A Calmaria

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Novos ânimos parecem motivar os líderes mundiais num ambiente pós-crise na economia internacional. Como disse Obama em discurso recente proferido ao Congresso sobre o atual Estado da União, “os líderes agiram em tempo, mas a população ainda sente os efeitos da devastação causada pela recessão”. Essa devastação pode ser entendida em outras palavras como o resultado de o estouro de uma bolha especulativa, que como em 1929, teve resultados catastróficos.

Durante todo esse período de crise, iniciada em 2008, uma pergunta pairava nas mentes dos líderes mundiais: O que fazer?

Cada Estado encontrou sua própria maneira de lidar com a crise. O Brasil a viu como uma marolinha e continuou a incentivar o consumo. As soluções encontradas pelo governo estadunidense foram medidas que envolviam pacotes de ajudas a grandes empresas retirados das reservas do governo. De maneira simplificada, resumia-se à idéia de salvar algumas empresas para salvar a economia, injetando dinheiro nas grandes companias e nos bancos.

Aos poucos o cenário caótico de crise parece desaparecer do nosso horizonte. Alguns especialistas afirmam que essa crise foi curta e de grande intensidade, por isso não há necessidade de maiores regulações na economia. Assim, nesse novo momento da economia mundial a dúvida surge novamente, e com ela uma nova pergunta: E agora? O que fazer (de novo)? Chegamos à calmaria?

Os EUA já tem algumas respostas. Além de outras medidas, Obama exigirá o pagamento dessa ajuda financeira de volta para as reservas do governo por parte das empresas, uma vez que a economia está se estabilizando e elas voltaram a crescer novamente. Esse dinheiro arrecado seria investido em novas formas de abrandar os efeitos da crise, como formas de aumentar os empregos.

No plano internacional, questões como essa vieram à tona com força total na edição 2010 do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde a dicotomia econômica da regulação contra a liberalização emergiu novamente. Mesmo com opiniões variadas, a maioria dos representantes de grandes Estados e economias, como China e a França, mostraram-se dispostos a um comércio mundial mais regulamentado.

Ânimos renovados acompanhados da inação não são o suficiente para que se impeça novas tempestades como essa. A mensagem do presidente brasileiro no evento foi clara: uma reunião não é o suficiente para uma nova regulamentação da economia mundial. Há a necessidade de um comprometimento internacional mútuo para um novo mercado mundial, ou as grande empresas tenderão a mudar de país a país buscando melhores condições. Se cada Estado buscar uma solução interna somente e aproveitar a recuperação da crise à sua maneira, sem olhar para frente, as consequências podem ser catastróficas.

O ditado parece não ser tão correto agora. Depois da tempestade pode não vir a calmaria. O mais certo ao se tratar de Relações Internacionais seria dizer que depois da tempestade, deve-se BUSCAR a calmaria.


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O desenrolar da crise hondurenha

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Depois de uma complexa seqüência de eventos iniciados há aproximadamente oito meses, parece que a crítica situação em Honduras está em vias de se normalizar. [Todos os posts já publicados no blog sobre o assunto podem ser lidos aqui e uma cronologia detalhada dos acontecimentos pode também ser acessada aqui.]

Porfírio Lobo, conservador eleito para liderar politicamente o país ao final do ano passado, tomou posse nesta quarta-feira de seu cargo de presidente (foto). Vale relembrar que alguns países latino-americanos, dentre eles o Brasil, não reconheceram o pleito eleitoral, alegando que este se realizou em clima de golpe de Estado.

Com a saída de Micheletti, presidente interino de Honduras nos últimos meses e protagonista de momentos políticos críticos, e a conseqüente estabilização política do país, acredita-se, então, que é apenas questão de tempo para que Honduras retorne ao cenário internacional. Aliás, o restabelecimento dos vínculos hondurenhos com a comunidade internacional em geral pode ser tido como o principal objetivo do novo governo frente aos variados desafios (políticos e econômicos) existentes.

Manuel Zelaya, o polêmico estadista que originou a crise hondurenha e que esteve refugiado por aproximadamente quatro meses na Embaixada brasileira em Tegucigalpa, obteve um salvo-conduto para seguir com sua família para a República Dominicana (foto). Também lhe foi concedida anistia no que tange as acusações de crimes políticos relacionados às violações constitucionais (anistia esta que, contudo, não contempla as acusações de corrupção; enriquecimento ilícito; e mau uso de verba pública, pelas quais, vale dizer, ainda será julgado).

Ao partir para seu exílio, entretanto, Zelaya prometeu: “Voltaremos, voltaremos”. Alguém duvida de suas intenções?

Segundo sábias palavras de Richard Nixon, “Um homem não está acabado quando ele é derrotado, mas quando desiste”. E o desenrolar da crise hondurenha demonstra que Zelaya definitivamente não é do tipo que desiste…


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Virada de Mesa

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Nos últimos dez anos, os Estados Unidos e a China andam vivenciando uma relação muito peculiar, tanto nos âmbitos político quanto econômico. A história é conhecida: assolado por um capitalismo tão selvagem que nem os que cunharam o termo poderiam imaginar, o gigante asiático emerge com uma economia pujante que galga degraus na economia mundial a taxas de crescimento cavalares. Isso contou de certo modo com a anuência dos EUA, que serviram em um primeiro momento como uma das grandes reservas de mercado para os produtos chineses, e que se aproximaram politicamente com Pequim no período.

Isso em períodos mais brandos. Atualmente, no cenário de crise mundial, a economia chinesa resiste brava e artificialmente às intempéries do mercado, mas vê que os EUA já não são tão imponentes quanto o eram há dez anos, nem tão imprescindíveis economicamente aos planos chineses. Essa percepção pode ser encontada no cenário político, refletida por alguns fatos recentes, como a visita do presidente Obama ao país. Se em outros tempos a representação norte-americana era amplamente respeitada e alcançava sucessos em relação a acordos e tratados, Obama sofreu com gafes, imprevistos e uma aparente insolência por parte dos chineses, como na censura indireta ao seu pronunciamento sobre direitos humanos, alem de não conseguir nenhum tipo de acordo relevante. Mais do que características próprias do temperamento do governante norte-americano, ainda incapaz de tornar realidade muitas das iniciativas que lhe valeram o Nobel, o desenrolar da visita pode ser apenas um sinal de como as relações entre os países podem vir a se deteriorar. Em pouco tempo, a China se tornará a segunda maior economia do mundo, e pode vir a perder de vez o respeito (ou temor?) pelo único país à sua frente, com uma economia até agora forte e possivelmente menos dependente dos EUA. Essa intransigência chegou a níveis ainda mais alarmantes como demonstrado durante a COP-15 – se a China não dá mais a mínima para os EUA, que dirá do resto do mundo.

Isso apenas se pensarmos no aspecto econômico. Um fator determinante desta questão está em discussão, na consolidação de um tratado militar com Taiwan, originário do período Bush. Apesar de ser um acordo relativamente humilde, e depenado de itens importantes como aviões de caça, é suficiente para fazer ressurgir uma questão delicada para as partes. O tema da província rebelde sempre foi uma farpa nas relações entre China e EUA, mas alcançou um grau tão impressionante de gravidade que, se o acordo de fornecimento de material bélico à ilha vier a ser concretizado, aventa-se até o rompimento de relações por parte dos chineses. (diz-se ser “inevitável” o rompimento de relações militares pelo menos). Se antes as ameaças de rompimento ficavam restritas ao campo das bravatas e das impossibilidades, há desta vez a inédita e real chance de que os chineses estejam mesmo dispostos a aplicar este “trunfo”, muito arriscado em um cenário mundial instável.

A bolha chinesa agüenta a inflação (que virá, mais cedo ou mais tarde) e consegue manter o status de maior credora dos EUA? Rompimento de relações diplomáticas? Ainda é cedo para especular sobre eventos tão extremos, mas há fortes indícios de que atitudes mais ríspidas podem vir a desgastar ainda mais as relações entre os gigantes, um em decadência econômica e com sua imagem desgastada, outro alçando vôo como um foguete e disposto a virar a mesa do tabuleiro econômico e político mundial.


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Ordo ab chao

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A expressão em latim “Ordo ab chao”, que quer dizer “ordem no caos”, é um dos lemas mais famosos do Rito Escocês Antigo e Aceito da maçonaria e é perfeitamente adaptável a situação corrente no Haiti. Não é novidade para ninguém a devastação do país em decorrência de um terremoto no último dia 12 de janeiro, que ceifou a vida de aproximadamente 150 mil pessoas. Muito também se falou sobre as perdas humanas significativas do nosso país: Zilda Arns, Luiz Carlos da Costa e 18 militares. Agora, gira o turbilhão haitiano de dúvidas e incertezas, levanta-se o caos dos escombros de uma deturpada ordem e à procura desta enveredam-se os esforços de um mundo que evoca a solidariedade.

No primeiro pedaço de terra da América onde se hasteou o valor da liberdade, hoje padecem crianças sem pais, pais sem filhos, mulheres sem marido e sonhos sem vida. Avança o fantasma da fome, da miséria, da destruição e da desolação, transformando o glorioso passado de escravos que lançaram a profecia de um continente livre num retrato esquecido da história. Desde então, a opressão e a instabilidade se tornaram as companheiras diletas da nação. A assombrosa presença norte-americana e o mito da esperança democrática, crônicas de uma morte anunciada, prenunciavam o caos sobre a ordem. E veio a MINUSTAH… E veio o terremoto. E agora “Nós não estamos recomeçando do zero. Estamos abaixo do zero”, segundo as palavras de Edmond Mulet, representante da ONU do Haiti, em entrevista à Folha de São Paulo ontem.

Mais do que recomeçar abaixo de zero, a crise humanitária no Haiti engendrou discussões de todos os tipos e todos os gostos. Hoje falamos de uma solidariedade que o tempo venceu. Evocamos valores humanos de uma sociedade cosmopolita kantiana num sistema internacional, cujas ruínas do templo de Westphalia ainda suscitam a desconfiança e a destruição, sob a insígnia da soberania. Uma solidariedade negligenciada em Copenhague – quando supostamente não precisávamos de acordo definitivo sobre as mudanças climáticas – e desvirtuada pela sede de liderança. Quem deve reconduzir o processo de reconstrução do Haiti? Um novo Plano Marshall? Qual o caráter das missões de paz? Quem o define?

Ah, é claro, nossas respostas. O premiê canadense, Stephen Harper, anfitrião da pré-conferência sobre a reconstrução do Haiti, parece ser mais otimista, acreditando que o processo durará 10 anos. Hillary Clinton defende que a liderança da reconstrução deve permenacer sob o controle do governo haitiano. Nosso chanceler, Celso Amorim, advoga em prol do protagonismo brasileiro na América Latina e Caribe e argumenta a favor da manutenção do mandato da MINUSTAH como uma força de paz garantidora da segurança, sem participação na reconstrução, o que mudaria seu caráter e aumentaria seu grau de intervenção. Amorim falou até sobre um suposto “Plano Lula”, em alusão ao Plano Marshall. Ontem, o Congresso Nacional aprovou também o envio imediato de mais 900 militares para o Haiti e outros 400, se for preciso.

E no jogo de vaidades da comunidade mundial não poderia faltar a questão: as nações em desenvolvimento mandam os seus soldados para o Haiti e eles devem cumprir os objetivos que são definidos pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isto enceraria no mote: os ricos mandam, os pobres obedecem. Todavia, não é tão simplório. Os pobres querem irromper o silêncio e a inércia, querem expressão e grandeza.

Há um caos no Haiti e outro na anárquica comunidade internacional. Não se sabe ao certo o que é maior: a solidariedade ou o poder e seu gêmeo siamês, o prestígio. Atuar no Haiti, num rincão do planeta Terra, só faz sentido no entorno deste Taiji Tu (ou Ying e Yang) contemporâneo das relações internacionais, em que toda solidariedade traz consigo um resquício de poder e todo poder, um resquício de solidariedade. Nesta luta constante, o equilíbrio é mais frágil do que o religioso. Encaminha-se para o caos, que clama pela ordem. Ordo ab chao.

É hora de dizermos se estamos à altura dos desafios que nos conclamaram os povos do mundo, parafraseando Kofi Annan em uma de suas delcarações conclamando a solidariedade mundial.


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Extripolias Embaixo da Terra

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Os muros são muito bem conhecidos na história da humanidade. Podem ser tanto muros ideológicos quanto concretos. Quando os recursos diplomáticos se tornam escassos, ou quando se vê em necessidade imediata de defesa, apela-se para o bom e velho muro, de concreto ou de aço, o que for mais eficaz para as circunstâncias.

Na antiga China, a Grande Muralha foi construída por várias dinastias para manter o império seguro diante das constantes invasões de povos do norte. Na Alemanha pós-guerra o Muro de Berlim foi erguido para separar duas Alemanhas ideologicamente diferentes e impedir a migração da Alemanha Oriental (RDA) para a Alemanha Ocidental (RFA). Na Cisjordânia, um muro para impedir migrações de palestinos e a passagem de terroristas para região está quase completo.

E não satisfeitos com um muro no Oriente Médio, não muito bem sucedido, a conturbada região de Gaza parece conquistar um novo: o projeto de muralha que se extende a 30 metros no subterrâneo do território egípicia na região de Rafah, fronteira com Gaza. O objetivo central seria evitar o tráfico de armas e a passagem de terroristas pelos túneis subterrâneos ligando esses dois territórios, como anunciado pelo presidente do Egito, Mohamed Hosni Mubarak.

Mas dessa vez parece que o buraco é mais embaixo. Literalmente. Os túneis subterrâneos são praticamente um negócio para os locais que se beneficiam do transporte ilegal de pessoas e suprimentos em tempos em que o Egito, em seu bloqueio à Faixa de Gaza, tenta fechar o cerco contra a região. A grande jogada desse muro é concretizar mais o distanciamento entre a Palestina, com grande influência do Hamas, e o Egito.

Agora, mais ainda, vê-se a concretização de uma barreira que já existia, e que agora parece ser mais intensa. A pergunta que não quer calar é se ele realmente impedirá as imigrações ilegais e se será suficiente para resolver uma questão dessa magnitude. Infelizmente não. O negócio dos tunéis tenderá à continuidade. E mais ainda, os conflitos na região não cessarão. Apesar das claras intenções de preservar a soberania de seu território, uma barreira física não é suficiente para resolver problemas sociais de maior magnitude.

A cada chapa de aço colocada, a região como um todo vê-se mais distante de qualquer solução diplomática. Uma barreira que torna real um muro há muito existente nada muda na região. Os países do Oriente Médio se recusam a buscar uma solução diplomática de benefício mútuo (se é que há uma. . .), e acabam por erguer mais barreiras que distanciam cada vez mais os vizinhos, tanto do ponto de vista ideológico, quanto do ponto de vista concreto. Muros aqui, barreiras acolá, ao final das contas apenas vemos mais extripolias que contribuem para a inquietude da Faixa de Gaza.


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A Angola e suas continuidades

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Angola: país marcado, certamente, por continuidades notáveis. Historicamente, o nome “Angola” é derivado do termo bantu N’gola, expressão que se refere ao título do governante da região durante o século XVI, período de colonização portuguesa na localidade. Como continuidade destacada, tem-se, pois, a centralidade da figura do governante no país. Mesmo através dos anos e das evoluções e mudanças pelas quais a Angola passou após sua independência, pode-se visualizar ainda nos dias atuais claras manobras para a ampliação do poder presidencial no país.

Foi aprovada nesta quinta-feira a primeira Constituição angolana desde a independência do país em 1975, mas o que deveria representar o auge da democracia local na verdade demonstra real ênfase na figura do presidente José Eduardo dos Santos (foto), que se encontra no poder desde 1979. Em sessão boicotada pela majoritária oposição a seu partido, a partir do novo texto aprovado tem-se a delimitação de aspectos importantes. Podem-se destacar: o fato de a escolha do presidente dever acontecer por meio do partido vencedor das eleições parlamentares; a determinação de que todas as terras pertencem ao Estado, responsável pela otimização de seu uso; dentre as demais características que tornam a influência presidencial cada vez mais presente na vida angolana. (Maiores informações a respeito das questões constitucionais em Angola aqui.)

Elevado grau de continuidade também pode ser percebido no tácito meio de promover importantes decisões políticas em épocas estratégicas, tais como o contexto da atual (e chamativa) “Copa Africana de Nações”, que está sendo disputada em terras angolanas. Continuidade lamentável, mas freqüentemente percebida também em outros países de Língua Portuguesa…

Resta, portanto, ressaltar a necessária continuidade da luta popular de Angola por representação e desenvolvimento, tal como podemos perceber pelos versos do poeta angolano Manuel Guedes dos Santos Lima (extraídos do poema “Exprimo-me pelo silêncio”):

“Exprimo-me pelo silêncio
em torno de mim decretado.
Cumpro pena de ausência
por insubmissão
e reincidência.
Vivo no segredo sintonizado de quem me sabe.
Sou
na negação com que me afirmam.
Reconhecem-me omitindo-me,
Logo existo.
Por isso resisto.”

Que esse espírito responsável de mudança possa iluminar o árduo caminho que, por vezes, distancia as intenções democráticas e a atuação política real no cenário internacional em que vivemos.


Categorias: África


Direção Política

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Em meu primeiro post, foram discutidas as razões por trás do FX-2 e suas implicações no cenário sul-americano, na iminência da possível divulgação da escolha em 2009. Após alguns meses e divesos acontecimentos, damos prosseguimento à análise com o foco no desenvolvimento do projeto em si.

O FX-2 (histórico aqui) teve grande repercussão na mídia após o 7 de setembro, quando houve a divulgação do início das negociações com os frnaceses, antes da finalização do relatório técnico da Gerência do Projeto. Isso agitou o Congresso, fez com que as outras empresas se sentissem prejudicadas e alterassem suas ofertas, eviassem representantes para audiências públicas e pôs o Miistério da Defesa em uma situação constrangedora. Com todos esses percalços, o Projeto foi sendo procrastinado e a data de entrega do relatório final de escolha, prevista para o dia 23 de outubro de 2009, data simbólica do Dia do Aviador, acabou ficando para janeiro desse ano.

Mesmo assim, com certa estranheza, no fato do resultado final ter vazado e inidcado a preferência da FAB pelo aparato sueco, além de deixar o francês em último lugar, ao que o resultado final foi divulgado coincidentemente omitindo a ordem de preferência.

Ficam alguns questionamentos desses fatos. O mais contundente é que se as negociações políticas ocorreram, por que da realização do Projeto em si (que poderia ser visto como um grande desperdício de tempo e dinheiro)? Isso ocorreu pois era um projeto anterior e atrelado à Estratégia Nacional de Defesa (END). Então, por que delegar a escolha à FAB se a decisão final ficaria nas mãos do governo?

A isso podemos chamar de “direção política” das Forças Armadas. Sob a orientação da END, busca-se entre outras coisas o fortalecimento da indústria de defesa nacional e o estabelecimento de uma política de defesa em longo prazo. Isso incorre na consolidação do Ministério da Defesa, um órgão civil e relativamente recente, que “capenga” pela falta de comunicação com militares e de uma política conjunta. Ademais, desde a Constituição de 88, o presidente é o chefe das Forças Armadas, logo, as decisões relativas às mesmas, incluindo renovação de esquadrilhas e compras de material bélico tem de passar por sua anuência. Os militares teriam o know-how e conhecimento das necessidades, mas a palavra final recai sobre o Executivo, que define a política do país. O apoio a uma vaga permanente no Conselho de Segurança parece valer o preço salgado dos Rafales.

Isso não ocorre apenas no Brasil. Foi citado no primeiro post o caso da Índia, que está por adquirir mais de 120 caças para ocupar seus novos porta-aviões em um dos maiores negócios de Defesa no mundo e que afetará consideravelmente o mercado da aviação militar mundial, com cifras que chegam a 10 bilhões de dólares, bem como a balança de poderes na região. A grande parceira da India na área tem sido a Rússia, que fornece aeroplanos à marinha indiana e desenvolve em conjunto um projeto de caça de 5ª geração, o PAK-FA (ao qual curiosamente o Brasil foi convidado a participar, mas ainda é um projeto muito nebuloso). Logo, em um primeiro momento era de se esperar que os russos estivessem no páreo com seus MIG-35, mas a divulgação das empresas selecionadas para concorrer, em dezembro de 2009, surpreendeu a mídia especializada, ao encaminhar as propostas a duas empresas norte-americanas (amplamente favoritas) e aos franceses (sempre eles, tentando empurrar seus brinquedinhos caros para o terceiro mundo).

No caso, pode-se vislumbrar que há algo parecido com o caso brasileiro de “direção política” das forças armadas: é de se supor que os militares indianos estejam familiarizados com o equipamento russo e o prefiram (sem entrar nos méritos técnicos), mas pesa nesse caso o volume da compra e a notável intenção norte-americana de fortalecer sua presença na região, fomentando boas relações e forjando uma vinculação estratégica com um pólo de influência. Por outro lado, a Índia só tem a ganhar com essa compra aos norte-americanos, adquirindo material de qualidade, e quem sabe uma mãozinha na busca pelo lugar no CS.

Como visto, a ingerência do Governo nos negócios antes restritos às Forças Armadas não é algo restrito ao Brasil. Portanto, não podemos pensar na estratégia de Lula como um capricho ou precipitação, mas o bom e velho “manda quem pode, obedece quem tem juízo”…


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Defesa, Paz, Segurança


Novos colaboradores

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Caros leitores do blog Página Internacional, hoje é dia de publicarmos um post pra lá de especial. É com imensa satisfação que gostaríamos de anunciar os novos colaboradores deste singelo espaço, criado recentemente e já tão bem-sucedido. Nossos novos companheiros são: Álvaro Panazzolo Neto, Bianca Fadel e Raphael Camargo Lima, alunos do curso de Relações Internacionais da Unesp-Franca. Essas três fantásticas pessoas não têm medido esforços para nos ajudar a manter a qualidade do blog, com posts extremamente bem elaborados e atualíssimos, procurando difundir cada vez mais as Relações Internacionais, uma área do conhecimento ainda nova e que vem buscando se consolidar, pelos domínios da internet.

Todos nós, colaboradores mais antigos, recebemos os novos colaboradores de braços abertos e os saudamos com um cordial voto de boas-vindas. Esperamos, sinceramente, que o blog Página Internacional os ajude a crescer acadêmica e pessoalmente, assim como ocorreu conosco. Esperamos também que vocês, novatos já bastante experientes – o que se comprova pelo teor analítico de seus posts e seus respectivos desempenhos na universidade -, nunca tenham medo de navegar pelas turbulentas águas das Relações Internacionais contemporâneas, como definiu Antonio Jorge Ramalho da Rocha.

Indubitavelmente, sentimo-nos muito honrados por contar com cada um de vocês, novos colaboradores. O Álvaro, o mais antigo desta turma, com a sua pontualidade britânica com relação a datas e o seu sintetismo deveras preciso. A Bianca, o nosso querido “HD Humano”, com a sua simpatia ímpar acompanhada de uma capacidade intelectual indescritível. E o Raphael, o mais novo dessa turma, com o seu espírito aventureiro e a sua determinação insaciável. Todos vocês, com todos os méritos, agora fazem parte da Página Internacional.

Álvaro, Bianca e Raphael, deixamos aqui o nosso muito obrigado e o desejo de que o sucesso seja o fiel companheiro de suas jornadas no blog.

*

Apenas mais um relato: agora mudou o status de muitos membros do blog. Escrevem graduados em Relações Internacionais pela Unesp-Franca, com o grau devidamente colado no último dia 15 de janeiro. São eles: Alcir, Álvaro, Andrea, Adriana, Giovanni, Ivan, Luís Felipe e Rafael. Parabéns a todos vocês!


Categorias: Post Especial


Do blog dos pesquisadores da UNICAMP

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A Adriana Suzart, nossa colaboradora, enviou um link interessante com um texto do Blog dos Pesquisadores da UNICAMP publicado no dia 16 de janeiro deste ano. O texto da atuação brasileira no Haiti e trata de algo (lamentável) ocorrido com os pesquisadores da UNICAMP que estão por lá.

Vale a pena dar uma lida.

Nossa embaixatriz: notas sobre a atuação diplomática

Após conversar com nossos colegas do Viva Rio, diante da chegada de novos quadros desta organização em Porto Príncipe e em função de uma situação volátil, que muda a cada instante do que diz respeito ao acesso à água e comida, optamos por pedir abrigo à embaixada do Brasil. Diga-se de passagem, há dias amigos e parentes do Brasil insistem em que deveríamos recorrer à embaixada. Afinal, somos um grupo de brasileiros que viu seu trabalho no Haiti interrompido pela violência do terremoto, e estamos na expectativa do que fazer: ficamos e ajudamos? Podemos ajudar? Ou devemos partir para o Brasil em meio uma situação incerta e que se agrava todos os dias? E se decidimos partir, como partir? Seguindo a orientação de nossos colegas do Viva Rio, nos preparamos para seguir para a embaixada hoje pela manhã. Acordamos às 6 da manhã, após mais uma noite dormindo no jardim, e nos preparamos para esperar o veículo que viria nos buscar.

Ela irrompeu o portão do Viva Rio por volta das 8:30 da manhã e pediu que nos chamassem. Trazia um vestido curto algo entre o roxo e o verde, quase um furta cor, apresentava uma expressão rígida e abatida. Na certa estava tocada pelos últimos eventos. Os cabelos devidamente penteados pra trás, uma maquiagem excessiva e um colar de ouro ostensivo. Enquanto permanecíamos na sombra, ela se manteve no sol. Aos poucos, enquanto sua proeminente testa e suas bochechas se enchiam de suor, ela discorreu sobre grandes temas, aliando ciência, religião e política de maneira única. Em poucos minutos, a embaixatriz do Brasil no Haiti explicou por que um rabino, as placas tectônicas, seu marido, os mortos e o Brasil eram interdependentes.

Ela não nos perguntou nada. Não sabia quem éramos, ou o que fazíamos aqui. Quando soube que de um grupo da Unicamp se tratava, não titubeou: “A EMBAIXADA NÃO TEM NENHUM COMPROMISSO COM A UNICAMP. O EMBAIXADOR PROIBIU QUE FOSSEM HOSPEDADOS EM NOSSAS DEPENDÊNCIAS. ELE É O EMBAIXADOR, ELE MANDA; SE HOSPEDAMOS VOCÊS TEMOS QUE HOSPEDAR TODOS”.

E seguiu, com pérolas: “A EMBAIXADA NÃO VAI EVACUAR NINGUÉM PORQUE EU NÃO VOU SAIR DAQUI. VOCÊS DEVEM VOLTAR PARA O BRASIL COMO VIERAM. VOCÊS SABEM ONDE FICA O AEROPORTO, COMPREM PASSAGEM; VOCÊS SABEM ONDE FICA A RODOVIÁRIA, DE LÁ SAEM ÔNIBUS PARA A REPÚBLICA DOMINICANA”. E prosseguiu com a máxima: “NÃO TEMOS NENHUMA RESPONSABILIDADE SOBRE VOCÊS. VOCÊS ESTAVAM NO LUGAR ERRADO NA HORA ERRADA, SINTO MUITO”.

Poderíamos reproduzir detalhes de suas observações sobre a situação atual do Haiti ou sobre a política haitiana. Não o fazemos porque, com franqueza, sentimos vergonha alheia. Seu auto-centramento e sua falta de sensibilidade quanto aos impasses vividos pelos haitianos não fizeram nada além de nos constranger: ela pode ocupar a posição que ocupa?

Nos restringiremos àqueles elementos que nos afetam diretamente: pode uma embaixatriz simplesmente dizer “VOCÊS ESTÃO PROIBIDOS DE SE HOSPEDAR NA EMBAIXADA”? Ela não nos perguntou nada, não sabe da nossa situação, nada. Suponhamos que tivéssemos passagens de avião saindo de Porto Príncipe. Como chegar ao aeroporto? Não há transporte, não há combustível. Porto Príncipe é uma cidade grande e destruída. A “rodoviária”, na verdade, não existe, é a garagem da Caribe Tours, de onde saem os ônibus diários para Santo Domingo, e fica em Pétionville. Como chegar a Pétionville? Há lugares no ônibus? Os telefones estão colapsados. Pode o Brasil ter como representante neste país alguém que manifesta tamanho descaso por seus concidadãos abdicando das obrigações mínimas de uma embaixada em qualquer lugar do mundo? O que o Haiti pode esperar de embaixador e embaixatriz que atuam desta maneira? O que aconteceu conosco não tem a menor importância. Só é revelador do lugar que o Haiti parece realmente ocupar no universo de nossas relações internacionais.

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Devido ao fato de termos postado este texto hoje pela manha alguns minutos antes de viajarmos, pois nao tivemos acesso a internet ontem (dia 15/01), esquecemos de colocar nossas assinaturas. Assinam este texto:

Omar Ribeiro Thomaz, Otavio Calegari Jorge, Diego Bertazzoli, Werner Garbers, Joanna da Hora, Cris Bierrembach, Daniel Santos, Rodrigo C. Bulamah, Marcos Rosa


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa