quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2009: Uma retrospectiva de mistérios

Há algum tempo, o poeta português Fernando Pessoa escreveu: “Todas as nações são mistérios. Cada uma é o mundo todo a sós.” 2009 foi um ano de mistérios, de nações e ações misteriosas, de tentativas de se produzir um mundo inteiro dentro das próprias fronteiras ou de procurar criar um mundo a partir do território nacional.

No início do ano, tomou posse o 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com um discurso que conclamou a aproximação entre todos os povos, sob a liderança (e amizade) norte-americana. Neste ano, deveríamos escolher “a esperança em vez do medo”, segundo Obama. Nós escolhemos? Guantánamo deveria ser fechada, Afeganistão e Iraque deixados, um mundo sem armas nucleares criado, o meio ambiente preservado, o parte islâmica do globo agregada. Tudo isto em prol da paz. Do Prêmio Nobel da Paz, concedido pelas intenções, não pelas ações. Os Estados Unidos quiseram um mundo dentro de si mesmos.

Outros países se tornaram um mundo. No Sudão, o presidente Omar Hassan Ahmad al-Bassir foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional por causa do genocídio contra o seu próprio povo. Fato similar ocorreu na China, na província de Xinjiang, contra a minoria dos uigures (muçulmanos turcófonos), mas ninguém foi condenado. Nem mesmo o governo israelense foi condenado pela matança indiscriminada dos palestinos. Na Venezuela, Chávez lançou o gérmen para a perpetuação no poder, iniciativa também acatada por Uribe, na Colômbia. Irã e Coréia do Norte lançaram uma infindável empreitada nuclear. O Irã se converteu num barril de pólvora por causa das manifestações populares. Paquistão, Iraque e Afeganistão viveram sob a iminência de atentados violentos. G-8 e G-20 se reuniram para conter a crise econômica mundial. Cuba retornou ao imaginário político das Américas. E agora nós também conhecemos Honduras.

E os acontecimentos não param por aí. A ameaça terrorista está mais ameaçadora no mundo. A queda do Muro de Berlim completou 20 anos e ainda não abandonamos a idéia de fragmentar os povos, por mais que conclamemos a união de todos. Os países mais poderosos do mundo, diga-se aqueles que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU, reuniram-se diversas vezes para decretarem sanções contra os países aventureiros na questão nuclear, a qual ameaçava a própria sobrevivência do mundo, mas esqueceram que o apocalipse provém do meio ambiente. A Cúpula de Copenhague foi um fiasco.

E o Brasil? Eu, particularmente, arrisco-me a dizer que este foi um ano chave para o país convalidar o seu protagonismo crescente nas relações internacionais. Mas, é claro, este processo não foi tão simples e tampouco marcado só por avanços. Caminhamos ainda embalados pelo retrato da canção “Querelas do Brasil”: um Brasil que não se conhece, que não se merece e que mata a si próprio. Da epidemia da corrupção a uma sociedade inercial, dos encantos pelo estrangeiro a um consumo apátrida, das desigualdades sociais à disseminação da violência e da criminalidade. Com tantos problemas e dificuldades, por que pensarmos no externo? No Brasil “lá fora”?

Conquistar uma imagem positiva “lá fora” deve encorajar a conquista da mesma “aqui dentro”. Ao mesmo tempo, é necessário viabilizar as nossas potencialidades internas de acordo com as possibilidades externas. “Lá fora”, nosso governo e nossa diplomacia tiveram que atuar em eventos e casos sensíveis: Cesare Battisti e Sean Goldman, o acordo militar entre Estados Unidos e Colômbia, a mediação da violência do Oriente Médio e a interminável crise política de Honduras. Do ponto de vista econômico, depositamos uma enorme expectativa no pré-sal. Na área da defesa, estamos apressando os passos e correndo os riscos de “país grande”, segundo Nelson Jobim. Nossa missão de paz no Haiti completou cinco anos. Obama já disse que o nosso presidente é “o cara” e, de fato, Lula figura em diversas pesquisas como um dos líderes mais popular do mundo. Reforçamos o nosso compromisso para com o meio ambiente. Enfim, o Brasil está no mundo e espero que esteja para ficar!

Somos um país grande, do Oiapoque ao Arroio-Chuí, e a grandeza deve ser o nosso destino, aqui dentro e lá fora. É o que nos fará um povo grandioso. É o Brasil que conhece a si próprio e que o brasileiro merece. Que venha 2010!

As nações são mistérios, e as ações mais misteriosas. Que mundo fizemos dentro e fora dos territórios nacionais? Dentro e fora de nós mesmos? Decerto, poderíamos encerrar com o brilhantismo de Shakespeare, “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que a vossa vã filosofia possa imaginar.”

Por fim, desejo a todos vocês um Feliz Ano Novo, repleto de paz, saúde, amor e harmonia. Que todos possam alcançar muitas realizações em 2009. Um grande abraço!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Post do Leitor - Bianca Fadel

[Hoje temos uma estréia especial neste blog. Há muito tempo, a aluna do 3º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Bianca Fadel, nossa fiel leitora, disse que nos enviaria um post. Agora, o post chegou. Ela faz uma análise da questão étnica na China. Vale a pena conferir. Ótima leitura a todos!]

Etnicidade nas relações internacionais: o caso da China

Na contemporaneidade, a importância da reflexão acerca da(s) etnicidade(s) se mostra crescente, na medida em que se fortalecem os processos de interdependência característicos de uma era de globalização acentuada. A análise dos recentes conflitos relativos ao grupo étnico dos uigures na China pode ser utilizada como bom exemplo para o aprofundamento dos aspectos relativos a tal discussão no âmbito das Relações Internacionais.

No último dia 24 de dezembro, véspera de Natal, outros 5 representantes da etnia uigur receberam uma sentença nada festiva. Estes se juntaram aos 22 uigures que foram anteriormente condenados à pena de morte pelos conflitos étnicos ocorridos em julho deste ano – que deixaram aproximadamente 200 mortos e milhares de feridos na região noroeste da China (maiores informações aqui). Para compreender a situação, é importante uma breve contextualização a respeito do tema.

A província de Xinjiang é a maior da China, sendo considerada estratégica por suas características naturais de forte impacto econômico – a região concentra 15% das reservas nacionais de petróleo e 20% de suas reservas de gás (maiores informações aqui). Esta província foi incorporada à China no século XIX, comportando grande quantidade de uigures, povo de vinculação muçulmana e língua turca. Historicamente, o ‘medo chinês’ dos uigures é antigo, sendo que, em tempos mais recentes, a China possui como principal temor que o crescimento do movimento separatista uigur venha a incentivar conflitos entre a etnia dominante no país (chamada han) e as variadas minorias existentes na localidade (maiores informações aqui).

Em meados de julho deste ano, protestos com motivação cultural envolvendo a etnia uigur provocaram inúmeros casos de mortes e ferimentos no país. Os protestos ocorreram em resposta à morte por linchamento de dois uigures no começo do mesmo mês, sendo que estes criticam a discriminação por parte da etnia han, dominante no país. É preciso ressaltar as grandes diferenças entre os dois povos, o que acentua as animosidades.

Vale apontar, ainda, que a posição norte-americana, antigamente caracterizada por oposição aos abusos de direitos humanos em Xinjiang, modificou-se notadamente após os atentados de 11 de setembro, com vistas ao combate aos fundamentalistas islâmicos na desenfreada Guerra contra o Terror.

Considerando que cada uma das quatro pequenas estrelas da bandeira da China representa suas províncias autônomas, dentre as quais se encontra a de Xinjiang, é preciso refletir acerca dos efeitos da globalização na acentuação dos conflitos étnicos no país. Neste sentido, é interessante o posicionamento de Rebiya Kadeer, exilada uigur nos Estados Unidos e uma das principais vozes da etnia no mundo, a qual sugere que o momento, apesar de crítico, deve mostrar-se propício ao diálogo (maiores informações aqui). Este ponto de vista, no entanto, não tem caracterizado a atuação do governo chinês no que tange a punição aos uigures, tal como sugere o crescente número de representantes da etnia condenados à pena capital.

Percebe-se, pois, que apenas a partir da disposição das partes envolvidas em prol do alívio das tensões étnicas é que as ‘estrelas’ da bandeira chinesa poderão se complementar não apenas de forma simbólica, mas, principalmente, com o objetivo da coexistência política, econômica e social de forma harmoniosa, indiscriminada e benéfica a todas as partes envolvidas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Post do Leitor - Raphael Camargo Lima

[Pessoal, recebemos mais um post do nosso leitor Raphael Camargo Lima, aluno do 2º ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca. Desta vez, ele trata do falecimento de Houssein Ali Montarezi, uma autoridade religiosa iraniana, e os desdobramentos deste acontecimento. Apreciem a leitura! Só para lembrá-los, quem quiser postar no blog, basta nos enviar um e-mail com o post.]

A volta dos que já foram


O clima de festividades de fim de ano parece tomar outros rumos no Oriente Medio. E no Irã, nem mesmo se Papai Noel desse as caras o clima poderia ficar mais agitado. Desde o falecimento de um dos Aiatolás (clérigos de significativa importância religiosa) do Irã, Houssein Ali Montazeri, no último dia 19, Teerã tem sido palco de constantes e reincidentes protestos contra o atual governo de Mammoud Ahmadnejad. O funeral do líder religioso concentrou policiais, religiosos, oposição e governistas num mesmo ambiente, não muito ameno. Os protestos levaram até a paralização dos precedimentos e a intervenção da polícia local, ao som de manifestantes gritando pelo fim do atual governo. Montazeri era mais do que um líder religioso, fora fundador da República Islâmica em 1979, um dos idealizadores da Constituição e principalmente uma importante figura da oposição. Mas uma coisa é o que ele representou, outra é o que seu falecimento representa ou pode desencadear.

Em um governo regrado às sombras do autoritarismo, como o do Irã, aos poucos parte da população vai se privando dos tão conhecidos princípios democráticos e gradualmente vai deixando de lado críticas ao governo em virtude da possível repressão. O que a moveria novamente em torno desses princípios ou de um governo mais democrático são alguns dos aspectos das chamadas “identidades”, consideradas por muitos como comunidades imaginadas que vibram em torno de um passado comum e expectativas conjuntas. Um dos traços que marcam essas comunidades são os mártires. Figuras que podem não ter tido grande representatividade no momento em que viveram, mas que são construídas como grandes heróis em busca de um bem maior a determinada população.

Agora pensemos o Irã de novo.

Seria essa uma tentativa de se construir um mártir que possa motivar mais a oposição a reagir contra um governo por demais autoritário? Não se pode pensar que uma figura como Montazeri pode urgir esse grupo a buscar de forma mais firmemente uma democracia mais bem consolidada, ou simplesmente um sentimento anti-governista mais forte?

Esta, na minha opinião, é a raiz primeira desses protestos em Teerã. Paralelamene, o esforço contrário é também grande, o que demonstra a capacidade criativa de um governo incapaz de silenciar essa voz da oposição pelo seu peso religioso, e que agora busca silenciá-lo depois da morte, conduzindo-o ao esquecimento.

Se religiosamente, os Aiatolás podem compreendidos como sinais de Deus, aqueles que são iluminados com a palavra divina, no caso particular de Montazeri pode-se dizer que vai um pouco além, é também um sinal de palavra para a oposição.

Se religiosamente, os Aiatolás podem compreendidos como sinais de Deus, aqueles que são iluminados com a palavra divina, no caso particular de Montazeri pode-se dizer que vai um pouco além, é também um sinal de palavra para a oposição.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um acordo por uma criança? Não neste caso


Há poucos minutos, foi entregue às autoridades americanas o menino Sean Goldman, alvo de uma disputa entre o pai americano e a família brasileira. Ele e o pai já embarcaram para os EUA. O caso, no entanto, ultrapassou a esfera privada e acabou tornando-se uma disputa diplomática com repercussão internacional. O caso é conhecido e já foi, inclusive, tema de conversas entre o presidente Lula e seu colega Obama. Leia mais sobre o caso aqui.

Independemente do mérito da decisão da justiça brasileira, o que me chamou atenção no caso foi a denúncia da avó do garoto, em carta aberta, de que o que houve, na verdade, foi a "troca" da criança por um acordo econômico. Não foi isso que aconteceu.

Sinceramente, a acusação da avó não passa de um relato de uma pessoa emocionada que terá de se separar de seu neto. Nada além disso.

A sra. Silvana Bianchi falou do fato de o senado americano ter aprovado por unanimidade a prorrogação do chamado SGP, Sistema Geral de Preferências dos Estados Unidos. O programa oferece isenção de tarifas de importação para uma série de produtos de países em desenvolvimento, inclusive o Brasil.

A indignação da avó não faz sentido, em primeiro lugar, porque o SGP não é um acordo negociado. Os países que têm sistemas gerais de preferências instituem as medidas por decisão unilateral. Pode até haver algo nos bastidores, mas é muito pouco provável, uma vez que ter esse tipo de benefício a países em desenvolvimento é prática comum de países desenvolvidos.

Em segundo lugar, por mais repercussão que esse caso tenha tido, não é uma criança que ia movimentar os poderes executivo, legislativo e judiciário dos Estados Unidos e do Brasil em uma ação coordenada. A decisão de entregar o menino já vem correndo na justiça brasileira e americana há anos. Quem aprovou a extensão do SGP foi o congresso americano, por unanimidade. Seria possível convencer todos os congressistas, com toda a política que isso envolveria, a beneficar o Brasil com um acordo por conta de uma criança? Haveria outros meios políticos mais simples e que chamassem menos a atenção, sobretudo em um período onde o legislativo americano se encontra 'atolado' de propostas, como a reforma do sistema de saúde.

Aliás, foi justamente o excesso de trabalho dos congressistas que levou a prorrogação do SGP. E falo isso por experiência própria, pois tive a oportunidade de trabalhar junto a FIESP e a AMCHAM, representando a empresa onde trabalhava, que se beneficia do programa, nas ações para convencer os americanos a não excluir o Brasil do SGP.

O programa tem data para expirar, e já deveria ter vencido há dois anos. No ano passado, houve um debate amplo no sentido de reformar o SGP excluindo países que não estivessem num nível de desenvimento tão baixo, como é o caso do Brasil, que não é mais considerado por alguns como subdesenvolvido.

Na falta de consenso e na expectativa de mudanças por conta da saída do presidente Bush, os congressistas decidiram adiar a reforma do programa para este ano. No entanto, por conta da crise e questões políticas internas, como a reforma do sistema de saúde, o caso foi deixado de lado em 2009. Como, sem decisão, o SGP simplesmente deixaria de existir, novamente houve a decisão de postergar a reforma.

Essa discussão, portanto, já é antiga. Não acredito que o caso do Sean, que também corre na justiça há anos, tenha influenciado a decisão dos congressistas.

Por fim, o Brasil não é o único país que se beneficiou com a prorrogação do SGP. Muitos outros países estão no bolo dos que ganham mais um ano de isenção de tarifas. Aprovar o programa por um ano é simples, basta que se faça uma votação. Retirar o Brasil dele seria complicado e não seria possível, por questões regimentais, até o fim deste ano, quando venceria o programa, o que torna uma chantagem do tipo "entreguem o menino ou saiam do programa" simplesmente impossível.

No entanto, vale ressaltar que, durante o ano, houve uma proposta de um congressista de retirar o Brasil do SGP pelo país não ter ratificado uma convenção da ONU sobre 'sequestro' (abduction) de crianças, numa referência clara, porém indireta, ao caso do garoto.

Infelizmente não encontrei a notícia sobre o caso, mas a proposta foi simplesmente ignorada e engavetada por não fazer sentido. Tratava-se de uma 'desculpa' para retirar o Brasil, pois o congressista em questão é republicano e contrário a esse tipo de benefícios. Sabem aqueles projetos de lei sem pé nem cabeça que são apresentados no Brasil? Foi considerado assim por lá.

Resumindo, trocar uma criança por um acordo comercial? Neste caso, NÃO.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Guantánamo e a esperteza

Que conforto, parece até um hotel Hilton

O Sr. Presidente dos EUA prometeu pro Papai Noel (e pro mundo também) que ia conseguir fechar a prisão/centro de tortura de luxo de Guantánamo até 2011. Pelo jeito alguém vai ficar sem presente esse ano...

Havia uma requisição de 200 milhões de dólares para construir a prisão para onde os atuais encarcerados em Cuba seriam destinados com o fechamento de Guantánamo. Porém, os DEMOCRATAS (que deveriam estar de acordo com Obama) vetaram a decisão. Bacana ein? Fica a pergunta, onde é que os presos irão? Será que adotarão o sistema brasileiro de conforto carcerário ou vão enfiar os supostos terroristas como penetra em festas da Casa Branca...

Devemos lembrar que desde que foi proposto o encerramento das atividades de "Gitmo", muitos viram com descrença e já davam como certo a mudança dos prazos (como ocorreu), problemas e etc. Agora perder o apoio do seu partido já é demais, faz toda essa mudança se tornar cada vez mais irreal e midiática, deixando mais aparente que isso não passou de uma promessa eleitoral sem fundamento.

Se já não era o bastante aquela prisão ser composta por brechas legais, falta de informação sobre suas reais condições de vida e dos interrogatórios realizados em presos que não possuem nem processo formal, agora eles não tem idéia onde ficarão presos sem ter razão aparente. Mandou bem Sr. Presidente!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Entrevista - Marcelo Rech

Pessoal, como nem sempre estamos conseguindo manter os podcasts atualizados, procuramos inovar de alguma forma. A partir de agora, tentaremos realizar algumas entrevistas via e-mail com profissionais da área de Relações Internacionais especialistas nos assuntos que trataremos. E para começar esse novo procedimento, trouxemos o nosso novo parceiro, o editor do InfoRel, (consulte o site aqui) Marcelo Rech. O título desta entrevista é: Mídia, relações internacionais e a importância da informação.

Todos nós, da Página Inernacional, gostaríamos de agradecer imensamente ao Marcelo tanto pela parceria como pela concessão desta importante entrevista. Muito obrigado!

Currículo: Marcelo Rech tem 39 anos e 20 de profissão. É jornalista com especialização em relações internacionais, estratégias e políticas de defesa e terrorismo e contra-insurgência. Foi correspondente internacional, coordenador de análise política da Fundação Getúlio Vargas e é o editor do InfoRel há cinco anos.

Perguntas:

1) Quais as principais convergências e divergências entre o campo de estudos do Jornalismo e o das Relações Internacionais?

Sinceramente, acredito que existam muito mais convergências. São áreas afins, que têm muito a ver. Na minha formação, sempre privilegiei o jornalismo internacional. Entendo que evoluíram muito. O Brasil firmou-se como protagonista das relações internacionais e isso também exige uma maior preparação por parte de seus jornalistas. Eu procurei me especializar na área para entender melhor como é o processo como um todo. Não dá para um “generalista” cobrir a política externa. Um problema que ainda observo diz respeito ao comportamento dos nossos diplomatas. Em sua maioria, se consideram os únicos em condições de analisar e discutir política externa. Também em algumas universidades, temos aqueles “deuses” que se acreditam donos da verdade quando o assunto é relações internacionais. Eu procuro analisar da forma mais simples para que os leitores possam, em poucas palavras, ter uma idéia do que se passa. Minhas análises formam um recorte, apenas um recorte e assim devem ser as demais análises.

2) A mídia presta uma contribuição benéfica ou é prejudicial aos fenômenos em curso nas relações internacionais?

Apesar de alguns absurdos, é e sempre será benéfica. Precisamos explorar cada vez mais o tema. Quanto mais análises produzirmos, mais textos, mais coberturas fizermos, melhores seremos. Os meios de comunicação entenderam que os temas internacionais são tão relevantes quanto os assuntos internos. Atualmente, muitas coisas que se passam em outros continentes impactam a nossa vida, o nosso dia-a-dia. Não há tema que possamos dizer: não temos nada com isso. Cedo ou tarde estaremos implicados, para o bem ou para o mal.

3) Como jornalista, o senhor poderia nos relatar uma das experiências mais marcante de sua profissão?

Tive algumas experiências interessantes, mas destaco as viagens ao exterior como as principais. Nada substitui o contato direto com determinadas realidades, como da Colômbia onde estive em acampamentos das Farc, com ex-guerrilheiros. No Peru, pude conhecer melhor como o país conseguiu impor o fim do terrorismo do Sendero Luminoso. Do Panamá, escrevi diretamente do Canal. Uma de minhas maiores frustrações foi a viagem que fiz a Cuba. Era algo que queria muito e pelo qual corri atrás de recursos. Estive por uma semana em Havana, mas não me deixaram falar com nenhuma das pessoas que havia proposto. Todo o tempo, gente do governo me monitorava, acompanhavam minhas entrevistas. Eu cheguei a pensar em voltar antes e só não o fiz porque teria de pagar uma multa altíssima à companhia aérea. Foi decepcionante em todos os sentidos.

4) De que maneira surgiu o InfoRel? Poderia nos contar mais sobre essa agência de informação?

O InfoRel nasceu há cinco anos como uma proposta de reunir notícia e informação num único lugar. Eu havia trabalhado muitos anos na Comissão de Relações Exteriores da Câmara e via o quanto de informação era ignorada pelos meios convencionais. Atualmente, o InfoRel é lido em 86 países apesar de seu conteúdo ser totalmente em língua portuguesa. Há ainda muito para ser feito. Não é fácil nem simples ser empreendedor no Brasil. Os obstáculos são enormes, mas aos poucos vamos sedimentando o projeto.

5) Qual a sua opinião sobre a difusão da informação via internet? Até que ponto as fontes são confiáveis? Os blogs prestam uma contribuição positiva para manter o leitor informado?

Há de tudo nesse meio, mas no final, os que sobrevivem são aqueles que contam com a credibilidade dos leitores. As pessoas conseguem enxergar o que é bom e o que não é. É claro que a velocidade com que as informações transitam exige um cuidado maior. É muito mais fácil fazer as coisas hoje em dia. É possível montar um jornal ou uma revista sem sair de casa e sem falar com ninguém, afinal tudo está na internet. Quando tivemos o boom da internet, muitas coisa se criou, mas poucos ficaram. Eu espero que o InfoRel consiga sobreviver às dificuldades e chegue a ser uma referência latino-americana para os temas das relações internacionais e defesa. Sinto que o pior já passou e que hoje, os que nos acessam o fazem por confiar em nosso trabalho. Temos consciência de que somos muito pequenos ainda e que temos de melhorar muito, mas o fato de estarmos cientes disso nos dá alguma vantagem. O importante é que as pessoas nos percebem e ao nosso esforço. Eu sinto isso.

6) Considerações finais.

O InfoRel não nasceu para concorrer ou competir com os demais, mas para somar-se. Sempre digo que ninguém precisa deixar de ler isso ou aquilo, mas se puder agregar o site à sua leitura e às suas pesquisas, então estamos cumprindo com a nossa missão. As relações internacionais são algo complexo e difícil e o nosso compromisso é o de nos atualizarmos sempre para tentarmos fazer um site melhor a cada dia.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pleito hondurenho



[No intervalo de Cop15 e Irã...]

Depois de muito teretetê com as eleições em Honduras, o Tribunal Eleitoral anunciou que o Porfírio Lobo foi, sim, legitimamente escolhido para ocupar o leme do país latino. Saída de Zelaya e renúncia de Micheletti: isso é o que o futuro mandatário exige desde já. A partir dessa declaração, também advogou por uma saída ‘honrosa’ do [desgastado] morador da embaixada brasileira.

Se o comparecimento às urnas fosse alto, a diplomacia brasileira teria um impasse pela frente: defender Zelaya mesmo frente a eleições democráticas e representativas? Por sorte, manteve-se o mesmo nível da eleição anterior – menos da metade da população.

Ora, a Frente de Resistência ao Golpe de Estado em Honduras proclamou uma “vitória sobre o golpe”. O líder Rafael Alegria chegou a dizer que "está claríssimo que há uma rejeição à legitimação do golpe, o povo deu um golpe no golpe de Estado”. Não. Foi simplesmente a população hondurenha sendo “cidadã” em seu padrão normal.

Por sorte, o Brasil não teve que passar por mais essa saia justa. A América Latina inteira classificou como ilegítimas as eleições hondurenhas. Aliás, até agora, apenas Colômbia, Costa Rica, Panamá e Peru – além do mentor de todos eles, EUA – aceitaram este pleito. Os demais, desde líderes de esquerda aos discursos do Brasil e Argentina, questionam e condenam a realização das eleições.

Não entrando no mérito substancial da legitimidade das eleições em Honduras, o fato é que essa atitude por parte do governo americano remonta tempos não muito distantes. A discrepância de reações no continente americano lembra os contrapontos unilaterais que os EUA assumiam na administração Bush. Nós e eles. Apesar da natureza dos discursos e da postura americana parecer alterada na Era Obama, posições radicalmente opostas de EUA e América Latina no que concerne a situação política deste mesmo ambiente desperta desconfiaça por parte de analistas, governantes e - devo confessar - da minha parte também. Após ouvir do Nobel da Paz que a guerra é, sim, um meio de manutenção da paz, quem nos garante que a polarização na América tenha, de fato, seu prazo de validade vencido, como nos afirmou Obama?

Será mesmo?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Post do Leitor - Álvaro Panazzolo Neto

[Pessoal, recebemos mais um post do aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Álvaro Panazzolo Neto. Desta vez, ele trata da interminável questão sudanesa, bastante em voga no noticiário internacional, após a condenação do seu presidente pelo TPI. Apreciem a leitura. Quem quiser postar na Página Internacional, é só enviar um e-mail para contato@paginainternacional.com.br]

Clima ruim no norte da África

Enquanto os olhos do mundo estão voltados para as discussões sobre o clima nas aprazíveis paisagens da Dinamarca, dão as costas à feiúra e morticínio que ocorrem no continente mais pobre do mundo. Isso não é novidade, mas neste momento há uma questão extremamente pertinente que passa ao largo do noticiário internacional, que é a nova escalada da violência no Sudão. Não bastasse a guerra do futebol (a partida-desempate entre Egito e Argélia, pelas eliminatórias da Copa de 2010, em território sudanês, terminou como incidente diplomático), o mundo parece ignorar a piora de uma das maiores crises humanitárias da atualidade.

A história é conhecida: sempre que uma solução é alcançada, ocorre um novo fator de instabilidade. Desde o cessar-fogo que interrompeu uma cruenta e longa guerra civil entre o norte e o sul do país africano, a situação nunca se estabilizou. A piora se deu com a promulgação de um mandado de prisão do TPI contra o excelentíssimo presidente Omar Al-Bashir, acusado de genocídio e tantos outros crimes. A isso se seguiu a expulsão de ONGs do país e uma silenciosa operação de massacre continua. Blindado nos organismo internacionais por parceiros econômicos pouco afeitos aos direitos humanos (leia-se China), o Sudão permanece sendo abastecido de armas (apesar de sanções internacionais) e continua a fomentar grupos paramilitares que atuam em conflitos nas diversas regiões do país. Mesmo com toda a “pressão” da comunidade internacional, apenas em 2009 mais de 2 mil pessoas morreram e 250 mil foram deslocadas devido ao conflito no sul, enquanto 75% da população não tem acesso à saúde básica (ironicamente, o conflito de Darfur, o mais famoso internacionalmente, se encontra em um período de relativa calmaria).

O que torna a crise recente mais pungente é o fato de que há um referendo marcado para 2010, fruto do acordo de cessar-fogo, o qual versaria sobre a independência da região sul e que teoricamente daria fim ao conflito. Entretanto, há fortes indícios de que o governo esteja armando milícias e grupos rebeldes para atirar uns contra os outros e por em xeque a ocorrência do referendo. Não é apenas uma crise incitada pelo governo, mas pela corrupção e incompetência do recém-instalado governo autônomo do sul e pela complacência da comunidade internacional. Enquanto o marginalizado (mas ainda empossado) Bashir causa constrangimentos a Sarkozy e Obama, prende membros da oposição livremente e deslegitima todos os esforços feitos no sentido de alcançar a paz, o mundo cruza os braços. O pior cego é o que não quer ver. A situação atual, caso se torne um conflito novamente, pode fazer implodir completamente o Estado sudanês (com tropas de prontidão e facções sedentas pelo poder por todos os lados) e reverberar nos países vizinhos como o Chade, em um efeito cascata de conseqüências desastrosas para o continente.

As mudanças climáticas são consideradas de fato uma possível causa para os conflitos (o regime de chuvas da região está atípico e há uma grande onde de fome). Mas nuvens negras se formam no horizonte do país africano, sem perspectiva de um governo justo, capaz de manter um Estado de direito, e com o desserviço configurado no “auxílio” dissimulado de países como a China e membros da União Africana através do trafico de armas e “proteção” em foros internacionais. Não basta que haja a vontade política dos países capacitados a intervir, visto que não produz resultados, mas situação não pode passar despercebida pela comunidade internacional.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Crônica de uma morte anunciada


A Cop 15 foi um fiasco. Mas disso todo mundo já sabia antes mesmo do início da Cúpula. Apesar do emocionante vídeo de abertura da (este aí em cima), o encerramento da Conferência não foi tão lindo assim. Um acordo que não vale nada e que, aliás, nem todos os países aceitaram. Metas? Nem se fala no assunto. O que houve na Dinamarca foi uma gastança de dinheiro, muita conversa fiada e, acordo que é bom, nada.

Os jornais estão cheios de matérias sobre o assunto (aliás, vejam uma matéria legal que foi ao ar no Jornal Hoje clicando aqui), por isso, não vamos nos ater ao acordo em si ou no que rolou por lá.

A pergunta mais importante e que, certamente, muitos já se fizeram é simples: será que nem mesmo o fim do mundo é suficiente para fazer com que os países façam um acordo de redução de emissões de gases que aumentam o efeito estufa?

A resposta é complexa, mas gira em torno de uma questão simples: poder. Nenhum país quer perder o direito de emitir poluentes. Em outras palavras, no modelo econômico que temos hoje, poluição significa desenvolvimento e desenvolvimento, poder. Ainda não há uma matriz energética tão simples e barata como o petróleo, carvão e seus derivados. É muito mais fácil queimar toneladas de carvão para aquecer as caldeiras das siderúrgicas do que desenvolver uma nova tecnologia, por exemplo. Além disso, o mundo já conta com uma infra estrutura adequada para a retirada, refino e distribuição de petróleo.

Cortar emissões significa ter de gastar muito no desenvolvimento de novos modelos, sem que haja garantias de que, um dia, eles serão tão compensatórios como o que temos hoje. E segurança energética é coisa séria.

De uma forma ou de outra, todos têm acesso ao petróleo. Alguém já imaginou, no entanto, num futuro próximo, um mundo que dependa do etanol produzido no Brasil e em países africanos? Alguém em sã consciência ia querer depender de algo oriundo de países tão instáveis?

A questão é que a energia e o desenvolvimento são assuntos sensíveis para qualquer país. Até mesmo para o Brasil. Apesar de o Lula ter pintado a Dilma de verde, nossos projetos de energia são sujos.

Todos sabem do risco que o planeta corre. Todos têm, de algum modo, medo do aquecimento global. Acontece que todos pensam também no curto prazo. A China, por exemplo, que cresce a uma taxa média de 10% ao ano, não pode se dar ao luxo de se comprometer com um corte 'ousado' de emissões sem ter de pagar um alto preço por isso. E nem a China nem qualquer outro país está disposto a pagar esse preço.

O fato é que enquanto não houver alternativa sustentável viável do ponto de vista econômico, não haverá acordo nem em Copenhague, nem no Rio de Janeiro, nem na Conchinchina.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um míssil do barulho!

Que gracinha! Tem até uma estrelinha desenhada na ponta do míssil!

Esse pessoal do Irâ anda aprontando demais! Eles, sob embargo de armamentos, decidiram "desenvolver" (leia-se copiar dos russos) mísseis de longo-alcance capazes, de acordo com eles mesmo, de atingir Israel!

Não que Israel seja bonzinho e toda semana chame seus vizinhos para fazer um churrasco na laje, mas como é que eles querem ser respeitados como "país estável" se só fazem discursos agressivos? Ainda mais quando esse míssil é da categoria terra-terra, ou seja, destinado ao ataque de instalações físicas, não sendo um míssil de defesa.

A Tia Hillary disse que devemos tomar cuidado com a influência do Irã, como se ele fosse roubar nossa mulher ou nos oferecer drogas depois da aula, e o Irã obviamente diz que isso é coisa dos imperialistas violentos. E fala a verdade, não tem maneira melhor de contrariar esse argumento do que com um bom e velho teste de armamentos? Com certeza fez maravilhas para a relação da Coréia do Norte com o mundo "judaico-cristão-ocidental".

Claro que todos tem o direito à auto-defesa, ainda mais em uma área instável como é o Oriente Médio. Porém, a retórica se torna quase insustentável quando as ações empregadas levam mais a INstabilidade do que seu inverso. E isso vale pra todos ali ao redor.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O inimigo do meu amigo é o quê?


Comumente, no jogo de expressões e palavras das relações internacionais se afirma que o inimigo do meu amigo é também o meu inimigo. Até aqui, tudo bem, sem maiores problemas, entretanto, se tivermos que identificar as relações de amizade e inimizade nas interações estatais, a brincadeira fica realmente complicada. Ecos de Sun Tzu na política mundial contemporânea recomendariam que os Estados mantivessem próximos os amigos e os inimigos mais próximos ainda. No caso específico do continente americano, ambas as categorias estão cada vez mais confusas e facilmente alternáveis.

Uma nova moda está lançada nas Américas: o negócio agora é fazer acordo bilateral na sensível área da Defesa. Ao menos, é o que defende o subsecretário para o Hemisfério Ocidental (entenda-se continente americano) do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Arturo Valenzuela. Em recente visita ao Brasil - onde se encontrou inclusive com Nelson Jobim, ministro da Defesa -, o representante norte-americano declarou que a cooperação entre os países da região deve ser tratada bilateralmente, tendo como exemplo o acordo entre Estados Unidos e Colômbia para a ampliação de bases militares norte-americanas em território colombiano.

Aliás, esse acordo repercutiu enormemente na região. Travou a UNASUL e o recém-criado Conselho de Defesa Sul-Americano (CDSA), gerou infindáveis debates e declarações polêmicas. Amigos de quem e inimigos do quê? Ao amigo a defesa, ao inimigo o combate. Ao amigo a segurança, ao inimigo o medo. Deixemos de lado toda essa abstração por um pouco de pragmatismo, segue um exemplo: a amizade inimiga entre Estados Unidos e Colômbia e a inimizade amiga entre Estados Unidos e Venezuela.

As bases norte-americanas, inicialmente, deveriam visar ao combate do narcotráfico, o inimigo despersonalizado, e agora se justificam por causa do intrépido presidente venezuelano, Hugo Chávez, o inimigo personalizado. Por um lado, os Estados Unidos lutam ao lado do governo colombiano em prol de um assunto elevado à categoria de “assunto de segurança” para justificar uma intervenção militar, devoradora da soberania nacional e passível de alastramento pela América do Sul. Por outro, os Estados Unidos lutam contra as aspirações chavistas, incorporadas num projeto bolivariano para o continente e no reaparelhamento das Forças Armadas venezuelanas, sem, no entanto, negligenciarem os acordos comerciais em torno da questão petrolífera. O amigo do meu amigo se converte no meu inimigo, ao mesmo tempo em que o inimigo do meu amigo não é necessariamente meu inimigo.

Decerto, as amizades e as inimizades não estão plenamente consolidadas nas Américas. Talvez, nem poderiam estar, uma vez que o amigo que provê a defesa a um amigo é o mesmo que pode desprover a segurança dos demais amigos do último. Da mesma maneira, o combate ao inimigo não implica estritamente na disseminação do medo. Neste anacronismo, ora os Estados Unidos se apresentam como um amigo, ora como um inimigo de Colômbia e Venezuela, em específico, e da América do Sul como um todo. Contudo, este negócio de acordos bilaterais em defesa gera uma tremenda desconfiança, que tende a fazer a balança pesar mais para o lado da inimizade disfarçada em amizade.

É claro que, por um lado, um consenso na área de defesa é mais alcançável quando se envolve menos países. Porém, trazer à tona acordos bilaterais num ambiente político multilateral, que visa cada vez mais à integração, é entrar em contra-senso e desconsiderar o relativo progresso da região. Mais uma vez, o governo norte-americano pode estar usando subterfúgios para intervir legitimamente no continente sul-americano em benefício próprio. E a América do Sul fatalmente é acometida por um dilema: tratar os Estados Unidos como amigo ou inimigo? Caso a escolha seja a segunda, é melhor mantê-los mais próximos ou combatê-los veementemente? Assim caminhamos entre amigos e inimigos...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Post do Leitor - Raphael Camargo Lima

[Caros leitores, o aluno do 2º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Raphael Camargo Lima, mais uma vez contribuiu com a Página Internacional. Apreciem este interessante post que trata do incansável discurso de mudança, que já contagiou o imaginário político na América Latina, e marca sua presença nas atuais eleições chilenas.]

Mais um discurso de mudança?

Propaganda do candidato derrotado 'Marco'. No Chile, o voto só é obrigatório para quem se inscreve como eleitor, por isso, há disputa pelos potenciais eleitores não inscritos.

E a nova onda das Américas é o tal do discurso de mudança. Essa ferramenta política passou a ser usada por candidatos para fins eleitoreiros, mesmo quando as tais mudanças não representam grandes rupturas no atual curso da política interna e exterior.

Ouvimos por muito tempo discursos de Lula e Obama levando essa premissa à exaustão. E agora, não diferente ocorre nas eleições presidenciais do Chile realizadas no dia 13 de dezembro de 2009. O discurso central do candidato favorito Sebastián Piñera, representante da legenda de centro-esquerda, Aliança para Mudança, enfocou-se também de mudanças. Mudança de uma direita há muito rotulada de conservadora e por demais vinculada à imagem do ditador Augusto Pinochet.

Entretanto, a “cara da mudança” chilena não apresenta propostas tão inovadoras e nem muito diferenciadas daquelas que levaram a atual presidente Michelle Bachelet à vitória. As questões centrais abordadas apontam até para uma espécie de continuísmo das políticas atuais. O consenso sobre condução dos fundamentos de uma economia liberal de mercado entre partidos de direita esquerda será mantido, mas a maior “inovação” será continuação dos programas sociais de Bachelet. As outras “mudanças” que poderiam vir a alterar os caminhos da política interna são por demais gerais e tratam de questões muito abertas como maior combate à corrupção, melhoria da gestão pública e garantia de maior apoio à classe média.

A idéia do “em time que está ganhando não se mexe” parece ser bem seguida, contudo, com alguns disfarces e fortalecimentos aqui e acolá.

Se for possível apontar para qualquer ruptura nessas eleições, ela se encontra muito mais no campo das idéias do que no campo da prática. A direita chilena intenta alterar sua imagem de conservadorismo. Há mais de 50 anos que não é vista com um ar triunfante no primeiro turno das eleições, sendo que a vitória nas eleições presidenciais por mais de 20 anos foi atribuída ao partido de centro-esquerda Concertación. Agora, a história parece ser outra. Piñera busca a renovação da imagem da direita chilena, explicitando maior flexibilidade, pragmatismo e dinamismo em sua gestão.

Mesmo o candidato da coalizão de centro-esquerda da Consertación, ex-presidente, Eduardo Frei não se mostra ainda um páreo duro frente a esse movimento de renovação da direita. No primeiro turno desse ano não cativou grandemente a população como em pleitos anteriores, obtendo aproximadamente 29% dos votos e o passe para o segundo turno em 17 de janeiro de 2010. A esquerda também aponta para essa necessidade de um desses movimentos renovadores, pois nessas eleições apareceu fragmentada em 3 candidatos (Frei, Jorge Arrate e Marco Enríquez-Ominami) de partidos diferentes.

Parece que o discurso da mudança é cada vez mais legitimado como ferramenta política eficaz, e nos países da América Latina, as bases governistas e de oposição a cada dia mais se tornam unificadas em termos de propostas para políticas públicas, sociais e econômicas. Assim os partidos e candidatos brincam de alterar suas imagens como figuras públicas e de enterrar heranças de apoio a plataformas políticas impopulares. E nesse muda aqui e muda acolá os únicos que continuam são os eleitores, que aos poucos não compreendem mais as diferenças entre plataformas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

As não tão novas discussões climáticas: últimas da COP-15


Entre devaneios, alucinações e mesas de negociações seguem as reuniões para o acordo do clima, em Copenhague. As conversas, no entanto, vão muito além das plenárias da COP-15. Aliás, o rascunho de um possível acordo já está pronto (ou quase pronto). Enquanto nas sessões oficiais cada país faz transparecer sua posição diplomática em relação as negociações do clima, as reuniões paralelas entre as delegações são responsáveis pela construção do acordo. É justamente aqui que surge nosso maior problema, até o momento. Nem todos os países são convidados para discussões essencias para a consubstanciação do acordo, o que acarreta uma fonte quase inesgotável para novos questionamentos e descontamentos.

O rascunho de resolução para a COP-15 é um emblema dessa situação. Consegue desagradar mais do que agradar, ou seja, justamente o contrário que uma boa resolução em uma conferência internacional que se preze. O texto da proposta faz menção a metas obrigatórias tanto para países desenvolvidos como para os em desenvolvimento, para os primeiros a redução de emissões deveria atingir 80%. Começa então o descontamento. Os africanos se sentiram excluídos dos pontos-chave, expressando seu desacordo com relação ao procedimento adotado. Fez-se menção, inclusive, a um risco de não mais se atingir um acordo. Por outro lado, Tuvalu - uma pequena ilha localizada no sul da Oceania - quer um acordo mais ambicioso que o Protocolo de Kyoto, aquele mesmo pouco respeitado, garantindo existir a ameaça a sobrevivência. Neste sentido, somente um acordo com valor legal serveria como uma efetiva garantia aos países com vulnerabilidades climáticas. Tal demanda está longe da realidade da COP-15.

Separo um espaço especial para comentar a posição dos países industrializados. Obviamente, estes também não se sentem plenamente contemplados pelo esboço de documento final da conferência. Os países europeus afirmam que os EUA pouco contribuem, colocando em dúvida o compromisso dos americanos com a questão. A proposta de redução de 3-4 % das emissões de dióxido de carbono, de fato, soa como deboche, ainda mais considerando que os americanos são os maiores emissores de gases em nossa atmosfera. Nada indica que os americanos melhorarão sua proposta. Por outro lado, o representante americano na negociação diz que o documento apresentado não funcionou nos termos que foi conduzido. Diz e não diz ao mesmo tempo.

O IPCC, a voz da comunidade científica na COP-15, diverge também do projeto de resolução. Na sua visão, o acordo proposto seria insuficiente. Para o painel é necessário o compromisso para a redução das emissões entre 25% e 40%, como forma de garantir que o aumento da temperatura média global não ultrapasse os 2°C. Bom, se nem o acordo em pauta, controverso já na sua concepção, serviria, o que pode esperar Tuvalu?

Os EUA, que defenderam com seu próprio sangue a segurança global - nas palavras do agraciado com o Nobel da Paz de 2009, Obama - deveriam ter um comprometimento imensamente maior junto aos foros internacionais. Mas, pelo contrário, os americanos fazem questão de atravancar os acordos nos mais diversos âmbitos (comercial, ambiental, nuclear). O discurso na plenária - em referência a excepcionalidade americana a que faz menção Obama - diverge fundamentalmente de sua posição dos bastidores.

Os americanos não aderiram ao Protocolo de Kyoto, ao Tribunal Penal Internacional, dificultam as negociações na OMC, enfim. A missão do negociador americano sempre é cumprida, a meu ver, evitar que seja construídos consensos. É a utilização dos ideários democráticos para fins tortuosos. Parece funcionar: quanto mais democrática é a organização internacional, menos ela parece funcionar. Eu vi uma vez a representante dos EUA junto a OMC chorar na entrevista coletiva após o fracasso de uma das rodadas de negociação da OMC. Tanta emoção não amoleceu os seus posicionamentos. No caso do clima, nem emoção o representante americano parece demonstrar.

O texto até o momento pode conduzir o leitor a uma visão equivocada. Os EUA não são os vilões dessa vez. Pelo menos, não os únicos. A cisão é muito mais profunda e nada traz de novo. Os países hoje desenvolvidos utilizaram os recursos naturais ao seu bel-prazer com fins de alcançar o desenvolvimento econômico. Os países em desenvolvimento (separados aqui dos países pobres) acreditam ter o mesmo direito, desenvolver-se a despeito do meio-ambiente. As negociações se centrado nessa cisão, a mais sensível para um acordo abrangente. No final das contas, pouco importa a opinião dos países menos expressivos - por mais cruel que isso possa soar. Os tempos são outros, os países em desenvolvimento exigem prerrogativas das quais nunca vão gozar. As concepções de "Futuro Comum", "Desenvolvimento Sustentável" e "Aquecimento Global" não existiam no horizonte dos condutores do hoje países desenvolvidos. Assim, querer ancorar o desenvolvimento em concepções antiquadas não poderia funcionar. Falta então dividir a conta.

Os custos estimados para a adoção de medidas de controle do clima são de 200 bilhões de dólares. A União Européia aceita disponibilizar 30 bilhões de euros, até 2012, para adaptação a secas e ao aumento do nível do mar, de promoção do uso de energias renováveis e de a adoção de medidas para o combate ao desmatamento nos países pobres. Exige como contrapartida o dimuição do desmatamento no Brasil e a redução de emissões na China e Índia. Esse parece ser o maior avanço até o momento.

É incrível como é tão fácil juntar trilhões para resgatar instituições financeiras e tão difícil juntar bilhões para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. A valoração segue a mesma. O representante do Brasil das negociações, Sérgio Guerra, resumiu tudo: "Sem dinheiro, nenhum acordo". Aqui está o "x" da questão: dinheiro. Quem paga a conta? Existem países que não poderão arcar com o ônus das mudanças climáticas, que os acolhe?

Surgiu outro devaneio. Para o investidor George Soros o FMI deveria pagar a conta. Que lindo! Justo a organização que funciona por cotas de investimento; e por isso segue a lógica quem paga mais, manda mais, pode ser a nossa procurada solução. O maior cotista do fundo são os EUA. Tudo feito então. Logo o país que por sua excepcionalidade foge dos controles das negociações internacionais e que é berço do pensamento eco-cético. Só falta querer cobrar juros dos países pobres depois. O FMI não é a solução para nossos problemas, a meu ver.

Nos próximos dias chegam os representantes políticos. O avanço necessário nas matérias técnicas não foram bem sucedidos. As perspectivas não são as melhores para as discussões políticas. Somente quando a tormenta bate as nossas portas é que abrimos nossos olhos para a realidade. Talvez a tormenta chegue e seja tarde de mais para evitar suas consequências.

Post Especial - Homenagem ao Luís Felipe Rocha Ramos Kitamura

[Mas que foto é esta, hein, caro colaborador?!]

Pessoal, gostaríamos hoje de fazer uma postagem diferente. Não trataremos dos assuntos atuais e mais recorrentes das relações internacionais, preencheremos este espaço com uma mensagem de reconhecimento e de apoio ao colaborador da Página Internacional, Luís Felipe Rocha Ramos Kitamura, que embarcará para o seu intercâmbio na Turquia na próxima semana.

Luís Felipe (Kita, como é mais conhecido) sempre foi um aluno bastante aplicado no curso de Relações Internacionais da Unesp-Franca, estando inclusive entre os melhores de sua respectiva sala. Foi também sempre engajado com as atividades de extensão oferecidas pela universidade, participando tanto da Orbe-Empresa Júnior de Relações Internacionais da Unesp-Franca, em seu 3º Setor, como da AIESEC, instituição pela qual realizará o intercâmbio. Aliás, viajar pelo mundo parece ser algo inerente à sua personalidade, pois já esteve nos Estados Unidos e na África do Sul, em outras oportunidades.

Após algumas postagens como leitor, Kita foi convidado, em julho deste ano, para fazer parte da galeria de colaboradores da Página Internacional. Sempre muito informado, ele elaborou posts de elevadíssima qualidade, abordando os mais diversos assuntos, com ênfase especial para a enorme relevância que adquiriu a questão ambiental nos últimos tempos - ademais, sua Tese de Conclusão de Curso (TCC) versou sobre a Amazônia.

E agora que a graduação chegou ao fim, suas escolhas como um graduado em Relações Internacionais o conduziram para Bursa, na Turquia, onde trabalhará temporariamente na prefeitura da cidade, com o projeto de Agenda-21 local. Assim, não teremos mais a sua contribuição regurlamente como colaborador do blog, algo que está mais do que justificado. E, para os que ficam, não há melhor hora do que esta para agradecê-lo por toda a ajuda prestada à Página Internacional e para lhe desejar toda a sorte do mundo nesta nova caminhada.

Kita, você sempre participou ativamente de todas as atividades do blog: trouxe novas idéias, perspectivas de parceria, ajudou nas entrevistas, sugeriu posts, etc.. Seremos sempre gratos pela grande honra de trabalhar com você e, mais do que isso, pela amizade. Você vai deixar muita saudade em todos nós que aqui ficamos, ao menos por enquanto. Concomitantemente, vai nos felicitar, pois temos a certeza de que o futuro lhe reserva um infindável sucesso. Agora, que é chegada a hora de sua partida, fique certo de que seus amigos e colaboradores da Página Internacional permanecerão na torcida. Que a sua luz guie seus passos entre as incertezas do amanhã e que a paz faça morada em seu espírito! Você é um vencedor e sempre carregue isto na sua alma.

Muito obrigado por tudo! Deixamos aqui uma singela homenagem de todos os colaboradores do blog para você, Kita.

"Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá..."

Um forte abraço!

Seu amigos,

Alcir, Ivan, Andrea, Adriana, Giovanni e Rafael.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Post do Leitor - Álvaro Panazzolo Neto

[Mais uma vez, o aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Álvaro Panazzolo Neto, nos brinda com um excelente post sobre o prognóstico da Rússia no cenário internacional. Lembrando a todos que o blog é aberto para quem quiser postar, basta nos enviar um e-mail com o post.]

Rússia: velha potência ou nova potencialidade?

Pensando-se na configuração do mundo após a Guerra Fria, a Rússia mostrou-se privada de seu epíteto de superpotência, em especial no âmbito militar. A situação era crítica no período posterior à queda do muro de Berlim, em que esta perdeu poder político e potencial tecnológico durante o caos em que se instalou um ambiente de corrupção e descrédito. Há sempre a falsa impressão de que ainda se trata de uma potência militar; entretanto, a Rússia não ostentaria tal pujança, escorando-se apenas na posse de aparatos nucleares – os quais não se podem considerar seguros ou bem armazenados/mantidos. As dificuldades em lidar com pequenos grupos como os chechenos e as dificuldades da campanha na Geórgia demonstrariam certo grau de obsolescência das forças, não apenas relativamente ao aparato e seu estado de conservação deplorável (exposto com a explosão de um arsenal), mas à doutrina de emprego e recrutamento do efetivo. Algo pior estaria ocorrendo na importação de material estrangeiro e na preferência à exportação de equipamento em detrimento ao fornecimento para as próprias forças armadas pelas empresas locais.

A Rússia teria deixado de ser uma superpotência? De fato, é o que indicam os fatos – se o foi considerada um dia o era pela sua proeminência militar. Hoje, nem isto lhe resta. Entretanto, almejaria retomar essa posição em um futuro próximo, através de ações nos campos interno e externo. Projetos energéticos ambiciosos, poderio militar renovado. A Rússia está ressurgindo no cenário internacional como potência, e pelas mãos de um governante nascido da Guerra Fria.

Se o caos foi precedido pelas reformas e engendrado pelo governo do finado Yeltsin, veio Putin, e com ele os ventos do renascimento. O ex-presidente, e agora Primeiro-Ministro, aparenta desenvolver um ambicioso plano de ressurgimento da Rússia no cenário internacional, possibilitado, é claro, pela sua participação no governo de maneira contínua. Colabora para isso a alta no preço do petróleo, que auxiliou na modernização, e o aparente controle ou supressão da cleptocracia que assombrava o governo. Medvedev, seu sucessor, apregoa que a Rússia necessita se modernizar para sobreviver, em que depende de superar uma economia primitiva. O ambicioso plano de modernização proposto pelo atual presidente planeja injetar alguns bilhões de euros em setores de tecnologia sensível, puxados pelo aumento planejado das encomendas para o setor militar. Condiz, portanto, com essa busca, em que visa à restituição das forças armadas russas como uma instituição reinventada e uma força a ser reconhecida, moderna e condizente aos desafios do século XXI como o terrorismo. Nesse sentido já houve reformas visando à maior autonomia de atuação do exército fora do país, afetando sua doutrina de emprego. As somas envolvidas são alimentadas pelos petrodólares e não se restringem ao melhoramento da própria Rússia, como na expansão de seus laços, como na recente abertura de uma fábrica de armas na Venezuela.

A Rússia busca ser uma novamente uma potência militar. Seria apenas um capricho pessoal de Putin ou o desejo profundo e incônscio de boa parte do povo russo que viveu como potência capaz de determinar os rumos da humanidade e agora se vê relegado a uma posição periférica? Existiria essa identificação com o projeto renovado da Grande Mãe-Rússia? A grande questão agora é entender se isso pode vir a ser entendido como uma ameaça real aos outros Estados em um futuro próximo. Talvez caiba o questionamento se a própria Rússia vai querer assumir esse posto e gerar atritos quando for necessário, ou se tal processo vai se estender além do setor militar, visando ao aproveitamento ótimo da economia e abundantes recursos naturais russos – área em que de fato nunca foi superpotência, e das quais dependeria para alcançar o posto de superpotência no mundo atual.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Entre a lança de Ares e o escudo de Atena


Mais de 2 mil após o fim da civilização grega, muitas vozes e lembranças dos gregos perduram nas odisséias de nossa era. Uma era de epopéias confusas, de cujos versos se retiraram a inspiração guerreira e orgulhosa e de heróis feitos de façanhas sem proeza. Na dança das gerações, o tempo, como uma imagem móvel da eternidade dos deuses, traz de volta à arena política contemporânea a violência imprevisível da lança de Ares contra a sábia justeza do escudo de sua meia-irmã, Atenas. Divididos entre a força e a sabedoria, os líderes mundiais e as suas respectivas nações enfrentam grandes desafios globais e particulares para escreverem o mito a ser narrado no futuro. Enumeremos três situações.

Que tal partirmos da iniciada Cúpula de Copenhague, do nosso tão preconizado futuro comum? Talvez, proteger as gerações futuras, contendo os danos antrópicos praticamente irreversíveis ao meio ambiente, já tenha deixado de ser sábio. A COP-15 está morrendo em seu nascedouro. Entretanto, do fracasso é preciso se encontrar o sucesso: produzir um novo Protocolo de Kyoto é completamente desnecessário, o ideal é abandonar a idéia da redução das emissões de gás carbônico e investir no desenvolvimento de alternativas energéticas, conforme um artigo recentemente publicado no Der Spiegel (aqui). Tamanha dimensão da persistência no erro da redução que atualmente um investimento de 53 bilhões de euros conteria o aquecimento global por apenas uma hora. Ares reina resoluto sobre o meio ambiente e guia o imaginário político egoístico de muitas lideranças mundiais; a China, por exemplo, descobriu uma maneira muito interessante de resolver a problemática ambiental: erguer muralhas. À José Simão, “É mole? É mole, mas sobe!”.

No Irã, Ares e Atena travam uma batalha épica. Todos sabem que o povo iraniano (ou irado, não é?!) está nas ruas desde junho, sobretudo, graças a inúmeros protestos encabeçados por estudantes. Se antes os motivos para o descontentamento eram os suspeitos resultados das eleições presidenciais, agora a educação se transformou no campo de batalha. De um lado, a intensa sede pelo conhecimento laico, de outro, a repressão (intelectual e física) sob o amparo do fundamentalismo religioso. Ora, para Khamenei, as ciências humanas são “instrumentos coloniais do Ocidente para conquistar mentes muçulmanas”. Novamente, o povo tem a chance de decidir nas ruas o destino do país, passando da revolta para a revolução. Novamente, as autoridades iranianas abandonam a misericórdia para com os manifestantes. O escudo para o povo, a lança para as autoridades.

Mal faz uma semana que o novo plano estratégico dos Estados Unidos para o Afeganistão foi aprovado e já podemos encontrar algumas repercussões. O general McChrystal quer a vitória por meio dessa estratégia; o Taleban quer apenas sobreviver, segundo Haji Abdullah, um líder local do grupo. Evidentemente, estamos no terreno das incongruências: ambos querem a lança de Ares e o escudo de Atena, algo bastante ambicioso. Os Estados Unidos primeiro ataca com a lança, extremamente convictos da capacidade de defesa de seu escudo, já os talebans defendem-se com o escudo e lançam ataques intermitentes contra os estrangeiros. Na ponta da lança norte-americana, brilha a democracia e os direitos humanos e o escudo é encouraçado pela posição de liderança mundial; na lança taleban cintila o heroísmo da soberania e o escudo é revestido pela simpatia popular. Os norte-americanos guerreiam confiantes e incertos (quanto tempo durará a guerra?) e os talebans voam como uma fênix da resistência em território afegão.

(Vejam também aqui um interessante artigo de Friedman sobre a campanha norte-americana no Afeganistão.)

Pois é, pessoal, na apoteose contemporânea da política mundial, Ares e Atena, deuses atemporais do passado, se apresentam como figuras indispensáveis. E, interessantemente, uma acompanha a outra, afinal são semi-irmãs. Os recursos à violência e à sabedoria, ora como os extremos, ora como os meios, são empregados recorrentemente nas relações internacionais, fazendo ecoar uma antiga lição de Maquiavel no espectro das lideranças mundiais: é preciso ser, simultaneamente, raposa para reconhecer as armadilhas e leão para assustar os lobos. A lança, o escudo ou os dois: uma escolha perene.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Podcast # 17 - Edição SUPER especial!

Quem disse que a gente esqueceu dos podcasts?!

E pra comemorar a volta deles, mais uma edição hiper especial. Desta vez, os nossos repórteres por um dia Giovanni Okado e Luís Felipe Kitamura entrevistaram o Prof. Dr. Héctor Luis Saint Pierre, uma das maiores autoridades em Defesa e Segurança no Brasil (vejam o currículo do Prof. Héctor aqui).

Acessem esta edição super especial AQUI.

O tema deste podcast é a interminável crise política em Honduras. Até agora, esse assunto deu o que falar no noticiário do mundo todo. Foi um golpe? A democracia é inevitável e está consolidada no imaginário político do país e da América Latina? O exemplo hondurenho poderia contagiar os seus vizinhos? Qual a postura diplomática adotada pelo Brasil? Ela é positiva? É possível se chegar a alguma solução definitiva?

São questões como essas que vocês, ouvintes e leitores diários, encontrarão nesta interessante entrevista com o professor Héctor. A Página Internacional gostaria de agradecê-lo imensamente pela contribuição prestada ao blog.

Quer baixar o arquivo? Clique aqui.

A volta dos que não foram

Putin: mais feliz do que nunca...

Ex-diretor da KGB (Serviço Secreto Soviético), ex-diretor de políticas externas do governo de Boris Iéltisin, ex-presidente da Rússia (2000-2008) e atualmente Primeiro Ministro russo. Influente, ativo politicamente, em boa forma e de pouca expressão emocional, Vladimir Putin é o tipo de político que não larga o osso.

O atual Premier russo participou nessa sexta de um programa de talk show em Moscou, respondeu perguntas dos telespectadores e se demonstrou bastante preocupado com a situação da população russa. Ao ser questionado sobre a possibilidade de se candidatar para as eleições em 2012, respondeu: Eu vou pensar nisso.

Vladimir Putin governou a Rússia com “mãos de ferro”, endureceu o relacionamento com países vizinhos, reformou a política interna do país e colocou em questão o regime democrático que afirmava governar o país.

Sua gestão como presidente foi marcada pela forte repressão aos rebeldes chechenos, que terminou no ataque terrorista a escola de Beslan (com a morte de 186 crianças); limitou a liberdade de imprensa impondo uma censura que controlava os meios de informação dentro do país (coincidência ou não, durante seu termo, 13 jornalistas ‘morreram’ em circunstâncias um tanto duvidosas – deixo ao leitor a interpretação desse fato); expulsou diversas ONGs Internacionais de Direitos Humanos do país, como a Anistia Internacional, sobre a alegação de que haviam perdido a licença para atuarem no país.

Ainda sim, o presidente teve sua reeleição para o segundo mandato (2004-2008) com cerca de 70% de aprovação entre os eleitores. Teve pontos fortes em seu governo, como a recuperação da economia russa, em crise profunda desde o final da guerra fria, permitindo um crescimento que chegou aos 10% anuais; colocou a reforma do sistema de saúde russo como prioridade em seu segundo mandato; foi um dos países que se opuseram à invasão do Iraque em 2003 perante o Conselho de Segurança da ONU; determinou o apoio russo ao Irã na produção de energia nuclear com fins pacíficos, fez uma visita ao país em 2007, o que mostrou um posicionamento frente aos interesses norte-americanos.

Após sua presidência, por impossibilidade de reeleição pela terceira vez, Putin apoiou seu aliado Dmitri Medvedev, que por sua vez nomeou-o para sua atual posição de primeiro ministro. Durante o atual governo, o ex-presidente se mostrou extremamente influente e ativo na política, levando muitos a questionar a autonomia de decisões de Medvedev. Quando o atual presidente reformou o tempo de mandato de 4 anos para 6 anos, logo no início de sua gestão, críticos viram uma manobra política arquitetada por Putin para se assegurar por maior tempo no poder.


Experiente politicamente, influente na sociedade russa, poderoso e intimidador, Vladimir Putin é o típico político maquiavélico, aquele que sabe muito bem aproveitar seus recursos disponíveis para atingir seus fins e, mais do que nunca, aprendeu desde cedo que é melhor ser temido por todos que amado por muitos.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Robotizando


Todos viram a visita de Obama a China. Gafes, programação, cerimonial levado às últimas conseqüências. O presidente popstar chegou com promessas de abordar assuntos tabu, mas foi Pequim que chegou na frente. O ganhador do Nobel da Paz conseguiu citar apenas uma vez a questão da liberdade, ponto-chave da diplomacia americana.

"As liberdades de expressão, culto e o acesso à informação são, em nossa opinião, direitos universais. Estes deveriam estar ao alcance de todos, incluindo as minorias étnicas e religiosas, seja nos Estados Unidos, na China, ou em qualquer outro país". E foi isso.

Os símbolos que cercaram o encontro demonstram claramente que dessa vez os chineses largaram na frente (de novo). Nada de perguntas para repórteres, estudantes chineses da juventude comunista com perguntas preparadas, discursos previamente avaliados, censura a jornais alternativos que conseguiram entrevista com o presidente americano. Tudo muito orquestrado no outro lado do mundo.

Em outa perspectiva, Obama também forneceu uma verdadeira coletânea de declarações exaltando a magnificência do governo chinês. As relações entre Pequim e Washington podem levariam a um mundo mais "próspero e pacífico", e a rivalidade entre ambos não pode existir.

Ora, a pouco tempo perguntava-se como será o relacionamento de uma China em ascensão com a atual superpotência, os Estados Unidos. Conflito? Adaptação? Os acontecimentos apontam uma geopolítica mundial que girará em torno da relação entre China e América. Uma guerra parece pouquíssimo provável. Apesar do grande investimento militar de Pequim, somente demonstrariam alguma intenção nesse sentido caso aumentem sua capacidade marítima, já que os EUA são uma grande potência naval. Ainda assim, em médio prazo, ainda há a questão do expressivo(íssimo) mercado americano. Nada de conflito por um bom tempo.

Nessa visita, Obama deu à China uma coleção de depoimentos positivos sobre o país. Quase nada se falou em liberdade e democracia num encontro milimetricamente calculado. Se ainda é cedo para se pensar nos EUA perdendo o trono, em se tratando de discursos, ao menos, parece que já temos algum desequilíbrio na balança do poder mundial.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Climate Gate: o IPCC sob suspeita

Aquecimento Global: Mito ou realidade científica?

Faltam dois dias para o começo da COP-15, em Copenhague. Do dia 7 ao dia 18 de dezembro, inúmeros representantes dos Estados tentarão alcançar um acordo abrangente para o clima, em substituição ao combalido Protocolo de Kyoto.

Neste contexto, o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) - ganhador do Nobel da Paz em 2007 - é uma das instuições de maior prestígio na temática ambiental. O IPCC é composto por cientistas e delegados de 130 países, parte do sistema das Nações Unidas (ONU). Anualmente, o órgão divulga relatórios sobre o aquecimento global. Estes estudos tem sido um dos principais subsídios para a formulação e negociação de políticas para mitigar os efeitos advindos das alterações no clima.

Desde sua fundação, em 1988, os cientistas do IPCC tomam como principal hipótese o nexo causal entre à ação humana e a mudança climática, em especial devido a emissão de dióxido de carbono, óxido nitroso e metano. Não há ainda comprovação desta hipótese. Contudo, os estudos publicados e analisados possibilitaram o órgão a qualificá-la como muito provável (66% de certeza, de acordo com o relatório d0 IPCC de 2001). Assim, tornou-se quase que consensual a conclusão de que a ação humana é provavelmente a principal responsável pelo aquecimento global das últimas décadas, trazendo como consequências a elevação da temperatura dos oceanos, a alteração das corrente marítimas, eventos climáticos extremos, variações no padrão dos ventos, entre outras.

Sua imagem de credor da hipótese consensual corrente para as mudanças climáticas sofreu uma arranhão com a divulgação do que passou a ser denominado como "Climate Gate". Um grupo de hackers divulgou uma série de e-mail trocados entre cientistas (também membros do IPCC) de um prestigiado Centro de Pesquisa do Clima, localizado na Universidade de East Anglia (Reino Unido). Nestas correspondências, surgiram indícios de manipulação ou supressão dados concernentes aos modelos aplicados a pesquisa e construção de cenários em mudanças climáticas. O período investigado é de 13 anos, o que coloca sob suspeita a veracidade dos relatórios e pesquisas divulgados sobre as mudanças climáticas.

Houve revolta da comunidade cientítica. Segundo Juan de Marianna, professor da Universidade Rey Juan Carlos:

"É um caso claro de corrupção científica. A opinião pública foi enganada, o que não implica que não haja aquecimento e que outros cientistas sérios possam ter razão. Mas cai a versão mais alarmista da mudança climática, a que oculta que nos últimos 11 anos não houve crescimento e a do gráfico do taco de hóquei", referindo-se ao famoso esquema que mostra um drástico aumento da temperatura atual em relação aos últimos séculos, o que lhe dá a forma de taco de hóquei" [UOL - Notícias Internacionais]

Por outro lado, outros cientistas sairam em defesa dos acusados, como Jens Hesselbjerg Christensen:

"Os e-mails mostram conversas muito pessoais, como as que poderíamos ter, talvez de forma mais prudente, em um bar. É normal que os colegas falem mal de outros. Assim é a vida", escreve em uma mensagem eletrônica" [UOL - Notícias Internacionais]

Independente do contexto e da intenção das mensagens, o fato é que o "Climate Gate" pode ser um grande entrave as negociações em Copenhague, uma vez que fornece novos subsídios para os eco-cétidos negarem a ligação entre a atividade humana e o aquecimento global. Os cientistas britânicos, mesmo que talvez inocentemente, podem ter colocado muito a perder. Nenhum âmbito de atuação profissional está livre de condutas anti-éticas, o IPCC, infelizmente, é parte da desta lógica.

A metodologia empregada pelo IPCC, de acordo com seu presidente (o indiano Rajendra Pachauri), blinda os relatórios contra procedimentos científicos pouco apropriados, uma vez que cada rascunho passa pela revisão de outros cientistas do órgão. As hipóteses levantadas ao longo das últimas décadas ainda se sustentam, ainda que o caso retome os velhos questionamentos e afirmações de sempre. Pelo jeito, os céticos terão espaço para sustentar que os cientistas querem causar medo na população, que o aquecimento global não está acontecendo e que, por tudo isso, não existe necessidade de adaptar padrões de consumo e matrizes energéticas.

Por mais que tente se justificar, o IPCC entrou em uma grande cilada, no pior momento que seria possível. Mesmo que se comprove como inverídica ou fruto da conspiração dos cétidos, o estrago já está feito.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Eternos entraves...




Na última semana o congelamento da construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia marcou a tentativa de retomada de negociação do processo de paz para a região. A medida promulgada por Israel congela a construção de novos assentamentos pelo período de 10 meses, primeiramente, com o intuito de buscar uma contrapartida por parte da Autoridade Nacional da Palestina.

Por outro lado, o presidente da ANP, Mahamoud Abbas não crê que tal atitude seja suficiente, e teme como ocorrido em outras vezes que em pouco tempo a situação desande novamente. Abbas demanda o congelamento total da expansão dos assentamentos.

Israel iniciou o ano com planos de construção de cerca de 900 novas residências aos redores de Jerusalém. Devido a essa atitude, foi duramente criticada não só pelos palestinos, mas como também pela comunidade internacional e seu principal aliado, os Estados Unidos. É dessa forma que a gestão de Obama tem pressionado os israelenses por um maior comprometimento com as negociações de paz na região. Apesar disso, o governo israelense tenta diminuir a situação, colocando-a à margem das discussões, como alega o próprio presidente, Shimon Peres.

Após uma constante cobrança do governo de Israel por parte dos Estados Unidos, o congelamento da construção dos assentamentos vem como um resultado para reiniciar algum processo de negociação.

De fato, a movimentação de Israel até o momento tem se mostrado bastante tímida. Para um país que a mais de 50 anos vem expandindo território adentro da Cisjordânia, o simples congelamento sobre período determinado é com certeza jogar migalhas aos palestinos. Após tanto tempo de conflitos, sucessos e retrocessos, podemos dizer que confiança não é o sentimento que as duas partes sentem que foi mais desenvolvido ao longo dos anos. E assim, a ANP espera passos mais largos de um país que tem pernas certamente mais longas do que aparenta.

Segundo o presidente Abbas, apenas os Estados Unidos tem condições de demandar atitudes mais concretas de Israel. Assim espera da mesma forma uma atitude mais decisiva do presidente norte-americano.


Atualmente cerca de 500 mil judeus vivem em assentamentos na Cisjordânia, parte destes localizados aos arredores de Jerusalém. Esse seria justamente o território que os palestinos reivindicam para se tornar seu Estado.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Iraque está no YouTube!

Saiu semana passada no blog do Google que o governo do Iraque agora tem um canal oficial no YouTube! Não só eles abriram esse canal, como o CEO do Google foi ao Iraque conversar pessoalmente com Nuri al-Maliki e discutir o papel da tecnologia no desenvolvimento do país!

É no mínimo estranho ouvir um CEO de uma empresa dizer que está ajudando a trazer a democracia para um país por meio de uma empresa. Ainda mais quando ele veio (com tudo pago) na carvana do Departamento de Estado dos EUA.

Para tornar as coisas ainda mais "revolucionárias", apenas 1% da população Iraquiana tem acesso à web, e consequentemente à esse novo meio de dissipação da democracia! Será que eles não encontraram nenhuma solução paliativa mais midiática do que essa?

Sejamos sinceros, quando foi a última vez que ouviram falar desse primeiro-ministro do Iraque? É óbvio que ele apenas está no poder pois acredita na parceria com os EUA e que o modelo de democracia proposto irá levar o Iraque ao desenvolvimento (leia-se: escudeiro dos EUA). Não há sombra de dúvidas que um canal do Youtube em um país que quase ninguém acessa a internet vá ampliar a legitimidade e a transparência desse governo de fachada!

Melhor seria se o "governo" iraquiano só fizesse anúncios oficiais quando realmente obtiver avanços relativos a sua transparência e legimidade, ao invés de continuar realizando iniciativas pitorescas de "aproximação com o ocidente".

Não duvidaria nada se o Obama pagasse uma viagem pro pessoal do Starbucks levar a "democracia alimentar" no Afeganistão...