Hermanos, pero no mucho

Por

Reação de uma eurodeputada à proposta de aprofundamento das relações comerciais com o Mercosul

Estamos na reta final da Copa do Mundo e o sentimento de união entre os países, que perfez o início dos jogos, se ofusca, dando lugar a um caldeirão de frustrações, alegrias e rivalidades. O assunto está tão em pauta, que nem mesmo a primeira visita ao Brasil do novo chanceler argentino, Héctor Timmerman, foi capaz de deixar de lado uma conversa sobre futebol. Por detrás de comentários jocosos inspirados na atual fase do mundial e da rivalidade futebolística entre brasileiros e argentinos, vislumbram-se anos de discórdia e lutas pela liderança regional sul-americana.

Historicamente, as relações políticas e econômicas entre Brasil e Argentina tardaram em alterar-se, somente atingindo um tom mais cooperativo ao final da década de 1980 e em meados da década de 1990. A assinatura do Tratado de Assunção em 1991 – criando o Mercosul – parecia haver trazido um novo patamar de entendimentos para os dois países. Todavia, ainda hoje é possível observar, no interior do Mercosul, certa herança dessa rivalidade histórica.

Exemplo disso são os famosos casos de barreiras argentinas à produtos brasileiros. E o novo episódio dessa longa saga deu-se em maio desse ano, com bases em uma controversa declaração do secretário do Comércio Interior argentino, Guilherme Moreno. Nesse polêmico discurso, o secretário argentino defendeu que os empresários e comerciantes de seu país não importassem produtos brasileiros que possuíssem homólogos nacionais. Ainda, falou-se de um bloqueio para esses produtos alimentícios. Pouco se sabe se tal iniciativa foi consolidada ou não, do ponto de vista oficial, mas sabe-se que a repercussão para a parceria comercial brasileiro-argentina (e até mesmo para os próprios comerciantes argentinos) não foi nada boa. O Brasil reagiu declarando que, se tal iniciativa fosse consolidada, haveriam medidas contra a Argentina.

Dado esse desenrolar de eventos, a recente visita do novo ministro argentino ao Brasil teve fins diplomáticos bem definidos: esclarecer essas questões comerciais – frisando que a Argentina não impôs oficialmente essas barreiras comerciais – e reforçar a importância das relações comerciais bilaterais. Ao final do encontro as pautas podem até ter sido esclarecidas, mas seus efeitos transcenderam a América do Sul, recaindo diretamente sobre o discurso da União Europeia. Daí emerge certa resistência ao aprofundamento das relações comerciais entre Mercosul e a UE. Afinal, como dar credibilidade a um bloco que não nem mesmo a tem entre seus próprios membros? E outra, talvez o Brasil não seja o único alvo de bloqueios e medidas protecionistas no setor alimentício, pois o próprio bloco europeu tem exigido o fim de medidas desse gênero por parte dos argentinos.

Esse tipo de prática de protecionismo no Mercosul degrada as relações comerciais no interior do bloco e garante-lhe desprestígio em âmbito internacional. Assim, entende-se que o maior receio da UE é que em um possível tratado de livre comércio com o Mercosul, os países-membros democratizem essa prática, o que os europeus não se podem dar ao luxo, dada a grave situação econômica de seu bloco.

Nossos hermanos argentinos podem até ter deixado de ser o foco de nosso eixo estratégico em questões de defesa. Mas tanto no campo de futebol, quanto no campo econômico, os resquícios dessa antiga rivalidade histórica ainda transparecem.


Categorias: Américas, Brasil, Organizações Internacionais, Polêmica


Como caminha o mundo…

Por

Quem ainda se lembra de Zelaya, presidente deposto de Honduras por um suposto golpe militar no ano passado? Provavelmente todos, mas para ter certeza de que ninguém irá esquecê-lo, ele voltou à tona: sem o menor pudor, agora culpa os Estados Unidos pelo golpe e quer porque quer voltar ao país, sustentando um discurso de que apenas a convocação de uma Constituinte pode conduzir a uma nova concertação política. Em outras palavras, ele quer voltar a ser presidente. O atual governo hondurenho não gosta nada dessa idéia e muito menos do “intervencionismo” de Chávez – que considerava Zelaya um importante aliado na disseminação de seu projeto bolivariano, a ALBA, pela América Central -, recusando o reconhecimento de Porfírio Lobo como o presidente legítimo do país.

E a Coréia do Norte? O país acabou de se safar da acusação de ter cometido um ato terrorista contra o navio sul-coreano em março e agora cuida da situação interna, mais especificamente da sucessão de Kim Jong-il. Recentemente, o seu filho, Kim Jong-un, foi eleito para a Assembléia Popular Suprema, o Parlamento norte-coreano. Mal foi eleito e já se começa a ensinar canções sobre o “Kimzinho” nas escolas primárias do país.

O Oriente Médio, outra vez mais, avança para o futuro. O chanceler israelense, Avigdor Lieberman, decretou que não há a possibilidade para se criar um Estado palestino até 2012, meta fixada pelos negociadores internacionais. Não bastasse negar isso, ainda foi sarcástico ao dizer que é uma previsão otimista tal negação. Os Estados Unidos colecionam mais uma frustração, já que haviam enviado um representante do governo, George Mitchell, para avançar nas negociações com os israelenses e então se depararam com o imoblismo de Israel.

Os norte-americanos colecionam também mais frustrações no Afeganistão (vejam o também o post do Raphael). A luta contra o Taleban deve se intensificar. O general David Petraeus, substituto de McChrystal, anunciou o recrudescimento das iniciativas contra os insurgentes, prorrogando uma guerra invencível. Por outro lado, dentro do seu território, os Estados Unidos obtiveram um sucesso, ou melhor, puderam matar as saudades dos idos tempos da Guerra Fria e dos filmes de James Bond: prenderam dez espiões russos no país. Tal questão obviamente está gerando um incidente diplomático. A Rússia já considerou essa acusação infundada.

Com tantos embaraços, o mundo caminha pesado, o que muitas vezes impede o seu progresso. Talvez por isso desenvolva os movimentos de rotação e transação, de modo a mudar as estações, meses, dias, horas, segundos, mas continua descrevendo a mesma órbita, deixando muitas coisas no mesmo lugar…


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Novos ares, velhos problemas

Por

Um pouco de ordem no caos – essa é a situação no Quirguistão hoje, ou ao menos a esperança. No domingo ocorreu um referendo na remota ex-república soviética e um resultado histórico e inédito é apontado, com a aprovação popular de uma nova constituição e a instituição de um regime parlamentarista, com eleições previstas para o fim de 2010.

Por si só essa é uma notícia impactante, pois é a primeira vez em que se envereda por um caminho diferente do presidencialismo em um país do antigo bloco soviético. Tecnicamente, uma mudança pra melhor, dado que essa forma de governo tende a ser extremamente centralizadora e envolta em brumas de corrupção e crime organizado por aquelas bandas. Na dita carta magna há também um mecanismo que restringe a porcentagem de cadeiras do partido majoritário, garantindo que sempre haja oposição e diversidade – em teoria, outro fator que restringe a corrupção, mas gera o perigo da instabilidade. Há até mesmo um inspirador ar de autodeterminação pelo apoio popular maciço – uma aprovação de cerca de 90% não é pra qualquer um.

A nova forma de governo vem em boa hora, após o país entrar em colapso e gerar uma onda de protestos e violência que deixou mais de 200 mortos e milhares de desabrigados e refugiados da minoria usbeque. A situação estava tão ruim que há algum tempo o governo interino havia oficialmente pedido ajuda à Rússia para que ajudasse na estabilização da segurança interna (leia-se: exercer a atividade policial), pois o Quirguistão simplesmente não tinha mais capacidade de fazê-lo. É inacreditável o ponto em que se chegou de um governo pedir para delegar seu monopólio do uso legítimo da força a outrem! Essa ajuda foi negada, mas mesmo assim Madmedev mandou tropas… para proteger a base russa no Quirguistão.

Eis o pomo da discórdia: as bases militares de EUA e Rússia, como já visto aqui. Obama e Medvedev podem sair comendo hambúrgueres juntos, como os melhores amigos do mundo, mas ainda têm uma grande divergência no Quirguistão – e parte da demora em resolver a questão tem resposta nessa briga particular. Os EUA são entusiastas e participam ativamente da articulação desse referendo com a óbvia intenção de devolver a estabilidade ao país que abriga a mais importante base norte-americana nas operações da OTAN no Afeganistão.

Já a Rússia não deve estar gostando nada disso, mesmo por que, dizem as más-línguas, já teve trabalho suficiente para derrubar o presidente anterior, pró-EUA, e não esconde de ninguém que exige a remoção da dita base norte-americana. A instauração de um governo parlamentar (teoricamente menos envolvido com corrupção e com maior diversidade política, portanto, menos controlável por Moscou) e simpático aos EUA é mais uma dor de cabeça para o governo russo que aspira a reconstruir sua esfera de influência na região.

Enquanto EUA e Rússia disputam queda de braço pelas bases, o povo do Quirguistão, sejam quirguizes ou usbeques, pagam com seu sangue e a falência da sua nação. Resta a esperança de que um novo governo, com o apoio popular, transparência e apoio internacional, dê fim a esse drama.


Categorias: Ásia e Oceania


Novo layout!

Por

Galera, a Página Internacional está com layout novo!

Depois de 445 postagens e 518 dias no ar, já estava mais do que na hora de a nossa equipe de 9 colaboradores botar a cabeça pra funcionar e remodelar a nossa querida Página, que está mais moderna, bonita e elegante.

Afinal, se o mundo muda tanto, porque a Página tem de ficar igual?!


Categorias: Post Especial


A Revolução Cidadã está em curso?

Por

Durante as transmissões em televisão aberta da Copa do Mundo aqui no Equador um fato me chamou atenção. Um dos principais anunciantes é o governo equatoriano, o slogan: “Liberdade de difamação não, liberdade de expressão sim”. Em realidade, eu já tive a oportunidade de ver outras peças de publicidade, parte da mesma campanha do governo, na qual um pai de família está brincando com seu filho em uma piscina plástica quando uma série de ataques parte diretamente de seu televisor, culminando com o lançamento de flechas que rompem a piscina e ameaçam ao pai e ao filho. A campanha é simples, contra o abuso das grandes corporações midiáticas que distorcem as informações e impedem o cidadão de obtê-las de forma acurada.

O Ministério da Indústria e Produtividade (MIPRE, em espanhol) investiu um milhão de dólares nesta campanha, sendo metade deste valor reservada para publicidade durante a Copa do Mundo. A questão é que está em discussão no Congresso Equatoriano uma nova lei para regular atuação para a Mídia, em que Rafael Correa tem interesse direto. Não é novidade o fato de governos de corrente populista terem sérias discordâncias com os veículos midiáticos. No caso específico equatoriano, os slogans são um tanto quanto apelativos, seguindo o já citado vêm: “Dizem que querem um país livre, para roubar” ou “Dizem que querem um país livre, para a ditadura da mídia”. São ataques firmes e sistemáticos contra a atuação deste setor no país.  

