Há um ano...

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A nossa Página Internacional, como todos sabem, já tem mais de um ano. Desde o dia 24 de Janeiro, data de “nascimento” da Página e de nossa primeira postagem, foram exatamente 338 posts.

Foi realmente muita coisa de lá pra cá, ‘caiu’ o mito Obama, a crise veio e já se foi, enfim…

Só que às vezes eu fico pensando: o que teria acontecido exatamente há um ano? O que nós da Página teríamos postado há um ano atrás? E como está esse assunto hoje?

Por isso, veio a idéia de iniciarmos uma seção nova no blog, que será postada aos domingos, justamente para responder a essas perguntas. Assuntos interessantes abordados aqui há um ano estarão de volta.

Então vamos começar!

Infelizmente, não houve postagem exatamente no dia 28 de fevereiro de 2009. Mas, naquela semana, aconteceu muita coisa.

Em meio ao auge da crise internacional, o Ivan Boscariol, que hoje está na Índia, fez sua primeira contribuição ao blog (veja o post aqui) no dia 26/02. O UBS tinha sido obrigado a quebrar o sigilo de cerca de 300 clientes na Suíça. Foi um caso sem precedentes, a primeira vez que um banco suíço havia aberto dados sigilosos.

E as frases do nosso presidente também foram assunto do blog naquela semana. Lula havia dito, no dia 01/03, que o Brasil é o único país do mundo com moral pra lidar com a crise e que ia deixar isso claro na reunião do G20 que aconteceria naquela época. Eu mesmo escrevi um post criticando a frase. O resultado, no entanto, foi que o Brasil saiu mesmo da crise antes de muitos outros países. Um assunto muito polêmico pra este post, mas ainda acho que o Brasil, por mais moral que tenha, não era e nem o único país do mundo com moral, mesmo depois da crise ter passado, pra falar sobre o assunto.



E ainda foi abordado pela primeira vez um assunto que ainda renderia muitos posts: terceiro mandado do presidente colombiano Álvaro Uribe. Num texto muito bom, o Ivan Boscariol comparou o fato ao terceiro mandato do Chávez e ao tratamento dado pela mídia a ambos (veja o post completo aqui).

E o que deu do ‘causo’? Esta semana a justiça colombiana vetou a proposta e o Uribe ficou chupando o dedo. A mídia não se manifestou muito sobre o caso. No entanto, com certeza, se fosse na Venezuela, todos os jornais estariam abarrotados de matérias sobre democracia…

Bom, pessoal, por hoje é só. Este foi nosso primeiro “Há um ano…”. Evidentemente a nova seção vai melhorar ao longo do tempo até que achemos um formato ideal.

E rumo aos próximos anos de Página Internacional!


Categorias: Américas, Economia, Há um ano..., Política e Política Externa


Direitos de Quem?

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A morte do prisioneiro político dissidente, Orlando Zapata, em Cuba causou o maior bafafá pelo mundo. A União Européia diz que quer mais de direitos humanos em tratados comerciais, os Estados Unidos pressionam o governo cubano pelo acontecido e Lula se omite de falar do ocorrido durante seu encontro com Raúl Castro.


Não é muito difícil notar que o assunto é no mínimo polêmico. Até no campo acadêmico das Relações Internacionais questões que tangem a moralidade e valores já foram muito questionadas em um debate que envolveu questões como dicotomia da ação estatal por meio de uma moralidade internacional ou por meio de um realismo maior. Mas a existência de determinados valores que regem a política foi duvidada por alguns estudiosos da área. E o mesmo pode ser dito no referente aos direitos humanos.


Isso porque nem sempre a defesa da dignidade humana e dos direitos do homem, que é essencial para qualquer comunidade, é trazida à tona de forma igual. Em grande medida, o assunto direitos humanos pode ser usado como ferramenta política para desestabilizar alguns governos e reforçar o repúdio por algum líder, a exemplo de Cuba, do Irã ou mesmo da China.


