Obama e seus "amigos" do Oriente Médio

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Essa semana, mais uma vez, o presidente norte-americano, Barack Obama, recebeu o primeiro ministro israelense, Binyamin Netanyahu, para tratar das negociações de paz no Oriente Médio. O tom desse encontro foi bem mais ameno que o anterior, quanto o Netanyahu visitou a Casa Branca logo depois de anunciar a expansão das colônias israelenses em Jerusalém Oriental. Naquela ocasião, o vice-presidente Biden e o conselheiro de Obama, David Axelrod, criticaram veementemente os planos do governo israelense. Seguem, no entanto, as mesmas questões principais em discussão nas reuniões bilaterais: o estabelecimento de passos concretos em direção a um acordo de paz com os palestinos e a segurança de Israel (que traz como temática adjunta o Irã).  

Neste contexto, Obama se encontrou em meio a um fogo-cruzado. Afinal, os Estados Unidos estão ao lado de Israel, em sua constante batalha por mais segurança a seus cidadãos; ou lutam pelo o estabelecimento de um processo de paz abrangente no Oriente Médio, o que incluiria a expansão do modelo democrático, o estabelecimento de um Estado Palestino e a contenção de extremismos (como no caso de Síria e Irã)? O equilíbrio entre essas discussões, de tênue divisória, sempre foi um desafio a todos os presidentes norte-americanos que tentaram mediar às conversações entre israelenses e palestinos. Os Estados Unidos sempre posicionaram Israel como um parceiro estratégico, parte de um plano mais abrangente para o Oriente Médio.  

Ao condenar fortemente Netanyahu na questão dos assentamentos três meses atrás, o governo Obama encontrou diversas críticas da oposição republicana. A acusação era que Obama foi muito duro com Israel, e que em verdade tal posicionamento mais prejudicava do que ajudava as conversações pela paz na região. No último encontro em o governo dos dois países, no início da semana que passou, Obama adotou um tom mais contido, passando a declarações menos incisivas e de conteúdo mais genérico, o que incluiu: o reconhecimento que Israel não pode tomar decisões que coloquem em risco sua própria segurança, além da usual afirmação de estar comprometido com o processo de paz no Oriente Médio, abrangendo ainda uma ligação a Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, no sentido de apoiar a proposta de criação de um Estado Palestino.  

Fato é que Israel, como qualquer Estado que se preze, tem como prioridade absoluta sua segurança, gerando ações que não tornam um acordo de paz mais palpável. Isso é fruto de uma percepção nacional, não de uma posição política do primeiro-ministro, que pouco pode fazer nesse sentido, terminando por seguir a posição mais consensual em seu país. Os Estados Unidos, a meu ver, entendem que ao tomar a decisão de reconhecer as ações de Israel com intuito de garantir sua segurança, pouco pode oferecer ao processo de paz que não seja meras declarações genéricas, com mais apelo diplomático que propriamente prático.  

As ações de Israel, por vezes, parecem tomar sentido contrário ao esperado, como no caso do Bloqueio na Faixa de Gaza, uma vez que este não dá sinais de enfraquecer o Hamas. O Fatah, movimento de libertação da Palestina fundado por Yasser Arafat, reconheceu o Estado de Israel no final da década de 1980, ganhando proeminência nas negociações entre as duas partes e as maiores potências mundiais. Não logrando, não obstante, seu objetivo primordial que era justamente estabelecer um Estado Palestino. O Hamas, ao contrário do Fatah, não reconhece a existência de um Estado israelense, e por este motivo segue excluído das negociações. Israel reconhece o Hamas como uma ameaça a sua segurança.  

A verdade é que a finalização do processo de paz está longe, já que segurança não é necessariamente paz na visão de Israel. Tampouco parece tangível a co-existência, nem que seja em Estados diferentes, entre Hamas e Israel. O governo norte-americano parece escolher a manutenção da aliança estratégica com Israel, ao mesmo tempo em que intensifica as conversas com Abbas, que também preside o Fatah. Contudo, qualquer negociação sem o Hamas parece caduca, ainda mais agora depois de ganharem as últimas eleições gerais em 2006. Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, assina um artigo “Obama, advogado de Israel”. Não corroboro inteiramente essa visão, mas me parece que Obama escolheu o mais conveniente, a decisão que vai gerar menor questionamento interno. Porém, na prática, o governo norte-americano se exime e pouco colabora para a paz no Oriente Médio. Segue mais o discurso que a prática no governo Obama.


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Gringos gente fina

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Vi um vídeo esses dias do TED (que tem vídeos muito bons e altamente recomendados) de um pesquisador dos EUA que fala sobre as mudanças urbanas, ambientais e etc. O mais interessante no entanto, não eram as idéias do Stewart Brand, mas sim a forma que ele comentava as adaptações.

“É assim no Rio de Janeiro” – com imagens de um super-mega-gato de energia na favela. Esse, e vários comentários bizarros sobre a vida nas metrópoles de países “não-ocidentais” que tentam passar a idéia de que pobre em cidade grande é super feliz e se adapta a qualquer adversidade. Primeiro que ele ignora as causas dessa adversidades que não deveriam existir, segundo que só faltou uma viseira e uma câmera pendurada no pescoço pra ele se tornar o perfeito gringo que não quer entender o “resto”.

Só será possível uma real ajuda a nós, países que não fazem parte do ocidente (também conhecido como países desenvolvidos) quando a turma do hemisfério do meio-norte lembrar que fazmos parte do mesmo planeta e que os problemas são mais abrangentes e complexos do que pensam que sabem.

Já passou da hora de continuarmos como capas da National Geographic estampando títulos semelhantes a “mundo exótico”, temas de documentários “mundo estranho” e etc. O fato de não sermos reconhecidos pelos tomadores de decisão mundiais como integrantes do mesmo sistema é razão de muitos dos nossos problemas referentes a esfera internacional. Lembrar que os eleitores e pessoas de “consciência social” mundo afora pensam de maneira semelhante traz tristeza e desespero.

Algum conservador de dentro de seu SUV diria “Ledo engano, nós sabemos da importância de vocês na cadeia produtiva e da relevância econômica na economia global.”. Sabem mesmo. Sabem tanto que só depois da crise recente o G8 foi dissolvido pra dar lugar ao G20. Afinal, como poderiam esquecer do estimado outsourcing indiano, da produção em massa chinesa ou do campo de produção agrícola brasileiro?

Tanto gostam de nós, que precisamos modificar nosso posicionamento de marca em muitos países para não perceberem que o produto veio de país pobre. Se um tailandês vence o Festival de Cannes, a mídia local avacalha a premiação.

Talvez o que tenha escrito tenha pouca relevância para nós brasileiros que sabemos – ou deveríamos saber – muito bem das implicações dessa situação. Mas são poucos os esforços coletivos populares para mudar essa situação. De forma alguma devemos desmerecer os grandes talentos e idéias que fazem o Brasil e outros países serem cada vez mais respeitados no mundo, já que sem eles existiriam mais gringos com a idéia da moradia brasileira ser a copa de uma árvore. Também temos que louvar o numero crescente de pessoas estrangeiras que pensam diferente disso.

Fica uma pergunta para vocês: sendo completamente possível esse pensamento diferente ser apresentado e compreendido pelo mundo, o que poderíamos fazer para por isso em prática?


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Teimosia Internacional

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Tem gente que fala que o pai, irmão, amigo, etc. são pessoas “teimosas”. Que essas pessoas se recusam a aceitar verdades e se adequar a elas ou idéias que poderiam fazer toda a diferença e deixar as coisas mais fáceis. A comunidade internacional não é muito diferente.

Na teoria política (e porque não nas análises de botequim?) é muito comum associar características e comportamentos humanos as ações dos países, sendo que existem horas que chega a ser impossível não fazê-lo. Afinal, o que explicaria a contínua relutância de diversos países em assinar acordos ambientais que podem salvar suas economias em um futuro próximo? “Mas daí nossas economias entrarão em colapso! Nossas empresas irão a falência!”

Sim, empresas e setores entrarão em colapso. Mas até onde eu saiba, existe uma equipe sensacional dentro dos ministérios que é capacitada no desenvolvimento de planos econômicos que poderia desenhar formas desse dinheiro e pessoas transitarem para outros negócios. Como pudemos ver no… reconhecimento da China como economia de mercado! Nossa equipe sensacional conseguiu… conseguiu… ahn… aumentar pouco o poder de compra nacional e falir várias empresas… Não faz sentido agora, né tomadores de decisão? A não ser que estivessem escondendo algo da população ou fazendo um jogada ainda mais complexa…

Voltando a teimosia, que outros exemplos poderíamos usar? Que tal interferir no país alheio com tropas democráticas?

Ou… sancionar economicamente (de leve) um país pois ele teoricamente pode talvez chegar um dia a produzir armas nucleares? Aliar-se a um governo instável com guerra ao vizinho que possui armas nucleares? Afinal, eles são super táticos e conseguem impedir o Taleban…

Poderia escrever um livro, monografia, mestrado (e se alguém usar essa idéia, é bom me citar!) cheio de casos em que a solução clara e óbvia não é seguida. Por sinal, se fosse escrever mesmo, já adianto aqui em primeira mão a tese central:

“Se a solução é clara, as razões para não adotá-la são no mínimo, escuras, cinzentas e trariam vergonha aos eleitores.”

E trazem. Porém, como nós humanos somos tão teimosos quanto os países, acabamos por cometer os mesmos erros mesmo quando sabemos disso…


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Déjà vu e futurologia: o lugar do Oriente Médio

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Voltam à tona os processos de paz no Oriente Médio, os suspiros românticos e as quimeras de sempre. Pesa a maldita herança do ataque israelense à “Frota da Liberdade”, misturada aos atritos com os Estados Unidos, o maior parceiro de Israel. Perduram os assentamentos judaicos em território palestino e a negação da criação de um Estado Palestino até 2012. Por outro lado, como uma medida compensatória ao que realidade mascara, anuncia-se o aliviamento do bloqueio a Faixa de Gaza e o indiciamento de apenas um soldado da ofensiva israelense na faixa de Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Outra vez mais, estamos diante do saudosista déjà vu: já estivemos nessa situação antes.

Há pontos de discordância entre Estados Unidos e Israel, mas nada que abale a relação carnal entre ambos os países. Netanyahu agora se encontra em Washington para tentar superar as tensões, sobretudo apresentando propostas concretas às negociações de paz no Oriente Médio. Duas mediações norte-americanas malograram anteriormente, com Biden e Mitchell. A primeira justamente em função da expansão de assentamentos judaicos, quando iniciadas as discussões pela paz na região. Um déjà vu: não bastasse os assentamentos cobrirem 42% do território da Cisjordânia – segundo uma ONG israelense de direitos humanos, algo aparentemente paradoxal -, acredita-se que outras 2.700 colônias estão para ser construídas.

Já a discordância entre Turquia e Israel vem se acirrando. O governo israelense pode perder uma importante parceria estratégica. O governo turco exige um pedido desculpa formal por parte de Israel pelo ataque ao barco turco que levava ajuda humanitária para Gaza. Não poderia ser diferente, Israel se nega a fazê-lo, bem como refuta as ameaças turcas de romper relações diplomáticas com o país. Um ponto interessante neste impasse e no episódio por ele revestido permite um exercício de futurologia: o desgaste de Israel, internacional e internamente (com forte mobilização da oposição), poderia contribuir para uma paz vindoura?

