Post Especial

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Quando a estupidez tenta vencer a sensatez

 

[15:10] Quito, Equador 

Acredito que todos já tenham sido atingidos por notícias, rumores e eventos do dia de hoje no Equador. Mais do que revisar as notícias, trago um relato do que tive a oportunidade de presenciar e a repercussão local.  

Foi uma manhã confusa, para utilizar um eufemismo. Começo meu dia com um colega de trabalho me abordando com a seguinte frase “os militares tomaram o aeroporto de Quito”. Relembrando a recente história equatoriana, obviamente que a primeira menção que me veio a minha cabeça foi a um possível golpe de Estado. Minutos depois, acreditei que tudo estivesse melhor. Notícias davam conta que Rafael Correa estava dialogando com os manifestantes, primariamente membros das forças policiais e armadas contra a nova Lei para os servidores públicos, que propunha o presidente e que o Congresso colocava em discussão.  

Caminhando pela região central de Quito, vi que policiais tratavam de causar desordem nos transportes, obstruindo ruas e impedindo o funcionamento dos corredores de ônibus por meio barricadas. Enquanto isso, criminosos tiveram oportunidade de agir sem a sanção policial, aproveitando para saquear estabelecimentos, roubar bancos e provocar ainda mais desordem. A ordem democrática foi exposta. Não só em Quito, mas também em Guayaquil e Cuenca. 

Em pronunciamento na Praça Grande (onde está localizado o Palácio de Governo), Ricardo Patiño, ministro de Relações Exteriores, conclamou o povo a sair às ruas para defender o Estado equatoriano. Os populares reunidos na Praça Grande ecoavam “a pátria unida jamais será vencida” com suas bandeiras em punho. Patiño ainda pediu aos cidadãos que se dividissem em dois grupos, o primeiro que rumasse junto aos ministros do Estado a resgatar o presidente e um segundo grupo que permanecesse no local para defender o Palácio do Governo. 

Rafael Correa está no hospital da polícia e, segundo seu próprio relato, havia tentativas de invadir seu quarto para ameaçar sua integridade física. Meios de comunicação locais afirmam que o presidente está seqüestrado e foi ferido durante a manhã. Correa fora contundente em discurso aos policiais reunidos em um quartel de Quito, citando os inúmeros benefícios e melhorias que seu governo teria oferecido a categoria. Terminou dizendo: “Querem matar o presidente? Estou aqui!” 


 

A mensagem dos dois setores, policial e militar, foi clara. Veio de várias formas: tomada da pista do aeroporto de Quito, recusa ao diálogo com o ministro da Defesa, impedimento do acesso de congressistas ao prédio do Congresso Nacional, forças policiais descumprindo seu dever constitucional, ruas bloqueadas e uma suposta tentativa de impedir a transmissão dos meios de comunicação públicos. A comoção é grande, a incerteza também. Um golpe a democracia ou a uma figura política poderia desencadear eventos ainda mais graves. A institucionalidade democrática foi defendida por governos latino-americanos, prefeitos de cidades e regiões importantes no Equador, pela Cúpula militar do país, além de setores populares.

 

Mais que uma análise, fica meu relato. Esperemos que os pedidos de pacifismo abram caminhos para o diálogo e a plena restauração da ordem, serviços e instituições democráticas. E que a sensatez prevaleça.

Obs: Todos os canais de televisão aberta estão transmitindo a cadeia nacional, através do canal público.  

Quer saber mais: 1, 2, 3


Categorias: Américas, Conflitos


Dois gigantes sem condomínio

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Condomínio foi um termo comumente empregado na vigência da Guerra Fria. Designava um ordenamento no qual os países de todo o globo permaneciam ao lado de um dos condôminos, Estados Unidos ou União Soviética, e, assim, coexistiam. Na Ásia, poder-se-ia verificar similitude do condomínio bipolar, não fosse o autonomismo chinês e a inteligência inventiva nipônica, ainda que, em grande medida, apoiada pelos norte-americanos. Adicionalmente, a emersão dos tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan) também evitaram uma fria polarização na porção mais oriental do continente. Embora os gigantes – um comunista, o outro capitalista – não tenham constituído um condomínio sub-regional, não se supõe, de modo algum, a ausência de rivalidades e competição sino-japonesas.

Na classificação de Marcos Aguinis, autor de O atroz encanto de ser argentino, há quatro tipos de países. O Japão pertence a uma categoria exclusiva, qual seja de um país que tinha tudo para dar errado e deu certo. A China, por sua vez, seria uma exceção que tende a se confirmar, à semelhança do Japão, ou um país da primeira categoria, que teve tudo para dar certo e deu certo. Fato é que, por enquanto, observa-se que a China deixou de ser apenas o milenar “império do meio” – raiz etimológica do nome – para se tornar um império global. O Japão não se apequenou perante as suas extensões territoriais e também alcançou o mundo. Enquanto este investiu na produção de bens de elevada tecnologia e adentrou os países, aquele se dedicou à produção (ou replicação?) de bens de consumo em massa e atingiu as esquinas.

Do ponto de vista econômico-comercial, Japão e China tanto se lançaram a conquista do mercado asiático individualmente, quanto cooperativamente, através de arranjos regionais, como em acordos com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ou na Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC). No plano político, as divergências são acentuadas. Não por causa dos sistemas políticos, imbuídos de ideologias diferentes, mas em decorrência de mágoas históricas – a ocupação japonesa da Manchúria nos anos 1930 – que repercutiram nos sistemas de educação, nas desconfianças militares e geopolíticas traduzidas na prática da espionagem e na não-aceitação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança, pleito do G-4.

O mais recente episódio que ilustra as rivalidades entre ambos foi a colisão entre dois navios da Guarda Costeira japonesa e um barco de pesca chinês. Aparentemente, o que era um acidente se tornou um incidente diplomático, que envolveu desde a prisão do capitão chinês, passando pela retaliação chinesa ao bloquear a exportação de minerais raros para o Japão, até o pedido de compensação do prejuízo por parte do último. Por que tanto alarde? Será que não é uma questão de orgulho ferido? Não faz tanto tempo, a China se tornou a segunda maior economia do mundo (aqui), ultrapassando o PIB japonês, posição que o Japão sustentava desde 1968, quando superou a Alemanha Ocidental. (Vejam notícias e análises sobre os acontecimentos aqui, aqui, aqui e aqui)

Segue, então, os dois gigantes asiáticos, sem condomínio e nem plena harmonia. Entre a cooperação e a rivalidade, China e Japão caminham para o cumprimento de seus respectivos destinos, de modo que um permanece atento as ações do outro.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Política e Política Externa


A Página Internacional vai virar livro!

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“Eu te amo para começar a amar-te,

para recomeçar o infinito

e para não deixar de amar-te nunca:

por isso não te amo todavia.”

Eis uma estrofe dos Cem Sonetos de Amor do poeta, e também diplomata, Pablo Neruda. Eis o amor de cada membro da Página Internacional pelo blog. Amor e dedicação, ingredientes essenciais para qualquer sucesso. O mais recente: a conquista do concurso “BlogBooks” na categoria Política, promovido pelo Portal Ediouro, e, conseqüentemente, a possibilidade de se tornar livro (confiram a premiação aqui). É uma emoção indescritível, a ponto de as palavras não alcançarem a voz, mas capazes de inundarem o coração e o espírito. Um sentimento para se sentir, um amor para não amar o suficiente nunca e, assim, prosseguir amando o blog e o que fazemos.

E quem diria que chegaríamos onde chegamos? Por certo, em nossas pretensões iniciais com o blog, não sonhávamos tão alto. Iniciativa capitaneada pelo Alcir e que logo ganhou coro entre os membros. Dedicávamos a analisar criticamente os principais fenômenos em curso das relações internacionais, de modo que qualquer público externo à área pudesse ter facilidade em compreendê-los. Queríamos nos ocupar criativamente do aprendizado em sala de aula. Fomos além, ganhamos popularidade, traduzidas em carinhos, sugestões e apoio. Ganhamos inclusive o Top Blog, no ano passado, também na categoria Política, eleito por um júri acadêmico.

