Batalha Naval

Por

Estava eu preparando minha postagem sobre as eleições colombianas quando abro o navegador e me deparo na página inicial com a mais nova traquinagem de Israel, brincando de batalha naval com os navios de ajuda humanitária que levavam 10 mil toneladas de mantimentos para o território sob embargo da Faixa de Gaza. Como não pode deixar de ser, vamos tratar novamente do barril de pólvora do Oriente Médio.

Mesmo por que a desproporcionalidade do ocorrido é espantosa. As notícias sobre o fato ainda são recentes e muita água vai rolar, mas há algo de estranho. Que os simpatizantes palestinos não deviam ser santinhos ninguém duvide, há evidências de que havia armas leves com tripulantes e que houve troca de tiros; mas, chegar ao ponto de atacar uma frota civil do modo como ocorreu, com soldados de elite e tudo mais, não apenas parece como demonstra um flagrante exagero no uso da força. Mesmo por que, até onde se sabe, os navios estavam em águas internacionais, e as forças israelenses não teriam autoridade de abordar os navios como fizeram, violando o direito internacional.

A comunidade internacional está condenando veementemente o ataque, inclusive países que em geral apóiam Israel como a França e a Alemanha, além dos islâmicos de praxe. Mesmo os EUA, comedidos aliados, aguardam para se pronunciar mais contundentemente, sem se alinharem automaticamente como era de se esperar. Mais do que todos, a Turquia parece ter razão em se indignar com o fato, chegando a convocar reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. O país com (até onde se sabe) o maior número de vítimas, com um navio sob sua bandeira liderando e que apoiava oficialmente o comboio é também um dos poucos países próximos dos árabes que se esforça para mediar os conflitos e busca manter boas relações com Israel. De pouco valem os lamentos sobre as mortes: Ancara é taxativa ao declarar abertamente o ocorrido como “terrorismo de Estado” e um duro golpe nas relações entre os países, meio que dilapidadas com a mediação turca (considerada ingênua por Israel) no caso do Irã.

E no fim voltamos ao tema do momento! O Irã de novo? Pois é, todos sabem como Israel condena o programa nuclear dos aiatolás e vive acusando-os de mancomunarem-se com terroristas do Oriente Médio. O fato é que o país está pressionado por diversos fatores, principalmente a questão do programa nuclear iraniano. Por outro lado, uma das principais desculpas para o desenvolvimento de uma eventual bomba por Ahmadinejad seria contrabalancear o poderio nuclear israelense (confirmado meio que de maneira oficiosa há um certo tempo, com denúncias de ofertas de armas nucleares à África do Sul). Isso tem levado a uma pressão muito grande sobre Israel para abandonar suas pretensões nucleares, já no âmbito da discussão do TNP. Já não bastasse toda essa dor de cabeça, agora Israel tem que lidar com uma ONG abusada que quer abastecer terroristas na sua vizinhança e interferindo em seus negócios domésticos, o embargo a Gaza.

Será que essa “ajuda humanitária” não teria algo mais? Ou é simples e pura paranóia israelense que leva a atacar um navio cheio de civis (incluindo parlamentares e observadores da União Europeia) e ajuda humanitária? A Turquia estaria pagando o pato por ter se aproximado daqueles que querem varrer Israel do mapa? Seria uma espécie de recado nada sutil aos que estão contra Israel, ou apenas um sinal da truculência que aguarda os inimigos do povo escolhido? São muitas dúvidas para poucas respostas, ainda.

O ocorrido pode ser apenas um breve reflexo do estado de coisas naquela região, em que Israel está se sentindo ameaçado de maneira nunca antes vista. Uma invasão ao Irã não deixa de ser factível (como já tratado anteriormente), e a tragédia no Mediterrâneo pode ser apenas um avant-première de como a pressão pela sobrevivência misturada ao fervor da soberania podem levar a medidas extremas em um futuro próximo.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Hindustan zindabad!

Por

Ou “Vida longa à Índia!”


Uma coisa é muito positiva (mesmo que as vezes sejamos bonzinhos demais) no Brasil: nós não temos inimigos declarados nem estamos em conflito armado com ninguém. Ao contrário da Índia, Paquistão, China e etc.


Acredito que tenham lido o post da Bianca sobre a “pomba espiã”. Mas nessa região tem mais história de espionagem que mulher largada pelo James Bond. Semanas atrás descobriram o caso de uma “espiã” infiltrada na Embaixada da Índia no Paquistão. Não precisa nem falar que foi manchete constante, certo? O interessante é que toda notícia e relatório afirmava que ela não tinha acesso à nenhuma informação relevante, e que no máximo talvez poderia ter comprometido a posição de agentes infiltrados no Paquistão. Isso não impediu os meios de comunicação (e a população) de demolir a imagem dessa mulher por ter ameaçado a integridade territorial.


As coisas já começam errado quando o país admite a presença de agentes secretos em altos postos do governo, provando que o ódio e desconfiança são explícitos. Nada disso surpreende se analisarmos a Cerimônia de Fechamento de Fronteira, evento que presenciei em Amristar, no estado de Punjab.


Essa cerimônia consiste em uma apresentação dos guardas realizando manobras e chutes muito estranhos que culminam em um apertar de mãos dos oficiais da fronteira e o fechamento dos portões para o dia. Seria algo normal se não contasse diariamente com a presença de CENTENAS de pessoas de ambos os lados, levando bandeiras, dançando e gritando amontoados como se estivessem em uma final de campeonato. Esse grito de “Hindustan Zindabad” é puxado pelos próprios oficiais de fronteira, que aparentemente pouco se importam com paz mundial, cooperação bilateral ou outros vocábulos diplomáticos. Pode parecer bobeira, mas isso torna esse ódio oficial e legitima qualquer imbecilidade proferida pelos cidadãos contra seus vizinhos…


Duvido muito que as pessoas que estavam lá sabiam dos detalhes da luta da Caxemira ou das implicações a curto e longo prazo de um conflito com um país vizinho. Mas o governo sabe muito bem, e é extremamente ineficiente em estabelecer negociações com o governo Paquistanês, que também não é nem um pouco genial. É nessas que a China vem, rouba uma parte da Caxemira e lentamente invade o território leste indiano e ninguém faz nada. Cadê o Lula pra ajudar esses governos nessas horas?


PS: Caso alguém se interesse, podem ver outras reflexões e histórias da Índia no meu outro blog, o Tira o Lar do Lugar.


Categorias: Ásia e Oceania, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Paz na Caxemira?

Por

Pombas brancas são símbolos de paz, correto? Bom, nem sempre. Pelo menos não é o caso quando se trata da região da Caxemira, disputada por Índia e Paquistão há décadas…


Hoje, uma pomba branca foi retida na Índia e está sendo vigiada por guardas armados. O motivo? Ela estaria espionando a favor do Paquistão, pois tinha um anel em uma de suas patas, um número de telefone e um endereço paquistaneses impressos em seu corpo com tinta vermelha. Nenhuma mensagem foi encontrada, mas mesmo assim o caso está merecendo atenção da polícia indiana.

Para entender a razão do alarde atual, é importante recorrer a informações históricas, especialmente no que tange a conflituosa região da Caxemira. Índia e Paquistão são ex-colônias britânicas que alcançaram sua independência no ano de 1947, sendo que seus territórios foram determinados pela religião dominante (Índia – hindus; Paquistão – muçulmanos).

Contudo, a região denominada “Caxemira” (vide mapa abaixo) desde então se constitui em um palco de conflitos entre os dois países, pois, além de se constituir em uma área de riquezas naturais, a maior parte da população da localidade é muçulmana e quer ser anexada ao território paquistanês, situação que a Índia repudia. O Paquistão, ao mesmo tempo, reivindica o controle total da região. Trata-se de um dos maiores conflitos internacionais pela posse de territórios e por redefinição de fronteiras.

Mais de 30 mil pessoas já morreram nos muitos anos em que o conflito pela soberania da região se desenrola, sendo que, desde 1998, o local também se tornou palco de testes nucleares de ambos os países, intensificando a atenção que a comunidade internacional dedica aos acontecimentos.

Várias foram as tentativas de promoção de diálogo entre os países, sendo que impedimentos têm dificultado essa reaproximação: em 2008, por exemplo, época em que os Estados se encontravam com vias de diálogo abertas, houve o atentado de Mumbai em que mais de 150 indianos morreram (um grupo terrorista paquistanês que atua na Caxemira foi acusado de protagonizar o ataque, o que impossibilitou a continuidade do diálogo entre os países).

Este mês, quase dois anos depois do ocorrido, Índia e Paquistão anunciaram a retomada do diálogo, sendo que as expectativas para a busca pela paz na região da Caxemira continuam. Enquanto isso não acontece, todavia, a pomba branca – ave que costuma simbolizar a paz – se encontra retida em uma sala refrigerada sob olhar atento de guardas armados indianos…


Categorias: Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


A contradição

Por

Se há um ponto delicado e ainda pouco explorado na literatura de Relações Internacionais, este é a questão das migrações. Na História do Brasil, os fluxos migratórios foram vistos como fator essencial na definição do sentimento de nação – com vias no entendimento da “brasilidade” como derivada da grande miscigenação. Outro exemplo emblemático de uma visão positiva frente às migrações foi o caso do Canadá que, desde sua independência, possui políticas de incentivo à imigração dada sua baixa densidade demográfica e seu território de proporções continentais.

De maneira oposta, existe também a visão negativa das migrações que pode até chegar a atingir certo nível de xenofobia. Os exemplos mais tradicionais são os de países europeus como o Reino Unido, a França e a Espanha.

Os Estados Unidos também tem certo histórico de se opor às migrações, principalmente às chamadas de migrações hispânicas. No geral, o olhar negativo incide sobre os imigrantes ilegais provenientes do México. Há também no país um misto de intolerância, falta de conhecimento e preconceito que perfaz o imaginário de parte da população sobre a presença dos imigrantes de origem latina.

No campo acadêmico, Samuel Hutington defendeu posição semelhante, afirmando que o grande volume de imigrantes mexicanos, e latinos em geral, eram ameaça à integridade cultural estadunidense já que o governo precisava considerar cada vez mais essa parcela significativa da população. Assim, para o autor, aos poucos essa relação vai erodindo o “american way of life” e deve-se dar espaço para a cultura e língua desses migrantes. Portanto, se mostravam necessárias políticas que limitassem a imigração tanto de forma ilegal quanto legal.

Atualmente, o estado do Arizona é o epicentro de fortes protestos da população frente a políticas de controle de imigrantes ilegais. Em nível macro, a busca pelo controle da imigração nos EUA sofre dois movimentos contraditórios, porém, de modo muito interessante, complementares. O primeiro tem bases na posição da ala republicana, que ainda insiste na necessidade de se fortalecer militarmente as fronteiras contra a imigração ilegal – como se a questão migratória fosse uma ameaça militar comum. Neste sentido, o governo Obama acatou com o posicionamento de aumentar o contingente militar na fronteira com o México, aproximando-se da política de segurança do governo Bush.

Todavia, é justamente nesse ponto que reside a contradição e que emerge o segundo movimento. Para angariar apoio à reforma na política de migrações do país a ala governista deve considerar as relações de força no congresso. E grande parte do peso das decisões depende do apoio republicano. De um lado, há a busca pela alteração da política migratória; de outro há uma nova estratégia dos Estados Unidos na fronteira com o México. Ambas coexistem.

A contradição, contudo, pode minar um pouco a relação EUA-México. E, convenhamos, não se controla migrações ilegais com base na militarização unilateral das fronteiras. A forma mais adequada de realizar tal movimento é pela via cooperativa com os Estados fronteiriços, no caso o México. Felipe Calderón – que hoje lida com um Estado com cada vez menos êxito para exercer o monopólio legítimo da violência – já percebeu essa ligação e insiste que as forças sejam usadas apenas para o combate ao narcotráfico. A política é cheia de contradições. Agora, resta esperar para ver o resultado de mais essa. . .


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Estados Unidos, Política e Política Externa


Argentina: o que comemorar?

Por

Um dia após o colaborador Luís Felipe fazer aniversário, é a vez da Argentina. Hoje se celebra o bicentenário da independência. Há dois séculos, o Vice-Reino do Prata emancipou-se da metrópole espanhola, por meio da Revolução de Maio e da formação da Junta de Governo em Buenos Aires. Desde então, o país tem atravessado um sinuoso caminho, marcado por encontros e desencontros, sucessos e tragédias.

A partir dos anos 1870, a Argentina experimentou um crescimento econômico sem precedentes, comparável inclusive com as mais importantes nações ocidentais da época. Tal crescimento, assentado numa forte base agroexportadora em regime de mercado aberto, permitiu um processo incipiente de modernização do país, bem como alimentou os desígnios de grandeza e progresso na inteligência política argentino por um longo tempo. Todavia, o sucesso converteu-se na maldição. A partir de 1890, a Argentina mergulhou num endividamento externo também sem precedentes.

A correção de rumos do país só viria com a chegada ao poder do general Juan Domingo Perón, no momento em que a ideologia nacional desenvolvimentista contagiava a América Latina. Externamente, Perón sustentava uma postura altiva da Argentina, fazendo frente aos Estados Unidos, com a neutralidade na Segunda Guerra Mundial, e adotando a “Terceira Posição” durante a Guerra Fria, ao não se alinhar com nenhum dos pólos. Internamente, o líder serviu ao contento das massas, perdurando até hoje no imaginário político argentino.

Após Perón, o país girou nos círculos das mudanças políticas e suas respectivas conseqüências econômicas e sociais, entremeados por constantes golpes militares. O destino da Argentina cada vez mais se desprendia dos desígnios do Estado, para se alojar nos líderes e partidos que ocupavam o poder. Cada governo rompia drasticamente com o anterior. Boulitreau Fragoso, embaixador brasileiro em Buenos Aires nos tempos ditatoriais, chegou a afirmar que as previsões políticas na Argentina são similares as previsões do tempo, porque valem por 24h. Desgraça pouca não fosse bobagem, poucos países casaram também crises políticas com crises econômicas como fizeram nossos “hermanos”.

Findado o período ditatorial e soerguida pela democratização, a Argentina se refrescou pelos ventos neoliberais que tocaram a América Latina. Carlos Menem ocupou a presidência entre 1989 e 1999 e acreditava que a globalização produziria resultados simétricos a todos os países. Domingo Cavallo, seu chanceler, afirmou que o país deveria ser “normal”, ou seja, seguir todos os ditames dos centros do capitalismo, abrindo a economia, eliminando o Estado empresário, dentre outras medidas. Tal etapa culminou na drástica crise de 2001. Novos governos, com destaque para a chegada do casal Kirchner ao poder.

Para boa parte da opinião pública, o peronismo volta com força com o casal Kirchner. Só que de peronismo, a atual administração não tem nada. Nem popularidade, nem carisma e tampouco liderança. Segundo o “Clarín”, Maradona, mesmo sendo deveras criticado como treinador de uma das maiores seleções do mundo, é mais popular do que Cristina Kirchner. Não bastasse isso, a presidente só tem conseguido governar por meio de decretos lei, custando-lhe uma sentença da Corte Suprema.

Duzentos anos depois, a pergunta que não quer calar: o que comemorar na Argentina? O mito do progresso do século XIX cedeu o seu lugar para o mito do peronismo, fortemente enraizado na sociedade argentina. Para o filósofo e físico argentino Mario Bunge, “el que no entiende el peronismo no entiende la Argentina”. E quando lhe pediram para definir o peronismo, ele simplesmente disse: “No sé”. Por certo, o peronismo esvaziou um pensamento genuíno na mentalidade dos governantes que o sucederam e devem aprender a conviver com essa sombra do passado. Comemora-se apenas os números da idade, porque nesse sinuoso caminho da história, o futuro não parece ser o destino.


Categorias: Américas, Economia, Política e Política Externa


Dominó mundial

Por


Parafraseando Hamlet, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. No caso das Relações Internacionais, tal colocação shakespeariana revela grande veracidade quando transposta a um nível horizontal. Há muitas conexões entre temas e fatos internacionais que nem imaginaríamos. Pois há discussões recentes que se em sua comoção isoladamente já apresentam relevância para o cenário global, associadas podem guardar a chave para a análise da conjuntura atual e do que pode vir a ocorrer nos próximos meses.

Dois temas disputam o titulo de “mais pungente” da atualidade: a tensão entre as Coreias e o infindável tango nuclear iraniano. E ambos têm um denominador comum na relação entre China e EUA. Se comercialmente são grandes parceiros, politicamente há muitas rusgas, desde o fim da Era Bush. Hillary Clinton, por exemplo, está em Xangai a pedir que os chineses deixem de desvalorizar o Yuan (a que receberá o “não” de praxe). A situação tende a piorar e se mostra delicada quando pensamos nos tais fatos recentes.

A crise das Coreias está enfrentando o que os autores clássicos como Deutsch chamam de “escalada de conflito”. O que começou como exigência de pedidos de desculpas pelo afundamento de um navio já se tornou bloqueio de comércio e ameaça de exercícios militares de fronteira, além de planejar levar a disputa ao Conselho de Segurança da ONU (CS). Não falta muito para que alguém dê o primeiro tiro e recomece a hostilidade. Provavelmente é a maior crise desde a guerra nos anos 50 (lembrem que, tecnicamente, os países ainda estão em guerra visto que não houve tratado de paz, apenas um armistício). E a China e os EUA com isso? Os norte-americanos estão do lado da Coreia do Sul, endossam o discurso pelas desculpas oficiais e estão prontos para acionar seu hard power caso necessário. Já a China se mostra reticente e vaga, clamando por sensatez das partes. Obviamente penderia para o lado de seu apêndice coreano em caso de conflito, e nisso já entraria em uma contraposição aos EUA.

Do outro lado da Ásia, a crise da moda tem como protagonista o Irã. Aquela mesma, discutida à exaustão, que parecia mediada por Brasil e Turquia, mas que o governo dos aiatolás insiste em azedar. O que se sabe basicamente é que a turma do CS provavelmente aprovará uma rodada de sanções (que provavelmente não serão eficazes). A China até apóia as sanções, mas como a diplomacia chinesa já se mostrou volúvel e enigmática anteriormente, se esforçando para mostrar que não foi cooptada pela norte-americana, e não é tão absurdo suspeitar que troquem de lado caso o acordo encabeçado por Lula tenha sucesso na AIEA. Romperão a “aliança” dos membros permanentes pelas sanções? Se isso vier a ocorrer, esperem mais troca de farpas entre Pequim e Washington.

Vejam que são duas situações dispostas como duas peças de dominó, enfileiradas. Se tocada, qualquer uma delas vai necessariamente alterar o estado da outra. Se a tensão coreana escalonar até o conflito armado, China e EUA muito provavelmente tomarão posições díspares e isso influenciará as negociações sobre sanções ao Irã. Concomitantemente, o desenrolar das negociações no CS podem afetar sensivelmente as posições quanto à crise na Coréia e decidir qual o resultado – EUA e China agindo juntos para debelar as tensões ou rivalizando-se por seus aliados como reflexo de posições opostas no CS.

É mais provável que a peça a ser derrubada primeiro seja a da península coreana, mesmo pela rapidez com que tem se desenrolado. Como afirmado anteriormente, devemos esperar pelo desenrolar do conflito para averiguar suas implicações, mas neste caso o resultado a que se está se tomando é o pior possível, e deve-se torcer para que não a queda dessa peça não tenha forças para iniciar um nefasto efeito dominó ao redor.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Irã e a questão nuclear: Parte 384594

Por

Discussão vai, discussão vem sobre o papel do Brasil na negociação com Irã e Turquia. O assunto ainda está rendendo pano pra manga. Agora, segundo Ahmadinejad, Teerã deve informar oficialmente a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre os termos do acordo e reiterar o cumprimento do mesmo.

Enquanto isso, no Conselho de Segurança, os EUA conseguiram negociar com as demais quatro potências uma quarta rodada de sanções econômicas. Basta convencer outros quatro membros rotativos e tá tudo certo. Os termos das sanções, que devem incluir restrição ao acesso ao petróleo, foi classificado como uma ‘piada’ por Ahmadinejad.

Segundo Marco Aurélio Garcia, “se os EUA optarem pela sanção, eles vão se dar mal. Vão sofrer uma sanção moral e política. Cabe aos EUA decidir se querem ou não um new deal com o Irã”.

Em primeiro lugar, ninguém quer entrar nesse balaio de gato que é a situação com o Irã. E recriminar os EUA por levar adiante as sanções parece ainda mais improvável. Apesar disso, permanecem dúvidas sobre a viabilidade do pacote de sanções. Os discurso das cinco potências gira em torno do argumento de que o acordo com a Turquia não impediria a aplicação das resoluções, já que elas recairiam sobre o fato de que o Irã não deixaria de enriquecer urânio a níveis mais altos.

Sanções econômicas NÃO funcionam. Não funcionaram com países menores, não funcionaram até agora com o Irã, e não funcionarão. Independente da atitude brasileira e turca ser ou não plausível, levar ou não a algum lugar (isso só poderemos aber com algum tempo), aplicar sanções é quase uma provocação para que o Irã continue enriquecendo Urânio e emitindo comentários do tipo ‘isso é uma piada’

Definitivamente, se negociar não é efetivo, como as potências afirmam, esse cabo de guerra parece mais aquelas situações em que os adultos falam “Você vai apanhar se não entrar na linha”, e a criança, além de mostrar a língua, ainda retruca “E daí? Nem doeu!!”


Categorias: Brasil, Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


A culpa é do Obama!

Por

Que é questionável o acordo que nosso governo mediou todo mundo sabe. É evidente que o Irã tem muito mais do que os 1200 quilos de urânio a serem enviados para a Turquia. Além disso, o acordo não prevê nada que a comunidade internacional queria: inspeções nas instalações nucleares e a garantia de que o enriquecimento não mais ocorrerá em solo iraniano.

Mas o mais engraçado mesmo é o discurso do governo brasileiro sobre o acordo.

Primeiro foi uma festa! O Brasil conseguiu resolver o problema. A diplomacia venceu! Vocês, potências, não são de nada, nós, os terceiromundistas botamos um ponto final neste conflito!

Mas a comunidade internacional não levou tanta fé assim no acordo e logo se organizou para aprovar as sanções ao Irã. Aí o discurso começou a mudar. Críticas aos Estados Unidos e à Europa choveram. Seria ridículo punir o Irã com sanções depois do acordo.

E aí, em menos de uma semana, ficou óbvio que o que o Irã queria, mesmo, era mais tempo de manobra e se livrar das sanções da ONU. Neste momento, surge o inesperado: sai do governo brasileiro a declaração de que Obama teria incentivado Lula a intervir no conflito mediando um acordo com o Irã!

É mole?!

Se o acordo tivesse mesmo alguma efetividade, seria a vitória da diplomacia brasileira contra as grandes potências. Como foi tudo pro buraco, a culpa é do Obama?

Será mesmo que o Palácio do Planalto e o Itamaraty esperavam uma carta do Obama dizendo que era pro Lula não tentar mediar um acordo depois do alarde que foi feito pelo nosso governo de que o presidente estaria por lá? Ou então esperavam uma carta oficial dizendo pro Lula não ir pra lá, fugir do Oriente Médio? E se a carta não tivesse chegado, então, Lula teria ficado aqui em casa?

Essa é boa. Daqui a pouco o déficit da previdência vai ser culpa de uma carta do Obama. E o aumento da dívida pública? Foi uma carta do Obama pedindo pro Brasil gastar mais por causa da crise. E a inflação? Achamos na gaveta do criado mudo do Lula uma carta do Obama.

Eu já vi acharem os mais diversos culpados pra tudo quanto é tipo de problema. Mas o Brasil ter se metido no fiasco daquele acordo ser culpa do Obama é demais.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Tensões coreanas

Por

Carl von Clausewitz, importante nome para os estudos sobre Segurança nas Relações Internacionais, apresenta uma das definições mais conhecidas do conceito de guerra: “a guerra é a continuação das relações políticas por outros meios”, ou melhor, pela força armada. As Coréias se encontram, nestes últimos dias, em um momento em que esta possibilidade bélica está aflorada (informações detalhadas aqui).

No final de março deste ano, o navio de 1.200 toneladas “Chenoan” da Coréia do Sul naufragou após uma explosão, diante da ilha de Baengnyeong, no Mar Amarelo. Até semana passada, esta explosão representava um mistério, resolvido apenas nos últimos dias a partir da conclusão das investigações internacionais. Segundo Seul, a embarcação sul-coreana partiu-se após ter sido atingida por um torpedo disparado por um submarino da Coréia do Norte.

Dos 104 marinheiros a bordo, 46 foram mortos no acidente, situação que gerou grandes implicações em uma das áreas mais militarizadas do mundo, compreendendo a complicada definição de limites marítimos (definidos unilateralmente pela ONU) da área em que o navio naufragou.

Os noticiários internacionais apresentaram que o regime norte-coreano ameaçou anteontem entrar em guerra contra a Coréia do Sul se houver sanções da ONU pelo ataque a este navio de guerra. Esta situação foi considerada um dos incidentes mais graves desde o armistício de 1953, relembrando que historicamente a Guerra da Coréia (iniciada em 1950) não terminou com um acordo de paz definitivo, mas apenas com um cessar-fogo que tem se mostrado cada dia menos estável.

Sanções à Coréia do Norte, especialmente econômicas, são cogitadas por esta situação e a acusação deve ser levada na segunda-feira à Organização das Nações Unidas pela Coréia do Sul em busca de resoluções: a pressão para incluir novamente a Coréia do Norte na lista norte-americana de terroristas é grande, sendo que Hillary Clinton se pronunciou vagamente a respeito do assunto enquanto a China apenas considerou o episódio como um incidente “infeliz”.

Compreender de que forma a guerra se encontra entre as possibilidades de relações políticas entre os Estados é um dos aspectos predominantes na análise em Política Internacional, tal como Clausewitz sugere. Resta-nos aguardar, pois, o desenrolar das tensões coreanas para saber como este impasse do cenário internacional pode repercutir nas relações inter-estatais.


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Paz, Segurança


No museu tailandês

Por

18 de maio, Dia do Museu. Por certo, essa data festiva nos convidaria a uma visita pela história. Esculturas, monumentos, quadros, documentos, enfim, lembranças do passado cujo tempo não feneceu. Na Tailândia, há um museu a céu aberto, do qual foi roubada a relíquia mais valiosa para o cumprimento dos desígnios da nação: a estabilidade política. Isto é coisa de outrora, objeto de contemplação e de disputas. De um lado, o heroísmo de gelo dos manifestantes opositores – os “camisas vermelhas” -, de outro, o despotismo grandiloqüente do governo. Os protestos, que tiveram seu início em março, acabaram se intensificando na última quinta-feira, após o general Khattiya Sawasdipol, participante das reivindicações, ter sido baleado na cabeça. (Assista aqui uma reportagem sobre os confrontos)

Localizada em um ninho de dragões, a Tailândia mal saiu do ovo, mas experimentou um crescimento econômico intermitente (acompanhe os dados do país). Para agravar a situação, enfrenta a maior onda de violência desde os massacres de 1992, quando os manifestantes reivindicavam o retorno da democracia. Os camisas vermelhas, simpatizantes do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra – deposto em 2006 -, exigem a dissolução do Parlamento pelo atual premiê, Abhisit Vejjajiva, bem com a sua demissão, e a convocação de novas eleições. Neste último ponto, o governo até estava disposto a aquiescer, mas logo voltou atrás e não as realizará em novembro. Outrossim, as autoridades se negam a negociar com os manifestantes enquanto não abandonarem os protestos.

Fato que não poderia deixar de ser mencionado: a repressão do governo sob a mimetizada forma de combate ao terrorismo internamente. Argumento astuto e recorrente, na taxonomia século XXI, classificar alguém como “terrorista” impele imediatamente a legitimação de qualquer medida para detê-lo. Curiosamente, o terrorismo chegou primeiro à Tailândia e não aos Estados Unidos, depois das ameaças da Al-Qaeda. Assim, facilmente o premiê pôde considerar o avanço militar como a única maneira de salvaguardar a paz, ou o exército decretar o toque de recolher e confinar os manifestantes numa área de 3 km², no centro comercial de Bancoc, há cinco semanas. Acredita-se que o movimento chegou a contar com 10.000 pessoas, o que daria 0,3 m² para cada um neste acampamento. O gêmeo univitelino desta situação seria encontrado no cinema, com o filme “Distrito 9”.

Não obstante, é preciso também enumerar os erros de cálculo dos camisas vermelhas. O movimento não foi congênito aos anseios da sociedade. Algumas de suas ações acabaram por distanciá-lo ainda mais da população, como a morte de civis e uma invasão a um hospital, amplamente criticada e que gerou um pedido de desculpas por parte das lideranças. Ademais, o chamado de resistência conduz os manifestantes remanescentes à sobrevivência em condições subumanas. Todo e qualquer resquício de heroísmo agora está congelado!

Parece ser iminente a vitória do governo. Uma vitória absolutamente sem glória, na medida em que qualquer descuido poderia conduzir ao suicídio coletivo da nação. O museu tailandês se converteria num sepulcro. Já se chegou a mais de 60 mortos – metade dos quais nos último cinco dias – e a pelo menos 1.650 feridos. Resta a esperança de que a estabilidade política do passado ponha fim na narrativa ingloriosa do presente. E que esta se torne um artefato a ser arquivado em algum espaço de 0,3 m² do museu tailandês, sem pompa nem vintém.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos