morrer e renasce das próprias cinzas. Cuba ensaia fortuna idêntica. Não seria preciso Fidel Castro dizer e, ao mesmo tempo, desdizer que o modelo econômico cubano não funciona mais. Declaração também incompleta, ressalta-se, carecendo da adição da falha do modelo político e seus desdobramentos nas questões sociais e humanitárias. Em que pese ainda outro aspecto: a guinada discursiva de Fidel para a política internacional, sob um caráter praticamente militante.

No que concerne ao modelo cubano, tanto econômico quanto político, sabe-se que a história reservou apenas experiências fracassadas ao socialismo, desde a Comuna de Paris, em 1871. Todos vitimados pelas entranhas do poder, que distanciaram do povo aquilo que era seu por direito e destino; no caso de Cuba, isso acarretou mazelas pendulares entre as liberdades reprimidas e os confortos epidérmicos. De um lado, as violações sistemáticas dos direitos humanos, de outro, um impecável sistema de saúde e moradia. Dessa combinação, assegura-se a vida, não o viver.

É fato que se deve prestar o devido reconhecimento a uma peculiaridade muito grande da Revolução Cubana: a repercussão em âmbito continental – quiçá global –, confeccionando escolhas que afrontaram os Estados Unidos e os deixaram reticentes na adoção de políticas para a América Latina. Levou inclusive o gigante do norte ao imbróglio entre a disseminação da democracia ou de ditaduras que lhes comprazia. Cuba foi um marco, mas está perdendo as suas marcas na medida em que tem que buscar seu lugar no mundo e alimentar o seu povo com mudanças para além das ideologias revolucionárias. Não se deve jamais esquecer o passado, mas não se pode permanecer refém dele e Fidel Castro está ciente disso.

Já estão previstos um corte de meio milhão nos empregos públicos e um alívio ao setor privado (aqui). Desde o colapso soviético e o embargo norte-americano, Cuba não consegue andar sozinha. Cuba precisa do mundo. Não parece que as palavras do líder cubano voltadas para grandes temas mundiais em pauta foi fruto do acaso – guerra nuclear, anti-semitismo iraniano, perseguição a homossexuais, etc. Tudo bem que pode ser uma forma de escamotear os desafios internos, fortalecidos na luta silenciosa e auto-flagelada de seus dissidentes, mas não há espaço para ingenuidade na política internacional. Neste quase um século de vida, Fidel deve ter aprendido isso muito bem.

Enquanto a vida lhe percorrer o corpo e depois de ter lançado uma auto-biografia, Fidel deve olhar para o passado e o futuro simultaneamente. O modelo cubano envelheceu com a sua aura revolucionária e ideológica e o país precisa se inserir no mundo pós-1959. Não deve fazê-lo por pressões alheias, de maneira subserviente, ou por intermédio de outros países, senão a partir dos ensinamentos de sua história, privilegiando mais a autonomia do que o confrontacionismo. É hora desta fênix renascer!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tempo presente


E o 11 de setembro passou. Sem queima de Alcorão, sem mais atentados. O dia se foi, mas persistem as reflexões – se não pela triste memória do golpe militar de Pinochet no Chile, pelos ataques aos EUA. Afinal, completaram-se 9 anos, e análises mais profundas certamente virão quando se completar o decênio dos atentados em Nova Iorque/Washington/Pensilvânia, mas a lembrança do dia fatídico nos traz uma questão um pouco mais complexa, enveredando por uma área do conhecimento um pouco diferente das RIs.

Certamente, a maioria dos leitores se recordam com alguma clareza do que estavam fazendo no dia fatídico, até mesmo no momento em que foram surpreendidos com as imagens chocantes pela televisão ou internet. Isso comprova a natureza atípica daquela manhã de 2001 – muitos podem até nem ter ideia da importância desse fato, mas mesmo inconscientemente têm a noção de que presenciaram algo sem precedentes na história da humanidade. E foi algo tão importante que suas conseqüências estão indefinidas até hoje.

A primeira e mais imediata foi a guerra ao terror. Os EUA invadiram o Afeganistão e o Iraque, derrubaram regimes que “financiavam o terrorismo” e estão com dois abacaxis nas mãos. Estão prestes a deixar o Iraque, em frangalhos, e a solução do Afeganistão não tem nem previsão tão cedo. Outros resultados diretos do 11/09 incluíram a paranóia da segurança que fez os norte-americanos terem medo até da própria sombra, e o aumento do preço do petróleo que repercute até hoje. Todos esses são problemas que não têm consequências previsíveis em curto prazo. Há até mesmo obscuros problemas de saúde que estariam afetando as vítimas e os voluntários que aspiraram a poeira tóxica e mortal dos escombros. Quase uma década depois, essa “doença” tem seus efeitos desconhecidos. Malformações fetais? Câncer? É uma incógnita e os estudos são inconclusivos.

E quanto à História em si? Se o 11/09 afetou tantos as Relações Internacionais quanto a História, seria um daqueles pontos de inflexão como a queda de Roma ou a Revolução Francesa? Existe algo que assombra a historiografia, e é a chamada “história do tempo presente”: seria algo impossível de estudar, pois a falta de distanciamento do historiador do objeto de pesquisa e a falta de percepção de resultados em longo prazo (veja mais sobre o assunto aqui).

Por isso mesmo a angústia do 11/09: não sabemos seus resultados profundos que não sejam prospecção de cenários, mas temos a percepção de que foi uma inflexão – talvez até mesmo um novo marco na historiografia? O início de uma nova Idade, digamos, Pós-Contemporânea? São apenas divagações, mas não impossíveis. Seus efeitos ainda vão reverberar por muito tempo, e podem vir de maneiras que jamais imaginaríamos – como um clérigo exaltado que ameaçou por o mundo islâmico em ebulição com sua fogueira de livros sagrados. O importante é saber que neste momento ainda estamos vivendo os efeitos desse marco, que continua a se construir dia-a-dia. Onde vai parar? Mistério. Pelo menos até as gerações futuras receberem esse legado do presente.

sábado, 11 de setembro de 2010

[2050] Brasil visionário: nosso papel no Oriente Médio

[Como em um filme, avancemos algumas décadas – hipoteticamente, claro]

Tratar o Oriente Médio como uma área para onde os ideários ocidentais deveriam se expandir, propondo uma forma de colonização para nações e Estados vivendo ainda sob formas primitivas, foi talvez o primeiro erro conceitual e estratégico das grandes potências com relação a esta região. Retomando exemplos do início do século, as missões norte-americana no Iraque e Afeganistão pouco ou nenhum efeito tiveram no processo de “libertação” ou “democratização”, muito menos funcionaram como “spill over effect” para outros países. O presidente Obama, eleito como a nova cara para o “American way”, seguia arraigado na abordagem de sempre para o Oriente Médio. Foi justamente o Brasil que conseguiu abrir caminhos e traçar uma nova estratégia e parcerias na região, Obama sem Lula (o primeiro presidente brasileiro a propor a estratégia) seria um fracasso nessa questão.

O que muitos não queriam admitir ou reconhecer, o Brasil apregoou e perseverou até obter o reconhecimento e congratulações da comunidade internacional. O principal ator internacional para o Oriente Médio no início do século XXI seguia sendo os Estados Unidos. No entanto, a visão americana seguia fortemente vinculada a uma lógica ainda presa a Guerra Fria que, por conseguinte, impedia seus líderes e diplomadas de propor negociações e promover acordos que levassem a consubstanciação de interesses estratégicos (não só americanos) nesta parte do globo. Enquanto muitos países exigiam diversas precondições para sentar-se a uma mesa com um diplomata iraniano, o Brasil desde o governo Lula tomou este país como um aliado estratégico, tecendo um emaranho de tratados bilaterais de cooperação. Defendendo, inclusive, a ampliação das negociações quando a seu programa nuclear. Por fim, o triângulo de poder conformado por Estados Unidos, Irã e Turquia, conseguiu estabelecer equilíbrio na região, algo pouco provável 40 anos atrás. O Brasil provou que sua estratégia era efetiva para construir melhores relações entre o Ocidente e o Oriente Médio. O mundo não seria o que é atualmente sem o esse Brasil visionário.

[Termino a ficção (ou devaneio) para tratar da realidade em 2010]

Caro leitor, não estou louco ou tenho bola de cristal. O meu texto não é uma previsão, mas sim um possível cenário traçado a partir das idéias de Stephen Kinzer. O autor descreve a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio como uma insanidade, no sentido de sempre repetir o mesmo procedimento e esperar resultados diferentes em relação ao passado, e que ao contrário de sua visão o país fomentou na região conflitos, ódio e um sentimento antiamericano. Pensar o futuro do Oriente Médio, ainda de acordo com Kinzer, exige um exercício de criatividade, começar do zero. Analisando a sociedade americana, quais seriam os aliados que os Estados Unidos buscam para fugir do atual paradigma? O americano responde que: Irã e Turquia. Parece loucura, mas sua convicção é que estes países têm interesses no longo prazo e valores – nos quais suas sociedades estão baseadas – próximos aos americanos. Assim, a escolha de Israel, Arábia Saudita e Paquistão como aliados seria um dos principais erros da Política Externa atual sob a tutela de Hilary Clinton.

A partir desta premissa inicial, surgiria um novo triângulo de poder: Estados Unidos, Turquia e Irã. São países que possuem um forte viés democrático junto a seus cidadãos (não necessariamente na prática) e serviriam de como uma forma sustentação à nova abordagem para o Oriente Médio. A Turquia como um parceiro para abrir caminhos em termos de negociações diplomáticas e o Irã como um possível estabilizador do Iraque e Afeganistão. Além disso, o Irã teria um segundo benefício: o de ser um grande inimigo do extremismo sunita, que tem como expoentes o Talibã e a Al-Qaeda. Kinzer, levando em conta este fatores, defende que os atuais aliados dos Estados Unidos para o Oriente Médio não seriam o caminho mais efetivo pensando em seus interesses, mais estratégico seriam aproximar-se do Irã e Turquia. O Paquistão e a Arábia Saudita ficariam no meio do caminho, servindo como suporte ao Talibã ao mesmo tempo em que cooperam com os americanos. Para concluir com sua teoria, é evidente que tal estratégia não virá dos setores ligados a diplomacia ou do “establishment” de Washington, ainda presa a aliança com o Israel.

Chego também a minha conclusão e a explicação para o devaneio do início. O Brasil, involuntariamente, parece seguir em certo sentido essa premissa. Sem os vínculos excludentes dos Estados Unidos, a diplomacia brasileira tenta costurar acordos sobre o programa nuclear iraniano, com o auxílio da Turquia. entregou avanços, um começo, que poderia servir de base para uma nova rodada de negociação entre os norte-americanos e os iranianos. No entanto, tal mediação foi prontamente rejeitada pela Casa Branca. O mundo teve que aceitar eventualmente a China, antes reconhecida como o antro comunista e que hoje é talvez a futura principal potência mundial. Em algumas décadas é possível que o mesmo processo aconteça com o Irã e o Oriente Médio como um todo, pensar novo (apesar das extensas críticas e contra-argumentos) passaria pela inclusão do Brasil na vanguarda de uma estratégia nova e que poderia tornar-se realidade no futuro, queiramos ou não.

[O Irã já foi assunto muitas vezes na Página Internacional: 1 - 2 - 3 - 4 - 5]

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Primeiro passo?

“Hoje a realidade é certamente cruel. Não se consegue passar quatro anos sem guerras nos Bálcãs. E o pior de tudo é que ninguém prevê quando os conflitos irão cessar...” (Hugo Roth – in Kosovo Origins, 1998)

Hoje, doze anos após os dizeres acima serem proclamados, talvez a previsão de arrefecimento dos conflitos nos Bálcãs já possa ser visualizada (ainda que em seu primeiro passo) no cenário internacional. Sob o olhar preocupado de Fatmir Sejdiu, presidente de Kosovo (foto), eis que a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou ontem uma resolução pedindo diálogo entre Sérvia e Kosovo.

