terça-feira, 31 de agosto de 2010

Quelqu'un m'a dit


E disseram mesmo! Este é nome de uma das canções mais famosas de Carla Bruni, que também é a atual primeira-dama francesa. Numa breve paráfrase para sintetizar o assunto: alguém lhe disse que a vida não vale grande coisa, não porque passa em instantes como murcham as rosas, mas por ser prostituta. Prostituta? Ao menos, esta foi a acusação do jornal iraniano Kayhan em resposta ao pedido de Bruni pelo fim da punião por apedrejamento no Irã.

Não bastassem alguns jogadores da seleção francesa de futebol criarem um mal-estar entre si por causa de uma prostituta, agora a palavra pulula os mais altos círculos políticos do país. Tudo bem que o Irã, em matéria de polemizar, é campeão do mundo, mas foi um golpe-baixo, uma ofensa de caráter pessoal. O jornal não apenas chamou Carla Bruni de prostituta, como julgou que ela merece um destino similar ao de Sakineh Mohammadi Ashtiani, a iraniana condenada à morte (entenda o caso aqui). Na opinião do jornal, Bruni teria provocado a separação do presidente Sarkozy com a sua segunda esposa, indicando um comportamento ultrajante e imoral para dizer qualquer coisa ao governo iraniano.

A resposta do governo francês foi afirmar que os insultos são inaceitáveis. De fato, são inaceitáveis, todavia um olhar ampliado relevaria uma problemática recorrente na França: a imigração, principalmente de muçulmanos oriundos do Magreb. Como eles são recepcionados? Não é necessário nem ir tão longe: no mês passado, cenas da violência policial contra os imigrantes foram veiculadas pela internet. É difícil dizer se o Irã levou isso no cálculo racional para a feitura de tais insultos, mas parece ter sido um apelo chamativo em prol das tradições muçulmanas, desprezadas pelos franceses.

Por outro lado, este imbróglio reacende novamente a questão sobre a relativização dos direitos humano. O Oriente os considera como uma invenção ocidental e qualquer iniciativa semelhante à de Bruni é percebida como uma afronta aos seus valores históricos e culturais. Já no Ocidente, muitos se indignam e também se sensibilizam com o infortúnio de Sakineh, a ponto de desejarem a abolição dessa punição brutal. Diante desse quadro, a pergunta inevitável: o que fazer? Agir para coibir ou deixar tudo como está? Proteger a vida e a dignidade humana ou preservar o princípio da auto-determinação dos povos? Esses são problemas com que freqüentemente se depara a comunidade mundial, incluindo também atores não-estatais.

Está dito! Investigamos então as origens dos dizeres com a finalidade de pensar para onde eles podem conduzir: dos insultos a Bruni à problemática dos direitos humanos. Em que pese esse último aspecto, alguém precisa dizer e dizer muita coisa para se chegar a alguma solução...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O México é aqui?


Pois é, época de eleições e não se fala em outra coisa no Brasil. Como já tratamos de eleições pelos quatro cantos do mundo (apesar deste ser redondo) em 2010, hora de comentar um pouco o pleito nacional. No espírito da imparcialidade, vamos focar em um aspecto um pouco diferente, mas não menos aventado na mídia – umas análises meio alarmistas que andam saindo de “mexicanização” do Brasil.

“Mexicanização”? É o nome que se deu no Brasil ao processo de institucionalização de uma “ditadura branca” (termo meio que controverso) no México durante mais de 60 anos com o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que se manteve hegemônico no México dos anos 30 aos 2000. Assumindo um caráter de início extremamente popular, com o resgate de princípios da Revolução de 1910, tornou-se uma espécie de bloco hegemônico e considerado unipartidário (havia outros partidos, mas de tão pequena expressão que na prática apenas o PRI concorria). Por isso o aspecto de “ditadura”, pois as eleições livres estariam apenas dando uma carapuça democrática a um governo contínuo.

E o Brasil com isso? Já houve temores de coisas semelhante ocorrer por aqui antes (tanto que o termo já existia), por exemplo, na época das acachapantes vitorias da ARENA. Nunca se chegou ao ponto de um unipartidarismo mascarado por aqui. Porém, o que se anda dizendo é que caso o PSDB seja derrotado nas principais instâncias governamentais, não tenha forças para se reerguer como oposição nacional e abra caminho para um processo semelhante de erosão com uma hegemonia de centro-esquerda fundamentada no maquinário estatal e pessoal dos anos Lula.

A discussão sobre isso é complicada, mas tenhamos em mente, contudo e de maneira breve, que são situações bem diferentes, pois a oposição aqui, apesar de um pouco ineficiente nos últimos anos, ainda é bem organizada. Ademais, e principalmente, para algo assim dar certo, um eventual governo que mantenha as bases atuais dependeria de bons ventos internacionais para se sustentar, visto que é isso que mantém o sucesso do país hoje. Quando a economia internacional não estiver tão favorável, e isso vai acontecer cedo ou tarde, o Brasil enfrentará o rombo fiscal e um monte de outros problemas até agora contornados, o que contribuiria para uma provável perda de popularidade. Quando se trata de mudar de opinião, a economia geralmente se reflete imediatamente na opinião povo – Obama que o diga. Assim, o risco desse tipo de hegemonização seria relativamente improvável.

Um último ponto de reflexão: poderíamos pensar também em “mexicanização” com a escalada da violência? Nada é impossível, e claro que no Brasil a coisa está feia, mas ainda não está nos patamares catastróficos do México, com mais de 20 mil mortes, em pouco mais de 4 anos, diretamente ligadas ao narcotráfico. Se não acredito que vá haver essa mexicanização política, tampouco que haja um dia em que aconteçam por aqui e com regularidade massacres como o da semana passada. O México não é aqui, espero.

sábado, 28 de agosto de 2010

Somos populistas?



Uma frase é recorrente quando se fala em política na América Latina: isso é populismo ou esse líder é um populista. Em geral, sem querer qualquer tipo de julgamento, há uma tendência a enxergar paralelos entre líderes vinculados a esquerda (ou socialismo do século XXI) e políticas entendidas como populistas. Aí surge minha questão, afinal, somos ou não?

Primeiro, nos cabe um esclarecimento. São três os elementos base, de acordo com as análises sociológicas, para definir o que significa esse termo: massificação de camadas da sociedade e desvinculação das mesmas de seus grupos sociais; perda de representatividade da classe dirigente; e o aparecimento de um líder dotado de grande carisma. A primeira vista, portanto, não seria necessariamente fenômeno negativo, certo?

O sociólogo Jorge Ferreira vai além, ser considerado populista no Brasil do início do século XX era um elogio. Ao contrário do atual estigma, eram considerados amigos do povo, ou seja, ouviam suas aflições e atendiam seus anseios. Assim, a população encontra em certos líderes carismáticos uma saída ao processo político tradicional, em outras palavras, uma forma de ver suas demandas atendidas por seus representantes. Tal dinâmica nos leva a refletir sobre o seu contexto. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, governou o Brasil quando nos transformávamos em um país baseado nas cidades, não mais no campo, ao passo que na economia vivíamos o período da substituição das importações. De certa forma, este é um processo geral latino-americano no período.

Mas então, por que o populismo (ou já um neo-populismo) tem sentido pejorativo no século XXI? Ainda de acordo com Ferreira, líderes da direita e da esquerda, identificaram uma tendência que funcionou como chave para tomar posse completa do Estado. Países varridos por uma desigualdade social endêmica, uma sociedade civil inativa e uma classe trabalhadora fraca; que logo se tornaram alvo fácil para manipulação e cooptação. Não bastassem as dificuldades sociais estruturais que a América Latina vivia, muitos países enfrentaram períodos de repressão comandados por militares. Uma vez retomada a democracia, os grupos tradicionais e conservadores viram suas lideranças não se renovarem, ainda fechadas como antigas oligarquias. Desta maneira, a América Latina foi “prato cheio” para lideranças carismáticas que ofereciam um caminho diferente dos conservadores, frente a um povo aflito e cansado de ser reprimido.