É de suma importância que casos como o cubano estejam na mídia ou mesmo que sejam lamentados pela comunidade internacional. Mas os lamentos não são de igual dose quando se trata de um assassinato conjunto de inocentes no Afeganistão por tropas da Otan ou mesmo quando as tropas da ONU abusam de mulheres ou da população local durante uma missão de paz.


Às vezes cabe-nos perguntarmos de novo de quem são esses tais direitos humanos, para que lembremos o quão desigual é até a questão que trata da igualdade humana. Ô mundinho complicado que vivemos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


Economia doméstica

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Em alguns países, faz parte da grade curricular dos ensinos fundamental e médio uma matéria chamada “economia doméstica”, que no Brasil virou curso superior e abrange desde habilidades culinárias até a capacidade de sair do vermelho no fim do mês com as contas em dia. Ao que parece, seria um aprendizado muito salutar não apenas para indivíduos, mas também para alguns Estados em particular.

Vejam o caso da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. São eventos esportivos diferentes, mas ainda são os dois maiores do mundo e vão exigir somas astronômicas para a adaptação de necessidades estruturais. Se o país vive uma onda de ufanismo pelos eventos esportivos, não pode deixar de ter lucidez quanto aos gastos públicos. O discurso é bem conhecido: as organizações dos eventos vão atrás de patrocínios e parceiros de iniciativa privada nacional ou estrangeira para evitar a ingerência nefasta do Estado, aquele que não pode encostar os dedos na mão invisível do mercado. Mas vejam que, misteriosamente, o paizão sempre acaba tomando parte da farra.

Vejamos as olimpíadas no Rio. O orçamento inicial já é algo inimaginável de ser aplicado em uma só cidade por conta de um único evento, previsto inicialmente em singelos 29 bilhões de reais já está sendo inflado para mais de 33 bilhões apenas em infra estrutura, quase tudo às custas dos governos municipal, estadual e federal. Nada contra as melhorias em si, muito bem vindas por sinal, especialmente as estruturais, mas por que sua implementação será conduzida apenas por conta dos jogos? Por que não antes? Mistério. A questão não é apenas o custo em si, mas o “legado” dos jogos. Fala-se muito em deixar estruturas para o futuro, melhorias do esporte e afins, mas a realidade deixada pelo Pan-2007 é desanimadora, com seus prédios abandonados e dinheiro público que sumiu.

Se isso serve de um pouco de alívio (ou para piorar a história?), não é apenas no Brasil que isso ocorre. As últimas duas olimpíadas padecem do mesmo mal: Atenas-2004, apesar da ajuda da União Européia, e Beijing-2008, com o gigantismo da economia chinesa, tiveram gastos vultosos de seus Estados e produziram notórios elefantes brancos. Os extravagantes estádios chineses abrigam de tudo agora, menos eventos esportivos – os governantes podem optar por simplesmente por tudo abaixo e construir shoppings. A China é assim mesmo. Já a Grécia é um exemplo mais trágico, com 21 das 22 estruturas feitas para o evento consideradas desocupadas em 2009. Lembram da crise fiscal da Grécia? Diz-se que muitas das dívidas feitas pelo governo envolvem os jogos de 2004. Esta Olimpíada gerou prejuízos terríveis e comprometeu quase 7% do PIB do país (14 bilhões de dólares). Só comparando, a China gastou 21 bilhões, mas isto representa apenas 0,6% de seu PIB. Querer abraçar o mundo com as pernas, especialmente quando não se tem recursos, pode ser muito perigoso.

A Copa está prevista para seguir esse roteiro. Orçamento elevado (algo como 17 bilhões de reais, e que já está sendo previsto estourar em 120%), com a participação privada esperada mas o gasto final ficando às custas do governo. As melhorias de infra estrutura, em especial o trem-bala, são por demais custosas, e serão deixados alguns estádios com uso, digamos, limitado. Arenas novíssimas, de padrão internacional, construídas no meio do nada, não poderão ser mantidas por clubes pequenos (mesmo os grandes teriam dificuldades com isso, são todos deficitários). Essa farra com dinheiro público causa até problemas políticos (como na África do Sul). Melhor seria se nem tivesse sido escolhido como sede um país que não tem como arcar com estes gastos (ou o faz sacrificando outras coisas).

Se o Brasil pode aprender algo com os erros dos outros, é que uma política de irresponsabilidade fiscal pode causar problemas sérios e comprometer uma economia. Claro que o caso grego foi atípico, mas o Brasil há pouco tempo não era muito diferente, e não pode planejar gastos tão excêntricos sem uma fiscalização devida e responsabilidade – uma lição de economia doméstica que este não deve esquecer.


Categorias: Brasil, Economia, Polêmica


O Complicado Caso Afegão

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Olha só o que eu tenho aqui!

Existe uma corrente de pensamento na economia que postula a necessidade de se deixar a economia fluir sem interferências estatais. Esse paradigma da teoria econômica afirma que há sempre uma mão invisível controlando o mercado, e explica as crises como simples oscilações, que com o tempo se extinguirão, uma vez que o sistema agirá como um giroscópio para atingir o equilíbrio e a estabilidade.


Agora os Estados Unidos estão constatando em sua experiência no Afeganistão uma espécie de mão invisível também. Só que substituindo alguns elementos centrais, como economia por política interna do país, e interferências estatais por interferências internacionais. Nesse sentido, quanto mais eles têm buscado controlar e resolver as questões internas afegãs mais as coisas parecem fugir ao controle.


A OTAN tem constantemente matado civis, que em teoria, deveriam estar isentos dessa investida contra o Talibã. O presidente afegão, Hamid Karzai, está mais uma vez caminhando para um governo cercado pela corrupção e autoritarismo. O Talibã rejeita todo e qualquer apelo pela paz tanto de organizações internacionais como de autoridades locais.


Assim, no mesmo espaço de tempo que a OTAN e os EUA intensificaram seu combate ao Talibã, Karzai baixou um decreto que lhe garante o completo monopólio sobre a escolha dos membros da Comissão para Queixas Eleitorais (ECC). Esse órgão é de suma importância para as eleições parlamentares que serão realizadas no dia 18 de setembro, pois funciona como ferramenta essencial ao combate à corrupção e era composto anteriormente por alguns representantes internacionais das Nações Unidas. Há uma centralização dessa fiscalização nas mãos do presidente. Assim, o não veto e a não fiscalização dão mais poder para o presidente eleito por um pleito duvidoso.


Vê-se clássica dicotomia soberania – intervenção nas Relações Internacionais vindo à tona nesses eventos. Mas nesse caso, a ocupação do Afeganistão tem ensinado algumas lições. Se há realmente uma mão invisível que garante o equilíbrio na política interna, não se pode dizer com certeza. Mas pode-se dizer que essa intervenção não tem resolvido problemas internos afegãos, e tem até complicado mais a situação. O que tinha o objetivo de fortalecer a democracia no Afeganistão tem dificultado mais os pleitos e intensificado a violência do Talibã.


Os Estados Unidos e a OTAN estão se comprometendo a cada dia mais na região e aos poucos sentem mais as conseqüências de seus interesses geoestratégicos na região. . .


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Cúpulas…

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A América Latina vai ganhar mais um fórum de discussão. Esse organismo vai substituir o Grupo do Rio e a Cúpula da América Latina e o Caribe sobre Integração e Desenvolvimento (CALC). Afinal, quantos âmbitos diplomáticos existem na região?