Confesso, que como estrangeiro e apesar de graduado em Relações Internacionais, não posso entender completamente as discussões nesta temática e tenho uma visão parcial da discussão baseada em minhas próprias pré-concepções, incluso me aproximo de uma posição solidária à mídia. São simples minhas razões, o exemplo de Hugo Chávez na Venezuela e mesmo a relação do governo Lula com a imprensa brasileira. O primeiro caso é o mais emblemático para o debate equatoriano, pessoalmente imaginar um governo com controle sobre o setor em questão me parece extremamente perigosa, os vorazes ataques de Chávez a seus opositores somados ao uso de mídia oficial ameaçam e restringem a liberdade de discussão, opinião e expressão do cidadão. Rafael Correa, como bolivariano que é, parece trilhar caminho semelhante. Com relação a Lula e os veículos de comunicação brasileiros, mais um exemplo de críticas a cobertura que se oferece, posicionando a mídia como inimiga do povo, assim como a explosão de gastos com publicidade oficial.  

Rafael Correa, obviamente, não é muito popular junto às classes mais altas do país, tampouco nas regiões mais industrializadas e desenvolvidas. Sua base de sustentação é a população alvo de sua revolução cidadã. Minha opinião, como outsider, está baseada justamente nisso. A batalha de Correa é mais ampla do que simplesmente contra a mídia, mas se estende as grandes corporações e aos interesses daqueles que ganham com a desigualdade social e a má distribuição de renda – que foram, de certa forma, prejudicados pelo atual governo.  

O tema, no entanto, não pode ser analisado sob esta visão simplista. Em realidade, vai mais além, passando pelo desenvolvimento da democracia, o poder da comunicação (sob todas as formas) e a tendência ao autoritarismo junto aos governos bolivarianos. Em teoria, estamos vivendo sob um modelo de livre-comércio, livre-iniciativa, liberdade de expressão, eleições abertas e acesso do cidadão – em alguma medida – as decisões que lhe concernem. Consubstanciando, assim, o modelo democrático, qual seja, a vitória do oeste contra o leste e da democracia ante ao comunismo; capitalismo subjugando o socialismo. A queda de braço, em especial nos países de governo bolivariano, coloca o Estado (representado pelo Governo) contra as Corporações Privadas, que só ganharam espaço nas últimas décadas. Não é completamente negativo combater a mídia, frente a sua atuação por vezes abusiva e parcial, contudo, tampouco parece positivo deixar um governo – qualquer que seja – com controle sobre o setor. A guerra parece longe de acabar. Esperemos que o modelo democrático contemporâneo seja o grande vencedor.  


Categorias: Américas, Mídia


Quando vale mais o silêncio

Por

Às vezes, uma imagem vale mais do que mil palavras. Outras vezes, mil palavras revelam a imagem que há muito não se tem sido capaz de enxergar. Entre aumentos de contingentes militares em missões de contra-insurgência, pressões internas para o enrijecimento da estratégia no Afeganistão e pressões globais para a realização do movimento oposto, que aos poucos, a verdadeira imagem da estratégia de contra-insurgência e dos Estados Unidos em terrtório paquistanês e afegão se materializa à frente de Obama.


Recentes eventos resultaram em mais um clarão na obscura iniciativa da guerra do Afeganistão. O vetor de uma suposta crise foi o general estadunidense responsável pelas operações, Stanley McChrystal, em polêmica entrevista à revista Rolling Stone (clique aqui para ler o artigo na íntegra). Nesse interessante episódio, o militar perdeu uma boa oportunidade de manter-se em silêncio. Realizou comentários jocosos sobre seus superiores e mais uma vez ridicularizou a estratégia estadunidense na região, defendendo uma ofensiva maior. Tudo isso culminou no resultado que se esperava, a demissão do militar e sua substituição.


Frente a esses eventos, poderíamos pensar estarmos próximos a qualquer inflexão ou mudança da posição estaunidense na guerra, já que a personagem principal do enrijecimento das operações, McChrystal – pivô do envio de contingente extra ao Afeganistão -, está fora de jogo. Todavia, o novo responsável pelas operações, David Petreaus, fora também o idealizador do atual plano de ação dos EUA. Em outras palavras, pouco, ou nada será alterado nas atuações na região. Agora, a Obama é garantida a prerrogativa de proceder com a estratégia – como declarou o secretário de Defesa, Robert Gates – sem grandes polêmicas por parte de seu contingente, e a única dita inflexão reside no rearranjo de outros militares que terão o mesmo destino do general afastado.


O episódio expõe, mais uma vez, as falências e fraquezas dessa empreitada da guerra ao terror e as escancara ao mundo. Exemplo disso, foi a declaração do presidente russo, Dimitri Medvedev em recente visita aos Estados Unidos de que apesar de reiterar o apoio à ação estadunidense, defendeu que o assunto era assaz complicado, de grande dificuldade para lidar e que carecia de qualquer sugestão.


Em situação como essa, para o governo estadunidense melhor seria se a estratégia prosseguisse sem maiores exposições, do que com a promoção da imagem apresentada – que continua a descreditar a posição de Obama. Melhor seria para os EUA se McChystal tivesse ouvido a advertência do interessante provérbio indiano: “quando falas, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio”. E para ambos, parece que valia mais o silêncio.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Política e Política Externa


Há um ano...

Por

O mundo parece que gira em falso. Há um ano, a discussão internacional rondava – adivinhem – o Irã. E um pouco do Brasil também. Quem diria que os temas estariam tão relacionados um ano depois.

Na época, o Brasil era criticado pelo Giovanni (aqui) devido à relação entre nossa participação no Haiti, considerada hipócrita, e as pretensões a um assento permanente no CS da ONU. Esta postagem servia de gancho para outra na qual o Alcir tratava da falta de utilidade prática do CS, mas também dava indícios de que o Brasil era meio que leniente com denúncias de abusos de Direitos Humanos. Ora, basta ver as vistas grossas de Lula quanto aos prisioneiros de Ahmadinejad em sua recente visita ao país do Oriente Médio. Aliás, muitos desses prisioneiros políticos acabaram sendo os protestantes que denunciavam as fraudes nas eleições passadas. A comoção foi discutida aqui e aqui.

Via-se também como Lula já meio que defendia o presidente iraniano ao declarar que a fraude eleitoral não teria ocorrido. Tudo fica claro – assim como o Brasil ignora a “não-intervenção” para mostrar serviço na ONU, ignora as arbitrariedades do Irã em prol do comércio bilateral. Mal sabia Lula que essa teimosia traria resultados ruins para suas ambições no CS.

Isso pois se houve alguém que mudou muito foi o Obama. Na época, buscava reatar com a Venezuela e era aplaudido como o líder que soubera recuar para atingir resultados construtivos. Mas agora, com o esgotamento de seu ímpeto inovador o fracasso em fazer valer muitas de suas promessas, voltou ao bom e velho diálogo à la Bush e comandou o time das sanções contra o Irã.

Que fim teve tudo isso? Ahmadinejad continuou na presidência. Os prisioneiros políticos dos protestos ainda apodrecem em alguma masmorra. E Lula aproveitou pra jogar pela janela todo o esforço no Haiti e perder todo o apoio que tinha de membros permanentes à vaga no CS em uma jogada despropositada para mostrar força no cenário internacional, defendendo o coitadinho do Irã. Imagino como isso fica daqui a um ano.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Há um ano..., Oriente Médio e Mundo Islâmico


Força australiana

Por

No dia em que a Austrália é eliminada da Copa do Mundo, politicamente uma mulher protagoniza uma vitória nacional de impacto interessante para as Relações Internacionais. Julia Gillard, antiga vice-primeira-ministra do Partido Trabalhista australiano, é a nova primeira-ministra da Austrália.

O antigo primeiro-ministro, Kevin Rudd, depois de quase 3 anos de governo, teve sua popularidade abalada e, apesar das incertezas, desistiu da nova disputa poucos momentos antes da votação. Este é criticado por, dentre outras considerações, não se dedicar aos projetos para redução de emissões de gases causadores do efeito estufa e um imposto proposto para taxar lucros excessivos de mineradoras.

Vale ressaltar que é a primeira vez que uma mulher assume esse cargo na Austrália, sendo que ela já liderava o partido majoritário do Parlamento. Seu principal desafio atual é relativo à batalha entre a indústria de mineração e o governo quanto à taxa de imposto de 40% sobre o lucro das mineradoras. Muitas controvérsias políticas têm advindo dessa situação.

Apesar de apresentar a necessidade de manter as metas orçamentárias, Julia adotou um tom ameno. É importante ressaltar sua intenção de relançar o Plano Carbono, de notável importância para a noção de sustentabilidade global no que tange às mudanças climáticas. Vamos ver se isso se comprova no tempo. Vale lembrar que a Austrália, grande exportadora de carvão, foi um dos países que mais tempo levou para ratificar o Protocolo de Kyoto relativo às mudanças climáticas.

Solteira convicta no auge de seus 48 anos, Julia já precisou superar declarações críticas como, em 2007, quando um deputado conservador afirmou veementemente que uma “uma mulher deliberadamente estéril” não podia conduzir os assuntos do país.

Polêmicas à parte, Julia demonstra a força de um novo tempo político no mundo em que cada vez mais as mulheres se destacam enquanto agentes na construção das Relações Internacionais. Aguardemos, pois, o desenrolar de sua atuação para analisar a força australiana diante dos desafios contemporâneos.


Categorias: Ásia e Oceania, Política e Política Externa


Quem vence por último, vence melhor

Por

Chegou o próximo capítulo, Raphael. Uma história chega ao final sem ter propriamente um fim. Se no Afeganistão morreu o 300º soldado britânico, no Brasil está fenecendo os esforços de mediação do caso iraniano. Infelizmente, perdeu-se uma boa chance para uma guinada positiva na política mundial, qual seja a conformação de uma saída negociada para a questão nuclear do Irã, marcada por uma postura atuante da diplomacia brasileira.

O presidente Lula já entregou os pontos, ao dizer que o Brasil fez o que pode. Por certo, fez o que deixaram fazer, não no sentido de cumprir um pseudo-receituário norte-americano (lembremos da suposta carta de recomendação de Obama), mas por não poder ir além do condomínio inescrupuloso das grandes potências. Muitas elogiaram a atuação brasileira, no entanto, no máximo, conceberam-na como um show de abertura ao espetáculo das sanções. Agora quem samba é o Conselho de Segurança, nos festejos de uma prática recorrente e que nunca deu certo, ainda assim dita milagrosa. O Irã já vive sobre sanções! Diante de tal atitude, só faltava o clube mandachuva pensar que o governo iraniano receberia cordialmente os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), quando não lhe ofereceram a chance de pôr em prática a Declaração de Teerã. (aqui, aqui e aqui)

Aliás, o Conselho de Segurança foi alvo de críticas do chanceler Celso Amorim, que afirmou que o órgão não reflete mais a realidade política, e sim “a realidade de 65 anos atrás”. Isto não é novidade. Assim como tal declaração também não escamoteia o sacro desejo brasileiro de se tornar membro-permanente do órgão. Mas evitemos os reducionismos que contaminam a maioria das análises atuais sobre o que o Brasil foi fazer no Irã. Ampliemos os horizontes de nosso senso crítico. É fato notório: do final dos anos 1990 para frente, a política externa brasileira alcançou praticamente todo o globo e tem se sentado nas principais mesas de negociação (ONU, OMC, G-8, G-20, etc.).

Mas por que o Irã, quando todos dele se distanciavam? A princípio, ninguém é ingênuo ao ponto de não perceber os interesses comerciais, haja vista que o Brasil mandou uma coalizão de empresários ao país pouco antes do encontro de Lula e Ahmadinejad. Em segundo lugar, a América Latina é a única região livre de armas nucleares, garantia acordada de maneira institucional, por acordos regionais e bilaterais, com destaque para os esforços de Brasil e Argentina. Em matéria nuclear, temos o que ensinar para o mundo! Por fim, é preciso que alguma voz se levante para demonstrar que “as coisas não andam bem”. Em 1976, na Assembléia Geral das Nações Unidas, o chanceler brasileiro Azeredo da Silveira propôs uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), sobrelevando as necessidades do desenvolvimento econômico e social ante as preocupações de segurança. Agora, Lula e Amorim sinalizam a necessidade de uma nova diplomacia, tarefa malograda de Obama. O presidente, que outrora ensejou uma aproximação com Teerã, colhe as quinquilharias da vitória das sanções, focando em bancos e gasolina.

Ressalta-se que mesmo o ex-presidente Cardoso destacou a credibilidade e o respeito internacional do Brasil em suas relações exteriores. Ainda que para muitos o país saia derrotado do caso iraniano, é uma derrota vitoriosa. Quando as grandes potências se despojarem de sua soberba, perceberão que a solução para o Irã seria uma saída negociada e pacífica, algo tentado pelo Brasil em conjunto com a Turquia. Sem os suspiros ufanistas de Policárpio Quaresma, o herói de Lima Barreto, o Brasil está bem cotado no mundo, deixando a condição de periferia no passado e a condição de potência no futuro.

(Vejam também a justificativa do Brasil por ter votado contra as sanções no Conselho de Segurança.)


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


Novidades na Página Internacional

Por

Pois é, pessoal, em breve estaremos lançando uma nova coluna na Página Internacional, Conversando com a Teoria.

Esta será uma oportunidade para os leitores adentrarem especificamente na disciplina de Relações Internacionais. É um ramo do conhecimento bastante recente se comparado com a Filosofia, Sociologia, Direito, História, e muitas vezes concebido como um subcampo da Ciência Política. Em seu nascedouro escocês, no contexto da Primeira Guerra Mundial, as Relações Internacionais destinaram-se fundamentalmente a investigar as causas da guerra e as possibilidades para a paz. Com o tempo, passou a explorar mais que o interlúdio guerra e paz, incorporando temas ambientais, movimentos sociais, expressões culturais, dentre outras questões.

No Brasil, o primeiro curso de Relações Internacionais foi criado em 1974, na Universidade de Brasília. Porém, a disciplina permaneceu em banho-maria por mais de duas décadas, até voltar reforçada para acompanhar a inserção internacional assertiva do país.

Assim, objetivamos nesta coluna apresentar as teorias (e abordagens) das Relações Internacionais, os debates que se seguiram na área acadêmica, de que maneira foram analisados os processos internacionais de grande envergadura – como a Guerra Fria, o surgimento da União Européia, etc. -, enfim, as problemáticas e os desafios impostos àqueles que se destinam a estudar as Relações Internacionais. Todavia, ressalta-se, não pretendemos restringir essas preocupações ao público acadêmico, mas convidar também todos os interessados a refletirem conosco, opinarem e nos ajudarem a pensar com fundamentação teórica, aliada as impressões pessoais, o que acontece no mundo e qual o lugar do Brasil.

Partindo de seu condomínio anglo-americano, as Relações Internacionais alcançaram diversas partes do globo. No passado, os Estados Unidos apropriaram-se dos estudos para legitimarem as suas práticas. No presente, há um grande esforço para se teorizar a partir das experiências vivenciadas pelos países, de modo a combater a importação automática de pressupostos norte-americanos sem uma depurada análise crítica.

Esperamos que esta coluna seja estimulante para aqueles que se debruçam a entender o mundo a sua volta. Desde já, recomenda-se que o entendimento não deve primar pela certeza, mas pela dúvida, imanente a toda investigação. E, aliás, é justamente a dúvida que instiga uma procura cuja sede nunca cessa, ainda que se beba vários copos de sabedoria.

Vamos então conversar com a teoria. A proposta está lançada. Que todos sejam bem-vindos a essa nova tarefa!


Categorias: Post Especial