sábado, 31 de outubro de 2009

O Empreendedorismo Social – Parte 2 (Saúde)

Em meados da década de 1980, a cada ano morriam cerca de 14 milhões de crianças menores de 5 anos. A maior parte dos óbitos era relacionada a doenças como diarréia; desnutrição; pneumonia; e outras enfermidades que uma simples vacinação poderia evitar maiores complicações. Assim, o quadro mostrava-se reversível através de medidas preventivas relativamente simples e baratas.

Um exemplo disso é o tratamento desenvolvido, na década de 1970, para a diarréia – que provocava 5 milhões de mortes anualmente. Pesquisadores descobriram que uma solução de água, sal e açúcar auxiliava na retenção de fluidos e sais minerais, o que possibilitou a diminuição em mais de 50% das mortes por desidratação decorrentes da diarréia. Não havia a necessidade de grandes infra-estruturas ou equipamentos para evitar milhões de mortes todos os anos. Na verdade, o custo desses kits de hidratação ficava em centavos.

James Grant, norte-americano, assumiu a diretoria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para as crianças) e deu início a uma vigorosa estratégia de combate ao que chamou de “emergência global silenciosa”. Fazia referência justamente aos óbitos de crianças fruto de doenças que poderiam ser facilmente tratadas ou prevenidas. No início foram grandes as resistências dentro da Unicef, à medida que Grant promoveu uma completa mudança no modus operanti da organização, passando do simples apoio a campanhas e projetos para a execução direta de iniciativas. Dessa maneira, eram utilizados o prestígio, o reconhecimento global, a neutralidade política e a influência moral das Nações Unidas (ONU), que acabaram sendo fundamentais para consubstanciar tais iniciativas.

O final de 1982 marcou o início da jornada, com o lançamento da estratégia inicial do planejamento de Grant no comando da Unicef, era a GOFI. Fazia referência a quatro ações: o acompanhamento do crescimento, a reidratação, a amamentação e a imunização. Logo foram acrescentadas mais três ações: a suplementação alimentar, o planejamento familiar e a educação das mulheres. A estratégia de Grant foi severamente criticada, mesmo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que defendia a mudança do quadro mediante a uma reestruturação mais abrangente da assistência médica. O trabalho da Unicef não parou; a situação das crianças dos países em desenvolvimento exigia uma ação imediata. Aos poucos, a organização construiu uma sólida base de apoio, através do incansável trabalho da equipe de Grant, junto a organizações civis; lideranças políticas e religiosas; e empresários. Eventualmente, mesmo a OMS engajou-se nas iniciativas da Unicef.

Os resultados foram surpreendentes, no início da década de 1990, dados apontavam que, por exemplo, a imunização atingia 80% da população dos países em desenvolvimento, antes não alcançava 20%. Outra proposta de Grant foi uma reunião na sede da ONU, em Nova Iorque, com os chefes de Estado para discutir a situação das crianças no mundo – nunca as Nações Unidas haviam proposto um encontro com todas as lideranças mundiais. Nem mesmo os membros da Unicef acreditavam na idéia de Grant. A World Summit for Children (Reunião Mundial para as Crianças – em tradução livre) terminou acontecendo, em 1990, sendo a maior reunião já realizada em âmbito da ONU para se discutir um único assunto, com a presença de 71 chefes de Estado. Desse encontro, surgiu a Convenção dos Direitos da Criança, ratificada por todas as nações presentes, menos Estados Unidos e Sudão.

O exemplo utilizado evidencia dois fatos. O primeiro é o potencial de ação das agências das Nações Unidas – que possuem grande poder de mobilização seja moral, econômico ou político. Em segundo lugar as características que promovem o sucesso de iniciativas sociais: o forte referente ético; a constante disposição a corrigir estratégias para vencer obstáculos; a abertura a mudanças em estruturas previamente empregadas; e a busca pela colaboração – por vezes multidisciplinar. Tantos outros são os exemplos de empreendedores sociais no campo da saúde, mas é inegável o potencial para a mudança advinda da soma de uma vontade e disposição inquebrável (personificada pelo empreendedor social) a uma organização descentralizada de alcance e influência capazes de gerar efetivas alterações junto à comunidade internacional, como no caso tratado.

Fonte: Como mudar o mundo: empreendedores sociais e o poder das novas idéias - David Bornstein (Editora Record)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Nada mudou

Quanta ironia no caso de Honduras. Finalmente se chegou a um acordo (veja os principais pontos aqui). Em suma: não haverá mais reforma da constituição e o Congresso e a Suprema Corte vão decidir o destino do Zelaya.

Pra quem não se lembra, o estopim da crise foi o fato de o presidente Zelaya ter contrariado o Congresso e a Suprema Corte por conta de uma reforma constitucional que, acredita-se, seria para que ele pudesse se reeleger.

Golpe ou destituição? Não vou entrar nesse mérito. O fato é que, depois de todo o rolo, o que o Zelaya conseguiu? Conseguiu não fazer a reforma que queria e, de quebra, ainda ter de aceitar o poder do Congresso e da Suprema Corte em selar seu destino.

Em condições normais, um presidente respeitar a constituição (no caso da hondurenha tentar se reeleger é desrespeitá-la),a Suprema Corte e a ordem jurídica estabelecida é condição normal de um regime democrático.

Zelaya desafiou isso tudo e acabou, no fim das contas, tendo de aceitar a lei. A oposição desafiou a memória coletiva ao dar um golpe branco 'democrático' no país. No fim das contas, vai ter de aceitar o presidente eleito.

Não vejo nenhuma saída mais democrática.

Portanto, essa crise de Honduras deixou um recado claro para os países da América Latina: não adianta querer tirar presidente eleito do poder no meio da madrugada de pijama com uma garrucha na orelha. Para os presidentes saidinhos, nem vem que não tem, democracia é aceitar as regras do jogo e não desafiar os poderes estabelecidos. Se não quer, fique em casa e não entre para a política.

Mas o que saiu mais queimado nessa história foi o Brasil.


Entrou no olho do furacão, deixou o Zelaya deitar e rolar na embaixada e fazer uso político dela. Foi acusado de ingerência, prepotência e tudo mais. E no fim, o que conseguiu? Perdeu toda a legitimidade que tinha para tentar mediar a crise, uma vez que o governo interino não aceitou o Brasil nas conversas.

E aí? E aí que o mundo é dos espertos. Os Estados Unidos foram lá e resolveram o problema! Costuraram um acordo que levou a uma saída democrática, mandaram o recado para os outros e, de quebra, ainda se reaproximaram da América Latina, tentando desconstruir a imagem de um financiador de golpes e ditaduras para um restaurador da ordem democrática. Ainda vão acompanhar as eleições em novembro, mantendo a posição que tinham em Honduras (aliado histórico) antes do rolo.

O Brasil não poderia ter se saído pior. Mais uma trapalhada da nossa Política Externa Independente new age da liga do sul. Quero só ver quem é que vai respeitar agora.

Mas o pior mesmo vai ser ouvir daqui uns dias o governo dizendo que seu papel foi preponderante para a restauração da ordem em Honduras. Se bem que, façamos justiça, se Zelaya estivesse fora do país talvez não tivesse havido acordo. Mas os fins não justificam os meios. O que foi feito com a embaixada e a 'atuação' nada precisa do Brasil só causou problemas.

Conclusão: Zelaya vai continuar presidente, sem direito à reeleição, submetido às leis e à constituição e o Brasil continua queimado em termos de política externa.

Nada mudou.

Nas mãos do Paraguai

[Post rápido, mais tarde eu volto pra tratar do acordo em Honduras]

A Comissão de Assuntos exteriores do Senado brasileiro aprovou ontem, com ampla maioria -ao contrário do que se pensava - a entrada da Venezuela no Mercosul.

Teoricamente, o plenário da Casa ainda pode barrar a entrada do país no bloco. No entanto, é muito improvável que o governo não consiga o quórum mínimo na sessão e uma maioria simples. Ou seja, a Venezuela está a um passo do Mercosul.