Depois desta breve digressão, voltamos a nossa pergunta. A partir dos critérios expostos por sociólogos, me parece plausível responder que sim. Mais que isso, este é um fenômeno relacionado à história da nossa região. Ainda que alguns defendam que os atuais líderes populistas são enganadores e demagogos que utilizam o povo ao invés de defender-lo, são escolhas, na maioria das vezes, da população de seus países. Entre o tradicional e o populista, ficamos com os populistas. Em que pese radicalismos – presentes em qualquer ideologia –, é um modelo efetivo de posicionar-se politicamente na América Latina, na qual o povo ainda tende a ver o governo como um “pai”. Para terminar deixo uma última questão, estão atendendo verdadeiramente aos anseios do povo ou a retórica e o discurso funcionam mais que a prática?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Vivendo e dialogando

Se dizem por aí que a propaganda é a alma do negócio, pode-se sugerir que o diálogo é a alma das Relações Internacionais. Por ocasião desta semana, China e África do Sul deram mais um passo no sentido do aprofundamento de tal reflexão.

A parceria estratégica entre estes dois Estados – anunciada como polivalente, já que compreende 28 áreas de cooperação – demonstra o diálogo político que chineses e sul-africanos pretendem estreitar nos próximos tempos.

A primeira visita de Jacob Zuma, presidente sul-africano, ao gigante asiático (juntamente com mais de trezentos homens de negócios), terminou ontem com um saldo positivo para ambos os lados – uma dúzia de contratos comerciais foram assinados em várias áreas, tais como defesa, cultura, transporte ou turismo, por exemplo.

Quando questionado a respeito do risco de continuidade do neocolonialismo na África por vias chinesas, o Ministro do Comércio da África do Sul sugeriu que a resposta ao Ocidente deveria ser: “olha quem está falando”...

O que pode ser chamado de "diálogo dos que chegaram depois" na verdade demonstra uma realidade cada dia mais presente no cenário internacional: o diálogo inter-estatal com vistas à cooperação estratégica. Vivendo e aprendendo, dialogando e crescendo, assim parece que segue a vida na Política Internacional, especialmente entre os países em desenvolvimento acelerado.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Conversando com a Teoria


Panorama Histórico do Sistema Internacional - Parte II

Nesta semana, daremos seguimento à evolução do sistema internacional. Finalmente chegamos a esta tal Paz de Vestifália, tão falado nos dois outros posts e indispensável para a criação do Estado moderno. Pelo tratado, concebeu-se o Estado como a forma de organização política de toda a sociedade e, do ponto de vista externo, nasceu o sistema de Estados.

A Paz de Vestifália findou a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Resumidamente, esse conflito eclodiu com uma disputa pela sucessão do trono na Boêmia (atual República Checa), envolvendo católicos e protestantes. O conflito, basicamente, fora travado entre o Sacro Império Romano-Germânico (católico) e algumas cidades e principados alemães protestantes, apoiados por outros “países” – na verdade, monarquias nacionais – anti-católicos como Suécia e Países Baixos, além da França (apesar de ser católica). Dessa forma, a guerra se alastrou pela Europa e englobou não só questões de tolerância religiosa, as quais compunham a base do conflito, mas também dinásticas e políticas. As disputas só chegaram ao fim com a assinatura do tratado mencionado, que estabeleceu muitas regras e princípios políticos.

De modo geral, quatro são as características mais proeminentes desse novo arranjo europeu: 1) o reconhecimento da legitimidade e da independência dos Estados; 2) a exclusão do “outro”, ou seja, daquele que não se encontrava em seus limites territoriais; 3) a sujeição das relações interestatais ao direito e às práticas diplomáticas; e 4) a idéia de balança de poder, com vistas a impedir que determinado Estado adquira um poder infinitamente maior aos demais, o que colocaria em risco o novo ordenamento da Europa. Ademais, acrescenta-se que o traço marcante do arranjo vestifaliano foi a maneira pela qual resistiu a principal tendência da política nos últimos 362 anos: a submissão dos Estados mais fracos pelos mais fortes e o posterior estabelecimento de um império ou de uma hegemonia global.

Evidentemente, o moderno sistema de Estados, desde sua matriz vestifaliana, não permaneceu impassível de abalos e crises, todavia resistiu. Uma curiosidade é que tal sistema só perdeu o seu caráter eurocêntrico após o término da Segunda Guerra Mundial. Outra curiosidade seria o questionamento sobre a possível superação do templo de Vestifália, isto é, uma nova forma de organização política mundial que não o Estado e o sistema por ele composto. Poderíamos avançar nestas discussões, mas deixemos outras considerações para quando tratarmos da Escola Inglesa. Por enquanto, nossa satisfação se resume ao conhecimento da história dessa forma de organização política, dessas “pedras” de Marco Polo que sustentam o arco da ponte.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

As misturas

O governo e a imprensa são duas variáveis, que embora possa não parecer, são muito dependentes. Ora, funcionam como água e óleo, e não se misturam nem que haja qualquer intervenção divina. Ora, agem como água e açúcar, que na medida certa se dissolvem perfeitamente. Mas que medidas seriam essas? Bom, de um tipo bem peculiar, que pouco pode ser contabilizado ou mensurado, todavia, todos sabem que estão lá e que são muito importantes: os interesses.

Não é preciso nenhum curso de química avançada para entender essa fórmula. Todo veículo de comunicação em massa constitui um grupo de interesse na sociedade, e, portanto, tende a expressar (e buscar) seus interesses de forma escancarada ou de forma mais branda, em outras palavras, bem nas entrelinhas. Mas a questão é que quando há alguns interesses, visa-se legitimar ou se opor aos governos vigentes (ou a alguns segmentos desse).

O grande problema é quando os ingredientes imprensa e governo, ao serem colocados no mesmo recipiente implicam em uma reação contrária à esperada. Aí emergem excedentes difíceis de serem controlados, pesando mais para um lado ou outro, já que estamos lidando com essas delicadas medidas chamadas interesses (e que para alguns podem ser entendidas em termos de poder).

E a reação pode ocorrer de diversas maneiras, gerando sempre excedentes para um ou outro lado. As variações são inúmeras, e se dão entre os escopos de inabilidade do governo em lidar com possíveis ataques da imprensa, de tentativas de controle estatal desse veículo e de publicações de notícias com vias de desmoralizar governantes.

Bom, o caso é que alguns países da América do Sul têm experimentado os ônus de reações químicas, digo, políticas, infortuitas. Enquanto a Venezuela vive o caso de grande excedente para o lado do governo – visando controlar cada segmento da mídia – a Argentina parece não saber lidar bem com as críticas ao atual governo.

No novo episódio do interessante caso argentino, Kirchner afirma que a publicação de jornais tornou-se questão de “interesse nacional”, e, portanto, é necessário que a principal empresa produtora nacional de papel jornal, Papel Prensa, socialize o acesso à informação barateando os custos dos demais jornais e não somente de “O Clarín” e “La Nación” (famigerados opositores do governo Kirchner). De maneira interessante, emergiram também acusações de colaboração desses dois jornais com governos militares anteriores.

Muita reflexão é necessária acerca desse caso. Seria realmente uma questão de socialização da informação? Ou seria apenas mais uma consquência de uma mistura governo-imprensa na qual as medidas não batem? Resta esperar para analisar melhor os excedentes dessa mistura...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Terror somali, terror africano


Comumente, fala-se que dentro da África existem várias Áfricas. Por vezes, estas são encontradas no interior dos próprios países. Desde a partilha do continente durante a Conferência de Berlim, em 1884, entre as grandes potências coloniais do século XIX, o comportamento fratricida perdura no berço da humanidade. É africano matando africano! Conflitos étnicos, religiosos, tribais e até por recursos naturais, como no caso da disputa entre os países fronteiriços pela água do Lago Chade. E agora, também o tal do “terrorismo”. Um terrorismo que ainda não encontrou o seu lugar nas orientações da política externa norte-americana. Mas que mais é real e urgente do que a invocação de inimigos imaginários para satisfazer interesses ocultos.

A Somália é o destaque desta vez. País cuja fama recente recai sobre os casos de pirataria e o filme “Flor do deserto”, hoje sofreu um atentado terrorista. O alvo foi um hotel na capital Mogadíscio. Estima-se que 32 pessoas tenham morrido, sendo que seis delas eram membros do Parlamento. A ação foi reivindicada pelo grupo al-Shabab, supostamente vinculado à Al-Qaeda. Aliás, já se acredita na disseminação dessa rede pelo continente africano, não mais restrita ao Magreb (região que comporta os seguintes países: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Saara Ocidental e Mauritânia).

Dois pontos chamam a atenção. Primeiro, a paz e a segurança não reinam na África em definitivo. É fato que as missões da ONU (vejam aqui a lista delas no site da organização) tenham contribuído no processo de pacificação do continente, mas permanece o desafio pendente. Segundo, a África percebeu que a integração continental deve partir da segurança, pois somente dessa maneira seria possível visar ao desenvolvimento e resolver os problemas recorrentes. A União Africana criou um Conselho de Paz e Segurança, a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, a Comunidade Econômica da África Central e outras tantas contam com uma estrutura militar em sua composição. Portanto, há um lugar para o terrorismo nas preocupações políticas africanas, ainda pouco explorado.

É preciso estudá-lo melhor. Não é só no Magreb que ele ocorre, região até agora privilegiada pela União Européia e que logo poderá ser o foco dos Estados Unidos. É por essa região que os imigrantes alcançam a Europa e também é onde a China se lançou à procura de recursos naturais, notadamente o petróleo. Eis a fórmula óbvia: inventar um inimigo para intervir e legitimar as ações condicionadas por outros interesses que fazem do combate ao terrorismo um meio, e não um fim em si mesmo. Ainda é precipitado o uso do conceito de “terrorismo nuclear”, como consta na nova estratégia de segurança norte-americana: os atos envolvem principalmente armas e bombas. Na África, pode ser freqüentemente realimentado por diferenças étnicas, nos percalços do condomínio de Berlim. Também há o terror no continente, o que aconteceu na Somália não é um fato isolado!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Dor maior


E voltaremos às conversas de paz no Oriente Médio. Como anunciado por Hillary Clinton semana passada, Israel quer a paz. Ou, pelo menos, voltar atrás e aceitar a retomada nas negociações de paz com os palestinos. As idas e vindas desse relacionamento conturbado já não são novidade nos últimos 17 anos, e não seria surpresa se dessem em nada, visto que ambas as partes vão ter que atender a concessões que não estariam tão inclinadas a aceitar. A vontade de negociação parece legítima, mas sua viabilidade já está comprometida - o primeiro ministro israelense Netanyahu já prevê que as exigências centrais de seu país, como o reconhecimento do Estado judeu e a manutenção de suas premissas básicas de segurança, não serão aceitas pela outra parte.

Ora, não é novidade que se a solução fosse fácil eles não estariam negociando há duas décadas. A diferença agora é que existe um catalisador improvável nessa equação agora, e adivinhem só... o Irã, de novo! No momento, Israel está com uma preocupação terrível quanto ao país de Ahmadinejad, e não surpreende que o anúncio da retomada de negociações tenha ocorrido quase que ao mesmo tempo que o anúncio da ativação do primeiro reator nuclear e da apresentação de um drone (avião de ataque não-tripulado) produzido totalmente no país, um dia depois. Israel já está com o dedo no gatilho para um ataque preventivo e só não o fez ainda pois os EUA estão livrando a cara do Irã (quem diria...) garantindo que não conseguiriam uma bomba em menos de um ano e dissuadindo Israel dessa ação desesperada.

Isso me lembra do famoso personagem de Luis Fernando Veríssimo, o Analista de Bagé – um nada ortodoxo psicólogo que tinha uma técnica diferente para curar seus pacientes, o “joelhaço”. Basicamente, desferia um belo golpe no estômago para fazer o paciente esquecer da dor ou dos problemas na cabeça com a dor física. Bem, Israel já te uma dor de cabeça tremenda com a questão Palestina. Mas comparar homens-bomba com armas nucleares é até injusto, e na sua visão já levou um “joelhaço” que até nome tem, Bushehr. Resta saber qual dor vai causar mais estrago, e provavelmente nem Israel tem ideia.

sábado, 21 de agosto de 2010

Ásia: a região do futuro?

Um dos principais elementos das Relações Internacionais, desde seus primórdios, é o poder. Não importa a forma – seja econômico, político ou militar – cada agente no Sistema Internacional, essencialmente me refiro a Estados, baseia suas escolhas nos principais pólos de poder. Neste contexto, qualquer estudante em sua vida escolar terá contato com a história de grandes Impérios (unipolaridade), a bipolaridade na Guerra Fria, ou mesmo a ascensão de uma possível ordem multipolar, na qual não haveria centros de poder absolutos.

Ser o agente mais poderoso em um momento não é garantia de proeminência permanente. Todo o Império que se preze um dia viu sua própria derrocada, por problemas internos ou pelo surgimento de agente com mais recursos e capacidade de gerar influência nos demais. Recém começado o século XX, é amplo o debate sobre um novo foco de poder, a China, e a débâcle do atual país de maior poder, os Estados Unidos. É inegável que nos últimos 30 anos, a Ásia – não somente a China, mas em especial este país – melhorou a qualidade de vida de sua população e atingiu um crescimento econômico constante e dinâmico, quando não acelerado.

O modelo de desenvolvimento da região foi enfocado em diversificar exportações e prover o mundo com uma imensa quantidade de produtos asiáticos, dos mais diversos. Grandes empresas multinacionais também identificaram uma grande oportunidade na região, estabelecendo bases de seus sistemas produtivos em países que ofereciam incentivos fiscais, legislação ambiental não rigorosa e uma mão-de-obra abundante e barata. Assim, a Ásia conseguiu talhar um novo posicionamento frente ao Sistema Internacional, e ver países como Japão, no final do século XX, mais China e Índia, atualmente, como agentes de decisão internacional, não mais meros expectadores nas instituições internacionais.

A nova Ásia para as próximas duas décadas, segundo Stephen Roach em um Podcast da consultoria McKinsey, estará muito mais baseado em desenvolvimento a partir de seu mercado interno do que no modelo utilizado nos últimos 30 anos, pautado em exportações. Uma região que produziria mais para seu próprio consumo que para o mundo. Sua grande fortaleza seria justamente os mais de três bilhões de pessoas que vivem na região. Roach ainda lança a possibilidade de formação de uma Pan-Ásia, integração centrada na China como promotora de desenvolvimento regional, com países como Coréia do Sul, Taiwan e Japão desenvolvendo o mercado chinês como prioridade, ante aos Estados Unidos e União Européia.

O desafio seria mudar a estrutura do foco atual – fortemente externo – para suas próprias fronteiras, levando a uma maior sinergia e consequentemente maior integração regional. Contudo nem tudo são flores. Primeiro, não se pode pensar Ásia unicamente com a China como porta de entrada, a região tem temáticas, prioridades tendências muito além das próprias chinesas. Há disputa territorial entre China e Índia; grande influência ocidental na Coréia do Sul, Vietnã e Japão; uma Índia cada vez mais dinâmica e influente, entre outros. A The Economist, inclusive defende que a disputa da China é antes com a Índia no plano regional do que com os Estados Unidos no plano global. Independente desta questão, a Ásia – ainda mais Índia e China – para ter ainda maior importância nas decisões internacionais, necessita conciliação e cooperação regional primeiro.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Estado laico. Ou nem tanto.

Não, Barack Hussein Obama não é muçulmano. E eis que a religião do atual presidente dos Estados Unidos tem sido discutida em manchetes internacionais.

A questão é que foi divulgada ontem uma pesquisa do Pew Research Center demonstrando que 18% dos americanos acreditam que Obama é muçulmano, enquanto apenas um terço da população, 34%, sabe que ele, na verdade, professa a religião cristã.

E a pesquisa aconteceu antes de Obama apoiar publicamente o direito dos muçulmanos de construírem uma mesquita nas proximidades de onde se localizavam as torres gêmeas em Nova York, derrubadas nos atentados de 11 de setembro, assunto que está gerando bastante polêmica na terra do Tio Sam.

O que chama a atenção neste âmbito não é apenas o debate em torno da liberdade ou não de um templo muçulmano ser construído ao sul de Manhattan (muitos familiares de vítimas dos atentados terroristas consideraram um insulto tal possibilidade). O mais intrigante é a preocupação da Casa Branca em garantir (sim, este é o termo utilizado) que Obama é cristão.

A preocupação que o governo está demonstrando em configurar a imagem deste importante estadista ocidental como cristão que “reza todos os dias” pode gerar uma discussão muito mais ampla. É importante contextualizar que, nos EUA, a laicidade do Estado (ou seja, sua neutralidade religiosa) é datada do ano de 1787. Desta forma, se promove a separação entre Estado e Igreja, constituindo a religião uma opção livre dos cidadãos. Mas será que esse Estado é realmente tão laico assim?

Ao vislumbrar manchetes na mídia internacional com o foco em apresentar a cristandade da família Obama, parece que se desconfigura a atitude crítica que deveria desvincular a religião da vida pública na contemporaneidade. Por que as crenças religiosas (e pessoais) de Obama importam tanto?

Contestar uma decisão política polêmica é um aspecto a se discutir, porém manter um conservadorismo medieval que exige esclarecimentos acerca das preferências religiosas de um cidadão, seja ele o presidente dos Estados Unidos ou não, talvez demonstre que a modernidade ainda esbarra em preconceitos mais profundos do que podem parecer à primeira vista...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Imagens

Dizem que atualmente vivemos em mundo das aparências. Um mundo no qual, o simples parecer ser é suficiente para satisfazer muitas pessoas e fazê-las dedicar dias na construção dessa imagem. No campo da política, diria que vivemos situação similar, um mundo das imagens.

Imagens que variam de construções que os países fazem de si mesmos para os demais, de si mesmos para sua própria população e visões que representam entendimentos dos acontecimentos do mundo (o Luis Felipe escreveu um interessante post que trata um pouco desse tipo de imagem).

No geral, essas imagens forjadas são capazes de enganar muitos Estados e tendem a perdurar por muitos anos. Exemplos são inúmeros. O Brasil seria hoje uma democracia racial, mas basta um olhar mais atento no preconceito que emerge no dia a dia do país para averiguar que não é bem por aí, que se trata de um racismo brando, indireto. Os EUA estariam levando a democracia para países do Oriente Médio, todavia, um olhar mais acurado pode mostrar que há uma malha de interesses envolvida, para além desse discurso cosmopolita.

E aos poucos as imagens vão se revelando e aquele preconceito ou aqueles interesses, que estavam bem escondidos, vão aflorando. O nosso Tio Sam enfrenta, atualmente, um interessante caso desse tipo. O prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, propôs que fosse construído um centro comunitário islâmico há algumas quadras do que os estadunidenses chamam de marco zero – onde se localizava o World Trade Center.

A simples proposta foi suficiente para que a imagem de democracia e igualdade se desconstruísse, dando lugar a sentimentos de xenofobia e preconceito. A oposição defendeu que se mudasse o lugar de construção do prédio e, famílias das vítimas dos atentados clamaram que se tratava de um desrespeito à memória dos falecidos.

Mas que desrespeito seria esse, senão dos próprios estadunidenses frente aos praticantes da religião islâmica? Assim como ocorre com a radicalização em qualquer religião, aquela visão apaixonada que impede de se olhar o mundo mais racionalmente e dá lugar a preconceitos e assimilações errôneas também ocorre com muitos estadunidenses (aos que gostam de cinema, o filme “O Jogo da Morte” explora bem essa temática).

Na política, é importante que as imagens se construam e desconstruam, porque só assim as sociedades podem ver os preconceitos, racismos e xenofobias ocultos, e visar realmente a construção não só de uma nova imagem, mas de alguns novos valores.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

É preciso palavras para construir o silêncio


[Observação importante: este é o título da dissertação de mestrado de Mariana Bertol Carpanezzi no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UnB (aqui) e me pareceu oportuno para a temática abordada no post abaixo.]

E como anda o Paquistão depois das enchentes? Quase não anda. A comunidade internacional até se sensibilizou com as enchentes que afetaram o país, mas foi muito pouco além da sensibilização. Até o momento, estima-se que 1.600 pessoas tenham morrido e 20 milhões estão desabrigados, 20% do território está submerso, 700 mil casas foram destruídas e o prejuízo das safras é da ordem de US$ 1 bilhão (aqui). Sem casa, sem comida, sem dinheiro e doentes. Eis o infortúnio paquistanês!

No rol das problemáticas listadas acima, as doenças se apresentam como a mais comprometedora, visto que uma epidemia de cólera poderia dizimar rapidamente um número muito maior de pessoas do que as enchentes o fizeram. Para efeito de curiosidade, na Guerra do Paraguai (1865-1870), a cólera matou mais do que os combates entre a Tríplice Aliança e o Paraguai.

A fim de acelerar ajuda da comunidade mundial, Ban Ki-moon foi para o Paquistão. Deu uma declaração bombástica, “É o pior desastre que já vi!” (e o Haiti, onde o número de morte foi praticamente 125 vezes superior?), disse que as cenas cortaram o seu coração. Palavras fortes, sem dúvidas. A situação está crítica, acredita-se que a demora no fornecimento de ajuda deve-se ao “déficit de imagem”. O que seria isso? Bem, chegou-se ao absurdo de reter doações por causa do “cansaço” da mobilização de recursos em prol do Haiti. A ONU solicitou US$ 460 milhões e até agora obteve apenas 32% do valor. Um agravante às doações é o medo de que o dinheiro doado acabe na posse dos Talebans. Fato é, no entanto, que o valor levantado pela organização está muito aquém daquele que pode custar a reconstrução do país: US$ 15 bilhões, segundo o embaixador paquistanês no Reino Unido, Wajid Shamsul Hasan.

Indubitavelmente, é muito sensível a questão paquistanesa. Mas há uma pergunta que não quer calar: e os Estados Unidos? O governo norte-americano se “aliou” ao governo paquistanês para o combate ao terrorismo no Oriente Médio. Para isso, não hesitou de modo algum em repassar verbas. Aliás, estima-se que os EUA, desde o 11 de setembro, gastaram US$ 1 trilhão em sua guerra contra o terror, sem contar que destinam 4,3% do PIB (US$ 661 bilhões) para gastos militares. Após as enchentes que devastaram o país, a ajuda para a reconstrução foi de US$ 71,2 milhões. É melhor combater o terror como entidade imaginária do que quando ele adquire rostos; a personificação do terror contradiz os interesses do Tio Sam. Para piorar, a identificação de focos terroristas no Paquistão atravanca a ajuda internacional.

Pois é, a mobilização discursiva em prol da questão paquistanesa é muito bonita e necessária, mas as palavras só estão contribuindo para construir o silêncio. Silêncio de entidades e países que relutam em repassar recursos. Silêncio dos norte-americanos, desinteressados no apoio humanitário, apenas no bélico. E o pior, o silêncio do povo paquistanês, cujos gritos diários de sofrimento passarão longe dos holofotes da mídia. É ensurdecedor este silêncio...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Há um ano...


Há um ano, estávamos discutindo três temas importantes, cada um à sua maneira, e que acabam sendo paradoxalmente recorrentes um ano depois.

Giovanni discutia acerca da Estratégia Nacional de Defesa e seus pontos principais, uma discussão que aparentemente tem aplicação pratica apenas daqui a algumas décadas (prazo para a aplicação de toda a grana envolvida e para se ver os resultados ), mas cuja motivação podemos ver na urgência em proteger o pré-sal e todo aquele Oriente Médio na costa brasileira. Sabem como é.

O interessante foi ver como os posts de Ivan sobre a “filtragem” de notícias na mídia internacional e da Adriana sobre questões culturais – e que deu uma senhora discussão – se relacionariam hoje. Lembram de como a mídia está se alvoroçando no caso da iraniana condenada à morte? O que menos importa no circo internacional é a vida da coitada, e sim a repercussão política dos envolvidos, com a condenação veemente do sistema iraniano. Não defendo, mas lembrem do relativismo cultural. Sabem como é.

Por fim, tínhamos dois posts (um do leitor Antonio Mota e outro do Luis Felipe) acerca dos problemas de mudança climática. Mas a discussão destes teve um rumo meio diferente. Um ano depois? Claro que vieram um monte de problemas econômicos e os temas menos importantes foram aparentemente esquecidos pela grande mídia. Sabem como é.

E isso aí pessoal, postando e relembrando.

sábado, 14 de agosto de 2010

Hasta la victoria, siempre?

Post rápido apenas para lembrar um fato marcante. Pelo menos para Cuba. Ontem foi aniversário de Fidel Castro. Sim, aos 84 anos de idade, eis que o líder cubano volta aos noticiários internacionais. Garantindo ser o mesmo revolucionário, a data foi festejada não-oficialmente. (Hugo Chávez o parabenizou via twitter... tempos modernos, não?!)

Na verdade, o que chama a atenção é sua volta, há alguns dias, ao Parlamento cubano – discursando pela primeira vez desde que entregou a ditadura cubana a seu irmão, Raúl, há quatro anos por motivos de saúde. A comunidade internacional em geral não acreditava na possibilidade de volta de suas aparições públicas, mas o líder surpreendeu novamente.