 

– Organização dos Estados Americanos – OEA 

– Organização do Tratado de Cooperação Amazônica – OCTA 

Associação Latino-Americana de Integração – ALADI 

Mercado Comum do Sul – MERCOSUL 

União de Nações Sul-Americanas – UNASUL 

Foro de Cooperação América Latina – Ásia do Leste – FOCALAL 

Cúpula das Américas 

– Conferência Ibero-Americana 

Grupo do Rio 

Cúpula América do Sul – Países Árabes 

– Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul 

– Comunidade Andina de Nações (CAN) 

Parlatino 

– Cúpula entre Chefes de Estado e de Governo da América Latina e Caribe e da União Européia 

– Comunidade do Caribe (CARICOM) 

 

Ufa! E eu negligenciei várias, sendo que na estrutura de boa parte dessas organizações há sub-comitês que tratam dos mesmos temas. Essa proliferação de órgãos reflete, de um lado, a necessidade da região em negociar com outros blocos, e do outro, a prolixidade de estruturas que, no fim das contas, pouco ou nada resolvem.  

 

O Brasil está presente em todas, como membro pleno (aquele que participa da organização votando), ou observador (que não possui direito a voto). É parte da política externa do governo Lula, que preza pelo multilateralismo e almeja a liderança brasileira na região. Até proposta de moeda comum já foi aclamada no âmbito do MERCOSUL, e nem a união aduaneira ainda existe. 

 

Dessa vez, a idéia é criar um organismo que seja “uma nova OEA sem os EUA”, nas palavras de Morales. A vontade de criar um ambiente uníssono nas muitas vozes latina até levantou apoio às pretensões argentinas nas Malvinas. Quanto acordo e um inimigo comum!  

Apesar do levante contra-hegemônico, que tipo de caráter esse bloco (e outros já existentes) teria? Seria o de desacordo com a ordem vigente pela simples existência? Há real poder de barganha? Ou seria mais um palco para proclames aleatórios e desvio da atenção para problemas externos? Que problemas comuns eles realmente resolvem? 

 


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Racionalizando as emoções

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Até que ponto a racionalidade orienta as ações dos Estados? Há teorias nas Relações Internacionais que apontam que os agentes estatais tomam decisões em função de cálculos estratégicos que levam em conta fatores como o poder que têm em relação a outros agentes. Quando o risco de perder é menor do que o de ganhar, a decisão é tomada.

Esta semana, a Argentina tomou uma decisão controversa. A Grã-Bretanha, detentora da soberania sobre as ilhas Malvinas, anunciou o início da exploração de petróleo na região. Nosso vizinho, então, anunciou que todo navio que passe pelos arredores transportando equipamentos (entre os quais materias para construção de plataformas de exploração de petróleo) deve ter autorização do governo argentino.

Isso significa, na prática, que o governo britânico deve pedir autorização para transportar qualquer coisa para um território que é seu. Mas o que motivou os argentinos a tomarem uma decisão que, do ponto de vista diplomático, é tão incisiva?

A questão das Malvinas para os nossos vizinhos é algo que mexe com algo difícil de quantificar ou racionalizar, quem dirá colocar em cálculos estratégicos: a honra. Quem já visitou a Argentina sabe que a coisa é séria por lá. Hinos, monumentos, histórias, veteranos de guerra e os dizeres “las Malvinas son argentinas” estão por todo lado.

Ver os britânicos agora “roubando” as riquezas argentinas seria uma razão razoável para tomar medidas que impeçam a sensação de perda e que mexam com uma ferida ainda aberta. No entanto, por mais que esse sentimentalismo faça um contraponto a questão da racionalidade dos Estados, há outros fatores bem mais objetivos que nos ajudam a entender nossos vizinhos.

Em primeiro lugar, o motivo que leva os navios britânicos às Malvinas já explica muita coisa: petróleo. Não é preciso falar muito sobre este tema, mas segurança energética é coisa séria para qualquer país. É preciso energia para crescer e, em países frios como a Argentina, até mesmo para sobreviver no inverno. Infelizmente, os argentinos não possuem boa infraestrutura energética e um pouco mais de petróleo sempre vai bem. Aliás, já se sabe de muito tempo que há petróleo nas Malvinas…

Outro fator importante: por conta do potencial de conflitos, há resoluções da ONU que determinam que nenhum dos dois países podem tomar medidas que afetem as ilhas ou a região sem negociação prévia. Portanto, os argentinos parecem ter bons argumentos para retaliarem a exploração de petróleo no local.