O mais interessante deste projeto é que éramos (e somos) analistas e, ao mesmo tempo, aprendizes, estimulados pela mensagem da frase que passou a nos guiar: a incompreensão do mundo. Evidentemente, não pretendemos trazer respostas prontas e acabadas, mas exercitar as nossas dúvidas mutantes e as nossas conclusões inacabadas, em meio ao dinamismo da realidade que nos cerca. As discussões, na parte dos comentários, são fundamentais para esse exercício e os leitores muito nos ensinaram.

Nesta hora de comemoração e celebração, é cabido também um relato particular sobre a organização interna do blog. Nós sempre nos cobramos muito! Em momento algum, deixamos a tocha cair. Ocupamo-nos de passar diariamente a responsabilidade compartilhada, um para o outro, para sempre nos mantermos atualizados. É uma equipe fantástica, cujo profissionalismo excede o formalismo: antes de sermos colaboradores, somos amigos! Uma amizade que percorre toda e qualquer distância. Nossos laços fraternais se desenvolveram logo nos primeiros meses da graduação e, ao término dela, permanecemos unidos, como se a ausência não pudesse ser sentida um dia sequer. Alguns membros acabaram por nos deixar, mas permanecerão atados à história da Página Internacional. Não é, Ana? Não é, Adriana?

Por fim e o mais importante, os agradecimentos. Agradecemos imensamente a você, leitor, que, dia após dia, nos acompanha nesta aventura de desbravar a incompreensão do mundo. Deixamos expressa a nossa gratidão a todos os parceiros, apoiadores e professores – em especial, da Unesp-Franca – por contribuírem com esta iniciativa. Às vezes, a memória momentaneamente fraqueja na nomeação, portanto esperamos contemplar a todos os que contribuíram através desta mensagem, sem citações e tampouco esquecimento. Em nome de toda a equipe da Página Internacional, encerramos com o nosso muito obrigado pelo respeito e pela confiança. Fiquem todos certos de que o nosso insuficiente amor sempre brilhará no amanhã!


Categorias: Post Especial


É de matar…

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Bom, agora é oficial: Sakineh Mohamadi Ashtiani, a iraniana cuja pena de mote causa uma celeuma internacional, vai ser executada por crime de homicídio. Claro que de um jeito um pouco menos desumano que a dilapidação, mediante o popular enforcamento (método favorito dos suicidas e ainda em uso em países mais civilizados como o Japão, outros nem tanto, como o Irã e a China, e alguns estados norte-americanos). Certamente parece menos assustador morrer com o pescoço quebrado e inconsciente do que tendo a cabeça acertada por pedras cortantes. Contudo, apesar desse caso suscitar discussões variadas que vão do feminismo e direitos humanos ao programa nuclear iraniano (pra variar), cabe uma visão ainda mais profunda acerca da própria questão da pena de morte, jurídica e eticamente.

Bem, se perguntássemos hoje a um cidadão qualquer nas ruas do Brasil, não seria difícil achar quem defendesse a pena capital no nosso país. O estado atual de coisas faz com que muitos não se façam de rogados ao defender um modo de lidar com criminosos que no Brasil é restrito a crimes de guerra e não é praticado como punição a crimes comuns desde a proclamação da república, nos idos de 1889. Provavelmente, nunca virá a ser adotado, mesmo por que a Constituição não permite. Agora, é de estranhar que um brasileiro médio coadune com um tipo de mentalidade que pode ser vista em regimes autoritários e violadores de direitos humanos – matar criminosos comuns não é a regra em países democráticos. No Equador, por exemplo, a pena de morte é prevista apenas para o crime de pirataria em alto-mar. Já na Ásia, por exemplo, a maioria dos crimes que resulta em pena de morte estão relacionados ao narcotráfico e essa política tem reflexos na saúde pública. Claro que há casos extremos como China e Cingapura, onde crimes como latrocínio e ofensas ao presidente (!) são passíveis de execução.

Mesmo nos EUA, país onde as execuções são mais famosas, a pena capital é reservada aos crimes mais hediondos, e tende-se a comutar a pena, exceto nos estados mais conservadores. Por isso causou muita repercussão (e acusações iranianas de hipocrisia) o caso de uma senhora executada há pouco tempo (ela, que sofreria de problemas mentais, foi morta como mentora do plano, enquanto os executores foram condenados à prisão). Não vamos entrar nos méritos de discutir o sistema penal dos EUA. A questão é encarar por que a pena de morte é tão bem vista em um país pacífico como o Brasil.

Esse tipo de medida daria certo aqui? No Japão, a pena de morte é prevista para casos simples de homicídio com agravantes – e plenamente apoiada pela maioria da população. Mas isso em um país onde a taxa de criminalidade é baixíssima, e nem vamos comparar indicadores sócio-educacionais. O apoio no Brasil teria como fonte essa indignação com o crime em si e seu efeito de “anormalidade social” ou com a simples ineficácia do sistema em manter a ordem? Me parece que a segunda opção é mais plausível – e por isso invalida essa simpatia pela pena de morte.

Por que aceitaríamos que um assassino fosse morto quando nos horrorizamos com a condenação da senhora iraniana? Pessoas são pessoas, e o fato é que a pena de morte é algo inaceitável, que não seja pela combalida defesa dos direitos humanos, seja pela possibilidade sempre presente da execução de um inocente ou pelo fato de que nunca diminuiu a violência onde é aplicada. Isso quando é aplicada com “justiça”. Não vai ser tirando a vida de marginais que vamos resolver os problemas sociais do Brasil, a solução é muito mais complicada que isso. Deixemos essa medida extrema para aqueles da laia de Ahmadinejad.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Divisão

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[Pessoal, depois de alguns meses ausente deste blog por conta da falta de tempo, resolvi voltar! A partir de hoje volto a escrever regularmente para a Página Internacional]

Um país vítima dos desmandos de um ditador. Alguém que tem repulsa pela democracia, pelas instituições e que só faz por criar mecanismos que o sustentem em seu plano de poder sob o disfarce de uma suposta revolução social: Essa é a Venezuela de Chávez.

Um país democrático, onde o povo, de forma direta e legítima, escolhe os rumos da nação, mesmo que isso signifique contrariar os interesses de uma elite que vem perdendo força há mais de 10 anos. Povo que decidiu manter-se liderado por um homem que revolucionou o país através do ‘Socialismo do Século XXI”: Essa é Venezuela de Chávez.

Qual é a Venezuela de fato? Depende de quem responde.

Inflação altíssima, baixo crescimento econômico, desrespeito à democracia e aos direitos humanos?

Democracia direta, revolução social, crise econômica, sim, mas em um país que há alguns anos crescia a taxas de 15% ao ano?

Hoje os venezuelanos vão às urnas para as eleições legislativas e, quem sabe, o mundo pode ter uma prévia sobre o que eles pensam, ou pelo menos sobre o que pensa a maioria (isso se não houver fraudes).

Ao contrário das últimas eleições legislativas, quando a oposição teve a brilhante idéia de boicotar o pleito, desta vez há a possibilidade de que não se eleja um legislativo chavista. Pesquisas indicam que os eleitores estão divididos e não apontam vantagem significativa de nenhum dos lados.

Em meio às crises pelas quais vem passando a Venezuela recentemente, sejam elas econômicas ou políticas, seria de se esperar que as pesquisas apontassem alguma vantagem da oposição. Manipulação das pesquisas pelo governo? Manipulação da nossa mídia sobre uma suposta grave situação na Venezuela que na verdade não é tão grave assim? A Venezuela às vezes parece uma caixa preta…

Esperamos o resultado das eleições, certamente trarão mais certezas e ainda mais dúvidas. Para ambos os lados.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


Equador: a instabilidade política e suas lições

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Em 2005, Lúcio Gutierrez tornou-se o terceiro presidente forçado a renunciar a seu posto em menos de oito anos. O então chefe de Estado era acusado de corrupção, culminando na sua tentativa de fuga em um helicóptero com destino ao aeroporto de Quito. Não chegou a seu destino final, terminando abrigado na Embaixada do Brasil, já que intensos protestos populares e movimentações de militares não permitiram que deixasse o país. Por fim, teve seu pedido de asilo político aprovado pelo governo brasileiro e deixou o Equador.  

Se algum dia qualquer pessoa não compreender o significado de instabilidade política, estudar a história recente do Equador será um exercício definitivo. Impossível não entender o conceito depois disso. Em grande parte, denúncias ou rumores de enriquecimento ilícito, uso da máquina pública em benefício próprio ou corrupção geraram grande revolta popular, provocando, em grande medida, as inúmeras reviravoltas políticas equatorianas.  

Alberto Dahik, vice-presidente em 1995 e atualmente exilado na Costa Rica, evadiu do país antes que fosse submetido a julgamento em decorrência das denúncias de seu possível envolvimento em escândalos de corrupção. O acusado, em contrapartida, entrou com uma petição contra seu país na Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando que teve seu direito de defesa cerceado pelo Estado equatoriano. Atualmente se discute a anistia de Dahik, a partir de uma iniciativa de Correa.  

Em 2000, o então presidente Mahuad, frente à crise econômica que assolava o país, apresentou a proposta de dolarização da economia equatoriana, em outras palavras, extinguir a moeda nacional (o sucre) e adotar o dólar norte-americano em substituição. Viu o país tomado por protestos populares, unidos estavam indígenas, oposicionistas e sindicatos trabalhistas. Formou-se então uma Junta de Salvação Nacional, com participação militar, que dissolveu o Congresso (que já aprovara o plano de Mahuad), substituindo não só o presidente como todos os membros do legislativo. Como em um golpe do destino, o mesmo Gutierrez que esteve nos “braços do povo” – à medida que teve papel fundamental neste processo – teve um final ainda mais dramático.  

Rafael Correa tomou posse em 2007 e ruma a completar seu quarto ano (consecutivo) no poder. Um grande feito na história dos últimos anos de seu país. Na mais recente pesquisa, Correa atingiu 73% de aprovação popular, suficiente na visão de analistas para alavancar tal apoio na forma de nova vitória política – caso proponha um referendo que lhe permita um novo mandato presidencial. Seu governo tem paralelos com o modelo implementado por Lula no Brasil. O equatoriano, no entanto, assumiu o comando do país em um momento de maior instabilidade e fragilidade política em relação ao brasileiro, tendo consolidado uma Revolução Cidadã plenamente respaldada pelos setores populares.

Durante este período de instabilidade, o povo equatoriano não se escondeu. Poderia ter escolhido a passividade, a descrença ou o desengajamento político. Não obstante, preferiu expulsar “na marra” políticos que julgou como traidores da nação. Identificou em Rafael Correa, com seus méritos e defeitos, um via alternativa aos anseios populares, tão reprimidos e esquecidos por governantes anteriores. A democracia equatoriana, cerca de 10 anos mais velha que a brasileira, deixa o exemplo da mobilização popular efetiva contra a corrupção ou políticas que atentem contra seus direitos.

Faltam menos 10 dias para as eleições no Brasil. Mais do que um exercício cívico, tornou-se um verdadeiro martírio. Sobram acusações e candidatos pouco gabaritados, faltam debate e candidatos 100% “ficha limpa”. Caso, por exemplo, Gutierrez e Dahik fosse brasileiros, teriam sua vida política finita ou estariam vivendo um período de férias e reflexão antes das próximas eleições? Não poderiam logo ser nomeados ministros ou trabalhar na elaboração de leis no Congresso Nacional com o Tiririca? Afinal, “pior do que está não fica”.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


Biodiversidade em questão

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“A soma de todos os diferentes tipos de organismos que habitam uma região tal como o planeta inteiro, o continente africano, a Bacia Amazônica, ou nossos quintais”. Esta é a definição que Andy Dobson nos oferece ao conceito de biodiversidade e que parece bastante completa.

Esta idéia, amplamente divulgada e compreendida sob diversos aspectos no mundo, tem representado o foco midiático da Organização das Nações Unidas (ONU) neste ano: 2010 foi proclamado o “Ano Internacional da Biodiversidade” por esta instituição para chamar a atenção aos problemas e desafios existentes neste sentido – seja no mundo, no ambiente interno de cada país, ou em nossas próprias residências.

Discutir questões ambientais nas Relações Internacionais certamente constitui um dos aspectos que, apesar de – teoricamente – representarem práticas consensuais de ação, na prática demonstram a urgência da demanda por ações coordenadas para proposições efetivas. Tal como os problemas, também as soluções ambientais devem ser transfronteiriças.

A proposta de promulgar “anos internacionais” constitui uma interessante estratégia da ONU para midiatizar questões específicas de forma a enriquecer a visibilidade e mobilizar os diferentes setores da sociedade em prol de uma causa específica. E, apesar de não parecer, vale ressaltar que a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e cresce exponencialmente…

No ano de 2002, houve uma Conferência das Partes (COP) para estabelecer metas a serem alcançadas em 2010. Oito anos se passaram e haverá mais uma COP da Biodiversidade no próximo mês para avaliar os resultados e entender o contexto atual nesta esfera. Diante de frustrações como aquela vivenciada por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ao final do ano passado, talvez otimismo não seja exatamente o tom da discussão da realidade.

Quiçá será um dia. Ou assim esperemos, trabalhando para visualizar este futuro sobre o qual não podemos apenas teorizar, mas que deve ser construído diariamente em termos de sustentabilidade por meio de ações conjuntas no mundo. Ações estas que começam, é claro, pela mudança em nossos próprios quintais.


Categorias: Meio Ambiente, Organizações Internacionais


Podcast

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É com prazer que a Equipe Página Internacional disponibiliza neste espaço mais um podcast!

Nesta oportunidade, gravada por ocasião da VIII Semana de Relações Internacionais da UNESP ocorrida entre os dias 09 e 13 de agosto na cidade de Franca/SP, tivemos a oportunidade de entrevistar o Prof. Dr. José Blanes Sala, graduado em Direito pela Universidade de São Paulo e doutorado em Direito Internacional pela mesma instituição. Atualmente é pesquisador vinculado a projeto temático do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e professor da “Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Campus Marília.

O tema da entrevista é a questão dos Direitos Humanos na América Latina e a posição desempenhada atualmente pelo Brasil neste âmbito. O professor nos apresenta uma visão bastante interessante neste sentido, vale a pena conferir!

Agradecimentos especiais devem ser destinados ao Pedro Henrique de Carvalho Costa, membro do Centro Acadêmico de Relações Internacionais “João Cabral de Melo Neto” da UNESP – Campus Franca, que nos ofereceu importante apoio para a realização deste podcast.

Aproveitem a discussão e sintam-se à vontade para comentar a respeito!

Faça o download aqui.

Há um ano...

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E cá estamos mais uma vez com esse exercício de memórias. E memórias de um passado não muito distante que parecem jamais ser apagadas da história da política externa brasileira. Há exatamente um ano o Alcir postou um texto sobre uma volta triunfal. Após ter sido expulso de seu país, o presidente de direito de Honduras à época, o excêntrico Manuel Zelaya, misteriosamente retornou a Honduras. E onde? Na nobre embaixada brasileira.