Mas esse passo não é a aprovação do Brasil, que já é certa, mas a do Paraguai. Pelas regras do bloco, todos os países membros precisam aprovar a entrada de um novo sócio. O único que ainda não votou em definitivo é o Paraguai.

Sinceramente, não estou muito interado da situação interna por lá. Mas é sabido que o governo do ex-bispo Fernando Lugo vem enfrentando grande oposição (de verdade, ao contrário do Brasil), sobretudo no congresso, que é quem vai votar a medida.

Mesmo assim, o governo Lugo tem fortes laços políticos e ideológicos com o governo Chávez, então, é provável que exerça alguma pressão na votação.

E não sejamos ingênuos de achar que, por trás dos panos, Brasil, Argentina e a própria Venezuela não estão pressionando...

O cenário está mais provável para a entrada da Venezuela, mas a decisão final está nas mãos dos congressistas paraguaios.

Por fim, sugiro a leitura do artigo "Venezuela no Mercosul: lamentável fato consumado" de Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil na OMC.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De volta aos saudosos tempos da espionagem!

Foi revelado que Ahmed Wali Karzai, irmão do atual presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, está há anos recebendo pagamentos da CIA, a agência de inteligência estado-unidense. Não só para a obtenção de informações, mas diz-se que Ahmed também recrutava milicianos para compor forças para-militares anti-Taleban na província de Kandahar no Afeganisão, uma força que poderia usar de métodos "menos éticos", já que não era oficial.

Pra complicar ainda mais a questão, o indivíduo ainda estaria fortemente ligado ao tráfico de ópio da região, que é a principal fonte de recursos do Taleban. Malandro como todo informante bem-remunerado, já negou veemente a história.

Devem estar pensando - pera aí, os EUA pagavam um traficante, irmão do presidente que vive em um caos político, para recrutar para-militares anti-Taleban? Sim, é assim que funciona a espionagem dos EUA! Ações sem sentido legitimadas por diretrizes não melhor elaboradas!

Como será que são as reuniões em que se decidem esse tipo de iniciativa? Como eles pensaram que uma pessoa desse tipo nunca fosse vazar informações? Isso se complica quando levamos em consideração, com total certeza, de que há muito mais pessoas de "baixa índole" na folha de pagamentos da CIA, FBI, ASN, etc.

É como se tivéssemos voltado à Guerra Fria, com aquele número expressivo de informantes das mais diferentes origens que repassavam informações conflituosas para ambas as partes, que em vez de trazer segurança para o processo de tomada de decisão, só acabavam por trazer medo e paranóia aos órgãos de segurança nacional.

Devemos lembrar que nosso querido presidente Obamenon sempre afirmou que seu governo seria diferente no que é relativo a espionagem e etc... Mas é muito difícil um presidente modificar em 180 graus toda uma tendência na Segurança e Defesa de um país, o que piora quando tratamos do principal vilão do século XXI, o TERRORISMO! Tudo em nome ao combate ao TERRORISMO! Sim, aquela ameaça que mata menos que a fome, várias doenças que já tem cura, etc...

Com esse bicho-papão no armário de todos os políticos americanos (e de seus eleitores), infelizmente esse tipo de bizarrice continuará a ocorrer. As políticas de perpetuação do medo continuarão (pois trazem resultado) e os informantes que forem espertos continuarão sendo pagos. Não importa o que Obama - supostamente - faça.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Post do leitor - Raphael Camargo Lima

[Pessoal, o post abaixo foi enviado hoje pelo leitor Raphael Camargo Lima, do 2° ano de RI da UNESP - Franca. Acompanhem a interessante leitura!]