Além disso, se recorrermos à história, veremos que uma das principais motivações da tentativa de invasão às Malvinas em 83 foi o “reavivamento” da ditadura num momento de crise aguda. Recorrer ao orgulho nacional em tempos de crise é uma artimanha comum e que muitas vezes dá certo. A população desvia o foco dos problemas e luta com sua vida pela Nação.

E como está a Argentina hoje? Crise econômica, política, insatisfação popular e baixíssima aprovação do governo, que também já não tem mais apoio do congresso. Não é impossível aceitar a idéia de que o estardalhaço todo em torno da exploração do petróleo nas Malvinas tenha algo relacionado coma situação interna do país, tal como em 83 e, evidentemente, em muitíssima menor medida. (Mais informações gerais sobre o tema podem ser acessadas aqui, aqui e aqui.)

Portanto, no episódio recente, é evidente que há questões que não se medem ou calculam, mas que fazem diferença e que são consideradas em qualquer decisão política. Também parece haver coisas bem racionais, como os interesses nada emocionais no petróleo do arquipélago.

O que se constata, muitas vezes, é que fatores emocionais impulsionam, intensificam, justificam e/ou encorajam decisões racionais…


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A Águia e o Dragão

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Dalai-Obama


O que uma grande potência mundial deve fazer frente a crescente influência de um outro país, a ponto de alterar o seu cálculo no momento da tomada de decisão? Essa não é uma pergunta fácil. Mesmo os Estados Unidos que se encontram envoltos nesse problema, não conseguiram trazer uma resposta muito satisfatória. Constantemente, vemos os EUA subestimar a influência chinesa, e literalmente brincar com seus humores.


O exemplo mais atual dessas extripolias foi a reunião do presidente estadunidense, Barack Obama, com o líder espiritual do Tibete, o Dalai-Lama. A China considera o ícone como um terrorista e separatista, e nem é preciso dizer o quanto essa visita inspirou insatisfação da parte chinesa.


Do outro lado, temos a China bloqueando a possibilidade de uma quarta rodada de sanções das Nações Unidas contra o programa nuclear do Irã. Apesar do fechamento do cerco contra o governo iraniano, com até mesmo aliados históricos do país, como Rússia e Itália, ficando com um pé atrás frente a esse desenrolar de eventos, o governo chinês ainda mantém sua oposição forte.


É claro que há interesses econômicos chineses por trás, com todo o prejuízo que uma sanção causaria depois dos mais de 30 bilhões de dólares investidos no setor petroléfero iraniano, aliados aos investimentos que ainda estão por vir. Mas o ponto que faço aqui vai além da questão econômica, refere-se à capacidade de ver novas influências e novas potências no mundo atual.


Um exemplo que talvez deixe tudo mais claro. Assim como a China, o Brasil se colocou contra novas sançsões, mas sendo ele apenas um membro rotativo do Conselho de Segurança não tem outra opção a não ser abarcar novas medidas. Todavia, com os chineses a história é outra, são membros permanentes do Conselho. E parece que os Estados Unidos ainda não vêem isso muito claramente, e continuam a agir de como se nada tivesse se alterado, num cenário em que deveriam estar buscando o apoio do grande dragão do oriente se as sanções lhes são tão importantes.


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Verdades gregas

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Segundo Sófocles, poeta trágico grego (495-406 a.C.), “a verdade é sempre um argumento mais forte”. A busca de algumas verdades envolvendo a Grécia e a União Européia tem se mostrado em alta nos últimos dias. É preciso, então, refletir acerca da atual situação grega no cenário internacional, bem como de sua polêmica no que tange a Zona do Euro (motivo de preocupação ao primeiro-ministro grego, George Papandreou – foto acima).

Com a bolha do setor imobiliário em 2007, sabe-se que o mundo inteiro enfrentou dificuldades financeiras. A “crise global” assolou, portanto, fortemente também a Grécia, país que vem encarando desde então enormes problemas orçamentários. Para se ter idéia, a dívida grega acumulada (que vence nos próximos meses) supera os 16 bilhões de euros e preocupa investidores em geral.

O cerco se aperta em torno da Grécia para sua recuperação econômica, e o apoio do bloco em prol da estabilidade da Zona do Euro tem sido discutido nas últimas semanas. Contudo, a verdade é que o euro está ferido. O grande endividamento da Grécia (e de países como Portugal e Espanha) desafia a força da moeda européia face ao dólar no mundo.

E se não bastasse a complexa situação financeira em que se encontra a Grécia, o New York Times lançou ao mundo essa semana um questionamento sobre a verdade envolvendo a própria entrada do país na Zona do Euro no ano de 2001.

Segundo fontes do jornal, a Goldman Sachs e outros bancos de investimento norte-americanos teriam participado de um esquema de acordos financeiros com o governo grego naquele ano para mascarar o real estado das finanças do país (que seria inadequado às fortes exigências européias para se fazer parte da Zona do Euro). A Grécia nega qualquer tipo de ‘golpe’ neste sentido, porém, o buraco parece ser mais fundo do que parece e mais areia deve ser lançada ao ar nos próximos dias.

No momento, espera-se que a transparência seja o objetivo das partes envolvidas. O mundo, especialmente europeu (com destaque para França e Alemanha), exige explicações sobre o assunto por parte do governo grego e das agências financeiras norte-americanas. Políticos alemães chegam, inclusive, a afirmar que a própria entrada da Grécia na Zona do Euro foi um erro. Será?

Verdadeiro mesmo é o homérico desafio de manter uma moeda única forte e estável em países com soberania reconhecida e características fiscais diferentes, especialmente em tempos de crise financeira e polêmicas fiscais. No caso analisado, os personagens envolvidos são grandes, o cenário complexo e as conseqüências das ações imprevisíveis. Parece até tragédia grega. Aguardemos, pois, seu desfecho.


Categorias: Economia, Europa


Laranjada ucraniana

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As coisas andam animadas na Europa Oriental. Se a crise na Grécia tem chamado a atenção do mundo (o que se esperaria da maior crise do Euro até agora), há uma interessante questão se desenvolvendo na Ucrânia, relativa ao pleito presidencial de 2010. A conturbada eleição remete aos idos de 2004, quando da ocorrência da chamada Revolução Laranja.

Na época, Viktor Yanukovich, candidato da situação e simpatizante da Rússia, foi declarado vencedor, mas as eleições foram consideradas fraudulentas por agências internacionais e contestadas judicialmente por um grupo político de oposição, resultando em uma nova eleição da qual emergiram vitoriosos os “revoltosos”, Viktor Iuschenko como presidente e Yulia Timoschenko como primeira-ministra. Teve ampla participação popular e foi considerada uma vitória prática (contra a corrupção) e moral (contra a influência russa no país) da Ucrânia.

Eis que, em 2010, Iuschenko e Timoschenko já não são tão amigos assim e se tornaram rivais no pleito. À sombra dessa rivalidade, acontece o inesperado: Yanukovich, agora oposição, corre por fora, ressurge das cinzas e acaba vencendo novamente. Preterida com o segundo lugar, novamente Timoschenko contesta os resultados da eleição O interessante é que dessa vez observadores internacionais consideraram a eleição legítima, e mesmo assim o tribunal eleitoral ucraniano suspende o resultado da eleição até a apuração do recurso da candidata.

