Comemoração especial

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Pois é, parece que, pelo menos para Cesare Battisti, as comemorações deste Ano Novo serão muito mais felizes após a decisão oficial do governo brasileiro de negar sua extradição para a Itália – assunto que tem gerado polêmica há anos e que hoje parece ter visualizado seu desfecho. (Ou não…)

Esta batata quente que tem sido motivo de tantas discussões e opiniões divergentes a respeito da condição de refúgio do italiano Battisti representa um tema repleto de idéias caras às Relações Internacionais. Em meios informativos diversos, os conceitos de soberania, humanitarismo, refúgio político, relações bilaterais, etc., se tornaram recorrentes. E quando o (quase ex-)presidente Lula afirmou que a decisão final do governo a este respeito seria tomada antes do final de seu mandato, as expectativas se aguçaram ainda mais em torno do aguardado desfecho para o destino desta figura que se tornou tão conhecida internacionalmente nos últimos tempos.

Apenas para relembrar, toda a polêmica diz respeito ao fato de que Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas na década de 70, tendo fugido para a França e posteriormente se abrigado no Brasil sob a condição de refugiado (detalhe para o fato de que o Comitê Nacional para os Refugiados no Brasil discordou da decisão do Ministério da Justiça a este respeito). Desde 2009, esta tem sido uma questão delicada em termos diplomáticos entre os governos brasileiro e italiano, sendo que neste mesmo ano o Supremo Tribunal Federal votou (em sua maioria) pela extradição de Battisti, decidindo, no entanto, que o parecer final deveria caber ao presidente Lula. (Veja um histórico mais detalhado aqui.)

Após mais de um ano de incertezas, adiamentos e repercussão midiática, a decisão de Lula representa um momento paradigmático para as relações bilaterais entre Brasil e Itália. (O parecer oficial pode ser lido integralmente aqui.) O principal argumento brasileiro para negar a extradição de Battisti se pauta na “condição pessoal do extraditando”, a partir das disposições do Tratado de Extradição firmado entre os dois países em 1989.

Apesar de o Ministério das Relações Exteriores insistir na soberania da decisão e afirmar que as relações bilaterais não serão afetadas, percebe-se um claro estremecimento diplomático em relação à Itália neste sentido, sendo que suas conseqüências são imprevisíveis. A repercussão nos jornais internacionais sugere que talvez o que aqui chamamos de desfecho não possa ser definitivamente reconhecido enquanto tal…

Apesar dos aspectos de Direitos Humanos, cuja importância mostra-se inegável na tomada de qualquer decisão, é preciso reconhecer que esta questão representa uma polêmica notadamente política, em que as partes têm buscado o reconhecimento de sua soberania e de seus interesses acima de qualquer justificativa humanitária. Considerando que o assunto provavelmente ainda deverá proporcionar polêmicas futuras, por ora a única certeza é que o Ano Novo será especialmente comemorado por Battisti…


Categorias: Brasil, Europa, Polêmica


Retrospectiva 2010: o mundo em estrofes – Parte 2

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[Continuação]

E os direitos humanos? A mídia até se cansou de tanto polemizar o caso da iraniana Sakineh. Enquanto isso, mataram silenciosamente a norte-americana Teresa Lewis. Ninguém protestou. E depois os Estados Unidos quiseram lutar pela proteção dos direitos humanos no Irã, na China e em Mianmar. Outros, de fato, lutaram pela causa. Nos dois últimos países, os exemplos são Liu Xiaobo e Suu Kyi (recém-libertada), respectivamente, a ponto de serem contemplados com o Nobel da Paz; o primeiro, este ano, a segunda, em 1991. E os dissidentes cubanos, aqueles que combateram com a fome e a voz um regime político fechado? Mártires de um solo revolucionário e inspirador, e que testemunhou o retorno de Fidel Castro.

Diante de tantos acontecimentos, compusemos estas estrofes isoladas, sem o poema mundo. Os ciganos, os árabes e os africanos não conseguem um lugar ao sol na Europa. Os latinos não são incorporados pela sociedade norte-americana. As guerras, ou a perspectiva delas, assustam. O terror assusta, mas o que o motiva se cala. Meio ambiente e direitos humanos produzem mais dissensos do que consensos; economia então, nem se fala. Tantas coisas nos separam e nos estranham. Mas somos humanos, animais políticos e também amorosos.

A política e o amor renderam ao escritor peruano Mario Vargas Llosas o Nobel da Literatura este ano. E quem não se emocionou com o filme “Flor do deserto” acerca da luta contra a mutilação genital feminina na Somália, em particular, e na África, como um todo? O amor de Waris Dirie pela família e pelo continente e sua luta contra essa tradição traumática. E o mineiros chilenos, um exemplo de fé e perseverança. É certo que muitas vezes erramos, retrocedemos e nos machucamos mutuamente, porém, somos uma humanidade em evolução, cuja adaptação ao meio contribui para o fortalecimento da espécie.

Amor e política conversam, basta querer. Nossos heróis de palavras emudecidas ou de gritos retumbantes nos ensinaram. Não importa as bandeiras, as cores, as raças, os ideais que carregam, mas as auroras que vislumbram. “O que acontece com qualquer um de nós, afeta a todos nós”, diz Waris Dirie, a protagonista do filme citado. Não deixemos que esta flor murche nos desertos de nossa ignorância e descaso. Não deixemos que a dignidade humana venha nos sopros de misericórdia pelos que se arriscam e acreditam. Que as estrofes que nos separam mantenham sempre a esperança no horizonte e o poema de união no amanhã.

Se 2010 ficou para história, 2011 vem para fazermos história. Feliz Ano Novo a todos nós!


Categorias: Post Especial


A droga do poder absoluto

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Há muito a Rússia tem tentado desvincular-se da imagem de autoritarismo que tem sido intrínseca à sua história. Entretanto, as tentativas não têm atingido lá resultados muito satisfatórios. Do czarismo ao socialismo real, o país demonstra afinidades com líderes absolutos e não necessariamente carismáticos. No país, o poder atinge status de uma droga que após certa freqüência de uso torna difícil o rompimento. Por isso, mesmo após a derrocada da União Soviética a Federação Russa vive às sombras de líderes soviéticos poderosos com capacidades de intervenção em todos os setores da sociedade.

O tempo que se oculta ou se nega a dependência de certa substância química parece inversamente proporcional ao tempo de recuperação, e aos poucos a dependência se nidifica e transparece aos outros. Da mesma forma tem se dado a essa droga do poder absoluto na Rússia, atualmente, sob os auspícios de Vladimir Putin. O líder tem sido acusado de influência direta na extensão da condenação do magnata, líder petroleiro – e financiador do partido de oposição na re-eleição de Putin –, Mikhail Kodorkovsky, preso desde 2005, e tem rendido questionamentos intensos na mídia nacional e internacional sobre o verdadeiro caráter do julgamento.

Teria havido o primado do político sobre o jurídico (também chamado de politização do judiciário por de cientistas políticos brasileiros em análises de nossa realidade)? Apesar de ser necessária certa cautela na análise de eventos recentes, podem haver menores dúvidas quanto aos excessos da droga do poder por Putin. Desde que assumiu seu primeiro posto na KGB, em 1975, passou a crescer em influência e em poder no país até chegar à presidência pela renúncia de Boris Iéltsin. Mesmo após o término de seus dois mandatos (2000-2008), manteve-se próximo ao poder, e em 2008 foi nomeado primeiro-ministro.

Eventos diversos marcam a ampliação da influência de Putin e sua capacidade de manter amigos próximos e inimigos nem tanto. Primeiramente, merece ser citado foi a nova legislação para as eleições de governantes regionais e prefeitos de Moscou e São Petesburgo que, desde 2004, passaram a ser nomeados pelo Kremelin. O segundo seria o desentendimento entre o atual presidente, Dmitri Medvedev, e o prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, em outubro desse ano. O resultado foi a desoneração do prefeito. Para muitos era um distanciamento entre Putin e Medvedev – já que Luzhkov era aliado de Putin. Todavia, sua substituição por Sergei Sobianin fortaleceu ainda mais Putin e seu partido, o Rússia Unida. O terceiro, em 2005, foi a prisão de Kodorkovsky que de aliado de Putin passou a ser financiador da oposição.Desde então tem surgido inúmeras acusações de lavagem de dinheiro, inadimplência e fraude contra ele. Eventos ligados demais para serem considerados mera coincidência. Essa droga do poder absoluto ou ânsia por autoritarismo (como disse Mikhail Gorbatchev em entrevista ao Estado de S. Paulo em 27/10/2010) parece gerar forte dependência nos líderes russos.

Se Putin encabeçou os exemplos supracitados, não se tem certeza, mas sua participação neles é bem evidente. Então a resposta à pergunta do início do post parece mais positiva do que negativa. Apesar de tentativas de ocultar, há momentos nos quais transparecem os problemas de um dependente químico. E a Rússia de Putin não está muito longe disso.

[Para um interessante artigo sobre algumas condições do sistema carcerário russo, clique aqui]


Categorias: Ásia e Oceania, Política e Política Externa


Retrospectiva 2010: o mundo em estrofes – Parte 1

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[Pois é, pessoal, hora de rever o que aconteceu neste ano de 2010. Fizemos a seleção de alguns fatos e o leitor pode contribuir com outros que julgar interessante. O que acham?]

Lá se vai 2010, voando nas asas do tempo, sem remorso ou lamento. Lamentamos nós, que aqui ficamos, com a memória e os sonhos. A tristeza e a beleza inspiram dramas e odes. De um lado, a dor; de outro, a esperança. As vozes se levantam em uníssono para saudar 2011, que timidamente vai abraçando nossos destinos. É hora de esquecer, lembrar, acreditar, mas, acima de tudo, seguir em frente.

Neste ano, começamos com o coração abalado pelo abalo sísmico haitiano. O chão tremeu, o país morreu. Solidariedade internacional? Mais inércias do que prática concreta. A solidariedade insuficiente se repetiu no inundado Paquistão, acometido pela cólera. Doença que também se proliferou no já trágico Haiti e se manifestou no desinteresse eleitoral, traduzido nas confusas eleições. Eleições? No Senado norte-americano, a oposição é uma maioria esmagadora, enquanto no Congresso venezuelano a oposição ocupa agora quase a metade das cadeiras. Na Costa do Marfim foi pior, o presidente derrotado disse que continua no poder, mesmo à custa de uma guerra civil.

Guerra civil que encontra um sinônimo no México: a luta contra o narcotráfico. Mais de 30 mil mortes desde 2006. Do Zimbábue, vêm os belicosos diamantes de sangue que adornam os socialites. O país quer novamente exportá-los e levou a reabertura do processo Kimberly. No Afeganistão e no Iraque, continua o hercúleo trabalho da pacificação. Mas a guerra, em caráter iminente, não se destacou apenas no horizonte interno, senão também no interestatal: Colômbia vs. Venezuela, Coreia do Sul vs. Coreia do Norte. Possibilidades de invasão ao Irã por parte das grandes potências ou de um confronto entre Israel e Líbano não faltaram como ingrediente bélico.

A guerra também adentrou ao campo econômico, no termo de Guido Mantega, a “guerra cambial”. Soluções individuais para problemas coletivos. Os tentáculos da crise financeira continuam naufragando países. Grécia e Irlanda mergulharam num oceano de dívidas. Espanha, Portugal e Itália serão os próximos. Na França, afetou a previdência e elevou o tempo de aposentadoria em dois anos, rebelando a população. Ruim para os ricos, bom para os emergentes. Em especial, um país vem ganhando relevância, a Indonésia, economicamente fortalecida e que pode trazer uma inovação em política internacional: a primeira potência islâmica e democrática.

Ainda na política internacional, assistimos a um ano marcado pela diplomacia da força, a diplomacia da palavra, a diplomacia secreta e a diplomacia retórica. As grandes potências contra Brasil e Turquia na negociação acerca do programa nuclear iraniano. As sanções contra o diálogo. Muitos “segredos” diplomáticos foram revelados com os intermináveis vazamentos do Wikileaks. No Oriente Médio, palestinos e israelenses retomaram as negociações diretas pela paz, mas a expansão das colônias judaicas travou tudo novamente. Em Cancun, nada de convergência de posições entre países desenvolvidos e em desenvolvimento acerca do meio ambiente.

[Uma indicação de leitura é um artigo da Foreign Policy.]


Categorias: Post Especial


A Nigéria e a (falta de) perspectiva de diálogo

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Em meio a comemorações natalinas no mundo inteiro e festejos desejando bons ares a amigos e familiares, a situação da Nigéria nos últimos dias parece destoar deste contexto comemorativo. Na verdade, há muito pouco a se comemorar em um país em que a tolerância religiosa enfrenta tantos obstáculos e onde cristãos e muçulmanos possuem históricas dificuldades para compartilhar o mesmo espaço.

Tema pouco estudado na área de Relações Internacionais, a religião pode ser visualizada enquanto fator explicativo apenas em meio a uma abordagem construtivista (leia mais sobre o construtivismo nas Relações Internacionais aqui). A partir das noções desenvolvidas por esta escola teórica, valoriza-se a importância do campo das idéias, das crenças e dos valores enquanto pilares para a construção identitária e o jogo de interesses no cenário internacional.

Na Nigéria, desentendimentos entre cristãos e muçulmanos são recorrentes, visto que ambas as religiões são bastante representativas entre sua população e o diálogo não se mostra bem-sucedido (os cristãos predominam no Sul e os muçulmanos no norte do país). Os conflitos que já provocaram mais de 40 mortes nos últimos três dias possuem, destarte, sua origem em divergências religiosas, na medida em que igrejas no estado de Borno foram atacadas por muçulmanos radicais. Os principais atos de violência, contudo, foram visualizados no estado de Plateau, em sua principal cidade chamada Jos. (Assista a um vídeo sobre o assunto aqui.)

É importante notar a complementaridade entre as esferas da sociedade, na medida em que a atual situação crítica nigeriana não pode ser compreendida sem que as esferas econômica e política sejam também vinculadas à análise. A proximidade das eleições presidenciais no país (as quais acontecerão em abril) constitui um fator relevante neste sentido.

As Nações Unidas e autoridades religiosas condenaram as agressões que mancham o clima de paz e esperança predominante na época de Natal, sendo que o Exército tem patrulhado as áreas para evitar a continuidade dos conflitos (foto). Decerto, a única conclusão possível é que ainda há muito a se evoluir no cenário internacional para que populações diversas com crenças distintas possam compartilhar seu espaço e trabalhar para o desenvolvimento social pautadas no diálogo (e não na falta dele) – aspecto tão caro à teoria construtivista das Relações Internacionais…


Categorias: África, Defesa, Paz, Segurança


Conversando com a Teoria

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Ameaça, segurança e defesa


Depois de uma interessante discussão no post sobre segurança pública no Rio de Janeiro, que levou ao emprego das Forças Armadas, pareceu-me oportuno fazer alguns apontamentos sobre este trinômio: ameaça, segurança e defesa. Em outra ocasião, trataremos de um exemplo concreto que pode ser interpretado à luz da teoria liberal das Relações Internacionais.