O Problema da Guerra e o Nobel da Paz

Obaminha paz e amor

Seriam as motivações de um governante o suficiente para garantirem-lhe credibilidade perante a comunidade internacional? Teriam importância todos os discursos emancipatórios contra a prática da guerra quando acompanhados da inação? No próprio campo acadêmico das Relações Internacionais, alguns autores clássicos buscaram a resposta para essa questão, como Hans Morgenthau em sua seminal obra “A Política entre as Nações”. O autor acreditava que a política deveria ser entendida por meio das ações dos estadistas, e que cometiam falácias todos aqueles analistas que buscavam interpretá-la por meio das motivações dos atores. Bom, no campo teórico isso faz muito sentido, mas no campo da prática as coisas parecem ser um pouco diferentes e aparentemente envolvem algumas outras variáveis, principalmente quando se trata de nosso Tio Sam.

Recentemente o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama foi contemplado com o prêmio Nobel da Paz, posto assim, no mesmo patamar de grandes ativistas pela paz como Kofi Annan, Jimmy Carter, os Médicos Sem Fronteiras e outros muitos militantes da paz e dos direitos humanos. Agora convenhamos, o que realmente foi feito por Obama em prol da paz? O único avanço concreto fora o decreto para o fechamento da prisão de Guantánamo no início desse ano.

Mas todas aquelas conjecturas sobre guerra, muito bem concebidas, que se configuraram como promessas símbolo de sua campanha, como a retirada das tropas do Afeganistão e Iraque, ainda permanecem no plano das idéias, sem jamais ter se consolidado inteiramente. Discussões foram iniciadas, claro, mas o impasse interno sobre o aumento de tropas é tão evidente, que não se pode prospectar o fim dessas guerras. Em contrapartida deve-se entender também as dificuldades de realizar tais feitos, uma vez que um governo não se constitui unicamente pelo seu chefe de Estado e Governo, o que garante suma relevância a outros fatores chave como bases parlamentares e a viabilidade de se realizar esses projetos.

Existe, portanto a pressão interna para que a Guerra do Afeganistão não se torne um novo Vietnã. Ademais do orgulho que rega a questão da retirada das tropas, coexistem também, percepções diferenciadas sobre essas guerras dentro do próprio governo e dessa forma configuram-se diferentes lobbies sobre o tema. O comandante de operações no Afeganistão, Stanley A. Mc Chrystal, por exemplo, é o maior pivô nas pressões para um aumento de contingente nessa guerra, afirmando que o presidente deve fazer o que for preciso para por um fim a essa guerra. Para clarificar um pouco mais a situação, podemos ter em vista também que somente uma minoria da população apóia essas guerras. Em recente pesquisa de opinião nos EUA publicada pela folha online no dia 26/10/2009, é apontado que somente 26% da população apóia o envio de mais tropas ao Afeganistão. Assim, Obama encontra-se posicionado no olho de um furacão de grupos de pressão e lobbies.

Não se pode muito prever quais as direções que a guerra e o governo Obama irão tomar e nem será de grande valia filosofias sobre os valores por trás desses eventos. Todavia pode-se com certo êxito notar um conjunto de contradições entre o discurso de Barack Obama e as operações no Oriente Médio. A ironia reside no fato de que no mesmo momento histórico em que o governo estadunidense discute o envio de mais tropas para o Afeganistão, Obama é considerado o mais novo arauto da paz. Haveria uma lógica implícita nisso?

Talvez seja esse o ponto seminal, a pedra basilar da compreensão desse inusitado evento. Um prêmio dessa magnitude tem um significado muito mais subjetivo do que objetivo. Ou seja, serve como forma de urgir os policymakers estadunidenses a tomar posições mais condizentes com os discursos proferidos, em direção do fim da guerra. Mas esse trabalho deve ser realizado com certa prudência e rapidez, antes que o governo do partido democrata caia em descrédito e acabe sem base parlamentar nas próximas eleições do congresso em 2010. O Nobel da Paz é um depósito de confiança no discurso de Obama e uma exigência de accountability vertical da sociedade internacional.

Se foram esses os reais motivos da comunidade internacional ao conceder esse prêmio, jamais teremos conhecimento. Sejam quais forem os motivos esperamos observar os efeitos em curto prazo. Acredita-se, assim, que nesse conturbado novo milênio as vias de paz podem ser diferenciadas e as motivações dos atores possam significar algo a mais. Se o Nobel de Paz será uma dessas novas vias de paz, somente o tempo dirá. . .

