O Brasil diante das commodities

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Uma música de Chico Buarque começa com a seguinte frase: “Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês”. Em tempos atuais, os cavalos estão aprendendo outros idiomas, à procura de outros heróis, na gramática da economia. Os desequilíbrios cambiais travaram o G-20, a crise continua debelando a Europa e as commodities estão em ascensão. Este ponto é bastante interessante ao Brasil, ainda mais neste contexto que parece relembrar a “beggar thy neighbour policy” do período da Grande Depressão: cada um contando consigo mesmo e procurando benefícios à custa dos demais.

[Relembrem um post do Luís Felipe atinente ao assunto aqui tratado.]

Ora, as commodities, que nunca partiram, agora também voltaram, na mesma expressão utilizada ontem pelo Álvaro sobre o Wikileaks. Em sua formação histórica, o Brasil atravessou os ciclos econômicos da cana, mineração, borracha e café. O último foi levado a condições mais extremas, de tal sorte que nas três primeiras décadas do século XX, pensou-se que fazer política externa era sinônimo de fazer a política do café, combinação que para Clodoaldo Bueno criou o conceito “diplomacia agroexportadora”. Com a volta das commodities, a questão que se tem colocado: elas são uma benção ou uma maldição?

As análises correntes convergem para considerá-las como uma benção, desde que adequadamente aproveitadas as oportunidades e que não se crie uma dependência direta delas. Outro ponto chave é evitar o que se convencionou chamar de “doença holandesa”, em que a exportação de commodities gera a desindustrialização – foi o que ocorreu na Holanda na década de 1970, quando a descoberta de uma grande fonte de gás natural provocou o declínio do setor industrial. Todavia, embora alguns indicadores brasileiros aparentemente sugiram tal processo – a participação da indústria no PIB era de 33% entre 1991-1995 e passou para 22% entre 2001-2005 –, não se pode explicá-lo apenas pelas exportações de commodities, como avalia Geraldo Lopes de Souza Júnior, senão também por outras razões como ausência de política científica e tecnológica, deterioração da infra-estrutura, altos impostos e juros, etc. Ademais, o Brasil vem diversificando a sua pauta de exportações desde a década de 1970, quando produtos básicos representavam 74,8% das exportações, caindo para 22,8% em 2000 e subindo para 36,9% em 2008.

Hoje mesmo, em seu blog, Raquel Landim destacou o apetite chinês pelo petróleo brasileiro. Diante desse quadro, o nosso “bilhete premiado”, isto é, o pré-sal, de fato se apresenta como uma grande oportunidade. Também é válido notar que por onde o agronegócio – capitaneado pela soja – tem avançado, especialmente na região Centro-Oeste, a pobreza tem diminuído. Enfim, para a economia brasileira, as commodities, se manejadas cuidadosamente, podem trazer grandes vantagens para um economiquês carente de novos idiomas, de modo a encontrar caminhos no meio da atual crise mundial.


Categorias: Brasil, Economia


A volta dos que não foram.

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E o Wikileaks ataca novamente. Fiel a seus princípios e confirmando as “ameaças” feitas há algum tempo, o site liberou uma remessa enorme de documentos diplomáticos secretos dos EUA (Aqui o original e a versão em português). De nada adiantaram os ataques virtuais que almejavam impedir a liberação dos documentos: diversos jornais de todo o mundo já estavam em posse de alguns documentos e revelaram ao mundo uma face pouco conhecida da diplomacia estadunidense. E é apenas o começo, muitos outros serão publicados gradualmente durante a semana, podendo por em choque grande aliados dos EUA.

O conteúdo desses documentos está disponível e sendo discutido à exaustão na mídia, indo de ordens de espionagem, mesmo contra países neutros e funcionários da ONU – incluindo o secretário-geral – até informações pessoais de diversos líderes mundiais. Parece que Lula escapou dessa, mas o Brasil entra nesse samba com informações difusas acerca de prisões em território nacional de acusados de auxílio ao terrorismo, disfarçadas de detenções comuns relacionadas a crimes mais mundanos como o narcotráfico (se bem que são coisas intimamente relacionadas hoje em dia…).

Bom, não é o fim do mundo – ao contrário do outro vazamento, já discutido aqui, esse pode não por em risco direto a vida de combatentes e cidadãos, e boa parte das informações revelam coisas óbvias, mas o vazamento torna um pouco mais dificultosa a tarefa dos diplomatas dos EUA, que vão ter de lidar com esse constrangimento – ainda mais quando se é o país mais influente do mundo e vai ter de dar explicações a MUITA gente. Vejam bem, diplomacia nunca foi algo considerado, por assim dizer, sincero. Basta lembrar da diplomacia européia do século XIX, e suas cláusulas secretas que tanto estrago causaram no começo do século XX. Quem garante que isso ainda não ocorra? A diplomacia vive de aparências, e existem coisas que não se espera sejam trazidas a público. Os documentos cobrem o período de 1966 a 2010, e se mostram alguma coisa pode ser como funciona por dentro a “cabeça” de uma potencia mundial em relação aos demais países. Prepotência? Talvez. Mas quem garante que outros países não façam coisas semelhantes? Se os EUA, bastiões da virtude, espionam e pressionam (ainda mais) por baixo dos panos, o que fariam países como China e Rússia?

Se servem para alguma coisa, além de constranger os EUA, tais documentos podem incentivar aos demais países que evitem essas práticas “desonestas” sob o risco de terem tais informações vazadas no futuro. Claro que não é possível mudar um costume como esse de uma hora pra outra, um exercício de otimismo pouco viável, mas nunca se sabe como a era informacional pode influenciar os Estados nos anos vindouros. E a Wikileaks está aí para tentar mudar isso.


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What about Lula?

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O jornal “A Cidade” promoveu em seu portal uma enquete: qual é o futuro político do presidente Lula? 47% do total de votos acha que ele deve ocupar um cargo em algum organismo internacional; 38%, que ele vai voltar a disputar a Presidência da República; 12%, que ele vai se aposentar; e 3%, que ele vai trabalhar em alguma ONG.

Depois de, nos bastidores, ser questionado sobre uma possível candidatura à secretário-geral da ONU, Lula descartou uma ação no partido ou no novo governo, afirmando, porém, que pretende usar sua experiência no governo para trabalhar pela integração dos países da América Latina e da África. Lula chegou a ser cogitado como sucessor natural de Néstor Kirchner como secretário-geral da Unasul, tendo inclusive recebido publicamente apoio de Fernando Lugo. Descartou essa possibilidade também.

Então, o que resta ao presidente que “nunca antes, na história desse país, o Brasil teve”? O que será do Lula quando ele acordar no dia 2 de janeiro de 2011 em São Bernardo do Campo?

Especula-se que o presidente iria “descansar durante o mês de Janeiro”. Depois disso, Lula criaria um novo instituto, no Brasil, com fins humanitários. Nas Nações Unidas, segundo consta, teria recebido propostas de coordenar com Angela Merkel um novo plano para combate ao aquecimento global. Também Lula já se propôs a articular uma reforma política com outros partidos e em parceria com ex-presidentes.

Num futuro mais longínquo, poderia suceder Dilma – caso o governo dê com os burros n’água -, presidir o Corinthians, ou apenas tomar umas cervejinhas por aí na praia.

Ao assumir a presidência em 2002, uma das preocupações de analistas com o seu governo seriam os rumos da política externa, e sua própria figura como representante do Brasil perante os outros países. Ao contrário do que os temores poderiam confirmar, os objetivos brasileiros no cenário internacional cresceram junto com a retórica utilizada, de não-alinhamento, integração regional, multiculturalismo e liderança regional.

Muito de tudo isso não passou de retórica. Que me perdoe Chico Buarque, que exaltou o fato de “com Lula o Brasil não fala fino com Washington nem grosso com a Bolívia”. Falar fino ou grosso não passa disso: falar. Não quer dizer que somos “mais iguais” que nenhum dos dois lados. De qualquer forma, a habilidade política de Lula é notória e poderia ajudar na coordenação de importantes projetos no cenário internacional.

Resta-nos torcer para que o seu insistente repertório de opiniões sobre todos os assuntos não encubra o novo governo, e que ele não se engaje no projeto de governar o Brasil até sua morte, como fez Getúlio, figura com a qual ele insiste em se comparar.


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Água, o fator humano

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Quanto tempo uma pessoa vive sem comida? E sem água?

Para a primeira pergunta, em torno de oito semanas. Para a segunda, menos de uma semana. Obviamente, há outros fatores que devem ser considerados, o que leva os especialistas a afirmar que o período pode variar de acordo com a condição de cada pessoa. Mas, em termos gerais, é senso comum concordar com tais assunções.  

Quando estudamos as grandes guerras mundiais ou conflitos armados, logo vinculamos sua origem as mais diversas causas. Para ficarmos com alguns exemplos, cito: comércio, território, prestígio, fontes de alimentação, fontes energéticas, enfraquecimento de um rival, entre outros. No entanto, o recurso mais básico para a vida humana é a água. Como se encaixa este fator nos conflitos e disputas internacionais? 

Já em 1995, o então vice-presidente do Banco Mundial, Ismail Serageldin, alertava a comunidade internacional, “as guerras do próximo século serão vinculadas ao acesso à água”. Um dos focos principais de disputa (em grande medida regionais) são justamente as fontes de água junto às áreas fronteiriças. Tomando um exemplo na América do Sul, a Bacia do Rio Prata apresenta um potencial risco para um conflito futuro entre Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Ao passo em que, o Nilo e o Tigres/Eufrates são regiões atualmente em disputa e/ou negociação.  

Conflitos que emergem em disputas por fontes de água são causa constante de violência e conflitos a nível interno. Tomando em conta ainda que, de acordo com o pesquisador Eriksson, entre 1998 e 2004 mais de 80% dos conflitos armados foram internos e não regionais ou internacionais, pensar uma política internacional mais sólida para a água ganha ainda mais importância. Em um mundo em que cerca de 1 bilhão de pessoas não têm acesso a água limpa, mais de 2 milhões de pessoas morrem anualmente de causas vinculadas a falta de saneamento e água potável e 1 terço da população mundial vive em regiões com grande dificuldade para aceder a fontes de água, é evidente que água deveria ser uma prioridade nas discussões da comunidade internacional.  

A maior parte dos países que vivem sob grande estresse nessa temática está localizada na Ásia e África, especialmente em regiões rurais. Uma pobre estrutura institucional, um parco desenvolvimento econômico-social e o descaso da comunidade internacional servem como um intensificador, colocando estas regiões na beira do colapso interno. Garantir a sobrevivência é a tarefa mais elementar do ser humano, por isso nos alimentamos e buscamos fontes de água, quando o risco é iminente a tarefa toma o rumo “matar ou morrer”, literal em alguns casos.  

Tanto se fala de interdependência a nível internacional. O aquecimento global e as finanças internacionais são os exemplos comumente utilizados. Contudo, a água é também parte da agenda. Regiões fragilizadas institucionalmente e com problemas de acesso e fornecimento de água podem representar um grande risco de instabilidade regional e internacional. Afinal, antes de território, comércio, prestígio, fontes energéticas e alimentares, qualquer ser humano necessita de água limpa para consumo.  

[Mais Informações]

Acordos internacionais: 1

Água e conflitos: 1

Água e conflitos no Oriente Médio: 1,2,3


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos


Autoria russa

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“No dia 13 de abril de 1943, o mundo foi surpreendido pela denúncia de mais uma dentre tantas atrocidades cometidas no curso da Segunda Guerra Mundial. As rádios e jornais alemães, sob o incentivo de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich, informavam que, nas proximidades da cidade russa de Smolensk, haviam sido descobertas inúmeras valas comuns, onde haviam sido sepultado milhares de oficiais poloneses executados em massa pelos soviéticos. Imediatamente após a divulgação da notícia, os soviéticos negaram qualquer participação no propalado massacre, alegando que os oficiais poloneses estavam vivos quando da invasão alemã e que, caso tenham sido assassinados, cabia aos alemães toda e qualquer responsabilidade. O que aconteceu realmente com os oficiais poloneses enterrados nas valas de Katyn? Foram mortos pelos alemães ou pelos russos?”.

O excerto acima, de autoria de Sérgio Oliveira, foi reproduzido integralmente por contextualizar exatamente um questionamento histórico a ser respondido no presente post: nesta sexta, a Rússia atribuiu a Stalin a responsabilidade pelo massacre de Katyn, reconhecendo assim oficialmente sua autoria.

O massacre de Katyn foi o assassinato de aproximadamente 22 mil cidadãos poloneses na floresta de Katyn (na Rússia) em 1940, auge da Segunda Grande Guerra. Esta execução em massa apenas evidencia os horrores da guerra que vitimou uma quantidade enorme de indivíduos – tanto militares como civis –, configurando uma situação em que crimes deste porte foram recorrentes.

De acordo com arquivos secretos da União Soviética (governada por Stalin por 30 anos – 1924 -54), foi divulgado hoje que existem provas concretas de que este terrível massacre foi ordenado por russos, respondendo-se, desta forma, definitivamente à paradigmática questão apresentada inicialmente. Trata-se de uma dura condenação aos crimes stalinistas, demonstrando uma postura diferenciada por parte da Rússia.

Vale ressaltar que tal postura está diretamente relacionada à intenção de melhorar as relações entre Rússia e Polônia, especialmente após o desastre aéreo ocorrido no início deste ano que vitimou o presidente polonês e mais de 90 autoridades do país que justamente se dirigiam a terras russas para visitar o Memorial de Katyn (post sobre o assunto aqui).

Tal como proferiu o juiz norte-americano no Tribunal de Nuremberg destinado a investigar este assunto, “os crimes são crimes, seja quem for que os tenha cometido”. Contudo, a busca pela verdade deve pautar a valorização da proteção aos Direitos Humanos, de forma a evitar que a impunidade predomine – em questões domésticas ou internacionais. E esta atitude russa certamente representa um importante avanço neste sentido.

[Aos interessados no tema, existe um filme sobre este massacre, intitulado “Katyn” (foto), o qual foi lançado em 2007.]


Categorias: Conflitos, Defesa, Paz, Segurança


Conversando com a Teoria

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Idealismo clássico: uma coletânea de pensamentos

Pessoal, o objetivo hoje é tratar resumidamente de autores “mais antigos” que contribuíram para a construção de um pensamento liberal na teoria das Relações Internacionais. Em específico, o post de hoje se concentra nas premissas que inspiraram o liberalismo no momento de criação da disciplina acadêmica. Deixemos para outro dia a apreciação de Norman Angell e Keynes.

Em plena Idade Média já se pensava em um mundo como poderia ser, sobretudo, idealizava-se um mundo pacífico. Marsílio de Pádua, ao escrever O defensor da Paz, objetiva demonstrar como alcançar a paz e como mantê-la. Esforçou continuado com Thomas More em A Utopia, na qual ele descreve uma ilha constituída por 54 cidades, cujos habitantes vivem em plena harmonia e repudiam a guerra com fervor por causa da brutalidade e selvageria que ela acarreta. Dois séculos mais tarde, Abade de Saint-Pierre, em seu Projeto para tornar perpétua a paz na Europa, defende que os valores comuns apresentam-se como a base para a integração e paz, sendo necessária a assinatura de um Tratado de União e a formalização de um Congresso Perpétuo entre as soberanias católicas da Europa.

No século XVII, o liberalismo se fez presente no surgimento do Estado liberal moderno. John Locke depositou grande crença num Estado que garantisse a liberdade individual para o progresso da sociedade moderna. Nesse período, Rousseau surgiu como um dos grandes expoentes do pensamento liberal. Ele criticou o projeto de paz de Abade de Saint-Pierre, afirmando que este não levou em consideração o regime político interno e a paz era indissociável a uma união de pequenos Estados democráticos.

No espírito de Rousseau, Immanuel Kant escreve em 1795 A Paz Perpétua, uma obra na qual ele delineia três artigos definitivos para paz: 1) republicanismo democrático; 2) união federalista de Estados; e 3) cosmopolitismo. Para Kant, é necessário um governo representativo internamente que defenda seus cidadãos, uma federação de Estados que prime pelo direito internacional e o tratamento hospitaleiro aos estrangeiros. Esta combinação de fatores seria a maneira de assegurar a paz perpétua.

Entre a razão e a paixão, os idealistas clássicos argumentam que os homens são naturalmente bons, cooperativos e pacíficos, e que com os incentivos corretos eles poderiam preservar sua natureza. A razão lhes ensinaria a insanidade das guerras e a paixão lhes daria a possibilidade de construir um mundo “perfeito”, mantendo o comércio, valores comuns e a paz. Por muito tempo acreditou-se que era possível mudar as relações internacionais de modo aproximá-las de como os indivíduos as idealizavam. A sociedade contemporânea ainda não perdeu essa crença.


Categorias: Conversando com a Teoria


Briga de irmãs

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As Coreias voltam ao centro do noticiário internacional por causa de disparos de foguetes que causaram baixas civis confirmadas na ilha de Yeonpyeong. As notícias estão sendo debatidas à exaustão na mídia, os ataques foram condenados pela maioria da comunidade internacional, a ONU já vai agir prontamente (apesar da recusa norte-coreana) para evitar o escalonamento do conflito (ou seria re-escalonamento? Afinal, tecnicamente as partes ainda estão em guerra)… Então, vamos tratar a questão de um ângulo diferente – o dos norte-coreanos. Ou, pelo menos, tentar, dado que se trata do regime mais fechado do mundo. Por que esses atritos tão recorrentes esse ano?

Antes de tudo, a Coreia do Norte possui um dos maiores contingentes militares do mundo, e eles se orgulham disso – acreditam que caso entrem em conflito conseguiriam vencer no puro e simples combate corpo-a-corpo. Pessoal é o que não falta: o exército norte-coreano é um dos maiores do mundo, com cerca de 950.000 conscritos e mais 1,7 milhões de reservistas. Sem contar aquela possível ajuda chinesa, que certamente viria…

Ademais, enquanto o Ocidente se preocupava com Ahmadinejad e suas execuções, a crise financeira na Zona do Euro e os vazamentos da Wikileaks, esqueceu-se um pouco do programa nuclear norte-coreano. A Coréia do Norte sempre enveredou pela produção de armamento nuclear a partir do plutônio (facilmente obtível de resíduos de reatores nucleares), e eis que o mundo foi surpreendido pelas declarações do professor Siegfried Hecker, que confirmou uma sofisticada usina de enriquecimento de urânio (para propósitos civis, claro…). Uma semana depois, a Coreia do Norte já está em pé de guerra com sua vizinha do sul.

Essa “pujança” militar (real no âmbito convencional, hipotética no nuclear) contrasta com a pobreza e subdesenvolvimento da população local. Os relatos são de limitações a comodidades mundanas como televisão e telefonia. Não precisamos ir muito longe: basta lembrar da Copa do Mundo desse ano, quando o simpático escrete asiático, contrastando com as milionárias seleções europeias e americanas, foi treinar em um ginásio público por falta de verbas. A situação é relativamente calamitosa.

O que isso tem a ver com o conflito? A Coreia do Norte acusa a do Sul de ter iniciado os problemas, atrapalhando as conversações de paz mediadas pela Cruz Vermelha e sem evitar o confronto. É interessante ver que esse ano atribulado (mísseis, afundamento de navio, programa nuclear a todo vapor…) bate com a suposta pavimentação da sucessão de Kim Jong-Il, com a promoção de seu filho Kim Jong-un a general. Há até quem diga que o incidente dessa semana foi uma “demonstração de liderança” do futuro líder, em uma atitude de confrontação definitiva com o vizinho do sul. Ou, talvez, dada a penúria em que se encontra seu Estado, simplesmente lhe restou a saída arcaica da glória militar como último recurso e suspiro do regime comunista.

O que esperar disso? Se realmente esse for o estilo Kim Jong-un de governar, podemos esperar o pior nos anos vindouros. Mas, provavelmente, a todos esses fatores vai permanecer alheio por muito tempo o povo norte-coreano.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Polêmica


Condenar ou não condenar, eis a questão

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O dilema shakespeariano da tragédia de Hamlet adentra aos domínios das relações internacionais. Volta à tona a questão dos direitos humanos no Irã no limiar entre a condenação e a não condenação. Muito embora já tenha sido aprovada uma resolução das Nações Unidas condenando os abusos contra os direitos humanos, em que pese a prática do apedrejamento, é preciso discutir o significado do ato de condenar ou não condenar. De um lado, a opção dos países desenvolvidos, do outro, a dos países em desenvolvimento (abstenção ou voto contrário). O Brasil se absteve.

De início, um ponto polêmico: atualmente, que legitimidade têm os países europeus e os Estados Unidos, baluartes de sociedades ocidentais avançadas, para questionarem o apedrejamento iraniano? Para não ser repetitivo, recordemo-nos dos posts do Álvaro e da Andrea, em que fazem uma belíssima análise comparativa entre a prática da pena de morte e o caso Sakineh. Ademais, convém-nos lembrar as violações de guerra cometidas pelo exército norte-americano no Iraque (escandalizados pelos vazamentos do Wikileaks), Guantánamo, Abu Ghraib e as avassaladoras ondas de preconceito que se espalham pela Europa. De maneira mais elucidativa, cita-se um trecho da entrevista da jornalista iraniana, ex-presa política no Irã, Roxana Saberi, concedida ontem à Folha de São Paulo: “Quando a América não é fiel a princípios sobre os quais foi fundada, então outros governos podem fazer disso uma desculpa para seu próprio comportamento.”

Não é de se admirar, portanto, que Ahmadinejad acuse o dito Ocidente pela politização dos direitos humanos, opinião bastante contundente. Mas, por outro lado, é inconcebível que o líder iraniano faça campanha para as mulheres se casarem com 16 anos e os homens com 20. O motivo? Quanto maior a população, maior a capacidade de resistir e pressionar esse mesmo Ocidente. Aí já é brincadeira! Esse pretenso confrontacionismo (até mesmo demográfico) não ajuda em nada: de um lado, o narcisismo ocidental combinado com uma visão ortodoxa dos direitos humanos, de outro, um nacionalismo de fachada para sustentar uma inalcançável imponência. E ai daquele que reclamar das escolhas políticas iranianas…

Para terminar, uma breve digressão a respeito da política externa brasileira – a qual podemos estender nos comentários. O chanceler Celso Amorim justificou a abstenção sob a insígnia de princípios diplomáticos consolidados – não-intervenção, não utilização de órgãos da ONU para a condenação de outros países, etc. –, acrescido de motivações políticas e instrumento de pressão ao Irã por trás da resolução. É fato também que em seu discurso na última Assembléia Geral da ONU, Amorim se posicionou a favor de “um tratamento não-seletivo, objetivo e multilateral dos direitos humanos”, “sem politização ou parcialidade, em que todos – ricos ou pobre, poderosos ou fracos – estejam sujeitos ao mesmo escrutínio” (ver discurso), que está consonante ao argumento de Ahmadinejad. Neste ponto, eu considero acertada a decisão do Brasil, porém, também atinente aos direitos humanos, no que concerne à libertação de presos políticos, nossa diplomacia parece uma metamorfose ambulante (vide as respostas do chanceler, quando perguntado sobre essa questão, em entrevista à Folha de São Paulo no dia 15/11/2010. Acompanhem a posição sobre Mianmar aqui e aqui).

Condenar o Irã per se, sem o devido tratamento da temática dos direitos humanos, é uma retórica cíclica. Enquanto os direitos humanos forem tratados como uma questão tópica, a la carte, que emerge quando surge um abuso daqui, uma prática estranha dali, e sob a égide ocidental, a comunidade internacional continuará exercendo o mero exercício de condenar, condenar e condenar…


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Em cólera…

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Em cólera. É assim que a população haitiana se encontra atualmente. E essa afirmação pode ser entendida de duas formas: denotativamente, conforme tem sido noticiado internacionalmente, este país se encontra diante de um surto epidêmico de cólera com drásticas proporções. Conotativamente, todavia, percebe-se que o povo haitiano está enraivecido. Revoltando-se talvez contra o próprio destino que parece lhe pregar peças – trágicas, diga-se de passagem.

Depois do terremoto que afligiu o Haiti em janeiro deste ano (tratado em um ótimo post do Giovanni aqui no blog), o atual surto da doença no país denota uma situação de calamidade generalizada. Conseqüente, talvez, ainda do próprio terremoto – aliado à passagem do furacão Tomas que gerou mais desabrigados na região. Se, no início do ano, Edmond Mulet, representante da ONU no Haiti, afirmou que a situação estava abaixo do zero, esta escala precisaria ser novamente revista para atestar o atual momento. O vídeo abaixo ilustra a realidade haitiana:

Segundo o Ministério da Saúde do país, hoje este surto de cólera já provocou cerca de 1300 mortes, sendo que mais de 55 mil pessoas foram contaminadas (das quais aproximadamente 23 mil precisaram ser hospitalizadas). Os números são assustadores e mais assustador ainda é o fato de que aumentam exponencialmente a cada dia, dadas as dificuldades para a contenção da fatídica epidemia. Apesar de o tratamento ser relativamente simples – e mesmo diante dos apelos da Organização Mundial da Saúde –, a ONG Médicos Sem Fronteiras declarou publicamente considerar que o combate à epidemia tem sido inadequado, especialmente por conta da lentidão para a chegada de ajuda humanitária. Esta epidemia já começa, pois, a comprometer aos poucos também outras partes do mundo, a começar pela República Dominicana, país vizinho ao Haiti.

O caos instalado no Haiti parece, contudo, não gerar mobilização maior no âmbito internacional. A comoção divide espaço com a indiferença em um contexto de difícil solução. A imagem de uma vítima da doença sendo carregada ao hospital em um carrinho de mão (foto) vem justificar a conotativa cólera haitiana – expressa enquanto revolta – diante da situação. Revolta que tem se direcionado também contra os próprios capacetes azuis da ONU, acusados pela população como responsáveis pela entrada de cólera na localidade.

Resta aguardar as providências internas e internacionais que serão buscadas pelo Haiti durante os próximos dias em busca de sua almejada estabilidade social e política. Busca dificultada, já que as próprias eleições nacionais – previstas para o próximo domingo – acontecerão em tempos de cólera. Trata-se de um fator que gera incertezas aos vários candidatos presidenciais. E a todo o povo do Haiti, sem dúvidas.


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Democracia na Nicarágua?

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(Ortega em seus tempos revolucionários)

Em uma palestra em Quito (Equador), tive a oportunidade de ouvir a seguinte definição para a América Latina: é o continente mais desigual e mais perigoso (em termos de violência urbana) do mundo. Não foi uma definição criada para mera contextualização ou desprovida de fundamentação, muito ao contrário. Foi um representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos quem trouxe a afirmação, provinda de estudos realizados pelos representantes da organização internacional mais importante e representativa no bojo da comunidade internacional.

Os últimos meses, ou mesmo anos, trouxeram uma atenção cada vez mais forte e justificada à América Latina. Primeiro, consolidamos novos caminhos democráticos; eliminando a excessiva proeminência militar e recriando ainda os laços cooperativos regionais, antes destroçados. Além disso, escolhemos líderes populares, reagimos à crise financeira internacional e ganhamos espaço nas discussões relevantes levadas a cabo nas mais variadas organizações multilaterais. Por último, muitos países criaram revoluções internas, outros seguiram uma via conciliatória, ficava, porém, evidente a evolução das instituições, a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e a diminuição da influência externa, em ambos os caminhos mencionados.

Não obstante, há caminhos tortuosos e armadilhas perigosas em nosso caminho. Quem não se lembra do Zelaya? Ano passado, tratamos em muitos posts a questão da crise em Honduras. Destaco, neste sentido, a entrevista que realizamos com Hector Luis Saint-Pierre sobre o mesmo tema. Na ocasião, o professor mencionou uma preocupação com a evolução e a consolidação da democracia em nosso continente. Mais especificamente, identificava na América Central os maiores riscos de retrocessos. Infelizmente, os latino-americanos ainda tendem a perceber a democracia sob um ponto de vista personalista. Isso, para o bem ou para o mal, é corroborado pelas figuras políticas que temos em destaque, tais como: Hugo Chávez, Lula, Evo Morales, Rafael Correa, entre outros.  

Muitos de nossos dirigentes e representantes políticos não vinculam democracia ao balanço entre poderes e à alternância no poder. Antes de tudo, projetam em si mesmos a imagem de salvadores da pátria e revolucionários, os quais não podem abdicar de sua paixão por seus respectivos países e muito menos permitir que uma oposição nefasta ameace o futuro de seus cidadãos. Zelaya, alegadamente, buscava a continuidade no poder. O processo terminou em negociações sem fim com outros setores de influência hondurenhos, culminando no exílio de Zelaya e na legitimação de um novo presidente. Dessa vez, Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, é nosso personagem principal. A acusação é que o Judiciário do país, sob seu controle, revogou a aplicação da proibição de períodos consecutivos na Presidência ou de uma mesma pessoa cumprir mais de dois períodos no posto mais alto do país. 

Ortega, que fora presidente na década de 1980, não cumpre nenhum dos dois requisitos constitucionais. Motivo pelo qual, não poderia ter seu nome na cédula de votação para as próximas eleições presidenciais. Simples assim. No entanto, não é o que deve ocorrer. Apesar das críticas de juízes da Suprema Corte, tudo indica que Ortega não só concorrerá, como ganhará nas urnas o direito de seguir como presidente. Zelaya teve um final melancólico, deverá, ainda sim, ter um ponto comum com Ortega: a abertura de intensas discordâncias internas e a perda de credibilidade democrática de seus países. Muitos governantes não respeitam o Estado, passando por cima de suas Constituições, desdenhando assim dos modelos e instituições de controle democrático.  

Deveriam – como Lula fez – passar a faixa para o próximo. Não quero entrar na discussão da influência do presidente brasileiro na eleição de sua sucessora. Fato é que o Brasil é muito maior que Lula. Isso vale para qualquer país. Forçar a continuidade no poder denigre a imagem do país e os feitos de um líder. A popularidade alavanca e cria condições para perpetuação. Somente políticos de visão e compromisso verdadeiro com seu povo e com a democracia, abrem espaço para a alternância de poder. Falta a Ortega ler, entender e reconhecer a história do Brasil e de Lula, trabalhando para que o país siga no caminho democrático e de desenvolvimento econômico-social, desistindo, por fim, de seu projeto de continuidade como presidente.  

Relembre a saga Zelaya na Página Internacional: 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10


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