O que é ameaça? Primeiramente, é uma percepção acerca de uma situação de risco iminente. Um exemplo ilustrativo disso é fornecido pelo Prof. Héctor Saint-Pierre, quando distingue o que um bebê imagina quando vê uma cobra coral e o que percebe um adulto diante dessa cobra. O primeiro pode achar graça; o segundo, teme. Durante a Guerra Fria, pensava-se que as ameaças se restringiam aos conflitos militares interestatais. Nos regimes ditatoriais latino-americanos, a ameaça poderia vir de dentro do país, o chamado “nacional subversivo”. Findado o período bipolar, criou-se o termo “novas ameaças”, para denotar situações de risco que não se limitavam à dimensão militar, como o narcotráfico, o terrorismo, a degradação ambiental, a pobreza, a fome, entre outras.

A segurança é uma condição. Estar seguro é se sentir livre de quaisquer ameaças que possam colocar em risco à existência individual e coletiva. Mais do que a sobrevivência do Estado e dos cidadãos, valores, interesses e bens podem ser ameaçados. Já a defesa é ação. Defender significa fazer tudo que está ao alcance para conter as ameaças, diminuir as vulnerabilidades e dificultar a aparição de perigos. Há a distinção entre segurança nacional e segurança pública e quem defende o quê. A primeira diz respeito ao Estado, defendida pelas Forças Armadas; a segunda, aos cidadãos, defendida pelas forças policiais.

Do ponto de vista individual, é mais fácil entender o trinômio ameaça, segurança e defesa. Por exemplo, conforme o indivíduo vá adquirindo bens de capital elevado, ele fará o possível para protegê-los e se sentir seguro. Caso compre uma mansão, o indivíduo irá fazer um seguro residencial, contratar seguranças e uma empresa de vigilância, colocar câmeras e instalar alarme, entre outras atitudes. O roubo é o que o ameaça. E no plano das coletividades, particularmente, numa situação em que os indivíduos que detenham poucos bens, quem ameaça: o roubo ou a pobreza? E no plano internacional, o que ameaça um Estado ameaça também os demais?

Percepção, condição e ação, na maioria das vezes, não convergem e se tornam mais complexas quando deixam o nível individual para o coletivo, politicamente organizado ou anárquico. São as escolhas e as necessidades que definem as ameaças, a segurança e a defesa. Neste trinômio, não se permite errar. Os erros podem ser fatais.

[Como indicação de leitura, fica os Atlas de Segurança da Resdal, disponíveis no site]


Categorias: Conversando com a Teoria, Defesa, Paz, Segurança


Um novo começo para Obama?

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Quanto mais aproximamo-nos das festividades de fim de ano, mais a atividade política estadunidense intensifica-se. Esses últimos dias são o período chamado de “pato manco” (tradução do inglês: lame duck), no qual são buscadas as aprovações das últimas pendências do ano para o Congresso. O presidente Obama que, apesar da aprovação de seu novo plano para a saúde e de alguns modestos cortes de impostos, não obteve melhores resultados no combate à crise econômica tem buscado maneiras criativas de driblar a âncora da impopularidade à qual tem sido exposto.

Restaram-lhe poucas opções para que saboreasse um agradável fim de ano. A aprovação de alguns projetos que representassem um pouco do “yes, we can” de sua campanha talvez fosse interessante. E eis que Obama obteve algumas vitórias bastante emblemáticas garantindo, a seu pato manco, boa posição nessa longa maratona política. Dentre as medidas aprovadas, o campo da defesa nacional e da segurança foi o mais privilegiado na agenda.

A primeira suposta vitória foi o “sim, nós podemos acabar com o preconceito”. Discussões aparentemente infindáveis sobre a política adotada para os homossexuais nas forças armadas, o “Don’t ask, don’t tell” – a garantia do silêncio se esses desejassem continuar a servir a defesa nacional (para mais sobre isso no blog, clique aqui) – atingiram um final com a revogação dessa política. Ainda há a necessidade de alguns dias para averiguar se essa medida foi benéfica para maior unificação das forças armadas e, somente então, haverá maior liberdade aos homossexuais.

A outra foi o encaminhamento da ratificação do novo tratado START (para mais sobre o assunto no blog, clique aqui) de redução de ogivas nucleares com a Rússia. O que antes era tido como vitória dos democratas, passou a impasse dos republicanos. Meses de incerteza transformaram-se em um sentimento de “ruim com ele, pior sem ele”, e muitos republicanos aderiram à ratificação. As reservas ao tratado variam entre o grau da fiscalização e os armamentos incluídos nessa redução.

Com ou sem essas supostas vitórias no Congresso, o presidente estadunidense ainda se encontra em situação delicada. Contudo, uma pergunta ainda paira no ar ao final desse ano: seria esse um novo começo para Obama? Em âmbito internacional há o entendimento de que a mudança jamais chegou aos Estados Unidos e que não passou de retórica política. No plano interno, a acentuada crise e os elevados níveis de desemprego ainda representam um grande desafio.

Apesar de a defesa nacional ser uma questão mais popular nos EUA que no Brasil, Obama terá de trabalhar muito no próximo ano se ainda vê a reeleição como resolução de Ano Novo. Nesse caso, por enquanto a resposta é muito mais para o não do que para o sim. Mas, em se tratando de política, resta esperar para ver.


Categorias: Estados Unidos, Política e Política Externa


Um monólogo dual

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Isto é o que aparenta ser as relações entre Estados Unidos e Brasil neste ano. Convergências formais e divergências atuantes, mas pouco caso sobre a repercussão que a posição sustentada por uma das partes teria sobre a outra, sem ilusões acerca do imperialismo do Norte ou do protagonismo do Sul. Desconfianças, reclamações e Wikileaks à parte, são dois países que marcham autonomamente em direção ao destino, cujo cálculo estratégico – sobre ou supervalorizado – enseja o raio de ação que vislumbram.

No início do século XX, Barão do Rio Branco profetizou que este seria o século dos Estados Unidos e que era preciso seguir junto com a grande potência em formação. No entanto, a opção por segui-la não deveria pressupor alinhamento automático e tampouco submissão. O Brasil o fez. A história da relação bilateral não pode ser aprisionada no estereótipo das perenes relações amistosas. Temas sensíveis nos quais surgiram desacordos também afloraram como, por exemplo, a política de barganha durante a Segunda Guerra Mundial, a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos e a contestação da ordem internacional a partir da década de 1970, numa prática da política externa brasileira que se convencionou chamar de “autonomia pela distância”.

E agora, o que há de tão diferente? Existe uma clara afronta brasileira aos Estados Unidos? Honduras, Colômbia, Irã, Oriente Médio, Conselho de Segurança não seriam temas tão sensíveis pelas quais a relação bilateral historicamente passou? São indagações para aguçar a nossa curiosidade sobre as relações internacionais à luz da percepção de dois países. O século XXI não parece ser mais o século dos Estados Unidos e pode ser o da China. O gendarme norte-americano caducou pelo mundo. A segurança e a paz não se restringem ao uso da força. A desregulamentação econômica traduziu-se em desordem e crise. E o Brasil diante disso?

Está se reposicionando neste ordenamento global em gestação. A China é agora o nosso maior parceiro comercial. A estratégia brasileira de segurança e paz internacionais prima pela multilateralidade da palavra e pelo esforço cooperativo no envolvimento de diversos atores. A percepção de que a ordem mundial, em suas diversas facetas, não pode ser administrada unilateralmente, senão por coalizões, parcerias e projetos de integração. Muitas vezes, as divergências tópicas com relação aos Estados Unidos escondem esse pano de fundo que perpassa a orientação diplomática brasileira.

No século XXI, os Estados Unidos apresentam-se menos capacitados para oferecer soluções aos problemas mundiais como o fizeram no passado. Podem continuar como uma grande potência econômica e militar, mas o capital político lhes escapa. Não se pretende, de modo algum, dizer que o Brasil apresenta os gabaritos para substituí-lo, mas sinalizar que as diferenças não demarcam necessariamente um confrontacionismo natural e esquizofrênico. São opções, escolhas e interesses perante o mundo que vem aí, de modo que ambos se aproximarão ou se distanciarão conforme julgarem conveniente.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


Chamado às armas

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O Japão anda passando por maus bocados. A crise política que assola o país já é notória, com diversas trocas de primeiros-ministros nos últimos anos e um governo relativamente desacreditado. A economia, mesmo indo razoavelmente bem, acaba tendo problemas – sofre para manter o iene não muito valorizado a fim de não onerar o consumo interno, e ainda por cima teve de aturar ver sua grande rival, a China, tomar o seu posto de segunda maior economia do mundo. E o país volta a pegar em armas. Isso por que no dia 18 lançaram uma nova política de defesa com endereço certo – a China, mas tampouco deixa de ser um recado para a animada Coreia do Norte. Basicamente, é um plano que visa à modernização das forças, mas pode significar muito mais.

Essa nova política interfere no pacifismo nipônico? Bem, sabemos que a constituição japonesa do pós-Segunda Guerra limita pesadamente os investimentos militares no país, bem como o desenvolvimento de armamentos e afins. Por isso as forças armadas do Japão são relativamente atípicas (as Self-Defense Forces, SDF, as conhecidas “buchas de canhão” nos filmes de Godzilla), de caráter basicamente defensivo. A maioria dos armamentos e doutrina que possuem são de matriz norte-americana (aliás, boa parte da defesa do país recai sobre uma base norte-americana cravada em território japonês). O que isso trouxe para o Japão? Até hoje, coisas boas, diga-se de passagem – no fim das contas esse potencial defensivo nunca foi preciso, fora da ficção científica, e mais dinheiro ficou disponível para ser investido em coisas mundanas como educação de ponta e saúde pública.

Contudo, atualmente, as coisas andam complicadas no extremo oriente. As Coreias em pé de guerra (coisa que o Japão teme), China crescendo mais e mais (e que já se mostrou incomodada com essa nova política japonesa), e o pior de tudo, os EUA tendo sua posição de hegemonia (e, por conseguinte, de guarda-chuva defensivo para o Japão) no mínimo contestada. Por isso essa nova política de defesa mostra um interessante dilema. Para a própria garantia de sua segurança, o Japão precisa lidar pragmaticamente com a situação e encarar as possíveis ameaças sem tanto auxílio dos EUA (aliás, há um clamor popular para que a base norte-americana seja removida de lá). Um sinal desses “novos tempos” é visto quando se planeja fortalecer as defesas no sul (mais próximas da China), em detrimento das guarnições ao norte (resquícios do temor russo da Guerra Fria). Outro aspecto envolve a compra e desenvolvimento de armamentos modernos (dificultados nos termos atuais).

Tudo isso toca em uma ferida muito profunda da sociedade japonesa, a questão do militarismo. Não que o país vá se tornar expansionista novamente; mas esse não foi um impacto recente na história do Japão – ainda que o furor imperialista que culminou nas bombas atômicas tenha surgido na onda dos nacionalismos do século XIX, a sociedade japonesa era bastante militarizada desde o período feudal, e romper totalmente com isso após 1945 abriu um vácuo cultural. Brinquei com os filmes de Godzilla há pouco, mas é interessante reparar que em suas obras de ficção os japoneses sempre evoquem a supremacia militar para si – acabam desenvolvendo uma super-arma e muitas vezes salvam o mundo. Ou ao menos suas ilhas. Por outro lado, o trauma dos resultados do militarismo geraram essa vocação imposta, pacifista e exitosa, que agora vai entrar em choque com essa aparente necessidade de voltar às armas (e que parece ser um aspecto atávico do Japão).

A discussão foi breve, mas demonstra que essa nova posição do Japão quanto a defesa tem usas razões e ainda vai dar muito o que falar. Veja mais uma análise interessante aqui.