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Iraque, que ira, queira?

Só pelos últimos acontecimentos, poder-se-ia produzir mais uma aula de biologia no Oriente Médio, mas vamos mudar de matéria, fiquemos nas Relações Internacionais por hoje e, mais especificamente, concentremo-nos naquilo que engendrou a disciplina no alvorecer do século XX: a antinomia guerra e paz. Evidentemente, ressalta-se que os conceitos também sofrem a ação do tempo: da Primeira Guerra Mundial aos atuais grupos terroristas, muita coisa mudou no modo de guerra e, por conseguinte, nas perspectivas para a paz.

Que tal um anagrama? Vamos jogar com as palavras. O país é o Iraque. A atual guerra no país incita a pergunta: que ira? Ira para com as tropas norte-americanas, a corrupta administração iraquiana, os países estrangeiros que financiam os insurgentes terroristas, o fanatismo, o extremismo, o xenofobismo? Na junção das palavras da primeira pergunta, temos uma nova: queira. Pois é, queira o Iraque ser Iraque novamente, isto é, ser um país.

Outubro está quase indo embora, mas o Dia das Crianças perdura. As brincadeiras continuam, só que estão perdendo a graça. Como ainda não inventaram o Dia dos Adultos, eles o roubam das crianças, ou agem para relembrar os velhos tempos de infância. Desta vez, dois carros-bomba explodiram no Iraque, matando mais de 150 pessoas. Foi o pior atentado dos últimos dois anos. Uma tragédia! Isto porque o país estava ficando mais seguro (confiram esta interessante matéria), mas resolveram pentelhar. E quem foi responsável por tal ato?

Até agora, ninguém assumiu a autoria. Uns dizem que foi a Al Qaeda ou partidários do partido Baath, do ex-ditador Saddam Hussein, outros incriminam o suporte dado ao terrorismo pelo Irã, Arábia Saudita e Síria. O fato é: inventou-se uma nova concepção de guerra, não mais travada por exércitos regulares em campos opostos, mas batalhas entre inimigos sem faces, lutando até mesmo de modo precário e fazendo do corpo uma arma mortífera. Se Clausewitz outrora argumentou que a guerra era “a continuação da política por outros meios”, hoje o terrorismo se apropria desse mote. A disseminação do terror e da violência tem um propósito, embora os meios empregados sejam repugnantes.

E o arauto da paz, Barack Obama, o que disse? Que as bombas são inaceitáveis e, é claro, que atrapalham o progresso iraquiano. Ademais, os atentados sobrelevam a fragilidade do governo do país em garantir o monopólio legítimo do uso da força (conceito weberiano) e, conseqüentemente, zelar pela segurança de seus cidadãos. E é bom o Iraque ficar esperto, pois o prazo para a presença das tropas norte-americanas está expirando: uma Copa do Mundo, uma Olimpíada e adeus!

Aliás, pode-se até questionar o quanto os Estados Unidos estão ajudando o Iraque, ontem mesmo, o governo iraquiano solicitou a ajuda da ONU para investigar quais os países estrangeiros estão dando apoio aos insurgentes internos. Apenas para recordarmos: já que Saddam Hussein não dispunha de armas de destruição em massa, a alegação para sustentar a atual guerra no Iraque foi a prevenção e a necessidade de instaurar um regime democrático no país. Ora, guerras preventivas – ou seja, agir antes que o inimigo o faça – não são novas na história da humanidade e as mentiras também não. Da mesma forma, há aqueles que argumentam que a democracia é um imperativo para a paz. Dançam os conceitos no ritmo do tempo.

O Iraque trava agora a sua batalha para desfazer o anagrama e construir a paz sobre os escombros da guerra. E, decerto, como conclusão deste post, poderíamos extrair as considerações finais do livro de Luigi Bonanate intitulado A Guerra: “Qual país nasceu pacificamente? E, se são várias as concessões exigidas pela paz, o resultado então será a guerra.”

sábado, 24 de outubro de 2009

Milícias Bolivarianas

[Post rápido e sem muita inspiração...]

Mais um passo rumo à Revolução Bolivariana.

Nesta quarta-feira, Chávez editou a Lei Orgânica da Força Armada Nacional que legaliza as milícias civis bolivarianas.

O engraçado é que essas forças se destinam a complementar a Força Armada Nacional que, inclusive, agora tem outro nome: Força Armada Nacional Bolivariana.

Mas não é mais lógico melhorar o próprio exército nacional?

Pois é. Mais uma vez as bases do Estado Moderno estão sendo desafiadas mundo afora. O monopólio do uso legítimo da força na Venezuela passa a ser um duopólio.

Chavez acaba de criar um 'novo exército' que, certamente, será fiel somente à sua figura. Isto porque essa força paralela será composta pelos militantes bolivarianos. Assim, na Venezuela, a força e as armas não estarão mais em só uma mão.

Aliás, o próprio Chávez tem dito que agora quem quiser poderá ser militar. E quem será que vai querer ser membro dessa nova força armada? Os opositores? Certamente que não...

Esta medida cria algo que se parece, e muito, com a Guarda Revolucionária do Irã. Esta força de elite, naquele país, é submetida diretamente ao Aiatolá e tem a função de proteger o Estado Revolucionário Iraniano de qualquer mudança. Tanto que foi a Guarda Revolucionária que manteve a 'ordem' no país durante os protestos contra fraudes nas últimas eleições presidenciais.

É óbvio demais para mim que esta força civil criada por Chávez é mais um instrumento político para manter a revolução que ele criou. Nem o mais cândido dos ingênuos, como diria o ministro Gilmar Mendes, acreditaria que ela se destina a complementar a defesa e a segurança nacional...

É uma boa desculpa para se entregar mais armas aos militantes revolucionários civis.

Acessem!


[Indicação de site]

Pessoal, estamos divulgando a nova página do GEDES - Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional.

Clique aqui para acessar.

É um excelente site, repleto de ótimas leituras para aqueles que pretendem se aprofundar em muitos dos assuntos que são discutidos aqui no blog.

Vale a pena!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O empreendedorismo social – PARTE 1

Primeiro, vamos às definições:

Empreendedorismo social trata de abordar de forma inovadora, prática e sustentável os problemas da sociedade, enfocando os marginalizados e os mais carentes. É um termo que captura o valor único dessa abordagem para temáticas sociais e econômicas, que vai além da divisão de disciplinas e temas, pautando-se em valores e práticas comuns aos empreendedores sociais, independente da área de atuação.” (Fundação Schwab – Suíça)

Empreendedor social é aquele que promove mudanças que servem à comunidade por meio da identificação de novos processos, serviços e produtos, criando uma nova maneira novas formas de sustentabilidade e replicabilidade da atividade e/ou soluções encontrada. (Klaus Schwab, Fundação Schwab – Suíça)”

A partir do final do século XX uma situação paradoxal formalizou-se. O capitalismo moderno e a aplicação das teorias neoliberais levaram a duas realidades opostas. De um lado, avanços tecnológicos, das informações e do conhecimento; os quais ensejaram oportunidades maiores que em qualquer outra época da história da humanidade. Por outro lado, é crescente o número de regiões que apresentam níveis humanos e sociais, em termos de bem-estar, entre os mais baixos também de nossa história. A valoração produtiva do sistema em prática funciona como um catalisador desses impactos, promovendo o crescimento econômico sem a contrapartida de políticas eficientes para lidar com os que não conseguem se inserir nessa dinâmica.

O tratamento à pobreza já atravessou diversas etapas – faço referência a definição do professor Edson Oliveira – a era da ajuda pela ajuda, típica da pré-história; a era da caridade, da época dos grandes impérios, pautava-se na influência religiosa e política da Igreja; a era da filantropia, prenúncio da passagem ao modelo capitalista e seus inerentes efeitos sociais; e por último a era das políticas sociais, essencialmente do pós 2ª Guerra Mundial, o Estado tomava a questão social como sua responsabilidade – em seus tempos áureos surgiu a concepção de Estado de Bem-Estar Social. A evolução dessa temática evidencia que a pobreza, assim como outras temáticas sociais, não pode mais ser tratada como questão de filantropia ou caridade, à medida que tais medidas não fornecem elementos para a superação dessas realidades, mas, em realidade, promovem a sua perpetuação. Frente a ineficiência estatal, iniciativas da sociedade civil cresceram e, eventualmente, angariaram o apoio do Estado.