Hasta la victoria, siempre? É, parece que Fidel segue seu lema ao pé-da-letra.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A síndrome de Dom Quixote nas Relações Internacionais


[post do Luís Felipe]

Não houve cavaleiro andante mais valente que Don Quixote. Junto com seu leal escudeiro de aventura Sancho Pança e montado em seu cavalo Rocinante, viveram grandes aventuras para honrar a sua grande amada Dulcinéa. É a história de um fidalgo que lendo diversas histórias de aventuras e batalhas vividas por cavaleiros, desde os mais remotos tempos da história, terminou por perder o juízo e sair a viver sua própria loucura (autodenominadas aventuras pelo próprio Don Quixote). Não bastasse lutar contra guerreiros imaginários e viver honrarias inexistentes, o nosso cavaleiro andante ainda promete um reino a Sancho Pança.

Esse livro que eleito com a melhor obra de ficção da história por críticos literários em 2002, traz algumas reflexões sobre os líderes mundiais. O poder pode se tornar um vício para muitos líderes, que de alguma maneira desejam continuar ininterruptamente envolvidos nos processos de decisão mundial. Assim como narra Cervantes, um cavaleiro que sai pelo mundo lutando contra os agravos e coisas erradas que vê – ainda que completamente sem juízo e razão, há líderes que parecem cegados por algum fator externo e que passam a viver mais fantasia do que realidade.

Por vezes, o próprio Sancho Pança, apesar da ilimitada cumplicidade ao seu líder, parece duvidar de suas histórias, promessas e crenças. A tradicional divisão entre política interna e externa parece um bom pano de fundo para a correlação entre Don Quixote e os nossos líderes. Quantas não foram as vezes que um líder não bradou pelos mais caros valores nacionais frente a qualquer crise que ameaçasse sua popularidade, sejam nacional o internacional. A tentação de utilizar-se de subterfúgios é imensa, poucos são as pessoas que não preferem culpar outros por seus próprios erros.

O jogo diplomático, contudo, ainda pode ser considerado o principal campo em que os líderes são afetados pela Síndrome de Don Quixote. Como bem cita Sombra Saraiva, interesses são camuflados na forma de valores. O eixo do mal, a ameaça a democracia, o perigo das armas de destruição em massa, entre tantos outros exemplos na história, nos mostram que a ilusão e a imaginação de Cervantes para criar seu personagem, já encontraram luz em eventos nas Relações Internacionais. Há loucura nas Relações Internacionais, pessoas cegadas por ideologias? Ou simplesmente interesses?

Como toda pessoa sem juízo, Don Quixote encontra muitas pessoas que preferem deixar-lhe viver seu sonho, afinal é só mais louco no mundo. Nas Relações Internacionais, no entanto, uma pessoa sem juízo é suficiente para causar estragos que podem levar décadas para serem dirimidos. No jogo das decisões políticas de todas as esferas existe uma loucura aparente, tal qual do nosso cavaleiro andante, advindas de leituras de grandes teóricos políticos e desventuras de outrora. Parece neste caso, ainda assim, que toda a loucura está revestida de um interesse, ao contrário de Quixote que tanto ler e ouvir falar de aventuras, terminou inocentemente insensato.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Conversando com a Teoria

Panorama Histórico do Sistema Internacional - I

Olá, pessoal. Vamos a mais um post desta nova coluna. É hora de conversar mais um pouco com a Teoria, ainda que não seja a Teoria das Relações Internacionais propriamente dita. Antes de adentrarmos a ela, precisamos passar por algumas considerações preliminares. Assim, ocuparemos este e o próximo post para tratarmos do sistema internacional, todavia, sem todo o aprofundamento de Hedley Bull e Adam Watsom (deles, trataremos mais para frente). (Obs: não se diferencia aqui sistema internacional ou interestatal de sistema de Estados.)

Que tal começarmos com uma breve passagem do livro As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino? Num dado momento, estava Marco Polo descrevendo uma ponte, pedra por pedra, quando Kublai Khan perguntou: “Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?” Marco argumenta que uma ponte não é sustentada por uma ou outra pedra, mas pela linha do arco que elas formam. Ao ouvir isso, Kublai permanece em silêncio, refletindo, e depois indaga por que Marco lhe falava das pedras quando na verdade era o arco que importava. Em sábias palavras, Marco lhe responde: “Sem pedras não há arco.” Hoje, parece muito fácil ver o sistema internacional como o "arco" e os Estados como as "pedras", afinal a população mundial vive em Estados independentes, os quais influenciam profundamente o modo de vida entre todos os povos e, em suas interações mútuas, compõem um sistema, o sistema internacional. Mas teria sempre sido assim?

Ora, em primeiro lugar, o sistema internacional não é algo dado, e sim construído. Não fora determinado por Deus, tampouco pela natureza, mas produto de construções humanas empreendidas em épocas determinadas, fazendo-o se configurar com uma organização social que apresentou suas vantagens e desvantagens no decorrer do tempo. Em segundo, as relações internacionais englobam uma complexidade de fenômenos e envolvem uma diversidade de atores que dificilmente poderíamos conceber um sistema internacional historicamente predeterminado e estático.

Se pensamos desta maneira, então podemos transcender as fronteiras do tempo e buscar as raízes históricas do sistema internacional para além da criação dos Estados, em 1648, ou da própria palavra internacional, cunhada por Jeremy Bentham, em 1780. Portanto, encontramos a primeira demonstração de um sistema de Estados - ainda que organizado internamente - na Grécia Antiga, uma vez que abrangia um grande número de cidades-Estado e cujas interações, sobretudo, estavam assentadas numa linguagem e religião comuns. Com a ruína da civilização grega decorrente da Guerra do Peloponeso, o Império Romano alastrou-se por quase todo o mundo antigo – isto é, pela Europa, Ásia e África –, prefigurando uma restrita concepção de um sistema internacional, cujas relações eram marcadas pela submissão à Roma ou pela revolta.

O declínio do Império Romano Ocidental e o início da Era Medieval engendraram um novo arranjo para o mundo da época - abarcando a concepção geográfica supracitada. O sistema internacional passou a ser arquitetado por Estados que coexistiam nem de modo independente, nem soberano, e tampouco tinham suas fronteiras claramente demarcadas. Em tal configuração, o poder e a autoridade estavam organizados sob bases políticas e religiosas – isto é, entre os reis e o papa -, com a preponderância da cristandade sobre os ditames políticos. Dado que a Europa se dividia em feudos, com cada senhor feudal detendo o domínio sobre sua propriedade e seus súditos, sobrepujou-se a autoridade dos reis e a Igreja permaneceu como a entidade mais influente e mais ligada ao modo de vida da população medieval.

Vamos fazer um pit stop para reflexões acerca da historicidade do sistema internacional. Na semana que vem, continuaremos com esta viagem. Até lá!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Homossexualismo, religião, conservadores, liberais...

Antes de tudo, esse post não tem a intenção de tomar partido em nenhum dos lados. O objetivo é incitar o debate e ao mesmo tempo buscar a compreensão.



Quando vi esse vídeo no Blog do Sakamoto fiquei realmente intrigado. Dotado de um sarcasmo sem limites essa produção busca provar o absurdo de algumas pesquisas a respeito da orientação sexual. A questão é: não existe melhor destino para recursos médicos do que uma pesquisa dessas? Para aqueles de tendência mais liberal, seria muito mais útil pesquisar a cura do câncer, AIDS entre outros males da humanidade. Entretanto, como ficam aqueles que consideram isso um mal?

Muitas vezes esquecemos que a mesma certeza que temos que algo é certo, aquele "conservador" tem o mesmo ou até maior grau de certeza da mesma coisa. E nós tratamos de taxá-los de preconceituosos, insensíveis e afins. Uma vez li um comentário no Youtube que me intrigou profundamente, era algo assim:

"Alguém já parou pra pensar o quão difícil é ser conservador? Saber que a todo momento suas opiniões serão refutadas não apenas em argumentos mas também te atacando pessoalmente? Tem noção como é difícil ser taxado de burro e de pessoa que não merece ser ouvida?"

Praticamente todos aqueles que se consideram fora do campo conservador (algo completamente relativo ao ponto de vista) tem como passatempo avacalhar com qualquer proposição contrária, sem nunca de apoiar o Liberal Obama, é claro. Esse vídeo, resposta inteligente como refutação de argumento, terá efeito nulo naqueles que acham que o homossexualismo é doença. Por mais que se diga que tentaram de todas as maneiras convencer os outros de seu ponto de vista, não será tirando sarro que conseguirão algo de uma instituição tão antiga e "bem resolvida". Nessa falta de compreensão, acabamos por distanciar ainda mais os lados em questão e terminamos por ativamente buscar o retrocesso nas relações humanas.

No final, fica assim: a tendência conservadora costuma ser considerada a tendência da inação, da elite que não quer largar o poder, do atraso; do mesmo jeito que os liberais se acham a frente da libertação, os donos da verdade que levarão o planeta ao futuro perfeito cheio de direitos pra quem precisa.

Mas será que existe um lado certo? Será que existe um lado?


terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um desfecho sem final


A troca de acusações entre Colômbia e Venezuela que levou ao rompimento das relações diplomáticas entre ambos os países está perto do seu final. O encontro entre Chávez e Santos (aqui, aqui e aqui) pode pôr termo à situação embaraçosa que perdura há aproximadamente três semanas, mas é mais um episódio da longa história de rivalidades e tensões que perdura por toda a América do Sul. Vez por outra, elas afloram num quadro de normalidade política supostamente instaurado na região e logo se aquietam, aguardando nova oportunidade para regressarem. (Este post foi escrito antes do encontro, podemos debater as repercussões do mesmo nos comentários.)

Em geral, no plano das idéias, as políticas externas se assentam sobre o cumprimento do grande destino da nação - como o “destino manifesto” dos Estados Unidos, o grand dessein de De Gaulle - e com a Venezuela não é diferente. Guardada as devidas proporções do tempo e do espaço, Chávez relembra o governo de Pérez Jiménez, quando este acreditava na grandeza venezuelana na região, graças às suas reservas de petróleo, o que lhe permitiria capitanear os esforços em prol da integração latino-americana, num sentido mais amplo. (Infelizmente, não tenho muitas informações sobre a historiografia colombiana, se alguém puder compartilhá-las, seria muito proveitoso.)

Outra ponto importante: por vezes, sobreleva-se a dimensão do narcotráfico e se diminui a dos conflitos interestatais. Um questionário de Segurança Hemisférica elaborado pela OEA em 1999 apresentou o narcotráfico como a principal ameaça ao continente e os conflitos armados como a quarta. Fato é que há praticamente 70 anos não ocorre um conflito armado de grande envergadura na região (o último foi entre Peru e Equador, 1941-1942). No entanto, seria ingênuo supor que eles estão eliminados por completo. Vários litígios posteriores ficaram no quase, como a questão do Estreito de Beagle em 1978 e a crise diplomática de 2008 entre Colômbia e Equador. Ademais, em tempos recentes, há a necessidade de se explorar melhor as perspectivas de desdobramentos do narcotráfico para conflitos interestatais.

Em meio a tantos percalços, ocorre novamente a idéia da integração. Por um lado, a mediação da UNASUL mostrou-se completamente falha e sem valor. Por outro, é hora de se pensar como criar arranjos políticos e institucionais vinculantes aos países-membros do bloco. É preciso passar dos surtos integracionistas para um processo contínuo, de maneira a concretizar essa busca tão antiga, cujas aspirações remontam as épocas independentistas, desde Simón Bolívar.

Por fim, há dois artigos que merecem um destaque especial. O primeiro, de Sombra Saraiva, considerou o episódio entre Colômbia e Venezuela um “Jogo combinado nos Andes”, já que Chávez procurou sufocar a informação de que o seu país é o único em recessão na região e Uribe reafirmou que a eficácia política está ligada à condução de um governo por mãos duras. O segundo, de Clóvis Rossi, argumentou que o teatro de Chávez é benéfico a todos, exceto às Farc. Sem pormenorizá-los ainda mais, o que chama a atenção em ambos é o tratamento do episódio como um “espetáculo”. Espetáculo este que, em grande medida, demonstra o entrelaçamento entre os mitos de política externa, as rivalidades e tensões, as perspectivas de conflito na região mais pacífica do mundo e os caminhos e descaminhos da integração. Espetáculo que aguarda uma nova platéia. Um desfecho sem final!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Lembranças

[Esse post foi escrito pelo Álvaro, que no momento está rumo à Semana de RI da UNESP Franca]

No dia 06 último, se completaram 65 anos do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. O mesmo vale para o dia de hoje, 09 de agosto, data do ataque nuclear em Nagasaki. O uso dessas armas na atualidade parece descabido, e resta a memória pavorosa dos eventos de agosto de 1945. No ano em que, pela primeira vez, emissários norte-americanos representaram o país oficialmente na cerimônia de homenagem às vitimas dos bombardeios, eis um vídeo interessante sobre o assunto, que mostra todas as explosões nucleares ocorridas de 1945 a 1998.


A maioria são testes subterrâneos, claro. Mas há muitos fatos curiosos, como reparar que a quantidade de explosões no desenrolar do vídeo reflete a lógica dos Estados nos períodos da Guerra Fria: em anos-chave como 1958 e 1962, pipocam explosões por todo lado como instrumento de dissuasão; após 1992, com o START, acabam os testes nos EUA e Rússia. Quando a URSS testava algum aparato logo os EUA respondiam com várias explosões (o mesmo ocorrendo em menor escala para Índia e Paquistão na década de 90). Aliás, não houve um ano até 1993 sem que os EUA não estourassem uma única bomba. E a medalha de bronze nesse ranking, surpreendentemente, é da França, que emporcalhou o Pacífico e já testou bombas até na África (como se já não bastassem os problemas que eles já têm). Houve até testes no Atlântico sul, bem pertinho do Brasil, numa tal “Operação Argus”. Diz-se inclusive que houve testes clandestinos no Brasil, na cidade de Quixadá, mas isso já entra no terreno das teorias de conspiração.

Contudo, acho que o mais impressionante é ver o número total de bombas que já foram acionadas. 2053 artefatos até 1998. Praticamente uma bomba a cada 100 dias. Dizem que não se disparou um tiro entre EUA e URSS na Guerra Fria – mas explodiram mais de duas mil bombas atômicas! Na imagem final do vídeo é assustador ter noção de ver em quantos lugares isso já ocorreu (e que a costa oeste dos EUA ainda esteja inteira...).


Em um ano de revisão de protocolos do TNP, polêmica do programa nuclear iraniano e estripulias da Coréia do Norte, cabe uma pequena reflexão de um tema que parece meio distante, ou até mesmo enterrado no passado. Se é perturbador saber o tanto de explosões que ocorreram, ainda pior é constatar que ainda haja milhares desses artefatos estocados ou que seja cada vez mais plausível que algum esteja em mãos de gente sem receio de causar uma hecatombe. Basta um maluco explodindo uma no lugar errado para que a tragédia ocorra. Pode parecer algo de um passado distante, superado, mas o pesadelo nuclear vai acompanhar o homem enquanto houver quem possua ou saiba montar esses aparatos da morte.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pedras e bom coração

O caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani tomou maiores proporções essa semana. O presidente Lula ofereceu asilo no palanque, foi chamado de desinformado e emotivo pelo ministro das relações exteriores iraniano... Muita informação de repente jorrada pela mídia, uma súbita mudança de postura do Brasil com o Irã, e também a situação das condenações a morte no mundo. Vamos por partes.

Ashtiani foi condenada em maio de 2006 por ter mantido uma "relação ilegal" com dois homens, a 99 chicotadas. A pena se cumpriu. Pouco tempo depois, a mãe de dois filhos foi novalemnte a julgamento por adultério, e dessa vez deu-se a sentença por apedrejamento. Ashtiani alega inocência. Depois de protestos em muitos países e organizações internacionais, no início de julho deste ano, chegou-se a anunciar que Ashtiani não seria morta por apedrejamento, e que a pena seria revista. Oficialmente, não há confirmação dessa informação, nem nenhuma garantia da mudança.

O Irã foi o segundo país que mais executou condenados à morte em 2009. Dados oficiais dizem que 388 pessoas foram executadas por ordem da Justiça no país, atrás apenas da China, que não divulga esse tipo de informação - sabe-se que a Justiça condena à morte mais pessoas que todos os outros países somados.


A pena de morte (ou pena capital) é ainda aplicada em muitos países (prevista em 58, aplicada em 18). Em geral, e sem discussão do poder que o Estado tem para tirar a vida de alguém, os métodos atualmente aplicados abrangem apedrejamento, câmara de gás, fuzilamento, injeção letal, forca, cadeira elétrica e decapitação. Para nos restringirmos ao caso da iraniana, a morte por apedrejamento é feita de maneira que o condenado seja amarrado e enterrado até a altura do peito, no caso das mulheres. O juiz inicia atirando uma pedra, seguido pelos jurados e pelo público, até que a pessoa morra por traumatismos, cerca de uma hora depois.

Voltado ao envolvimento do Brasil. A famosa carta secreta enviada dos EUA ao Brasil, que supostamente conteria instruções ao governo brasileiro sobre as preocupações norte-americanas quanto ao Irã, misteriosamente vazou para a mídia. Depois das atrapalhadas negociações com Irã e Turquia, e do apoio (nem sempre) velado a outros países violadores de direitos humanos, num terceiro-mundismo infundado, Lula teve uma sacada de mestre. O presidente afirmou que, "como cristão", não considera correto que um Estado condene uma pessoa à morte, mas é uma situação muito delicada pois envolve a soberania de um país... Que bom coração!

O Brasil recebe essa mulher! Não é humano apedrejar ninguém, assim como não é humano 'se deixar morrer de fome', não é mesmo, Lula?


sábado, 7 de agosto de 2010

Vinícius, eterno!

[O colaborador Giovanni Okado nos brinda com um ótimo texto sobre Vinícius de Moraes - poeta, boêmio, diplomata, e, post mortem, Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Confira abaixo!]

"Meu Vinícius de Moraes,
Não consigo te esquecer,
Quanto mais o tempo passa,
Mais me lembro de você."

Não apenas Tom Jobim, mas o Brasil inteiro se lembra. Há uma saudade cuja idade não falta a memória e o tempo não fenece: duas décadas sem a cultura, a música e a poesia do inesquecível Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, ou simplesmente Vinícius de Moraes (confiram sua biografia).

Nascido em 1913, no Rio de Janeiro, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Vínicius haveria de transcender com a beleza poética, transformada posteriormente em canções, à dureza da realidade: guerras, crises e tensões, externamente; lutas sociais e a ditadura, internamente. Poeta e diplomata, mas também boêmio. Uma boemia que lhe rendeu tanto críticas quanto uma criatividade extraordinária, inclusive para responder às críticas à altura e com elegância (como no episódio em que ele bradou os versos de Poética para os jovens salazaristas, ferrenhos à ditadura lusitana, e estes se curvaram ao gênio).

Pessoa de gostos simples, apaixonado pela carne seca desfiada da tia Beti (mulher de Pixiguinha), e requintados pela poesia francesa. Num país condenado por suas imperfeições, foi patriota como poucos, como expresso no poema Olha Aqui, Mr. Buster. Sofredor, como há de ser o grande poeta, perseguido pelo AI-5 e sempre saudoso do Brasil, quando no exterior. Em resposta à publicação do AI-5, Vinícius declamou Minha Pátria, juntando a perseguição e a saudade:

“Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!”

Só que a perseguição lhe custou a carreira diplomática, já tão contestada por ser incompatível com a de músico. Não bastasse aposentá-lo compulsoriamente do serviço público, em 1969, classificou-o entre os “bêbados, boêmios e homossexuais”. Classificações que seriam varridas junto com o regime autoritário, preservando a herança cultural e literária, antes confinada aos círculos elitistas, por toda a nação. Vinícius não assistiu à queda da ditadura, morreu em 1980, vítima de um edema pulmonar. Partiu sem pedir a benção e dizer adeus. Mas segue como um ícone raro de nossa história, capaz de unir a ação ao sentimento (embora ele tenha dito isso a Carlinhos Lyra), de demonstrar que as palavras se sobrepõem à força.

É, Vinícius, sem você, o Brasil emudeceu e ensurdeceu. Ainda assim, não o esqueceu. Exemplo disso é a sua elevação post mortem ao cargo de Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata (aqui), o mais alto cargo dessa carreira. Você foi eterno enquanto durou, e que assim permaneça quando não mais dura. A benção a nós que ficamos e o reconhecimento a você que partiu...

[Para quem tiver interesse, no YouTube está disponível uma sequência de vídeos sobre Vinícius de Moraes, no programa Mosaicos. Acesse aqui a parte 1, a parte 2, a parte 3, a parte 4 e a parte 5. Vale a pena!]

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Diamantes de sangue

E não é que Naomi Campbell se encontra mais uma vez nos tablóides internacionais? Só que dessa vez o assunto não são suas destemperadas reações que já renderam tantos escândalos. O caso atual é que a top model depôs ontem no Tribunal Especial de Haia destinado a julgar as acusações de crimes de guerra contra o ex-presidente da Libéria, Charles Taylor.

Arrolada entre as testemunhas do processo, Naomi confirmou ter recebido diamantes de presente no ano de 1997, por ocasião de um jantar de caridade na casa de Nelson Mandela, presidente sul-africano à época. Com essa informação, a promotoria pretende vincular Charles Taylor, também presente no dito jantar, aos diamantes – já que este foi visto conversando com a modelo durante o evento e demais testemunhas afirmaram ter escutado o então presidente da Libéria dizer que gostaria de presenteá-la com diamantes.

A grande polêmica não envolve o encantamento que a modelo pode ter motivado em Taylor, despertando-lhe a ânsia por agradá-la com mimos ou diamantes, os melhores amigos das mulheres, como se diz por aí. O que preocupa o Tribunal de Haia é a origem dos tais diamantes e a forma como estes podem ter financiado a guerra civil de Serra Leoa, país vizinho à Libéria.

O ex-presidente liberiano possui contra si 11 acusações de crimes de guerra e contra a humanidade que são relacionadas à sua possível influência na guerra civil de Serra Leoa (mais informações aqui). Taylor está sendo investigado por vender diamantes e comprar armas para a “Frente Revolucionária Unida de Serra Leoa”, grupo rebelde famoso por atrocidades (como amputar mãos e pernas de civis) durante a guerra civil que durou quase 10 anos no país, iniciada na década de 90. A instabilidade política de Serra Leoa – bem como da própria Libéria à época, articuladas com a venda de diamantes para o incremento dos armamentos utilizados no período de crise revolucionária, provocaram a morte e a mutilação de milhares de pessoas, chamando a atenção da mídia internacional e dos ativistas em defesa dos Direitos Humanos.

O início do julgamento internacional de Taylor deveria ter acontecido em 2007, mas seu primeiro depoimento aconteceu apenas ano passado e a previsão é de aproximados 18 meses de trâmites para a conclusão do processo para o qual tantos flashes se voltaram nessa semana de testemunho de Naomi Campbell.

Charles Taylor não é acusado por cometer os crimes pessoalmente, mas existe forma mais direta de cometer crimes do que apoiar, ordenar ou compactuar com estes atos? A polêmica envolvendo diamantes na África já foi tratada aqui no blog, e certamente se encontra na raiz das discussões em Relações Internacionais envolvendo os conflitos na Libéria e em Serra Leoa.

Resta apenas imaginar se Taylor um dia imaginou que um “inocente” agrado a uma mulher atraente renderia subsídios para reforçar uma acusação de crimes de guerra contra ele...

Os Regionalismos e as Relações Internacionais

O papel do MERCOSUL e os atores sub-nacionais no regionalismo continental. Arquiteturas sub-regionais de Defesa: o Conselho de Defesa Sul-Americano. A dimensão e os lugares da cultura nas Relações Internacionais: diplomacia cultural, mídia e processos de integração regional.

Dentre vários temas, acima se encontram algumas das discussões que serão promovidas durante a próxima semana na cidade de Franca/SP, por ocasião da VIII Semana de Relações Internacionais da UNESP. Se você tem interesse no assunto e/ou disponibilidade para participar desse evento, não perca a oportunidade! As inscrições ainda estão abertas.

Acesse http://www.riunespfranca.com.br/semanaderi/ e conheça a programação e os detalhes do evento. Afinal, vale a pena discutir e repensar os “Regionalismos e as Relações Internacionais” em tempos de tantas agitações na América Latina, por exemplo (vide posts recentes, como este ou este).

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Conversando com a Teoria


Atemporalidade das relações internacionais

"A tarefa dos estudantes de política internacional é a de construir a partir do passado sem serem por ele aprisionado, de compreender tanto as continuidades como as mudanças." - Joseph Nye

É hora de conversarmos com a teoria! Chegamos agora ao primeiro post desta nova coluna. Antes, porém, de entrarmos nas teorias propriamente ditas, convém uma análise mais ampla sobre a idéia de relações internacionais. Será que só podemos falar em relações internacionais a partir da Paz de Vestifália, instituída em 1648 (trataremos melhor disso em outra ocasião)? Tecnicamente, sim. Mas isso não significa que mesmo em tempos anteriores a Cristo não possamos encontrar preocupações e elementos que já presentes nas vindouras interações entre nações e que conformariam as elaborações teóricas de dois milênios depois.

