Anistia, Brasília e outros opróbrios

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Nesta quinta feira, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por 7 votos a 2, pelo arquivamento de um processo movido pela OAB tinha o objetivo de rever a lei de Anistia de 1979. A dita lei já causara polêmica quando aprovada, pois era extremamente benéfica – apesar de tal insatisfação parecer contraditória, era um indulto tanto para as vítimas quanto para os algozes do regime militar. Pela decisão de hoje, o STF evita que bons velhinhos venham a ser levados a julgamento devido às traquinagens feitas em nome do Estado nos anos de chumbo.

De fato, os pareceres da maioria dos votantes acerca da improcedência da ação são definitivos e coesos, afinal trata-se de rever uma lei consagrada há mais de 30 anos. Todavia, mais do que discutir o processo ou os fatos da decisão em si, o ocorrido pode nos trazer vários questionamentos pertinentes à natureza política do brasileiro.

Na Argentina, por exemplo, recentemente um pobre aposentado de 82 anos, chamado Reynaldo Bignone – que por acaso vinha a ser o último ditador do período militar portenho – foi condenado a 25 anos de prisão e provavelmente passará do conforto da prisão domiciliar a um não tão aprazível descanso em uma penitenciária até o fim de sua existência. Esse fenômeno de “caça às bruxas” das ditaduras militares é muito forte em outros países sul-americanos como Chile e Argentina. O presidente Menem oferecera indulto aos militares? A Corte Suprema de Justiça da Argentina derruba a ação e o povo clama pela punição aos torturadores. E, por incrível que pareça, consegue. Mais de 100 já foram presos apenas na Argentina.

Por que isso não ocorre no Brasil? Não vamos entrar nos méritos de comparar as escolhas dos tribunais superiores dos países – mesmo por que não tenho know-how para tratar do assunto. Entretanto, se há algo mais notável que a complacência do STF para com os militares é a falta de interesse do povo brasileiro quanto à questão. Se aqui a revolta se limita a umas poucas ONGs e famílias de desaparecidos, na Argentina (para me ater a um único exemplo) o questionamento dos governos militares é uma preocupação que em muito ultrapassa as manifestações das Mães da Plaza de Mayo.

O que surpreende é a falta de preocupação, até mesmo ao ponto da ignorância, do brasileiro médio em simplesmente questionar esse passado sombrio. É como se fosse um período histórico relegado às páginas dos livros de história (essa analogia da página virada, aliás, consta em alguns dos pareceres do STF), e sempre há aqueles divertidos que alegam terem sido “tempos melhores”. Infelizmente, essa é uma inépcia que não se restringe aos assuntos da ditadura, mas aos temas políticos em geral. Pode haver diferenças de cultura política, sociológicas e conjunturas históricas entre o Brasil e outros países sul-americanos. Mas saliento que isso talvez se deva à pura e simples distância do brasileiro da política. Literalmente.

Semana passada, comemorávamos o qüinqüênio da capital federal. Aquela em que se gastou muito, gerou bolsões de pobreza ao redor e pôs a política definitivamente ao alcance dos brasileiros, mesmo que apenas através dos jornais e televisores. Pois bem, em Buenos Aires, se a população engendrasse um protesto, manifestação ou afins (por exemplo, digamos, pelo fato da Corte Suprema ter aliviado a barra de militares envolvidos com seqüestros, tortura e desaparecimentos), bastariam alguns minutos para que uma chusma se formasse às portas da Casa Rosada. Aqui? Se algo do tipo ocorresse em direção à nossa capital, a maioria dos infelizes que se dispusessem a tal odisséia ficaria pelo caminho no meio do sertão. Viva Brasília!


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Uma nova ordem mundial

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Esta seria a responsabilidade de Brasil e Irã, na concepção do presidente iraniano Ahmadinejad: criar “uma nova ordem mundial justa”. Isto é possível? Realizável? Indubitavelmente, a preocupação com a ordem na política mundial está no centro da litosfera de assuntos que circundam as relações internacionais. Teóricos, acadêmicos e tomadores de decisões, como navegantes intrépidos desse turbulento – e ao mesmo tempo vasto – campo de conhecimento, devem-se ater à questão central da ordem.

Por definição, as relações internacionais são, paradoxalmente, ordenadas pelo princípio da anarquia. Muito longe de ser entendida como caos ou completa desordem, sempre é bom lembrar que a anarquia é entendida enquanto a inexistência de uma autoridade soberana em âmbito global, a qual tenha que se submeter todas as nações. A ONU não detém esse poder. Mas como criar ordem a partir da anarquia e a manter?

Hedley Bull, um dos maiores expoentes da Escola Inglesa, trar-nos-ia uma resposta precisa em “Sociedade Anárquica”, discorrendo acerca do funcionamento incompleto das principais instituições – não necessariamente organizações – internacionais, como o equilíbrio de poder, o direito internacional, a guerra, as regras e normas de conduta, entre outras. Outrossim, considera-se que inúmeras figuras políticas de proa assumiram a responsabilidade, consciente ou inconscientemente, de trabalhar em prol da construção da ordem mundial. Por certo, o caso de reordenamento mais famoso, é instalação de uma ordem bipolar no momento subsquente à Segunda Guerra Mundial. Outro interessante seria a criação da Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), cujos esforços foram capitaneados pelo bloco de países terceiromundistas, deslocando a primazia pela paz e segurança para o desenvolvimento.

Mas agora é diferente. Ahmadinejad vem com uma idéia bastante revolucionária. A vocação para se construir uma nova ordem soa bastante poderosa. No geral, a construção de uma nova ordem parte da iniciativa de grandes potências – principalmente aquelas vitoriosas após grandes guerras – ou de países que assumem uma responsabilidade comum em tal empreitada. Não há registros de que uma iniciativa bilateral entre uma potência em ascensão e um país cheio de desconfianças tenha logrado êxito em tal tarefa. No entanto, não se pode deixar de relevar a manobra política da presidente iraniano, ao evocar ordem e justiça simultaneamente. Ou se cria uma ordem em que todos tenham direito à tecnologia nuclear, o que inclui a possibilidade de armas nucleares, ou se cria uma ordem em que se elimine por completo as armas nucleares, reduzindo a importância da tecnologia nuclear. Talvez seja justo, mas seria ordenável?

Crucificar o discurso do presidente iraniano sem, no mínimo, uma análise crítica se apresenta como um maniqueísmo obsceno. A ordem é uma obviedade ululante nas relações internacionais! Construí-la e mantê-la é uma tarefa a qual o sistema de Estados sempre despendeu enormes esforços. É bem verdade que a evocação de Ahmadinejad possa ser um subterfúgio para escamotear a controversa questão nuclear do país; de culpado pela desordem, o Irã intenta ser o protagonista da ordem. No entanto, ressalta-se há muito um país de pequena expressão exortava a necessidade de ordenar o mundo.

De fato, como cantou Caetano Veloso, “alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial”, essa coisa é um país e esse país tem nome: Irã! O Irã tem sido excluído e foi se excluindo do mundo. Regressar a ele deve se dar de maneira concomitante à reconstrução de sua ordem. Certamente o país não dispõe de nenhuma condição para assumir a dianteira desse processo, no entanto, recuperou uma palavra inspiradora nesta ordeira terra de silêncios.

(Saibam mais sobre o programa nuclear iraniano aqui e sobre a visita de Amorim ao Irã aqui e aqui.)


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Tragédias e farsas sudanesas…

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Karl Marx já dizia que “A história se repete: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, observação bastante conhecida e que originalmente se referia ao contexto napoleônico da França durante o século XIX. Em um contexto histórico-espacial totalmente diferente, contudo, tal frase parece ainda traduzir os acontecimentos em questão.

Como não acreditar que a história se repete – muitas e muitas vezes, de forma que tragédias e farsas até se confundem – quando analisamos os aspectos notadamente políticos do Sudão? Este país africano tem se destacado nos últimos anos dentro do cenário internacional devido às graves implicações humanitárias da crise em Darfur e à figura, no mínimo emblemática, de Omar Hassan Ahmad al-Bashir.

Após ter sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos na região de Darfur há cerca de um ano, eis que al-Bashir retorna à cena internacional atual de forma ainda polêmica. Mesmo que continue sob ordem de prisão (não podendo deixar o território sudanês, portanto), Omar al-Bashir foi reeleito com quase 70% dos votos válidos no país. Estas foram as primeiras eleições pluripartidárias no Sudão em aproximadamente duas décadas, tal como informou a Comissão Eleitoral. Entretanto, os dois candidatos que disputavam o mesmo cargo com Omar acabaram, acreditem, por se retirar do embate.=”http://www.bbc.co.uk/portugueseafrica/news/story/2009/03/090304_sudanbachiricctl.shtml”>

A falta de credibilidade diretamente relacionada à análise imparcial das circunstâncias eleitorais demonstra que al-Bashir se mantém no poder político local, mesmo sob acusações de fraudes e boicotes durante o pleito. Trata-se do primeiro presidente a ser eleito sob acusações internacionais de crime de guerra, perpetuando-se no poder político do país – cargo que ocupou desde 1989 até a polêmica no ano passado. (Mais informações podem ser acessadas aqui.)

Seja como tragédia ou como farsa, o fato é que a história, pois, se repete no Sudão. Omar al-Bashir assumirá suas funções, apesar de o isolamento do país e do próprio presidente persistirem no cenário internacional; e este país africano seguramente continuará vivenciando seus desafios de sempre, suas fraudes, seus dissabores e, enfim, suas características que traduzem o jogo de interesses em voga na situação…

=”http://www.bbc.co.uk/portugueseafrica/news/story/2009/03/090304_sudanbachiricctl.shtml”>


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Das desavenças e bloqueios

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A ausência de grandes guerras no Cone Sul sempre contrastou com desavenças territoriais e conflitos menores. E essas pequenas crises foram recorrentes na história. E muito. Argentina e Brasil viveram um período de grande crise diplomática quando da construção da hidrelétrica binacional de Itaipú, sendo que a maior crítica residia na falta de comunicação e consulta, já que o rio Paraguai também era utilizado pelos argentinos. O próprio Uruguai, foi resultado dessas disputas regionais, um Estado-tampão para evitar disputas entre os governos brasileiro e argentino pela hegemonia da bacia do Prata. Outro exemplo emblemático é o caso de Chile e Argentina, que apenas foram resolver questões de deliminatações territoriais ao final da década de 1990, sendo que na década de 1980 passaram pela maior crise diplomática de todos os tempos (a questão do Canal de Beagle, que quase resultou numa guerra)


Infelizmente esse padrão de desavenças territoriais não acabou com o advento de um novo milênio. Sim, elas tomaram formas um pouco diferentes, mas continuaram. Um caso bem recente que finalmente teve o seu ultimato nos últimos dias (ou assim se espera) é o “caso das papeleras”. Questão que teve raízes em 2003, com a instalção de duas empresas papeleras às margens do rio Uruguai, gerou o maior bafafá entre Argentina e Uruguai. Os argentinos alegavam que os uruguaios não os consultaram e haviam violado o Estatuto do Rio Uruguai (celebrado em 1975). Já os uruguaios eram contra o bloqueio das pontes de acesso entre os dois países por manifestantes locais e ambientalistas. O resultado: prejuízos incalculáveis para as economias locais, aumento da tensão diplomática entre os dois países, dois processos tramitando (um na Corte Internacional de Justiça e outro no Tribunal Arbitral do Mercosul), e o pior, aumento da desconfiança.


A omissão do governo argentino na época (governo de Néstor Kirchner) frente aos protestos locais foi o que mais descontentou o governo uruguaio. A falta de consulta foi o que mais descontentou o governo argentino. Apesar das críticas de ambos os lados, parece que essa odisséia chegou a um fim na última terça-feira, com a decisão final da Corte Internacional de Justiça. O Uruguai foi considerado culpado por romper o tratado de uso do rio, mas poderá manter as empresas. Os questionamentos da população local de que as empresas atrapalham a maior fonte de renda da região, o turismo, e que poluição estava afetando a qualidade do rio, foram completamente ignorados. Por mais surpreendente que possa parecer ambos as partes se disseram satisfeitas, o que não significa que o povo argentino da região de Gualeguaychú esteja. O movimento agora é de tentativa de pacificação da região pelo fim do bloqueio da ponte que até hoje está em voga.


Mas a questão central aqui vai além dos novos ânimos dos dois países pela pacificação. O interessante aqui é que foi necessária a decisão de um tribunal internacional para que o Uruguai cumprisse suas obrigações básicas presentes nos artigos de um tratado sobre o uso conjunto do rio. O grande problema disso é que casos como esse denotam a fraqueza do nosso manco Mercosul, já que os países membros mal conseguem solucionar questões territoriais, isso quando não estão bloqueando produtos dos demais, furando tratados ou tomando atitudes protecionistas uns contra os outros. A falta de comunicação ainda é uma constante nesse curioso processo de integração.


E o pior é que questões como essa podem afetar outros setores de integração. O mais claro exemplo é o possível veto do Uruguai contra Néstor Kirchner como secretário-geral da Unasul nesse ano. Espera-se que tais discursos sejam apenas uma espécie de pressão contra a Argentina para a resolução da questão, e que os fiascos do Mercosul não transbordem para outras instiuições regionais, complicando o estreitamento das relações econômicas na região. Quem sabe um dia esse telefone sem fio que regra as relações entre países sul-americanos não dê lugar a uma linha direta de comunicação em diversas áreas. Bom, pode até ser, mas ao que parece isso não será a tão curto prazo.


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Mais um capítulo da longa história da República Polonesa

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O que se pode dizer de um povo tantas vezes atacado, conquistado e invadido? Parte importante da história do povo polonês foi construída através de um intenso sofrimento, humilhação e persistência. Se há nações que remetem a um mito de fundação nacional, a Polônia não é um deles. Mais que isso, não precisa de tais fábulas. Seu povo foi o motor de sua resistência e genuíno renascimento, tal como sua história vivida e construída com muito sangue e suor.  

Levemos em consideração somente os últimos 100 anos. Neste intervalo, a Polônia viu seu Estado renascer em três oportunidades. Primeiro, a derrota da Alemanha e do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial somada a implicações da Revolução Russa ensejou a oportunidade para o país reconquistar a sua autonomia, oficializada pelo Tratado de Versalhes em 1918. Antes disso, os poloneses tiveram seu território dividido entre alemães, russos e austríacos por décadas. Logo em seqüência, em 1920, os poloneses ainda tiveram que defender seu território contra o exército russo, de Lênin, na Batalha do Vístula.  

Contudo, a vida republicana teve vida curta. Em setembro de 1938, Hitler ordenou a invasão da Polônia em três frentes: norte (pela Prússia), oeste (desde o território alemão) e do sul (pela Eslováquia). A disparidade militar era evidente, os 180 tanques e 420 aviões de guerra da Polônia resistiram por menos de 14 dias aos 2600 tanques e mais de 2000 aviões de guerra alemães. Logo, Varsóvia – capital do país – estava sob o domínio de Hitler. As potências ocidentais, apesar de declaração de guerra à Alemanha, não enviaram tropas para auxiliar os poloneses. Para completar, os soviéticos invadiram o país por sua fronteira leste. Os desdobramentos da guerra são amplamente conhecidos. Com o fim da guerra, deu-se então a segunda fundação do país, sob a alcunha República Popular da Polônia, parte da zona de influência e controle soviético. Libertada dos alemães, os poloneses se viram sob o julgo da União Soviética.

(Palácio da Cultura e Ciência (Varsóvia) – presente de dos soviéticos para os poloneses)

Por fim, o movimento Solidariedade surgiu, comandado por Lech Walesa, baseado na insatisfação popular ante as condições de vida e a supressão imposta pelos soviéticos. Apoiados pela Igreja Católica, na figura do Papa João Paulo II, o Solidariedade passou a promover manifestações e paralisações de trabalhadores ao norte do país. Prontamente o movimento tornou-se nacional, desafiando o monopólio de poder soviético. Houve o recrudescimento do controle sobre os poloneses, porém somente contribuiu para o fortalecimento das intenções dos simpatizantes do Solidariedade, culminando no retorno da Polônia a democracia em 1989. Foi o terceiro renascimento da República da Polônia em menos de um século.  

A história da nação e do seu povo, com ou sem Estado e território, é digna de admiração. Seu território viu passar todos os capítulos da história, desde os cavaleiros medievais, os horrores da guerra, as dominações e invasões estrangeiras, mas também a tão valorizada autonomia e as benesses da integração européia. Após conquistas e reconquistas, livre do julgo de outras nações, a República e a democracia finalmente se consolidavam.

A Polônia foi o único do país da União Européia a apresentar expansão de sua economia em 2009, apesar do crescente desemprego e do parco controle das finanças públicas. Tudo corria dentro do normal, dada a conjuntura econômica atual. Além disso, as eleições presidenciais estavam marcadas para 2010, o presidente Kaczynski – pouco popular – tendia a perder o posto para o atual primeiro-ministro, Donald Tusk. O acidente e a morte de diversas autoridades polonesas (já tratado no blog por Álvaro e Bianca) certamente é uma das ocasiões mais tristes da sofrida história do país, podendo abrir precedentes de instabilidade política. No entanto, essa possibilidade parece remota. Ao contrário, deve fortalecer a união nacional, relembrar a luta do seu povo e promover debates políticos valiosos. Um país que já se reconstruiu a partir de cinzas, luto e sofrimento em várias ocasiões, vai escrever mais um capítulo em sua história e reerguer-se novamente.


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O paradoxo do governo americano

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Que o poder americano é um paradoxo, o cientista político norte-americano, Joseph Nye, já escreveu, mas que o governo americano é um paradoxo, a atual presidência de Obama está escrevendo. O 44º presidente dos Estados Unidos se encontra num raso recipiente político, em que as fronteiras domésticas ainda não se imiscuíram com as internacionais, ou vice-versa. Um delicado jogo, uma insistente contradição.

Recentemente, uma pesquisa divulgada pelo Centro de Pesquisas Pew afirmou que 80% dos cidadãos norte-americanos não confiam no governo – o maior índice alcançado em 50 anos. Segundo esse levantamento, 22% confiam “praticamente sempre” ou “na maioria das vezes” no governo, 25% são favoráveis ao Congresso – menor índice em 25 anos – e 40% consideram a administração de Obama ótima ou boa. Ademais, o clima de frustração contra o governo alcança 56% da população, sendo maior do que o de raiva (21%).

A incerteza econômica, o ambiente político partidarizado, o descontentamento com o Congresso e políticos e a prolongada discussão sobre a reforma da saúde (assunto tratado pelo Álvaro aqui) explicam o resultado da pesquisa. Paradoxalmente, uma pesquisa global, encomendada pelo Serviço Mundial da BBC e conduzida pela GlobeScan/PIPA, indica melhoria da imagem dos Estados Unidos no mundo. O país é visto positivamente por 20 dos 28 países pesquisados, sendo que 46% dos entrevistados consideram que os norte-americanos têm exercido uma influência positiva no mundo, enquanto outros 34% acreditam que a influência é negativa.

Um ambiente interno de desconfiança e um externo, de confiança resguardada. Eis a atual situação dos Estados Unidos. E sob falta de credibilidade, Obama agora tenta aprovar a reforma do sistema financeiro, para mudar aquilo que levou à crise econômica atual. É preciso tomar novas medidas de regulamentação do mercado para impedir que o povo arque com o ônus de suas quebras. Para o colunista Clóvis Rossi, trava-se uma nova guerra: “Casa Branca vs. Wall Street”. Já o mundo, por sua vez, dá um voto de confiança à Obama, em seus esforços capitaneados na luta contra a proliferação nuclear e pela paz no Oriente Médio. Mas resguarda essa confiança enquanto prosseguem os Estados Unidos em sua empreitada contra o terrorismo, suas intervenções no Iraque e Afeganistão e sua saga contra o Irã.

O Irã, por sinal, foi considerado o país com a menor imagem positiva (15%) na pesquisa supramencionada. Todavia, não menos importante, Ahmadinejad fez uma declaração intrigante na semana passada: “Só há um lugar em que ele (Obama) poderia dizer: consegui uma mudança e mudei o contexto mundial. E esse lugar é o Irã.” Não é no Iraque, no Afeganistão e nem na Palestina, o elixir para a glória da política externa dos Estados Unidos seria o Irã. De certa forma, o argumento soa como verdadeiro na medida em que essa república islâmica coloca em xeque os maiores valores norte-americanos: paz e segurança internacionais, democracia e direitos humanos. A questão nuclear seria apenas o começo.

Enfim, neste raso recipiente político, os líqüidos doméstico e internacional ainda não se misturam. Pode ser que a desconfiança interna contagie o cenário mundial; em igual medida, é possível que a confiança externa reanime as expectativas dos norte-americanos com relação ao governo. Aquele que um dia foi escolhido como a esperança, ganhou o Nobel da Paz e se apresenta como o guardião da segurança, enfrenta um momento crucial, fruto do sucesso que também se converte em maldição: o paradoxo Obama. Situação emblemática e que persiste como via média e confusa.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


Libera geral

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Nick Clegg: até ele se surpreendeu.

Na mesma toada de meu último texto, tratemos de eleições novamente. Mas não sem menos comoção. Na terra da rainha (aquela que reina há mais de 20 anos e ninguém reclama) as eleições para Primeiro-Ministro estão animadíssimas com o despontar do fenômeno Nick Clegg.

Explicando-se: na Inglaterra, desde os tempos do liberal bonachão Churchill, o cargo de Primeiro-Ministro é revezado entre os partidos Trabalhista e Conservador. Clegg é o candidato do agora menos expressivo Partido Democrata Liberal, e apesar de concorrer com pesos-pesados como Gordon Brown (Trabalhista) e David Cameron (Conservador), conta com um nível de popularidade elevado como demonstram pesquisas. A razão desse sucesso? Expectativa de mudanças e uma reviravolta no sistema eleitoral britânico: o debate televisionado.

Na última semana ocorreu o primeiro debate político na história da televisão do Reino Unido. A medida surgiu por pressão das emissoras (os debates sempre foram evitados pelos partidos governantes), e segundo os mais tradicionalistas reflete uma “americanização” do processo eleitoral. No Reino Unido o voto também não é obrigatório, mas tradicionalmente não ocorre a “caça aos eleitores”, comum nos EUA, pois boa parte das campanhas se restringia a formação de coalizões e gabinetes, com resultados previsíveis. Mas desta vez, até mesmo os assessores de imagem dos candidatos foram importados do outro lado do Atlântico. A campanha eleitoral passa a exalar um caráter bastante personalista, muito conhecido por este lado dos trópicos, mas de certa maneira inovador na Grã-Bretanha.

Apesar do ambiente meio modorrento e sem muitas réplicas ou gafes, mesmo pelo ineditismo do evento, o debate lidou com muitas questões importantes e fez ressaltar a figura do carismático “azarão” Clegg. O candidato liberal muito provavelmente não conseguirá romper a escrita que vale desde a 2ª Guerra Mundial – há a questão dos diferentes pesos nas regiões eleitorais, como nos EUA. Todavia, disputará por uma parcela significativa dos votos antes destinados aos Trabalhistas (inclusive empenhando-se no incentivo aos votos dos jovens, que são desobrigados), e poderá conseguir prestígio suficiente para forjar uma coalizão futura.

Mais do que a possibilidade de implantar políticas sociais radicais (indo de educação a reforma no Imposto de Renda) e a promessa de expurgar parlamentares corruptos, a preferência por Clegg expõe uma crise de confiança do eleitorado nas políticas desenvolvidas pelos últimos gabinetes, com escândalos e crises institucionais. Com ou sem a vitória dos Liberais, espera-se grandes mudanças na política interna britânica, fundamentadas em uma curiosa e improvável reversão de valores, na qual a “criatura” (o sistema eleitoral norte-americano) passa a influenciar o “criador”.


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Post Especial

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Neste breve post especial, a equipe da Página Internacional agradece a todos os leitores que nos prestigiam com o acesso e tecem comentários que em muito enriquecem as discussões apresentadas.

Todavia, enfrentávamos uma recorrente falha técnica, que já nos fora reportada anteriormente, e que inviabilizava o envio de comentários por muitos leitores. Como podem ter reparado, já constamos em um novo domínio e a questão já foi solucionada – agora, além dos perfis anteriormente disponíveis, é possível publicar comentários com identificação diretamente na janela de postagem, ou até anonimamente, sem necessidade de cadastro em outros tipos de perfis.

Com isso, a equipe reitera os agradecimentos feitos aos leitores e convida a todos que participem das discussões e comentem o que desejarem em relação ao novo sistema.


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Entre cinzas vulcânicas e funerais

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Neste domingo, ocorreu o enterro do presidente da Polônia Lech Kaczynski e de sua esposa, ambos falecidos em decorrência de um desastre aéreo de grandes proporções na Rússia há aproximadamente uma semana. Nesta ocasião, faleceram todas as 96 pessoas que se encontravam no vôo em direção ao memorial de Katyn, na Rússia – local, ironicamente, onde, em 1940, mais de 20 mil polacos foram mortos pela polícia política soviética.

Dentre as pessoas falecidas é necessário destacar que se encontravam importantes governantes, deputados e representantes das forças armadas do país, representando uma perda política considerável para a Polônia. O enterro do presidente polaco neste domingo foi marcado pela presença de mais de 150 mil pessoas, dentre as quais, contudo, não se encontravam os principais líderes mundiais.

Tais líderes se viram impossibilitados de participarem da cerimônia por conta das dificuldades no tráfego aéreo oriundas das cinzas vulcânicas da Islândia (causadas pela erupção do vulcão Eyjafallajokull nos últimos dias). Desta forma, apenas 18 delegações oficiais compareceram com seus principais representantes (sendo que 98 delegações haviam confirmado presença), em que se destaque a ausência, por exemplo, de Barack Obama e Angela Merkel.

O fato, contudo, mais marcante em termos políticos ocorrido neste momento fúnebre foi a presença do presidente russo, Dmitri Medvedev, ao enterro polaco. Deve-se ressaltar que se trata de sua primeira visita à Polônia, sendo que a intenção do presidente polonês com sua fatídica viagem seria homenagear os poloneses mortos na Rússia à época da Segunda Grande Guerra e pressionar Moscou para reconhecer os crimes soviéticos.

O presidente russo, além de marcar presença no funeral do presidente da Polônia, chegou a declarar que “os dois países estão dando um passo em direção ao futuro” (mais informações aqui), indicando a possibilidade de maior aproximação entre estes. Mesmo que postumamente, então, pode-se avaliar que talvez Kaczynski tenha atingido o objetivo de sua viagem.


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Os índios do século XXI

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Começa mais uma reunião da cúpula dos BRICs. Os presidentes de Brasil, Rússia, Índia e China reunem-se em Brasília objetivando … ? Não faz muito tempo, eu mesma defendia que as diferenças entre os quatro atores podiam ser obstáculos, mas não impediam o fortalecimento político do bloco, há muito apontado como a pujança economica global dos próximos anos.

Essa semana, o jornal britânico The Economist afirmou que os BRICs são incapazes de promover mudanças significativas. O Finantial Times já havia, em outra oportunidade, dito o mesmo (“Os BRICs são um acrônimo em busca de um propósito. Na época isso não me pareceu correto. O bloco apresentava primeiros passos em aproximações, formação de agenda comum.

Um ano depois (agora), a declaração conjunta não fugiu muito da anterior. Os governantes de Brasil, Rússia, Índia e China cobraram reformas imediatas no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, de modo a dar mais voz para as nações em desenvolvimento. É praticamente, como aliás em muitas outras conclusões diplomáticas, um ctrl c + ctrl v.

O Brasil tentou articular os demais países em favor de uma solução negociada no caso das sanções ao Irã. Em vão. Nada saiu sobre o assunto. Outro ponto discutido foi a nova relação de colonialismo que a China vem estabelecendo com os demais países, sobretudo na América Latina. Hoje, a China é a terceira maior parceira comercial do continente, com previsão para se tornar a segunda (destronando a UE) dentro de quatro anos. De um lado, uma China ávida por matéria-prima, energia e artigos agrícolas; do outro, uma América Latina que os tem em abundância. No entanto, a assimetria é clara: produtos de base X bens manufaturados. O petróleo representa 94% das vendas do Equador à China, e a soja e seus derivados correspondem a 80% das vendas da Argentina. A China é a maior parceira comercial do Brasil, mas minério de ferro, o petróleo e a soja correspondem a 73% do total exportado.

Os BRICs se colocam como os novos players, e mudança do cenário internacional é o mote do grupo. Como ser porta-voz de transformação se carece diálogo sobre assuntos primordiais? Liderança global com medo de tocar feridas? Pode haver ruptura sem iniciativa?

Os emergentes que me desculpem, mas articulação é fundamental. Todo o resto é garganta.


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