Dead x Live Aid

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 É ponto comum, em especial entre leigos no quesito Relações Internacionais, que a África necessita de ajuda, como uma espécie de continente primo-pobre do Primeiro Mundo. Qualquer apresentação que mencione a palavra pobreza na maioria das vezes tem como pano de fundo o continente africano. É uma quase um dogma, que poucos ameaçam pensar em contestar. Neste sentido, esse é um assunto que muito me intriga ou mesmo me revolta em certo sentido. O tratamento para este debate é extremamente simplista e a questão foi tema de inúmeras campanhas, inclusive com grandes nomes do show-business internacional. A pergunta que fica: o que realmente mudou nesses anos todos em que o continente recebeu as mais diversas formas de ajuda financeira?

Dambisa Moyo, acadêmica nascida na Zâmbia, ousou combater o modelo de desenvolvimento criado pela ajuda internacional remetida aos países africanos anualmente há décadas. Em sua opinião, este fenômeno criou uma África dependente de outros países, governos pouco envolvidos na resolução de suas próprias temáticas, máquinas estatais pouco efetivas e um modelo de desenvolvimento totalmente diferente do resto do mundo. A tendência natural, a partir disso, é contar com o dinheiro fácil e de fluxo constante, ao invés de criar ambiente favorável ao nascimento de novos negócios, crescimento de investimentos e um sistema de taxação à população que gere serviços básicos como contrapartida. Deve-se, no entanto, excluir-se dessa análise duas modalidades de ajuda internacional: as relacionadas a desastres humanitários e ao trabalho desenvolvido por ONGs.

Os focos dos investimentos já foram os mais diversos, passando por infra-estrutura, pobreza, entre outros e atingindo o início do século XXI com poucos resultados efetivos. Existiria algum país com um modelo similar que tenha, eventualmente, melhorado a qualidade de vida de sua população e alcançado uma economia estável? Pensemos um exemplo bem simples: os países em desenvolvimento da moda (Brasil, China e Índia). Qual a base utilizada por cada um deles? Generalizando, podemos levantar alguns pontos primordiais como: planejamento econômico de longo prazo com o objetivo de atingir estabilidade entre níveis de crescimento, controle do valor de suas moedas e inflação; investimentos maciços em infra-estrutura e tecnologia; criação as políticas de desenvolvimento a partir de pontos de vistas nacionais; foco no desenvolvimento de novas políticas de comércio, enfocando suas relações com outros países neste ponto específico ao passo que diminuíam as influências externas nos seus processos de decisão.

A lição de Moyo é que crescimento reduz pobreza e investimento gera crescimento. Lógica que se pode observar nos países citados acima, mas que no caso africano não foi seguida. A abordagem é mais no sentido de aliviar a pobreza, que não se reverte em formas de crescimento, uma vez que não é acompanhada outras políticas pelos governos africanos. Ajuda financeira internacional não é em si uma idéia ruim. Porém, na África gerou, segunda a autora, mais malefícios que benefícios, na forma de corrupção, inflação, excessiva valorização das moedas locais devido ao ingresso de moedas internacionais mais valorizadas e da não existência de serviços providos pelo setor estatal. Em conclusão, fatores estes que trouxeram uma grande vulnerabilidade ao continente. Imaginem o dia que estes atuais doadores não mais tenham condições de fazê-lo ou mesmo que percam o interesse por outros motivos?

Apesar de o debate estar circunscrito a questão meramente desenvolvimentista, pensar a questão africana vai muito além de se analisar a utilização da ajuda financeira no continente. A falta de estrutura e desenvolvimento do país tem sua raiz central neste ponto específico? Em verdade, não acredito que se possa justificar questões de política interna a fatores externos ao país, claro que podem ser parte do quadro maior, mas não a maior justificativa. Muito mais que isso, faltou a muitos países africanos pensar modelos de desenvolvimento adaptados a realidade local, superar rivalidades étnicas e históricas, além de construir uma estrutura estatal efetiva. De certa maneira, no entanto, tal fato também encontra ressonância na agenda criada, seja pelos países desenvolvidos e doadores famosos internacionais. Uma espécie de agenda negativa, que pouco agregou ao desenvolvimento africano.