Como futurólogos de plantão, jogando tarô nas relações internacionais, perguntar-nos-íamos sobre o envolvimento de outros atores nas negociações de paz no Oriente Médio: haveria um avanço com esse maior envolvimento? O presidente da Síria, Bashar al-Assad, conclamou o papel-chave da União Européia e da América Latina numa solução pacífica para a região. Turquia e Brasil engajaram uma diplomacia ativa, num lugar predominantemente ocupado pelos Estados Unidos. Outro fato é a retomada das pré-negociações diretas pela paz entre palestinos e israelenses, capitaneadas por Salam Fayyad, premiê da ANP, e Ehud Barak, ministro da Defesa de Israel. Cabe ao tempo amadurecer essas expectativas.

Enfim, encontramos um Oriente Médio entremeado pelo déjà vu e a futurologia, dividido pelo ceticismo e pela esperança. Uma dosagem de ambos é necessária para avaliação das conjunturas regionais, de sorte que se evitem os erros de outrora e se materialize a paz futura, sem as ilusões românticas de que esta seja perpétua. É tão difícil alcançá-la quanto o será mantê-la.


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"Time is money"

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O México enfrenta uma situação quase calamitosa. Neste domingo, ocorreram eleições regionais no país, e o que deveria ser uma situação corriqueira em uma democracia virou uma semana marcada pelo derramamento de sangue. Assassinatos e escândalos marcaram as campanhas eleitorais e o próprio pleito, mostrando o estado de coisas no país, assolado pelo narcotráfico. Pensando na lógica das novas ameaças, o narcotráfico vira uma ameaça real ao Estado, e o México se encontra próximo disso. E, com a porosidade das fronteiras os EUA devem se preocupar (e muito) com isso.

As eleições são regionais, mas os ataques servem de recado dos grupos criminosos ao presidente. Todo esse caos teve origem com a política de cerco ao tráfico de Felipe Calderón. Eleito em 2006, prometeu o combate aos cartéis, mas o pouco que foi feito, associado à crise econômica que fez o PIB mexicano despencar, produziu resultados consideravelmente tímidos. Mesmo assim, foi o suficiente para despertar a ira do crime organizado, que nos últimos anos tem se alastrado profundamente na sociedade mexicana. A situação é absurda, com mais de 20 mil mortes relacionadas ao tráfico desde 2007. Essa situação de insegurança institucional é vista na falta de escrúpulos dos criminosos, que intimidam a sociedade com assassinatos e ameaças. A vítima mais recente e famosa foi Rodolfo Cantu, candidato ao governo de um importante estado.

E os EUA, onde entram? Pensem em uma situação semelhante à do México: o narcotráfico alastrado na sociedade, influindo na política, corrupção generalizada, desconfiança da justiça… tudo isso lembra muito a Colômbia de algumas décadas atrás. Hoje o país continua sofrendo com FARCs e tudo mais, e ainda é o maior produtor mundial de cocaína – essa semana, inclusive, chegaram a apreender uma réplica da taça da Copa do mundo feita da droga! –, mas o narcotráfico sofreu um grande abalo, principalmente na gestão Alvaro Uribe (com enfoque na segurança e coroada com a eleição de Juan M. Santos, o candidato do governo). Como um país que já teve 7% da economia baseada no tráfico de drogas reduz esse número para menos de 1%? Nesse ponto devemos dar o braço a torcer e reconhecer a ajuda do Tio Sam. O Plano Colômbia visava combater a chegada de drogas nos EUA diretamente na fonte, e a cooperação com os EUA ainda é essencial para isso (e ainda vai durar muito – lembram das bases norte-americanas?).