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Paz, Segurança


Faça o que eu digo, não faça o que eu faço

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Todos, creio, lembramos bem o fenômeno político, midiático e social que representou a candidatura de Obama a presidência dos Estados Unidos em 2008. Era o fato novo, fugindo da mesmice dos infindáveis debates entre Republicanos e Democratas. Era a esperança, seria possível emergir um político acima dos interesses partidários e que verdadeiramente representasse os mais caros valores norte-americanos?

Voltemos à campanha de 2008. Obama dizia que “basta, não queremos mais quatro anos dessa economia fundamentalista do presidente Bush. Já tivemos suficiente”. Além disso, outro ponto fundamental era o fim da quase isenção fiscal aos mais ricos. Afinal, justamente essa porção da sociedade norte-americana que deveria arcar com o ônus maior, ao contrário do modelo implantado por Bush. Depois de sua posse, Obama começou sua batalha, consciente de sua dificuldade e do sacrifício político que representaria defender seus pontos de vista. De tal forma que, por conseguinte, estaria representando a maioria da população do país, a mesma que o elegerá meses antes. 

Essa batalha parece caminhar para um final triste. De certa maneira, os ideários de Obama colapsaram ante as pressões políticas dos mais diversos setores da sociedade americana. Ninguém dizia que seria fácil, porém a escolha por Obama estava vinculada justamente a isso, qual seja, uma pessoa que não se entregasse ao establishment político de Washington. O direcionamento econômico da Era Bush terminou sendo mantido. Alguma mudança naquela política econômica referida como fundamentalista durante a eleição? Parece que, se há, foram poucas. 

No capítulo mais recente, o Senado norte-americano aprovou a extensão por mais dois anos do corte de impostos advindos do governo Bush. Segundo a Casa Branca isso representa um impulso à economia, ao passo em que “alivia” a classe média. O pacote é composto de 800 bilhões USD em corte de impostos e 57 bilhões USD em seguro desemprego. Por um lado, foi uma conquista dos governistas, que lograram um acordo bi-partidário em um tema que demarca fortes posições de ambos partidos. Por outro lado, muitos senadores democratas e analistas políticos trazem à tona a manutenção da generosidade junto aos mais ricos. Não era combater isso outra plataforma da campanha de Obama em 2008? 

Desde o início de 2009, Obama ganhou o Nobel da Paz, aprovou a reforma da saúde, discursou em favor do entendimento entre povos islâmicos e os Estados Unidos, entre outros importantes fatos. Em certos campos, em minha opinião, Obama tem feito um investimento pensando no longo prazo, visando desfazer a imagem ruim no campo internacional que lhe foi entregada por seu antecessor. Contudo, no campo econômico as decisões têm sido pautadas no curto prazo e nas mesmas diretrizes da equipe econômica de Bush. As batalhas mais dolorosas, muito além de combater questões econômicas iminentes, não têm sido “compradas” por Obama. Poucos são os indícios que Obama terminará seu primeiro mandato com uma economia em bases mais sólidas para os desafios dos próximos anos (não só dos próximos dias e meses).  

Ao passo que vamos, Obama terá imensas dificuldades na campanha de re-eleição. A esperança, o fato novo, o “basta” às políticas econômicas de Bush muito provavelmente não convencerão o eleitorado pela segunda vez. Obama não luta por tudo que defendia, e para o qual teria apoio de grande parte da população norte-americana, mas mantêm políticas que antes desprezava. Os republicanos devem estar felizes da conta, não só pela vitória nas eleições de meio de período, mas pelo recrudescimento dos movimentos conservadores país afora. Ainda há tempo, Obama segue mais popular que os figurões do Partido Republicano, por tal motivo, segue em vantagem. No entanto, o jogo pode virar para ambos os lados, de acordo com as decisões do governo Obama. Será que Obama vai retomar muito do que defendia em campanha e que até agora não pode fazer? Ou será que os republicanos voltarão a ser a visão majoritária do país?  

Para saber mais: 1,2,3,4

(OFF) – Trago um interessante artigo sobre os recentes protestos no Reino Unido (1)


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