Os elementos gerais que aponto para China, Brasil e Índia são pontos centrais somente. Cada país encontrou um caminha único, prioridades e o que ter como enfoque em cada momento. Uma premissa central de Moyo me parece lógica: África não pode construir políticas nacionais dependentes de financiamento externo, desta maneira perde até a principal característica de um Estado soberano. No entanto, há outros fatores também para pensar esta análise. Fato é que é premente encontrar um novo modelo de desenvolvimento para África, de preferência sem as interferências de atores que vivem a o glamour da televisão, do show-business ou de cadeiras bem acolchoadas dos escritórios de edifícios elegantes, todos dispostos a continuar participando do atual modelo de desenvolvimento africana, claramente falho.


Categorias: África


Há um ano...

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E estamos de volta com as gloriosas retrospectivas do que se passava há um ano. Tempo vai, tempo vem, e ainda me surpreendo com o volume de acontecimentos que são passíveis de repetição. A coincidência é tanta que precisa ser registrada.

Há exatamente um ano, o Alcir escreveu um interessante e cômico texto sobre as medidas protecionistas que a Argentina impôs sobre as importações de calçados chineses. Ao final das contas, o Brasil acabou louvando a Argentina por usar contra a China a mesma arma, o protecionismo.

Alguns poderiam prever, na época, que esse episódio marcou o final dos protecionismos argentinos e a grande vitória comercial do Mercosul. Muito pelo contrário, a Argentina ainda utilizou-se muito dessa ferramenta – principalmente com produtos brasileiros do setor alimentício – e o Brasil hoje talvez se arrependa de algum dia ter sentido complacência pela prática.

Mas quem poderia prever que o assunto mais polêmico daquela semana viria a se repetir um ano depois com repercussões mais profundas. O post da Adriana abordou um capítulo interessante da série de desventuras entre Colômbia e Venezuela. Naquela semana Uribe havia acusado Chávez de envolvimento com as FARC, bem na ocasião em que os demais países da América do Sul posicionavam-se contra a instalação das novas bases militares estadunidenses na Colômbia.

E hoje, um ano depois, o assunto do momento é o rompimento das relações diplomáticas entre Colômbia e Venezuela, dado o acirramento das acusações colombianas e desses atritos bilaterais. Na realidade, o tempo garantiu-nos bases suficientes para mostrar o quanto esse argumento – seja ele real ou fictício – foi e ainda é usado instrumentalmente em momentos estratégicos. Essa última acusação, por exemplo, pareceu uma cartada final de Uribe antes da entrada de um governo que promete mudanças nas relações regionais.

Exercícios como esse comprovam o quão lento são os progressos e mudanças. E, portanto, creio que não se podem esperar grandes mudanças imediatas também com qualquer novo governo colombiano. Tudo é parte de um lento e gradual processo chamado política internacional. É isso aí pessoal, postando, refletindo e relembrando!


Categorias: Américas, Há um ano...


Diplomacia unificada?

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Eu só acredito…

VENDO!


É, agora dá pra acreditar! – União Européia prepara um serviço diplomático unificado

Ou seja, agora existirão “Embaixadas Européias”, representantes oficiais da UE em diferentes países além das representações individuais de cada país-membro. Mesmo meio a cortes de gasto em diversos serviços diplomáticos, a União Européia mostra a que veio e dá mais um passo a sua evolução como Bloco. Claro que com uma boa e velha inchada no orçamento, daquelas que nunca faltam em projetos governamentais!

Além do mais, a turma do protecionismo conseguirá grandes avanços diplomáticos com essa iniciativa, junto com outras temáticas que todos os países concordam. Isso se conseguir contornar suas próprias controvérsias intra-bloco. Afinal,

Suíça diz: energias limpas?

França: Veja bem, tem outros assuntos a discutir, como a Guerra do Iraque!

Reino Unido: ahn… e Cuba?

Espanha: Cuba é amiga! Como a Turquia!

Grécia: Turquia é amiga de quem?

E assim vai. Por mais que vejamos posições unificadas no comércio, dificilmente veremos em assuntos polêmicos como política ou do papel do Estado na Economia. São países e interesses demais em jogo até mesmo para suas decisões internas, para protestar e negociar fica ainda mais difícil!

Outro problema será o de representação desse bloco, já que com certeza os países menores ou menos vocais se sentirão menos representados e darão chilique uma hora ou outra. E com isso, as manchetes de sempre: “Clima de desunião marcam Cúpula da UE” ou outras semelhantes. CLARO, é igual reunião do clube dos 13, eles podem querer que o futebol cresca mas sempre com o time deles na frente!

A foto é antiga mas a amizade continua!

“O espírito de cooperação internacional está perdido!” – Errado. Ele nunca realmente existiu, o pessoal só tolera seus vizinhos porque isso é o melhor pra eles. E não tem churrasco de bairro que conserte essas relações.

Controvérsias e polêmicas de lado, devemos nos inspirar nesses esforços de cooperação e torcer que um dia isso seja possível nos outros continentes. E aí Lula, como andam os avanços da Unasul?


Categorias: Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Semana de Relações Internacionais da UNESP

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Do dia 09 ao dia 13 de agosto, para aqueles que residem em Franca/SP e região ou possuem interesse em um bom evento na área de Relações Internacionais, acontecerá a XVIII Semana de Relações Internacionais da UNESP. O tema este ano é “Os regionalismos e as Relações Internacionais”, sendo que vários estudiosos consagrados na área proferirão palestras e participarão de mesas-redondas durante essa semana de evento na cidade de Franca.


A programação completa, bem como maiores detalhes a respeito da Semana podem ser encontrados no seguinte site: http://www.riunespfranca.com.br/semanaderi/. Acesse e, caso tenha possibilidade, não deixe de participar!

Segue abaixo o cartaz de divulgação do evento com informações sobre as atividades:


Categorias: Post Especial


O novo "Angelus Novus"

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Em 1920, Paul Klee pintou a sua famosa obra intitulada “Angelus Novus”, ou “Novo Anjo”, objeto de profunda reflexão por Walter Benjamin. O quadro, embora bisonho à primeira vista, está repleto de significações. O anjo, no centro da obra, está horrorizado com tantas atrocidades e abominações do passado e do presente, que igualmente são empurradas para o futuro, numa tempestade nebulosa chamada progresso. Em meio aos mares de sangue e oceanos da miséria humana, o anjo é incapaz de se mover, fita o passado com tristeza e anseia por um futuro menos desgraçado, mas não perfeito. Mais do que uma obra divisora da modernidade, é uma obra pensada para além do seu tempo, abarcando antagonismos que apagam a esperança. Recentemente, os pincéis da política internacional repintam um novo “Angelus Novus” no Oriente Médio.

O Irã persiste como a pedra no caminho das grandes potências. Ontem, a União Européia resolveu adotar novas sanções econômicas contra o país – à semelhança dos norte-americanos -, proibindo negócios com bancos e companhias de seguro e investimentos nos setores de gás e petróleo. A Rússia protestou. Ahmadinejad desconversou. Também em resposta ao vazamento (tratado pelo Álvaro ontem) de informações confidenciais dos Estados Unidos, supôs uma invasão norte-americana a pelo menos dois países do Oriente Médio nos próximos três meses, sem especificar quais e as fontes de tal informação. Concomitantemente, o presidente iraniano considera-se pronto para retornar as negociações sobre a troca de combustível nuclear e aberto ao diálogo sobre seu programa nuclear a partir de setembro, esperando contar com a participação do Brasil.

O Iraque vive a quimera da reconstrução. As ilusões democráticas se converteram em maldições socráticas, na medida em que a implementação da democracia, motivo da “intervenção” norte-americana, infligiu um conceito inalcançável de “bem” para o país. Bem que fenece a cada atentado – o mais recente ocorreu ontem e deixou 25 mortos – e que é desacreditado a cada desconcerto político. Em meio a tanta bagunça e o fortalecimento dos insurgentes, dificilmente as tropas deixarão o país em 2011. Hoje se noticiou o “sumiço” de US$ 8,7 bilhões destinados a reconstrução do Iraque e que os militares não sabem para onde foi esse dinheiro. O Parlamento adiou outra vez a retomada de suas sessões, após as eleições de março. Curiosamente, a situação iraquiana serviu de analogia para um futuro desdobramento das tensões entre Venezuela e Colômbia, no discurso de Chávez na ONU.

Certamente, o quadro não poderia ser repintado, sem as pinceladas sobre as negociações de paz entre palestinos e israelenses. A União Européia pede a abertura do bloqueio a Gaza, região que o premiê inglês, David Camerom, chamou de “prisão a céu aberto”. Netanyahu fez uma visita surpresa a Jordânia, para conversar com o rei Abdullah II, pouco depois deste ter se reunido com Abbas. O chanceler brasileiro Celso Amorim também está de passagem pela região, considerada importante para um porta-voz palestino. No entanto, perdura a questão se as negociações se darão de maneira direta ou não. E continua o exercício de déjà vu e futurologia…

A sorte está lançada para o Oriente Médio, este anjo imóvel na história contemporânea. Os ventos do passado e do presente carregam todos os insucessos para conduzi-lo ao futuro, uma iminente repetição de outrora. Muitas manobras que estão em curso, sobretudo das grandes potências, não deverão conferir mobilidade ao anjo. Outrossim, esse mesmo anjo não pode se mover enquanto voltar seu olhar estritamente para as atrocidades do passado. Nesta divisa entre tempos e possibilidades, as alternativas podem estar na audácia de lidar com o incerto e inovador, simultaneamente, como uma diplomacia mais aberta a atores e voltada mais ao diálogo e menos à coerção, sem o ilusionismo da paz puramente pelas palavras, mas dosada por um realismo que leve em conta a sombra da guerra e da instabilidade. Há um lugar para o Irã, Iraque, Palestina e Israel no mundo, que não seja aquele ocupado pelo Angelus Novus.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Vazamentos

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E Obama conseguiu mais uma dor de cabeça com um vazamento. Não, não tem nada a ver com o Golfo do México. E na verdade, não é uma dor de cabeça exatamente nova, visto que o Afeganistão já era um desafio tremendo quando foi parar na Casa Branca. Mas, com o vazamento de documentos secretos das operações no país asiático, criou-se um constrangimento não só para os EUA, mas para outros países atuantes na coalizão como o Paquistão.

O causador dessa celeuma foi o site Wikileaks, que ganha notoriedade por sua busca até as últimas conseqüências do ideal da imprensa livre, e que ficou famoso recentemente devido a revelações bombásticas sobre fuzilamento de civis no Iraque. Os documentos divulgados (mais informação aqui) não são exatamente secretos, mas encontram-se na categoria dos que não deveriam vir a público tão brevemente: incluem informações provenientes de embaixadas, oficiais de inteligência e até mesmo soldados, entre outros, revelando datas e locais específicos da maioria das ações que envolveram o uso de força letal pelas tropas norte-americanas no período entre 2004 e 2010. Há também outros tipos de informação como relatos de corrupção e participação de tropas paquistanesas no auxílio de insurgentes, e até ligações com a Al-Quaeda. Os dados vazados apenas confirmam do que já se suspeitava há muito, das falhas e dificuldades enfrentadas pela coalizão, mas a comparação com as declarações “oficiais” acerca do conflito é assustadora. Mortes acidentais de civis são re-classificadas como de insurgentes, e há até relatos de “esquadrões da morte” (quem diria, tão corriqueiros no Brasil!) que caçam lideranças insurgentes sem amparo judicial nem ligar de passar por cima de alguns cadáveres civis pelo caminho. Apesar da falta de corroboração jurídica, o criador do site é enfático ao dizer que há sinais evidentes da prática de crimes de guerra.

A Otan se calou, os EUA relataram seu descontentamento com o vazamento e o Paquistão contesta a veracidade de algumas informações, mas o estrago já está feito. O Paquistão já não é um mar de rosas, e Washington deve encarar o clamor contra uma empreitada cada vez mais impopular e que aparenta não ter fim. E mais ainda está por vir, com a promessa da liberação de mais 15 mil novos documentos secretos em tempo hábil.

Há de se convir que existe um dilema ético quanto à divulgação desses documentos. Eram papéis secretos de um governo, e não importa qual tenha sido a intenção dos que forneceram os documentos ao site, se forem descobertos não devem esperar menos que a pena capital. É o que se espera quando a declaração do governo afirma que o vazamento põe em risco a vida de combatentes norte-americanos e a segurança nacional. Mas o site acredita que as informações não trazem perigo e a divulgação das restantes dependerá da situação da segurança no Afeganistão.

O interessante disso tudo não é a revelação em si, mas o modo como a informação está fluindo. Houvesse um Wikileaks à época da invasão do Iraque, teria sido revelada a inexistência de armas de destruição em massa mais cedo? A metodologia de trabalho dessa fonte ainda pode parecer muito controversa a alguns – afinal, optar-se-á pela liberdade de informação como ética universal ou pela soberania do Estado em controlar informação estratégica pelo bem da nação? Não importa qual seja o julgamento, o fato demonstra a importância dos fluxos computacionais na propagação de informação como verdade inconteste nos dias de hoje, e os Estados devem adequar-se a esta realidade em que a verdade pode fluir livremente, quando os meios são bem-direcionados. O resultado dessa divulgação pode, por exemplo, ser uma mudança de percepção da opinião pública, mas o que importa realmente, segundo o criador do site, Julian Assange, é que haja a compreensão do que ocorre no conflito e a mudança de postura política dos envolvidos. O povo afegão aguarda ansiosamente por isso.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Giro da semana

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18 de julho, Domingo – O vice-predidente dos EUA, Joe Biden afirma que as tropas americanas no Afeganistão deverão deixar o país em julho de 2011. Vice de Obama confirma data de saída de tropas do Afeganistão. Autoridades tem afirmado que qualquer redução de efetivo deve ser feita a partir de melhores condições de segurança no Afeganistão. A mudança estratégica no Afeganistão foi recentemente marcada pela destituição do general Stanley McChrystal do comando das tropas americanas no Afeganistão depois que ele expôs em entrevista a divisão da Casa Branca na questão afegã.

19 de julho, Segunda – Já no Iraque, um homem-bomba matou 45 pessoas na base militar de Radwaniya. A maioria era integrante da milícia sunita Sahwa, grupo armado pró-governo que renunciou à Al-Qaeda e para combatê-la a partir de 2006. Em março, nas eleições, não houve a formação de um governo de coalizão já que os dois primeiro-ministros (atual e anterior) disputam a chefia do governo. Em 2012, os EUA devem retirar suas tropas do local.

20 de julho, Terça – Na Espanha, alguns ex-presos políticos cubanos, soltos graças ao acordo entre Cuba, Vaticano e Espanha, divulgaram um comunicado demandando que a União Européia não amenizem sua posição no que tange a ilha de Fidel. O problema é que a Espanha realiza o acordo com o objetivo de que a UE reformule seu direcionamento para Cuba, que atualmente só aceita aproximação caso haja mais abertura no regime comunista. Parece que não vai ser dessa vez.

21 de julho, Quarta – A presidente argentina Cristina Kirchner promulga a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Argentina é o primeiro país a oficializá-lo nacionalmente. Enquanto alguns apontam a rapidez com que essa lei foi aprovada como ‘indício da perda de influência da Igreja’, ‘parte natural do processo de secularização’, ‘avanço da democracia’, ‘causada pela urbanização da América Latina’, há de se lembrar que a proximidade do pleito eleitoral argentino eleva a estima da população de Buenos Aieres (onde a maioria da população é favorável à lei) sobre o governo.

22 de julho, Quinta – O presidente venezuelano Hugo Chávez anuncia rompimento de relações diplomáticas com a Colômbia. A crise entre os dois países já ocorria desde ano passado, à ocasião da assinatura de acordo militar entre Colômbia e EUA. Passada a tormenta, há pouquíssimo tempo de encerrar o mandato, Uribe anunciou ter provas da presença de líderes das Farcs e da ELN. Convocados de volta os embaixadores de ambos os países, ocorre uma reunião emergencial da OEA. As evidências são mostradas na plenária, o representante venezuelano afirma que tudo foi gravado em território colombiano. Ao lado de Diego Maradona, Chávez anuncia o rompimento.


23 de julho, Sexta – Sérvia e Kosovo retomam empreitadas diplomáticas após reconhecimento do Tribunal Internacional de Justiça sobre a independência de Kosovo. A decisão é uma faca de dois gumes. Apesar de não possuir valor compulsório (a soberania de um país depende do reconhecimento dos outros para ser efetiva), ela abre uma brecha para que movimentos separatistas em todo o mundo cresçam. Kosovo vai aumentar esforços para que mais países reconheçam sua soberania, a Sérvia vai se lançar no sentido contrário. A Sérvia também perde ao resistir quanto à sua antiga provincia: sua entrada na UE fica seriamente comprometida.

24 de julho, Sábado – O governo colombiano estuda enviar o caso da presença de guerrilheiros das Farcs em território venezuelano ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Os EUA prometeram ajudar nas investigações do envolvimento venezuelano com as Farcs. Chávez anuncia que cortará o fornecimento de petróleo aos EUA caso eles se envolvam. E enquanto isso Chávez ganha tempo nessa enorme cortina de fumaça erguida para que não se veja a previsão de crescimento negativo da economia por mais dois anos.


Categorias: Cultura


O último baile: o adeus de Uribe

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Nos últimos anos, a relação amor e ódio de Uribe com os auto-proclamados socialistas do século XXI – leia-se Chávez, Correa, Morales – foi talvez o ponto alto das retóricas diplomáticas posicionadas em extremos opostos na América Latina. Como bem desenvolvido por Raphael ontem aqui na Página Internacional, foram muitos os capítulos das desventuras, em especial entre o líder venezuelano e o colombiano.

Chávez não dá sinais que pretende eleger um sucessor que não seja ele mesmo; ao passo que Uribe apesar não ter sido impedido de posicionar-se como candidato a uma segunda reeleição, viu eleito seu Ministro de Defesa – talvez o maior artífice dos planos que tanto semearam discórdia com os bolivarianos – para seu sucessor. Como em toda relação amor e ódio, um não pode existir sem o outro. Tudo indicava, assim, que apesar da troca de personagens, as desventuras teriam novos e longos capítulos. Certo? Eis que surge uma mudança de roteiro.

Juan Manoel Santos, presidente eleito na Colômbia, demonstrou intenções de retomar relações mais amigáveis com seus dois principais “problemas” diplomáticos, justamente Venezuela e Equador. A escolhida para ministra de Relações Exteriores foi Maria Ángela Honguín, que fora embaixadora colombiana na Organização das Nações Unidas e havia renunciado por discordar os despachos políticos advindos de Bogotá e do oficialismo de Uribe. Santos ainda foi além, enviou a sua chanceler a Quito para discutir os novos rumos da relação bilateral com seu homônimo equatoriano, Ricardo Patiño, além de ter uma reunião agendada com o chanceler venezuelano. Esse filme, que mais parece uma saga, parecia ganhar novos contornos. A posse de Santos, que ocorrerá em duas semanas, já tinha a presença confirmada de Rafael Correa, presidente equatoriano.

Uribe parece não ter digerido bem a nova (possível) diretriz em política externa sob a futura presidência de Juan Manoel Santos. O jornal equatoriano Diário Hoy trouxe uma metáfora interessante: Uribe faz uma manobra de mau perdedor, antevendo a evidente perda de controle, prefere destruir o tabuleiro a ver outro adversário ganhar. As novas denúncias entregues por Uribe contra o mandatário venezuelano, dão conta do seu envolvimento com as FARC e com o ELN, grupos criminosos ante a comunidade internacional e classificados como terrorista pelo atual governo colombiano. Foi o suficiente para Hugo Chávez convocar imediatamente o seu embaixador na Colômbia de volta à Venezuela e romper novamente as relações diplomáticas entre os dois países.

No entanto, as implicações foram maiores. O atual (agora ex) presidente da Comissão Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), o embaixador equatoriano Francisco Proaño, recebeu uma solicitação do governo colombiano para abrir sessão extraordinária na Comissão com o objetivo de apresentar as novas evidências. O regulamento do organismo regional impõe que demandas assim sejam atendidas. Proaño, que assumiu a presidência rotativa do órgão em primeiro de Julho, ao invés de acatar a solicitação, entregou sua carta de renúncia de seu posto diplomático ao presidente equatoriano Correa, justificando que havia recebido instruções categóricas de seu governo, na figura do chanceler Patiño, no sentido postergar a reunião demandada pela Colômbia. Mais uma atitude de solidariedade de Correa para Chávez, evidenciando o seu alinhamento. Claro que o diplomata de carreira Proaño teve suas denúncias prontamente desmentidas por Patiño.

Voltando ao nosso tópico inicial. Já discutimos em outras ocasiões o governo Uribe, com seus pontos positivos e negativos. A diplomacia, em sua essência, é uma política de Estado, qual seja, apresenta continuidade independente da posição política e ideológica dos governos. Os mandatários latino-americanos, em grande parte, não entendem o fazem questão de contradizer tal premissa, armando sua política externa com as mais ferrenhas posições ideológicas, ou mesmo pessoais. Historicamente, Venezuela, Colômbia e Equador são países irmãos, que adotaram o caminho da cooperação em grandes momentos da história, não só regional.

Não obstante, Uribe não suportou ver sua visão pessoal descartada por seu sucessor e como todo “menino mimado” entrega um governo com relações estremecidas com a Venezuela, ao contrário da lógica de deixar tal assunto para o presidente que assumiria em menos de duas semanas. Mesmo assim, tudo indica que este foi o último baile, ou melhor, a última valsa que Uribe dançou com sua própria música, já que Santos, novamente, tratou de tentar amenizar as denúncias, abrindo novas portas as discussões, negociações e cooperação com os bolivarianos ou socialistas do século XXI.


Categorias: Américas


Desventuras em série

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A conhecida série de livros voltados para um público juvenil, Desventuras em Série, de Daniel Handler, narra a história de três irmãos órfãos e do grande número de eventos infortuitos que enfrentam em seu caminho. Hoje, já se pode sugerir que escrevam outra história semelhante, a da longa aventura dos países sul-americanos em busca de uma cooperação em questões como narcotráfico e de grupos guerrilheiros na região. Essa, talvez, renderia muito mais do que onze livros e um filme.

O enredo trataria dos rompimentos, desrompimentos e rerrompimentos de relações diplomáticas entre países sul-americanos. E para os papéis principais desse novo livro poderíamos escalar a Colômbia e a Venezuela, que ontem romperam novamente as relações diplomáticas. Esses países poderiam ser como os personagens do livro de Handler, órfãos, mas não paternos e maternos, de instituições regionais.

Depois de muitos anos em busca dessas instituições, os países encontrar-se-iam com a União dos Estados Sul-Americanos, também conhecida como Unasul.Mas como viveram muito tempo sem uma instituição desse tipo, não saberiam muito bem lidar com ela, o que faria com que a Colômbia insistisse em utilizar-se dos mecanismos distantes que há muito lhe abrigaram, como a Organização dos Estados Americanos. E assim, dependeriam de um primo que tem tentado aproximar-se deles, o Brasil, para lembrar-lhes que podem utilizar da Unasul.

A moral da história desse livro se aplicaria perfeitamente ao que atualmente ocorre na América do Sul, e mais especificamente entre Colômbia e Venezuela. A falta de entendimento do problema das FARC e do narcotráfico como transfronteiriço, que clama pela cooperação, leva os países a uma confusão e a rompimentos e desentendimentos.

Contudo, tais países exigem a cooperação apenas no sentido que lhes mais apetece, ou seja, à sua maneira. A Colômbia com vias no combate direto ao grupo armado e a Venezuela, com bases em uma união bolivariana que faria frente ao governo dos Estados Unidos. Nesse ponto que a questão se apresenta como muito delicada.

O maior percalço a cooperação nessa questão na América do Sul ainda é a forma como cada qual encara a questão do narcotráfrico e dos grupos guerrilheiros, que gera diferentes posicionamentos e assim inspira a tomada de medidas mais unilaterais. Para que possamos terminar de escrever nosso livro, precisamos ver se os homólogos de nossos personagens perceberão qual é a moral dessa história, para não repetir o que já vem sendo repetido ano a ano, e assim, acabar com essa série de desventuras.


Categorias: Américas


Mancha negra

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Hoje o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos completa três meses. E ainda são imensuráveis as consequências do vazamento de petróleo causado pelo incêndio da plataforma Deepwater Horizon, no Golfo do México. Com o vazamento de 60 mil barris por dia, hoje aproximadamente 550 milhões de litros de petróleo já se espalharam pelo Golfo do México (acompanhe a evolução da mancha negra aqui), impactando de forma extremamente nociva ao meio ambiente.

Com relação a esse desastre, as perdas se encontram em vários âmbitos: em termos humanos, onze funcionários que trabalhavam na plataforma morreram e mais de cem foram resgatados; em termos de fauna, milhares de animais marinhos morreram ou estão sofrendo com a contaminação de seu hábitat natural (foto); em termos econômicos, as indústrias de frutos do mar e de turismo foram atingidas diretamente na região; e em termos ambientais, os estragos são tão grandes que se estendem até ecossistemas marinhos distantes da região. Para se ter noção, Obama chegou a comparar o impacto desse desastre aos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA…

A British Petroleoum, empresa responsável pela plataforma, já gastou bilhões de dólares para remediar as consequências do vazamento, tendo anunciado ontem a venda de ativos para arcar com esse custo. Contudo, as operações para conter os estragos tem se mostrado difíceis, além de custosas, devido a diversos fatores logísticos, dentre os quais até o mau tempo se enquadra.

Hoje foi anunciado um pacote de mil milhões de dólares por parte de quatro grandes petrolíferas (Exxon, Shell, Chevron e Conoco Philips) para a construção, nos próximos meses, de um novo sistema de contenção de vazamentos de petróleo – com capacidade para conter até 100 mil barris por dia. Medidas que visam evitar um novo desastre com impactos tão negativos como o atual está se mostrando ao mundo inteiro.

A tragédia suscita ainda a constante discussão acerca da substituição dos combustíveis fósseis na utilização cotidiana. A dependência que a sociedade contemporânea criou em relação ao petróleo (e seus derivados) um dia deverá ser suprida por combustíveis “verdes”, ecologicamente sustentáveis. Muitos ainda defendem a utilização do petróleo e sua importância certamente é inestimável para o desenvolvimento das bases modernas da sociedade em que vivemos, porém o fato é que a discussão sobre energias limpas adquire maior expressão a cada dia, demonstrando a urgência em se adaptar a estrutura da sociedade a novas condições.

Tal como apontam David G. Howell, Kenneth J. Bird e Donald L. Gautier (da Divisão de Geologia de Petróleo do U. S. Geological Survey, Califórnia), “precisamos aproveitar as reservas existentes para um prudente e meticuloso planejamento do futuro, um futuro sem petróleo”. E que não está tão distante assim de nossa realidade.


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