Há semelhanças entre 2004 e 2010? Além da vitória de Yanukovich, provavelmente não. O resultado das eleições de 2010, consideradas legais, representaria um sentimento de insatisfação com o chamado “movimento laranja”, a onda reformista que liderou a impugnação do resultado de 2004 e que inspirou grande otimismo quanto a melhorias na vida dos ucranianos, mas que pouco fez ou pôde fazer pela melhoria dos indicadores sociais e econômicos da Ucrânia no período. A revolução laranja se tornou um abacaxi.

Então por que a formosa Timoschenko estaria contestando esse resultado? Talvez amparada pela posição de situação, teria o poder subido à cabeça? Houve mesmo irregularidades? Se há algo que leve a essas suspeitas pode ser o fato de que Yanukovich ainda é aliado de Moscou, e entre suas políticas estão a reaproximação com a Rússia (em vez de ir atrás da União Européia, como propunha Timoschenko), incluindo grandes projetos no setor energético, e a implementação definitiva do russo como língua oficial do país. Seriam medidas altamente impopulares, mas que talvez representem essa insatisfação com os rumos que o país tomou após 2004 – algo como, se ruim com influência russa, pior sem ela.

Resta apenas esperar pelo desfecho, mesmo por que não há como se declarar taxativamente que houve as tais irregularidades. Apenas se sabe que, com Yanukovich no comando e a volta de relações amistosas, principalmente no campo energético, quem vai estar sorrindo de orelha a orelha é a Rússia.


Categorias: Política e Política Externa


Mediação brasileira?

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O presidente do Irã, Senhor Mahmoud Ahmadinejad, manifestou o desejo de que o Brasil faça a mediação na crise nuclear que aumentou bastante em intensidade desde que o Irã anunciou que enriquecerá urânio a 20%.

Em primeiro lugar, pessoalmente, acredito que essa ‘proposta’ não vá pra frente, pelo menos não agora. Isso porque não foi sequer uma proposta. Foi algo dito em uma entrevista coletiva, nada oficial.

Além disso, a situação no Irã é bastante complexa, envolve negociações muito grandes com grandes potências. É pouco provável que um país sem histórico recente de mediações nesse nível, sem influência, negócios relevantes, identificação cultural ou qualquer outro laço forte na região simplesmente passe a desempenhar um papel tão importante numa situação tão delicada.

Essa declaração do presidente iraniano, no entanto, permite que tiremos duas conclusões opostas sobre a projeção internacional do Brasil.

Por um lado, mostra que nosso país deixou de ser um player secundário no cenário internacional. Ser lembrado e considerado por uma das partes de um conflito tão sério, delicado e perigoso pode ser um indicativo de que a projeção intencionada pelo governo nos últimos 7 anos deu certo.

No entanto, temos de considerar alguns pontos importantes. O primeiro é que o Irã não tem muitos parceiros, como o Brasil, que abertamente afirmam que o país tem o direito de enriquecer urânio. E ainda mais aqueles que permanecem firmes nesta posição mesmo quando o Irã diz que vai enriquecer o mineral a 20%, muito acima do necessário para produzir energia.

Será que o Irã diz querer o Brasil porque acredita no potencial de resolução de conflitos do nosso governo ou porque quer uma parte que está, digamos, do seu lado? E um parceiro assim é coisa rara pro Irã hoje em dia.

O Brasil, por seu lado, tem muitos interesses no Irã (vejam um post sobre o assunto aqui). O governo vem acenando há bastante tempo seu ‘alinhamento’ com o país persa (O presidente Lula, inclusive, visitará o país no dia 15 de Maio). Até que ponto esse comportamento, ao invés de revelar a posição de um país firme, soberano e preocupado com a segurança internacional, revela uma ‘quase’ potência com um discurso independente, porém irresponsável num caso tão delicado e com potencial de causar tantos conflitos como o do Irã?

Até que ponto o que o presidente do Irã disse evidencia o papel de ‘potência’ do Brasil no mundo?

De que o Brasil não é mais um player secundário não há o que discordar. Mas tenho minhas dúvidas de que a declaração do presidente iraniano a que se refere esta postagem seja reflexo do novo patamar do nosso país no mundo.


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