Quelqu’un m’a dit

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E disseram mesmo! Este é nome de uma das canções mais famosas de Carla Bruni, que também é a atual primeira-dama francesa. Numa breve paráfrase para sintetizar o assunto: alguém lhe disse que a vida não vale grande coisa, não porque passa em instantes como murcham as rosas, mas por ser prostituta. Prostituta? Ao menos, esta foi a acusação do jornal iraniano Kayhan em resposta ao pedido de Bruni pelo fim da punião por apedrejamento no Irã.

Não bastassem alguns jogadores da seleção francesa de futebol criarem um mal-estar entre si por causa de uma prostituta, agora a palavra pulula os mais altos círculos políticos do país. Tudo bem que o Irã, em matéria de polemizar, é campeão do mundo, mas foi um golpe-baixo, uma ofensa de caráter pessoal. O jornal não apenas chamou Carla Bruni de prostituta, como julgou que ela merece um destino similar ao de Sakineh Mohammadi Ashtiani, a iraniana condenada à morte (entenda o caso aqui). Na opinião do jornal, Bruni teria provocado a separação do presidente Sarkozy com a sua segunda esposa, indicando um comportamento ultrajante e imoral para dizer qualquer coisa ao governo iraniano.

A resposta do governo francês foi afirmar que os insultos são inaceitáveis. De fato, são inaceitáveis, todavia um olhar ampliado relevaria uma problemática recorrente na França: a imigração, principalmente de muçulmanos oriundos do Magreb. Como eles são recepcionados? Não é necessário nem ir tão longe: no mês passado, cenas da violência policial contra os imigrantes foram veiculadas pela internet. É difícil dizer se o Irã levou isso no cálculo racional para a feitura de tais insultos, mas parece ter sido um apelo chamativo em prol das tradições muçulmanas, desprezadas pelos franceses.

Por outro lado, este imbróglio reacende novamente a questão sobre a relativização dos direitos humano. O Oriente os considera como uma invenção ocidental e qualquer iniciativa semelhante à de Bruni é percebida como uma afronta aos seus valores históricos e culturais. Já no Ocidente, muitos se indignam e também se sensibilizam com o infortúnio de Sakineh, a ponto de desejarem a abolição dessa punição brutal. Diante desse quadro, a pergunta inevitável: o que fazer? Agir para coibir ou deixar tudo como está? Proteger a vida e a dignidade humana ou preservar o princípio da auto-determinação dos povos? Esses são problemas com que freqüentemente se depara a comunidade mundial, incluindo também atores não-estatais.

Está dito! Investigamos então as origens dos dizeres com a finalidade de pensar para onde eles podem conduzir: dos insultos a Bruni à problemática dos direitos humanos. Em que pese esse último aspecto, alguém precisa dizer e dizer muita coisa para se chegar a alguma solução…


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O México é aqui?

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Pois é, época de eleições e não se fala em outra coisa no Brasil. Como já tratamos de eleições pelos quatro cantos do mundo (apesar deste ser redondo) em 2010, hora de comentar um pouco o pleito nacional. No espírito da imparcialidade, vamos focar em um aspecto um pouco diferente, mas não menos aventado na mídia – umas análises meio alarmistas que andam saindo de “mexicanização” do Brasil.

“Mexicanização”? É o nome que se deu no Brasil ao processo de institucionalização de uma “ditadura branca” (termo meio que controverso) no México durante mais de 60 anos com o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que se manteve hegemônico no México dos anos 30 aos 2000. Assumindo um caráter de início extremamente popular, com o resgate de princípios da Revolução de 1910, tornou-se uma espécie de bloco hegemônico e considerado unipartidário (havia outros partidos, mas de tão pequena expressão que na prática apenas o PRI concorria). Por isso o aspecto de “ditadura”, pois as eleições livres estariam apenas dando uma carapuça democrática a um governo contínuo.

E o Brasil com isso? Já houve temores de coisas semelhante ocorrer por aqui antes (tanto que o termo já existia), por exemplo, na época das acachapantes vitorias da ARENA. Nunca se chegou ao ponto de um unipartidarismo mascarado por aqui. Porém, o que se anda dizendo é que caso o PSDB seja derrotado nas principais instâncias governamentais, não tenha forças para se reerguer como oposição nacional e abra caminho para um processo semelhante de erosão com uma hegemonia de centro-esquerda fundamentada no maquinário estatal e pessoal dos anos Lula.

A discussão sobre isso é complicada, mas tenhamos em mente, contudo e de maneira breve, que são situações bem diferentes, pois a oposição aqui, apesar de um pouco ineficiente nos últimos anos, ainda é bem organizada. Ademais, e principalmente, para algo assim dar certo, um eventual governo que mantenha as bases atuais dependeria de bons ventos internacionais para se sustentar, visto que é isso que mantém o sucesso do país hoje. Quando a economia internacional não estiver tão favorável, e isso vai acontecer cedo ou tarde, o Brasil enfrentará o rombo fiscal e um monte de outros problemas até agora contornados, o que contribuiria para uma provável perda de popularidade. Quando se trata de mudar de opinião, a economia geralmente se reflete imediatamente na opinião povo – Obama que o diga. Assim, o risco desse tipo de hegemonização seria relativamente improvável.

Um último ponto de reflexão: poderíamos pensar também em “mexicanização” com a escalada da violência? Nada é impossível, e claro que no Brasil a coisa está feia, mas ainda não está nos patamares catastróficos do México, com mais de 20 mil mortes, em pouco mais de 4 anos, diretamente ligadas ao narcotráfico. Se não acredito que vá haver essa mexicanização política, tampouco que haja um dia em que aconteçam por aqui e com regularidade massacres como o da semana passada. O México não é aqui, espero.


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Somos populistas?

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Uma frase é recorrente quando se fala em política na América Latina: isso é populismo ou esse líder é um populista. Em geral, sem querer qualquer tipo de julgamento, há uma tendência a enxergar paralelos entre líderes vinculados a esquerda (ou socialismo do século XXI) e políticas entendidas como populistas. Aí surge minha questão, afinal, somos ou não?  

Primeiro, nos cabe um esclarecimento. São três os elementos base, de acordo com as análises sociológicas, para definir o que significa esse termo: massificação de camadas da sociedade e desvinculação das mesmas de seus grupos sociais; perda de representatividade da classe dirigente; e o aparecimento de um líder dotado de grande carisma. A primeira vista, portanto, não seria necessariamente fenômeno negativo, certo?  

O sociólogo Jorge Ferreira vai além, ser considerado populista no Brasil do início do século XX era um elogio. Ao contrário do atual estigma, eram considerados amigos do povo, ou seja, ouviam suas aflições e atendiam seus anseios. Assim, a população encontra em certos líderes carismáticos uma saída ao processo político tradicional, em outras palavras, uma forma de ver suas demandas atendidas por seus representantes. Tal dinâmica nos leva a refletir sobre o seu contexto. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, governou o Brasil quando nos transformávamos em um país baseado nas cidades, não mais no campo, ao passo que na economia vivíamos o período da substituição das importações. De certa forma, este é um processo geral latino-americano no período.  

Mas então, por que o populismo (ou já um neo-populismo) tem sentido pejorativo no século XXI? Ainda de acordo com Ferreira, líderes da direita e da esquerda, identificaram uma tendência que funcionou como chave para tomar posse completa do Estado. Países varridos por uma desigualdade social endêmica, uma sociedade civil inativa e uma classe trabalhadora fraca; que logo se tornaram alvo fácil para manipulação e cooptação. Não bastassem as dificuldades sociais estruturais que a América Latina vivia, muitos países enfrentaram períodos de repressão comandados por militares. Uma vez retomada a democracia, os grupos tradicionais e conservadores viram suas lideranças não se renovarem, ainda fechadas como antigas oligarquias. Desta maneira, a América Latina foi “prato cheio” para lideranças carismáticas que ofereciam um caminho diferente dos conservadores, frente a um povo aflito e cansado de ser reprimido.  

Depois desta breve digressão, voltamos a nossa pergunta. A partir dos critérios expostos por sociólogos, me parece plausível responder que sim. Mais que isso, este é um fenômeno relacionado à história da nossa região. Ainda que alguns defendam que os atuais líderes populistas são enganadores e demagogos que utilizam o povo ao invés de defender-lo, são escolhas, na maioria das vezes, da população de seus países. Entre o tradicional e o populista, ficamos com os populistas. Em que pese radicalismos – presentes em qualquer ideologia –, é um modelo efetivo de posicionar-se politicamente na América Latina, na qual o povo ainda tende a ver o governo como um “pai”. Para terminar deixo uma última questão, estão atendendo verdadeiramente aos anseios do povo ou a retórica e o discurso funcionam mais que a prática?


Categorias: Américas


Vivendo e dialogando

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Se dizem por aí que a propaganda é a alma do negócio, pode-se sugerir que o diálogo é a alma das Relações Internacionais. Por ocasião desta semana, China e África do Sul deram mais um passo no sentido do aprofundamento de tal reflexão.

A parceria estratégica entre estes dois Estados – anunciada como polivalente, já que compreende 28 áreas de cooperação – demonstra o diálogo político que chineses e sul-africanos pretendem estreitar nos próximos tempos.

A primeira visita de Jacob Zuma, presidente sul-africano, ao gigante asiático (juntamente com mais de trezentos homens de negócios), terminou ontem com um saldo positivo para ambos os lados – uma dúzia de contratos comerciais foram assinados em várias áreas, tais como defesa, cultura, transporte ou turismo, por exemplo.

Quando questionado a respeito do risco de continuidade do neocolonialismo na África por vias chinesas, o Ministro do Comércio da África do Sul sugeriu que a resposta ao Ocidente deveria ser: “olha quem está falando”

O que pode ser chamado de “diálogo dos que chegaram depois” na verdade demonstra uma realidade cada dia mais presente no cenário internacional: o diálogo inter-estatal com vistas à cooperação estratégica. Vivendo e aprendendo, dialogando e crescendo, assim parece que segue a vida na Política Internacional, especialmente entre os países em desenvolvimento acelerado.


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Conversando com a Teoria

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Panorama Histórico do Sistema Internacional – Parte II

Nesta semana, daremos seguimento à evolução do sistema internacional. Finalmente chegamos a esta tal Paz de Vestifália, tão falado nos dois outros posts e indispensável para a criação do Estado moderno. Pelo tratado, concebeu-se o Estado como a forma de organização política de toda a sociedade e, do ponto de vista externo, nasceu o sistema de Estados.

A Paz de Vestifália findou a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Resumidamente, esse conflito eclodiu com uma disputa pela sucessão do trono na Boêmia (atual República Checa), envolvendo católicos e protestantes. O conflito, basicamente, fora travado entre o Sacro Império Romano-Germânico (católico) e algumas cidades e principados alemães protestantes, apoiados por outros “países” – na verdade, monarquias nacionais – anti-católicos como Suécia e Países Baixos, além da França (apesar de ser católica). Dessa forma, a guerra se alastrou pela Europa e englobou não só questões de tolerância religiosa, as quais compunham a base do conflito, mas também dinásticas e políticas. As disputas só chegaram ao fim com a assinatura do tratado mencionado, que estabeleceu muitas regras e princípios políticos.

De modo geral, quatro são as características mais proeminentes desse novo arranjo europeu: 1) o reconhecimento da legitimidade e da independência dos Estados; 2) a exclusão do “outro”, ou seja, daquele que não se encontrava em seus limites territoriais; 3) a sujeição das relações interestatais ao direito e às práticas diplomáticas; e 4) a idéia de balança de poder, com vistas a impedir que determinado Estado adquira um poder infinitamente maior aos demais, o que colocaria em risco o novo ordenamento da Europa. Ademais, acrescenta-se que o traço marcante do arranjo vestifaliano foi a maneira pela qual resistiu a principal tendência da política nos últimos 362 anos: a submissão dos Estados mais fracos pelos mais fortes e o posterior estabelecimento de um império ou de uma hegemonia global.

Evidentemente, o moderno sistema de Estados, desde sua matriz vestifaliana, não permaneceu impassível de abalos e crises, todavia resistiu. Uma curiosidade é que tal sistema só perdeu o seu caráter eurocêntrico após o término da Segunda Guerra Mundial. Outra curiosidade seria o questionamento sobre a possível superação do templo de Vestifália, isto é, uma nova forma de organização política mundial que não o Estado e o sistema por ele composto. Poderíamos avançar nestas discussões, mas deixemos outras considerações para quando tratarmos da Escola Inglesa. Por enquanto, nossa satisfação se resume ao conhecimento da história dessa forma de organização política, dessas “pedras” de Marco Polo que sustentam o arco da ponte.


Categorias: Conversando com a Teoria


As misturas

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O governo e a imprensa são duas variáveis, que embora possa não parecer, são muito dependentes. Ora, funcionam como água e óleo, e não se misturam nem que haja qualquer intervenção divina. Ora, agem como água e açúcar, que na medida certa se dissolvem perfeitamente. Mas que medidas seriam essas? Bom, de um tipo bem peculiar, que pouco pode ser contabilizado ou mensurado, todavia, todos sabem que estão lá e que são muito importantes: os interesses.

Não é preciso nenhum curso de química avançada para entender essa fórmula. Todo veículo de comunicação em massa constitui um grupo de interesse na sociedade, e, portanto, tende a expressar (e buscar) seus interesses de forma escancarada ou de forma mais branda, em outras palavras, bem nas entrelinhas. Mas a questão é que quando há alguns interesses, visa-se legitimar ou se opor aos governos vigentes (ou a alguns segmentos desse).

O grande problema é quando os ingredientes imprensa e governo, ao serem colocados no mesmo recipiente implicam em uma reação contrária à esperada. Aí emergem excedentes difíceis de serem controlados, pesando mais para um lado ou outro, já que estamos lidando com essas delicadas medidas chamadas interesses (e que para alguns podem ser entendidas em termos de poder).

E a reação pode ocorrer de diversas maneiras, gerando sempre excedentes para um ou outro lado. As variações são inúmeras, e se dão entre os escopos de inabilidade do governo em lidar com possíveis ataques da imprensa, de tentativas de controle estatal desse veículo e de publicações de notícias com vias de desmoralizar governantes.

Bom, o caso é que alguns países da América do Sul têm experimentado os ônus de reações químicas, digo, políticas, infortuitas. Enquanto a Venezuela vive o caso de grande excedente para o lado do governo – visando controlar cada segmento da mídia – a Argentina parece não saber lidar bem com as críticas ao atual governo.

No novo episódio do interessante caso argentino, Kirchner afirma que a publicação de jornais tornou-se questão de “interesse nacional”, e, portanto, é necessário que a principal empresa produtora nacional de papel jornal, Papel Prensa, socialize o acesso à informação barateando os custos dos demais jornais e não somente de “O Clarín” e “La Nación” (famigerados opositores do governo Kirchner). De maneira interessante, emergiram também acusações de colaboração desses dois jornais com governos militares anteriores.

Muita reflexão é necessária acerca desse caso. Seria realmente uma questão de socialização da informação? Ou seria apenas mais uma consquência de uma mistura governo-imprensa na qual as medidas não batem? Resta esperar para analisar melhor os excedentes dessa mistura…


Categorias: Américas


Terror somali, terror africano

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Comumente, fala-se que dentro da África existem várias Áfricas. Por vezes, estas são encontradas no interior dos próprios países. Desde a partilha do continente durante a Conferência de Berlim, em 1884, entre as grandes potências coloniais do século XIX, o comportamento fratricida perdura no berço da humanidade. É africano matando africano! Conflitos étnicos, religiosos, tribais e até por recursos naturais, como no caso da disputa entre os países fronteiriços pela água do Lago Chade. E agora, também o tal do “terrorismo”. Um terrorismo que ainda não encontrou o seu lugar nas orientações da política externa norte-americana. Mas que mais é real e urgente do que a invocação de inimigos imaginários para satisfazer interesses ocultos.

A Somália é o destaque desta vez. País cuja fama recente recai sobre os casos de pirataria e o filme “Flor do deserto”, hoje sofreu um atentado terrorista. O alvo foi um hotel na capital Mogadíscio. Estima-se que 32 pessoas tenham morrido, sendo que seis delas eram membros do Parlamento. A ação foi reivindicada pelo grupo al-Shabab, supostamente vinculado à Al-Qaeda. Aliás, já se acredita na disseminação dessa rede pelo continente africano, não mais restrita ao Magreb (região que comporta os seguintes países: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Saara Ocidental e Mauritânia).

Dois pontos chamam a atenção. Primeiro, a paz e a segurança não reinam na África em definitivo. É fato que as missões da ONU (vejam aqui a lista delas no site da organização) tenham contribuído no processo de pacificação do continente, mas permanece o desafio pendente. Segundo, a África percebeu que a integração continental deve partir da segurança, pois somente dessa maneira seria possível visar ao desenvolvimento e resolver os problemas recorrentes. A União Africana criou um Conselho de Paz e Segurança, a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, a Comunidade Econômica da África Central e outras tantas contam com uma estrutura militar em sua composição. Portanto, há um lugar para o terrorismo nas preocupações políticas africanas, ainda pouco explorado.

É preciso estudá-lo melhor. Não é só no Magreb que ele ocorre, região até agora privilegiada pela União Européia e que logo poderá ser o foco dos Estados Unidos. É por essa região que os imigrantes alcançam a Europa e também é onde a China se lançou à procura de recursos naturais, notadamente o petróleo. Eis a fórmula óbvia: inventar um inimigo para intervir e legitimar as ações condicionadas por outros interesses que fazem do combate ao terrorismo um meio, e não um fim em si mesmo. Ainda é precipitado o uso do conceito de “terrorismo nuclear”, como consta na nova estratégia de segurança norte-americana: os atos envolvem principalmente armas e bombas. Na África, pode ser freqüentemente realimentado por diferenças étnicas, nos percalços do condomínio de Berlim. Também há o terror no continente, o que aconteceu na Somália não é um fato isolado!


Categorias: África, Conflitos


Dor maior

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E voltaremos às conversas de paz no Oriente Médio. Como anunciado por Hillary Clinton semana passada, Israel quer a paz. Ou, pelo menos, voltar atrás e aceitar a retomada nas negociações de paz com os palestinos. As idas e vindas desse relacionamento conturbado já não são novidade nos últimos 17 anos, e não seria surpresa se dessem em nada, visto que ambas as partes vão ter que atender a concessões que não estariam tão inclinadas a aceitar. A vontade de negociação parece legítima, mas sua viabilidade já está comprometida – o primeiro ministro israelense Netanyahu já prevê que as exigências centrais de seu país, como o reconhecimento do Estado judeu e a manutenção de suas premissas básicas de segurança, não serão aceitas pela outra parte.

Ora, não é novidade que se a solução fosse fácil eles não estariam negociando há duas décadas. A diferença agora é que existe um catalisador improvável nessa equação agora, e adivinhem só… o Irã, de novo! No momento, Israel está com uma preocupação terrível quanto ao país de Ahmadinejad, e não surpreende que o anúncio da retomada de negociações tenha ocorrido quase que ao mesmo tempo que o anúncio da ativação do primeiro reator nuclear e da apresentação de um drone (avião de ataque não-tripulado) produzido totalmente no país, um dia depois. Israel já está com o dedo no gatilho para um ataque preventivo e só não o fez ainda pois os EUA estão livrando a cara do Irã (quem diria…) garantindo que não conseguiriam uma bomba em menos de um ano e dissuadindo Israel dessa ação desesperada.

Isso me lembra do famoso personagem de Luis Fernando Veríssimo, o Analista de Bagé – um nada ortodoxo psicólogo que tinha uma técnica diferente para curar seus pacientes, o “joelhaço”. Basicamente, desferia um belo golpe no estômago para fazer o paciente esquecer da dor ou dos problemas na cabeça com a dor física. Bem, Israel já te uma dor de cabeça tremenda com a questão Palestina. Mas comparar homens-bomba com armas nucleares é até injusto, e na sua visão já levou um “joelhaço” que até nome tem, Bushehr. Resta saber qual dor vai causar mais estrago, e provavelmente nem Israel tem ideia.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


Ásia: a região do futuro?

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Um dos principais elementos das Relações Internacionais, desde seus primórdios, é o poder. Não importa a forma – seja econômico, político ou militar – cada agente no Sistema Internacional, essencialmente me refiro a Estados, baseia suas escolhas nos principais pólos de poder. Neste contexto, qualquer estudante em sua vida escolar terá contato com a história de grandes Impérios (unipolaridade), a bipolaridade na Guerra Fria, ou mesmo a ascensão de uma possível ordem multipolar, na qual não haveria centros de poder absolutos.  

Ser o agente mais poderoso em um momento não é garantia de proeminência permanente. Todo o Império que se preze um dia viu sua própria derrocada, por problemas internos ou pelo surgimento de agente com mais recursos e capacidade de gerar influência nos demais. Recém começado o século XX, é amplo o debate sobre um novo foco de poder, a China, e a débâcle do atual país de maior poder, os Estados Unidos. É inegável que nos últimos 30 anos, a Ásia – não somente a China, mas em especial este país – melhorou a qualidade de vida de sua população e atingiu um crescimento econômico constante e dinâmico, quando não acelerado. 

O modelo de desenvolvimento da região foi enfocado em diversificar exportações e prover o mundo com uma imensa quantidade de produtos asiáticos, dos mais diversos. Grandes empresas multinacionais também identificaram uma grande oportunidade na região, estabelecendo bases de seus sistemas produtivos em países que ofereciam incentivos fiscais, legislação ambiental não rigorosa e uma mão-de-obra abundante e barata. Assim, a Ásia conseguiu talhar um novo posicionamento frente ao Sistema Internacional, e ver países como Japão, no final do século XX, mais China e Índia, atualmente, como agentes de decisão internacional, não mais meros expectadores nas instituições internacionais.  

A nova Ásia para as próximas duas décadas, segundo Stephen Roach em um Podcast da consultoria McKinsey, estará muito mais baseado em desenvolvimento a partir de seu mercado interno do que no modelo utilizado nos últimos 30 anos, pautado em exportações. Uma região que produziria mais para seu próprio consumo que para o mundo. Sua grande fortaleza seria justamente os mais de três bilhões de pessoas que vivem na região. Roach ainda lança a possibilidade de formação de uma Pan-Ásia, integração centrada na China como promotora de desenvolvimento regional, com países como Coréia do Sul, Taiwan e Japão desenvolvendo o mercado chinês como prioridade, ante aos Estados Unidos e União Européia. 

O desafio seria mudar a estrutura do foco atual – fortemente externo – para suas próprias fronteiras, levando a uma maior sinergia e consequentemente maior integração regional. Contudo nem tudo são flores. Primeiro, não se pode pensar Ásia unicamente com a China como porta de entrada, a região tem temáticas, prioridades tendências muito além das próprias chinesas. Há disputa territorial entre China e Índia; grande influência ocidental na Coréia do Sul, Vietnã e Japão; uma Índia cada vez mais dinâmica e influente, entre outros. A The Economist, inclusive defende que a disputa da China é antes com a Índia no plano regional do que com os Estados Unidos no plano global. Independente desta questão, a Ásia – ainda mais Índia e China – para ter ainda maior importância nas decisões internacionais, necessita conciliação e cooperação regional primeiro.


Categorias: Ásia e Oceania


Estado laico. Ou nem tanto.

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Não, Barack Hussein Obama não é muçulmano. E eis que a religião do atual presidente dos Estados Unidos tem sido discutida em manchetes internacionais.

A questão é que foi divulgada ontem uma pesquisa do Pew Research Center demonstrando que 18% dos americanos acreditam que Obama é muçulmano, enquanto apenas um terço da população, 34%, sabe que ele, na verdade, professa a religião cristã.

E a pesquisa aconteceu antes de Obama apoiar publicamente o direito dos muçulmanos de construírem uma mesquita nas proximidades de onde se localizavam as torres gêmeas em Nova York, derrubadas nos atentados de 11 de setembro, assunto que está gerando bastante polêmica na terra do Tio Sam.

O que chama a atenção neste âmbito não é apenas o debate em torno da liberdade ou não de um templo muçulmano ser construído ao sul de Manhattan (muitos familiares de vítimas dos atentados terroristas consideraram um insulto tal possibilidade). O mais intrigante é a preocupação da Casa Branca em garantir (sim, este é o termo utilizado) que Obama é cristão.

A preocupação que o governo está demonstrando em configurar a imagem deste importante estadista ocidental como cristão que “reza todos os dias” pode gerar uma discussão muito mais ampla. É importante contextualizar que, nos EUA, a laicidade do Estado (ou seja, sua neutralidade religiosa) é datada do ano de 1787. Desta forma, se promove a separação entre Estado e Igreja, constituindo a religião uma opção livre dos cidadãos. Mas será que esse Estado é realmente tão laico assim?

Ao vislumbrar manchetes na mídia internacional com o foco em apresentar a cristandade da família Obama, parece que se desconfigura a atitude crítica que deveria desvincular a religião da vida pública na contemporaneidade. Por que as crenças religiosas (e pessoais) de Obama importam tanto?

Contestar uma decisão política polêmica é um aspecto a se discutir, porém manter um conservadorismo medieval que exige esclarecimentos acerca das preferências religiosas de um cidadão, seja ele o presidente dos Estados Unidos ou não, talvez demonstre que a modernidade ainda esbarra em preconceitos mais profundos do que podem parecer à primeira vista…


Categorias: Estados Unidos, Mídia, Política e Política Externa