Historicamente, a província de Kosovo sempre pertenceu à Sérvia e é uma área sagrada para a fé cristã-ortodoxa iugoslava. Acontece que, com o desmantelamento da Iugoslávia comunista (1989), a população majoritariamente albanesa de Kosovo resolveu também se proclamar independente. Contudo, ao não ser reconhecido na Europa, Kosovo entrou em guerra civil, sendo a população albanesa fortemente reprimida pelos sérvios nos anos seguintes (detalhamento das informações históricas aqui).

Kosovo se declarou independente da Sérvia em fevereiro de 2008, mas a Sérvia se recusou desde então a reconhecer a separação. O lema é que “enquanto o povo sérvio existir, Kosovo será a Sérvia”...

Desta forma, a resolução conjunta apresentada ontem à Assembléia Geral da ONU constitui um avanço notável nas conversações, já que esta foi construída de forma conjunta entre a Sérvia a União Européia e indica a possibilidade de diálogo, apesar de a Sérvia ainda não reconhecer a independência de Kosovo.

Preservando-se os interesses soberanos dos sérvios, o documento demonstra, todavia, certa flexibilidadee esclarece a cooperação da Sérvia com a União Européia neste sentido. As dificuldades são latentes e muitos ainda serão os desafios envolvendo a consolidação da paz nos Bálcãs, com certeza.

Entretanto, se um longo caminho começa com um primeiro passo, pode-se dizer que o provérbio chinês certamente ronda as responsabilidades dos governantes de Sérvia e Kosovo diante de um dos maiores desafios no meio das Relações Internacionais atuais...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Conversando com a Teoria


Teoria das Relações Internacionais: uma dúvida imanente

[Pessoal, peço desculpas pela extensão deste post, mas ele é bem importante para adentrarmos especificamente no campo teórico. Tentei não enfocar apenas as teorias de Relações Internacionais e fazer comparações para ajudar no entendimento. Espero que gostem. Não poderia deixar de mencionar que este post teve a colaboração do meu irmão, Giuliano Okado, aluno do 4º Ano de Engenharia Mecânica da Unicamp.]

Vamos recordar do nosso último artigo, no qual existia um tal de João. Contemplando o céu, ele elaborou uma teoria. Porém, como vimos, nem sempre uma teoria tem validade universal. E, também, ela pode se estender por anos, mas tende a ser contestada ou reformulada. Por exemplo, pensou-se por muito tempo que a Terra era o centro do universo e que todos os corpos celestes gravitavam em torno dela, até que Nicolau Copérnico, no século XV, provou o contrário: na verdade, o Sol é que ocupava a posição central e a Terra, bem como os demais corpos celestes, giravam em torno dele.

De modo geral, uma teoria mantém a sua validade enquanto se mostra capaz de explicar uma dada ordem de fenômenos, e, mesmo submetida a freqüentes críticas, consegue se “safar” delas. Fazendo alusão a Thomas Kunh, à medida que as falhas excedam as explicações e justificações, a teoria cai no descrédito. A desconstrução é chave para a evolução e progresso do conhecimento, e as teorias exercem um papel primordial nesse processo – obviamente, a prática também influi decisivamente no conhecimento.

Por outro lado, as lacunas teóricas são fundamentais para a completude do pensamento. Certamente, todos conhecem um sujeito chamado Albert Einsten; talvez pela fatídica invenção da bomba atômica, esquecemo-nos de suas grandes contribuições para a ciência, dentre as quais, a teoria da relatividade. Esta, por sua vez, trouxe um complemento para a mecânica newtoniana, que previa as equações de movimento de um corpo. Enquanto a primeira aplicava-se a corpos com velocidades próximas a velocidade da luz, a segunda destinava-se a corpos com velocidades deveras inferiores. Encerremos nossas considerações iniciais com uma frase do próprio Einsten, “Nenhuma soma de experiências é suficiente para provar que estamos certos, mas basta uma para provar o contrário”.

Partindo de uma visão geral sobre o pensamento teórico, concentremo-nos agora mais especificamente na disciplina de Relações Internacionais. Em 1919, na Universidade de Wales, em Aberystwyth, foi criado o primeiro departamento próprio e, basicamente, a disciplina se predispôs a estudar as causas da guerra e as condições para a paz, refletindo as preocupações de um mundo imerso na Primeira Guerra Mundial.

Desde a criação, ocorreram pelo menos quatro grandes debates – os quais exploraremos noutra oportunidade – na área de Relações Internacionais que contrapuseram diferentes teorias. O que é válido ressaltar é que as contraposições e os embates teóricos contribuíram significativamente para o aprimoramento da disciplina. Um exemplo ilustrativo: se, num primeiro momento – entenda-se, após a Primeira Guerra Mundial –, o liberalismo saiu-se perdedor do chamado Primeiro Debate, vencido pelo realismo, nada impediu que os teóricos liberais revisassem suas premissas e revigorassem seu pensamento para voltar com mais força no imediato pós-Segunda Guerra.

Ainda assim, o pensamento liberal não vingou. Seu reavivamento só obteve êxito na década de 1970, com os chamados teóricos da interdependência ou do neoliberalismo. O realismo, até então preponderante, sofreu profundas críticas e passou por reformulações, culminando em sua inovação teórica: o neo-realismo. Vejam, caros leitores, que mais uma vez encontramos o embate teórico inicial. Liberais e realistas são como geocêntricos e heliocêntricos, respectivamente; liberais e neoliberais - ou se preferirem, realistas e neo-realistas - são como Newton e Einsten, também respectivamente.

Pode parecer uma ligação bastante perigosa comparar as ciências exatas com as ciências humanas, mas não nos esqueçamos que cada vez mais o conhecimento tem adquirido uma face interdisciplinar, isto é, pode ser compartilhado por diversas disciplinas. Note-se, por exemplo, a questão da morte: se, num momento inicial, ela era objeto de estudo da religião e da filosofia (ciências humanas), hoje, ela também é estudada pela física (ciências exatas), vide a mensuração das chamadas “experiências de quase-morte”.

Cada vez mais nos deparamos com um mundo bastante complexo e as respostas para as nossas perguntas nem sempre estão a nossa vista. Teorizar é exercitar constantemente as nossas dúvidas, é fazer com que perdure a máxima socrática “Só sei que nada sei.”. As teorias não oferecem respostas concretas aos fatos, apenas elucidam a compreensão deles. Podemos nos sentir iludidos por nunca conseguirmos entender em definitivo a lógica que movimentam as coisas ao nosso entorno, mas, como diria Fernando Pessoa, “Ser descontente é ser homem/Que as forças cegas se domem/Pela visão que a alma tem!”. Sejamos então homens – e também mulheres – movidos pelo ímpeto do saber, acima de tudo, mas com a convicção da dúvida imanente que pulula em nosso intelecto.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Radicalizando

Não há nada mais comum na história da humanidade do que os ditos radicalismos. De modo geral e bem simplista, “radicalizar” seria levar certa posição ou visão de mundo às suas últimas conseqüências, em outras palavras, ao extremo. Os efeitos desse tipo de posicionamento são, na maioria dos casos, severos.

Exemplos não faltam na história da humanidade. Na contemporaneidade mais ainda. Pode-se dizer que a proibição do uso do véu islâmico em alguns países europeus é um tipo bem claro de radicalismo, que, no caso, faz uso da máquina estatal. Observa-se a tentativa de se pintar de uma única cor o mosaico da multiplicidade que aflorou na Europa.

Outro exemplo, este, um pouco mais conhecido, e, maior alvo de críticas, é o dito radicalismo islâmico ou fundamentalismo islâmico no Oriente Médio. A existência desse tipo de radicalização nas sociedades árabes abriu precedentes para uma confusão entre islamismo e terrorismo, que após os eventos de 11 de setembro se agravou.

Destarte, para muitos, a responsabilidade desses tristes eventos se estendeu, dos terroristas membros da Al Qaeda, para todos os praticantes da religião islâmica. E criou outro tipo de radicalização, agora na sociedade estadunidense. Uma espécie de anti-islamismo.

video
Entrevista do pastor a uma rede de televisão estadunidense

O mais recente efeito deste anti-islamismo foram as declarações de um pastor estadunidense de que liderará o "dia internacional de queimar o Alcorão", a ser realizado no aniversário dos eventos de 11 de setembro. Nesse caso toda semelhança não é mera coincidência. É mero preconceito e radicalismo (para outra entrevista clique aqui).

A preocupação do governo estadunidense com o caso é evidente. Ainda mais quando, segundo declarações do próprio pentágono, os Estados Unidos estão mais próximos de dizer que suas estratégias no Afeganistão estão surtindo efeitos positivos. Um evento como esse pode muito bem aumentar os níveis de instabilidade, complicando mais os frágeis avanços.

Lembremos que um ato dessa magnitude corroboraria a visão de antiamericanismo no Oriente Médio, já que não afetaria somente a Al Qaeda, o Hamas ou o Hezbollah, mas toda a população de crença islâmica.

Agora os Estados Unidos estão observando a adolescência dos filhos de sua alongada campanha de Guerra ao Terror e os radicalismos que dela emergiram. A OTAN, o governo e diversos outros setores da sociedade agora lutam para controlar o ódio alimentado pelo próprio país em governos anteriores. E agora José, digo, Obama? Como lidar com isso?

[observação histórica]: Lembremos que o estopim para a Primeira Guerra Mundial foi um ato de radicalismo. O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em solo austro-húngaro pode ser considerado uma espécie de ato de radicalização do sentimento de pan-eslavismo que havia no período. Não deve-se considerá-lo como a unica causa adequada ao evento, mas pode-se com certo grau de coerência, dizer que o estopim teve raízes no radicalismo de uma ideia.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Independência, é sorte!


Neste dia 7 de setembro, comemoramos os 188 anos de Independência do Brasil. A data é consagrada por uma visão histórica que remete aos tempos escolares, de desfiles militares e patriotismo. Já a realidade pode não ser tão floreada assim – os registros históricos afirmam que D. Pedro estava acometido por uma terrível diarréia e se locomovia em uma nada garbosa mula quando recebeu as notícias de alguns desmandos da corte portuguesa e impulsivamente declarou a opção pelo rompimento que deu no que deu hoje. Pois, tratemos do tema da independência, mas sob o viés internacional, claro – leia-se, a Política Externa Brasileira (PEB).

Existe certo consenso entre o pessoal da área quanto à continuidade e ao pragmatismo nas políticas do Itamaraty. As grandes sacadas do Barão do Rio Branco, nos idos do início do século XX, foram entender que o Brasil precisava se aproximar dos EUA para não ser fagocitado pela potência emergente, assim como formar um corpo diplomático altamente capacitado e, principalmente, alheio na medida do possível a inflexões na política interna. Isso se tornou perceptível na diferença entre as chamadas políticas de Estado e de governo.

Claro que em determinados momentos havia congruências entre ambas as vertentes, devido a conjunturas específicas – como, por exemplo, a Política Externa Independente (PEI) dos governos Quadros e Goulart, que encontrou terreno fértil no arrefecimento da Guerra Fria. Pois este é um tema recorrente à PEB – justamente a questão da independência já prevista pelo patrono da diplomacia brasileira, e que encontrou ecos até mesmo no pragmatismo responsável do governo militar em Geisel. Basicamente, o Brasil sempre teve como meta essa busca pela autonomia – em graus variados, ao sabor da conjuntura internacional – e garantida pela “independência” do Itamaraty, que pôde manter políticas de longo prazo sem ingerência de aspectos específicos de cada governo.

E hoje? Há quem diga que os recentes desdobramentos dos rumos que nosso pais anda tomando no exterior estariam coadunando-se com determinados aspectos de viés ideológico ou partidário do governo, o que seria nocivo à política do Estado. Nesse espírito inédito de diversificação, fala-se até em uma aparente contradição quanto à defesa de regimes internacionais, dada a aproximação com Estados não muito bem quistos na comunidade internacional. Por outro lado, é justamente esse um aspecto primordial do pragmatismo. Parafraseando o presidente, nunca antes na história desse país houve tanta autonomia para o Brasil. O resultado de mais de 100 anos de PEB visando a essa independência? Talvez. Mas resta saber como, nos próximos anos vamos lidar com o pragmatismo, em especial comercial, contraposto a uma crescente importância política e o chamado ao cumprimento das obrigações internacionais do Brasil.

A independência é um aspecto primordial da nossa política externa. Mas, se vamos saber arcar com o seu peso, cabe ao futuro dizer.