Embora pareça estranho, acreditem, internacionalistas de plantão e acadêmicos de profissão voltaram seus horizontes a eras tão remotas. À parte das contribuições da filosofia clássica, dediquemos este post a duas problemáticas fundamentais que perpassam por toda a história da humanidade: a guerra e a paz. Ressalta-se que ambas são congênitas ao surgimento das Relações Internacionais como disciplina acadêmica, em seu nascedouro galês, e, por muito tempo, constituíram-se com a linha-mestra para as construções teóricas.

Sob o viés belicoso, há pelo menos cinco séculos antes de Cristo já despontava a literatura da guerra na figura de Sun Tzu, um filósofo-estrategista chinês. O autor tornou-se conhecido pelo seu famoso livro “A Arte da Guerra”. Logo no prelúdio de seus escritos, ele afirma que “A guerra tem importância crucial para o Estado. É o reino da vida e da morte. Dela depende a conservação ou a ruína do império.”

Por outro lado, no tocante às condições propícias à paz, formulou-se uma literatura bastante esparsa, cujo enfoque se deu essencialmente no ser humano. Enfoque que inclusive se aproxima das concepções primordiais dos direitos humanos. Entre os anos 600 e 480 a.C. se constata o período axial da humanidade, ou seja, um momento em que coexistiram, mas sem se comunicarem entre si, cinco dos maiores doutrinadores de todos os tempos: Zaratrusta (Pérsia), Buda (Índia), Confúcio (China), Pitagorás (Grécia) e Dêutero-Isaías (Israel). Foram esses ilustres personagens que enunciaram grandes princípios e estabeleceram diretrizes fundamentais para a vida que vigoram até hoje.

Não obstante, o destaque maior coube a Tucídides, quem, para muitos, é considerado o analista pioneiro das relações internacionais, termo este que para ele remetia-se às relações conflituosas e competitivas entre as antigas cidades-estados gregas, a Grécia e os impérios vizinhos (Macedônia ou Pérsia). O historiador analisou todo o contexto em que se desenrolou a Guerra do Peloponeso (431 a.C.), evento que sacramentou o fim da civilização grega. Em um determinado momento, a ascendente Atenas – o centro político e civilizacional grego – começou a formar alianças com outras cidades-estados e compôs a Liga de Delos, a qual paulatinamente ia ganhando proeminência. Por sua vez, a notoriedade da Liga deixou Esparta – famosa por seu exército imbatível – bastante temerosa, forçando-a a delinear alianças com outras cidades-estados e fundar a Liga do Peloponeso. O óbvio e fatídico resultado desse embate foi a guerra.

Pois é, pessoal. Esta breve conversa nos convida a um olhar cuidadoso sobre o passado distante. Nem sempre tudo vem com a aplicação de um termo - no caso, relações internacionais - e a definição de uma teoria. Há uma sociologia do conhecimento que paramenta ambos. Robert Gilpin incitaria a pergunta: os estudantes de Relações Internacionais do século XX sabem alguma coisa que Tucídides desconhecia sobre o comportamento dos Estados? Seguimos conversando...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cedendo às pressões

Há alguns dias que Brasil e Irã retornaram às manchetes dos jornais brasileiros e internacionais. Todavia, não se tratava da conturbada questão nuclear, mas sim de uma questão que, para alguns, é uma das mais polêmicas da política externa de nosso companheiro presidente Lula: a questão dos direitos humanos.

Antes de qualquer coisa, cabe uma breve recapitulação das três aproximações polêmicas do Brasil e das repercussões negativas que têm por aí.

Na aproximação com Cuba, Lula foi criticado pelas supostas vistas grossas frente às greves de fome dos dissidentes e aos presos políticos do país.

No contato com o governo venezuelano, o Brasil é acusado de ouvir demais o inconstante Hugo Chávez, que cada vez mais fecha o cerco contra a sociedade limitando as liberdades de expressão e desviando os olhares, por meio de sensacionalismos constantes, das profundas crises que o país vive.

E na polêmica aproximação com o Irã, as violações do governo dos aiatolás são, por muitos, colocadas como sustentáculo de argumentos opostos à suposta retomada do pragmatismo na política externa – que tem tentado novamente torná-la menos inclinada a argumentos ideológicos.

Bom, atualmente, parece que o Brasil acatou a uma das críticas de sua relação com o Irã. nesse caso, cabe alguns esclarecimentos sobre a declaração de Lula que gerou um bafafá mundo a fora. Aquela na qual o presidente brasileiro pede permissão ao governo iraniano, caso seja necessário, para conceder asilo político à mulher iraniana condena a morte por apedrejamento, Sakineh Mohammadi Ashtiani.

A questão abre precedentes para questionamentos bem interessantes, muito além do entendimento de uma suposta intervenção em assuntos internos iranianos. Ao que parece, o Brasil cedeu às pressões da comunidade internacional e intentou mostrar que se importa sim com as questões de direitos humanos. É interessante, que em alguns países já é esboçada reações positivas a apoios a essa posição. O discurso foi uma espécie de mensagem de Lula à comunidade internacional.

Todavia, essa mensagem foi elaborada em momento inoportuno e em situação igualmente inoportuna. Posicionar-se sobre uma questão de significação cultural tão delicada, vai contra o pragmatismo proposto pela diplomacia brasileira. Quando o Brasil cedeu às pressões internacionais, foi contra sua longa tradição de política externa. Irônico, não?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Os quatro elementos

Ar, fogo, água e terra. Eis os quatro elementos. Místicos e repletos de significações. Pensou-se até mesmo que esses elementos eram formadores da matéria, na medida em que eram combinados. No entanto, ponto comum entre as mais diversas interpretações sobre eles é que eram imprescindíveis à vida. Em tempos recentes, carregam também uma faceta da morte e da destruição.

No começo do ano, uma agência de meteorologia previu uma temporada mais intensa de furacões em relação a 2009, devido à diminuição do fenômeno El Niño. Mal saiu a previsão e já ocorreu o primeiro furacão, o Alex, entre o México e o sul do Texas. Pela terra, os terremotos no Haiti e no Chile permanecerão como uma triste lembrança por um bom tempo. A água e fogo resolveram se manifestar também. Não bastasse o Nordeste brasileiro ter enfrentado chuvas torrenciais devastadoras, agora é a vez do Paquistão. Chegou a 1.500 o número de mortos e excede 3 milhões o de desabrigados e afetados pelas inundações. A Rússia vive a pior onda de calor, desde junho, e o fogo anda tomando conta de seu imenso país: há mais de 500 focos de incêndio cobrindo uma área de 170 mil hectares (cerca de 10% do território russo), que já ceifou a vida de 41 pessoas.

Materialmente, estes elementos não se combinaram de maneira positiva. Não obstante, do ponto de vista hermético ou exotérico, acredita-se que os elementos perfazem um ciclo. Ar: mundo das idéias, origem. Fogo: transformação. Água: emoções inconscientes. Terra: manifestação concreta. Portanto: Ar -> Fogo -> Água -> Terra. Em algumas situações da política mundial, é preciso que o ciclo se complete, como o anúncio de Obama do cumprimento da retirada do Iraque, findando uma guerra desnecessária. Noutras, o elemento fogo deve agir imediatamente, de modo a evitar a deflagração de um conflito entre Israel e Líbano, Colômbia e Venezuela, ou a discriminação européia para com os imigrantes, algo erroneamente suposto como nocivo à integração. São coisas que precisamos acreditar vendo, nos dizeres do Sílvio Santos, recuperada no belo post do Ivan (aqui).

Do ar, veio também uma das iniciativas mais belas que o mundo assistiu (aqui): crianças palestinas, numa manifestação pela paz e pela vida, tentaram quebrar o recorde do número de pipas empinadas simultaneamente, perfazendo um total de 7 mil, em Gaza (não tenho a informação se conseguiram):

Da matéria às idéias, os quatro elementos encontram as suas analogias na política internacional. Muitas vezes, perdura a dúvida se boas idéias se materializarão. Mas é bom tê-las. Assim demonstra Galeano na metáfora utopia/horizonte: quanto mais se corre em direção ao horizonte, mais ele se afasta. Porém, ele está lá, como uma referência, e não se pode deixar de caminhar.