Se os EUA ajudaram tanto um país distante, por que não se empenham com tanto vigor no combate às drogas do seu vizinho de baixo? Afinal, só teriam a ganhar com isso – pensando inclusive na lógica das novas ameaças. Todavia, esse tipo de auxílio parece improvável. Não chega a ser uma situação em que os EUA dão as costas e o México que se vire. Mas a gravidade exigiria um auxilio profundo como o dado à Colômbia, e isso está longe da realidade. Os EUA andam mais preocupados em se afastar do México (pensem nos muros e nas leis de imigração…) do que em colaborar. Alem do mais, o México pode ser a principal porta terrestre de entrada das drogas nos EUA, mas no mundo globalizado isso não significa nada, visto que há rotas mil que se abrem e fecham em toda parte. Por fim, os EUA têm desígnios mais nobres, como salvar o mundo livre da ameaça nuclear iraniana.

Essas eleições são um breve demonstrativo do jeito em que as coisas estão. O México está por si só na manutenção de sua segurança e combate ao narcotráfico, sem expectativas de progresso em curto prazo. E, ao contrário do famoso esquete cômico, quando pedir por socorro é difícil que apareça um Super Sam com suas sacolas de dinheiro para ajudar.


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A Copa do Mundo é nossa

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No dia em que o Brasil se entristece devido à desclassificação pela Holanda nas quartas-de-final da Copa do Mundo 2010, cabe uma breve reflexão acerca da importância desse evento de abrangência internacional, especialmente no que tange o continente africano, sede dos jogos neste ano.

A realização deste evento mundialmente conhecido e imensamente aguardado a cada quatro anos ocorre, pela primeira vez na história, em solo africano. Desta forma, desde o início dos jogos na África do Sul, no dia 11 de junho, o combate ao preconceito racial e à miséria que aflige todo o continente têm sido recorrentes na análise “extra-campo”.

A presente Copa, inegavelmente, tem como um de seus principais méritos a visibilidade midiática alcançada no que tange aos desafios enfrentados pelos países que, historicamente, se encontram em situação de exploração, notadamente européia. A movimentação, centrada na África do Sul, se estendeu aos vizinhos e impactou fortemente na região.

Percebe-se que a realização desta Copa do Mundo pode ser considerada um marco na história da evolução das políticas mundiais de combate ao racismo e à pobreza que aflige o povo africano em geral. A cada jogo, a participação destacada dos africanos com suas vuvuzelas tem demonstrado a alegria com que o povo local acolheu a competição. Espera-se que, efetivamente, esta Copa represente uma mudança de postura e o início de uma nova mentalidade mundial com relação à África, especialmente por parte dos países desenvolvidos daqui pra frente.

Em 2014, o Brasil sediará a Copa. Se em 2010 a seleção brasileira não pôde comemorar o hexacampeonato, daqui a quatro anos a Copa será nossa. Pelo menos territorialmente. A Fundação Ernst & Young, junto com a Fundação Getulio Vargas, divulgou um estudo demonstrando que, entre 2010 e 2014, R$ 142,39 bilhões serão gerados em investimentos diretos e indiretos para a economia brasileira, o que poderá atingir a maior parte das atividades econômicas do país.

O impacto nacional já pode ser percebido nos investimentos que começam a ser realizados e na mobilização dos estados que sediarão jogos, sendo que especialistas ainda questionam as reais projeções de crescimento esperadas para o país. Contrariedades à parte, a expectativa para a próxima Copa é grande. Copa esta que já começa oficialmente na próxima quarta-feira, dia 08 de junho, quando o evento de lançamento dos jogos de 2014 acontecerá em Johannesburgo.


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Entre a espionagem e a cooperação

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Foi-se o tempo em que havia uma nação contra a guerra de reconquista da potência colonialista. Simon Bolívar, estivesse vivo, estaria preocupado com os rumos da antiga Grã-Colômbia. Um fato novo surgiu na relação Equador-Colômbia. Já não bastasse os espiões russos nos Estados Unidos, essa semana o jornal equatoriano “El Comércio” divulgou que o governo colombiano, supostamente, estava espionando o presidente do Equador, Rafael Correa. Vale lembrar, que aqui mesmo na Página Internacional, já tratamos de denúncias contra o Ministério de Defesa Colombiano (DAS, sigla em espanhol).  

Ainda segundo o “El Comércio”, o DAS interceptou, em 2008, chamadas telefônicas de Correa, assessores do presidente, militares, políticos e empresários equatorianos. Uribe, por outro lado, afirma tratar-se de um círculo de pessoas mal-intencionadas trabalhando contra o restabelecimento de relações plenas com o vizinho. Inclusive, o presidente eleito na Colômbia, Juan Manuel Santos, teria o firme propósito de manter a irmandade com o país, uma união contra o narcoterrorismo (assim denominado por Uribe). Vale lembrar ainda que os países somente retomaram suas relações diplomáticas no final do ano passado, depois do ataque do exército colombiano a um acampamento das FARC no Equador, ainda no início de 2008.  

Rafael Correa iniciou investigações para apurar as denúncias, expressando que, uma vez comprovadas as mesmas, a presidência da República se verá obrigada a romper novamente as relações diplomáticas com a Colômbia. Ricardo Patiño, ministro de Relações Exteriores equatoriano, enviou uma carta a seu equivalente colombiano pedindo maiores informações. Os questionamentos vão ao mesmo sentido de denúncias submetidas pelos governos equatorianos e venezuelanos, segundo as quais seus oficiais diplomáticos em Bogotá haviam sofrido algum tipo de espionagem também em 2008. O objetivo, nestes casos, seria identificar possíveis interligações entre os representantes oficias dos países vizinhos e grupos criminosos agindo em território colombiano. Até então, no entanto, não havia denúncias de atividades de inteligência em território equatoriano.  

Juan Manual Santos é um dos principais personagens das antigas querelas entre os governos dos dois países. Afinal, foi ele, como Ministro de Defesa, que ordenou que o seu exército trespassasse a fronteira entre ambos, em busca dos combatentes das FARC. Rafael Correa, ao contrário de Hugo Chávez, adotou posição conciliatória quanto a sua eleição, oferecendo uma ligação para parabenizá-lo. Estas questões de espionagem mais parecem atividades da Guerra Fria, totalmente inoportunas entre ditos países-irmãos. A atuação da presidência da República do Equador tem uma linha-mestra: a melhora das relações com os Estados Unidos, o que inclui a Colômbia. 

Enquanto seguem as investigações sobre a possível espionagem pelo Serviço de Inteligência Colombiano dentro do território equatoriano, nos resta fazer uma reflexão. A melhora do diálogo Equador-Estados Unidos, após a eleição de Obama, representaria um caminho similar para Santos no que concerne a relação Equador-Colômbia? Hillary Clinton passou pelo Equador falando em expandir a agenda de cooperação com esta região da América do Sul, incluindo segurança, mas não se restringindo a esta temática. Em seu discurso no Centro Histórico de Quito no começo de Junho, Clinton não mencionou a palavra terrorismo, drogas ou terrorismo e aludiu a Colômbia somente para defender a importância do investimento na vacinação infantil. Uribe parece não estar exatamente na mesma página. Segurança foi o carro chefe de seu governo e será seu legado histórico.  

Os Estados Unidos bem sabem que atividades de Inteligência são parte integrante do processo de se formular políticas em Segurança e Política Exterior. A diretriz parece, contudo, apontar para outras temáticas e prioridades, deixando estas atividades às escuras, caminho evidentemente mais inteligente e efetivo. Santos, em âmbito regional, terá o desafio de oferecer também ao Equador uma nova diretriz para a cooperação bilateral, fugindo do uníssono discurso contra o narcotráfico (ou narcoterrorismo, para o governo colombiano). Correa está satisfeito com a nova porta aberta ao diálogo com os norte-americanos, o mesmo parece valer para os colombianos. A denúncia do “El Comércio” ainda não chegou ao capítulo final, mas deve ser a última cena de protagonismo de uma visão que, se espera, termina junto com a presidência de Uribe.


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