Coincidência ou ingerência? Esse foi o ponto bem levantado pelo Alcir há exatamente um ano. E que repercussão teve tudo isso. Bombardeios de artigos em jornais brasileiros, hondurenhos e internacionais sobre o Brasil.

Se a intenção do projeto de inserção internacional brasileira era expor-se mais no cenário internacional, tal evento fez o papel de anos de política externa. Agora se os efeitos foram positivos ou não, aí a história é outra.

Enquanto a questão hondurenha era a peça do momento segundo a mídia, o Alcir mais uma vez tentou lembrar cantos do mundo e temas esquecidos à época. A exemplo da 64ª Assembleia Geral da ONU como palco de outro show, tratando de pirraças, hipocrisias e inquietações dos estadistas. E a atuação do então presidente da Líbia, Muammar Kadafi – rasgando cartas das Nações Unidas e defendendo o Talibã – foi literalmente teatral.

Outro colaborador, o Rafael Braz, também fez bem o trabalho de focar em partes do mundo esquecidas, em um post sobre a atual situação da polêmica República Democrática Popular da Coreia (RDPC). Vale a pena reler, pois retoma aspectos bem importantes à análise dessa intrigante questão.

Recordar é viver. E assim vamos, postando e relembrando!


Categorias: Há um ano...


65ª Assembléia Geral da ONU: entrada para raros, saída para raridades

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Há uma semana, deu-se início a 65ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (aqui), na qual entram os raros e da qual saem raridades. Não no sentido de Fernando Anitelli e sua trupe de “O Teatro Mágico”, transformando qualquer espetáculo num grande sarau, mas com nações e diferenças que devem dialogar em prol do mundo todo, sem lirismos nem fantasias. Ninguém coopera porque é bonzinho e ninguém guerreia porque é naturalmente mau, há interesses em jogo, que excedem os discursos poéticos e entremeiam o binômio realidade/transformação.

No novo milênio, os líderes e representantes de todas as nações do mundo lançaram os chamados Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e então se dedicaram a persecução de cada um deles até 2015. Esforço raro, notável e necessário. É também, como de práxis desde 2001, objeto de avaliação durante esta Assembléia. O tempo está encurtando e menos da metade dos países alcançarão essas metas audaciosas.

E a paz e segurança internacionais, objetivo primordial da Carta da Organização? Hoje, o Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, abordou várias dimensões dos problemas para o cumprimento desse objetivo (aqui), bem como das iniciativas que se têm adotado, indo muito além da questão nuclear iraniana ou do secular conflito israel-palestino. É bem verdade que Ahmadinejad não poderia deixar de polemizar e atrair a atenção da mídia, por meio de idéias como “guerra ilimitada” ou “fim do capitalismo”. Mas suas declarações impactantes não devem parar por aí, porque na sexta é que se discutirá sobre o desarmamento.

Outro assunto caro para esta Assembléia Geral é a biodiversidade – não nos esqueçamos, este é o Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela ONU. Não faz muito tempo, Jeffrey Sachs, renomado economista norte-americano e idealizador dos ODM, declarou que era preciso mudar para sobrevivermos, o que inclui o aproveitamento responsável da biodiversidade, compatível também com o desenvolvimento humano. Aqueles que estão presente neste período de sessões estariam cientes disso? Saberiam como fazê-lo? Muitas vezes, até sabem, mas escrevem fórmulas que não ultrapassam os limites de uma resolução, declaração ou qualquer outro documento oficial.

Sempre o ceticismo ronda as Assembléias Gerais das Nações Unidas, caracterizadas como um espaço de encontro de cavalheiros de suas cortes nacionais para discutir o mundo de modo sofisticado – atualmente, há também ingresso para os representantes da sociedade civil organizada. Substituamos ceticismo por raridade. Entram os raros, um seleto grupo que responde por praticamente sete bilhões de pessoas. Saem decisões raras, que abrangem todo o conjunto de povos. As Nações Unidas ainda não estão à altura dos desafios vindouros do século XXI, conforme questionou Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU, em 2000.


Categorias: Organizações Internacionais