Grande atenção sempre receberam os empreendedores de negócios, em especial a partir da segunda metade do século XX. São diversos os estudos que procuraram identificar seus valores pessoais, auto-controle e orientação para o risco, para assim traçar paralelos entre a mudança e o perfil dos empreendedores. Padrões foram identificados e viraram prática, em esferas privadas e públicas. Neste ínterim, diversas iniciativas surgiram para enfrentar desafios sociais – muitas das quais levaram a grandes mudanças no tratamento médico, no sistema de ensino, na preservação ambiental, nos direitos humanos. As denominações utilizadas, de filantropo a caridoso, não compreendem suas atuações por completo. Citando outro autor, David Bornstein: “as teorias de mudança social se concentram mais em como as idéias mudam as pessoas do que em como as pessoas mudam as idéias”.

Nas próximas semanas duas semanas tratarei de dois exemplos de empreendedores sociais, um no campo da educação e outro no campo da saúde. Como indivíduos alteraram idéias e padrões? E como esta mudança afetou a sociedade. Práticas, por vezes simples, mas que com a vontade de pessoas motivadas, cheias de energia e mesmo obsessivas, tornaram-se campeãs.

Alguns links (em inglês) para os interessados: AQUI, AQUI

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma breve aula de biologia no Oriente Médio

[Gostaria de agradecer a minha amiga Natalia Santos, granduanda em Farmácia pela UNIP-Rio Preto, pelo apoio prestado a este post. Sem as suas considerações e esclarecimentos, não teria sido possível eu fazê-lo. Muito obrigado!]

À primeira vista, pode parecer estranho, mas este post é sobre relações internacionais. Ou sobre relações tensas, conflituosas, desconfiadas, terroristas e, até mesmo, entediantes. Pois é, pessoal, estamos falando sobre o Oriente Médio e os acontecimentos mais recentes nessa incandescente parte do globo. Mas o que a biologia tem a ver com isso? Logo explico, os primeiros estudos dos antropólogos sobre as causas da guerra levaram em consideração a natureza humana e suas predisposições biológicas para fazê-la, como a “sede de agressão”, localizada no sistema límbico, na região cerebral. Estariam os homens lá lutando até hoje por causa desse impulso?

Prossigamos com esta aula de biologia no Oriente Médio. Que tal falarmos um pouco sobre o seu DNA (ácido desoxirribonucléico), que possui peculiaridades em relação ao DNA humano. Nessa região, as bases nitrogenadas metamorfoseiam os seus significados, não se restringindo a palavras fixas como: T timina, A adenina, C citosina ou G guanina. Nem mesmo as suas ligações peptídicas (A-T e C-G) são mantidas. Ora, encontramos uma nova razão para a incandescência do Oriente Médio. Bem, deixemos a teoria um pouco de lado em prol da observação empírica.

E o Afeganistão? O “Santo Graal” da atual política externa dos Estados Unidos. Uma mística busca sem fim pela estabilidade e redemocratização do país, de modo a combater qualquer reduto terrorista. No final de setembro, o general responsável pelas tropas norte-americanas em solo afegão, Stanley A. McChrystal, divulgou um relatório intitulado “Relatório Inicial de Comando” que, diga-se de passagem, de inicial nada tem, afinal já são oito anos no Afeganistão. No documento, o general considerou necessário o envio de mais soldados – um contingente de 40 mil homens –, dado o perigo de uma guerra longínqua e prolongada. Notem, pessoal, a primeira ligação: A-T = Afeganistão – Terror; e outra não convencional: G-T = Guerra – Terrorismo. Mas seria interessante estender o tempo dessa guerra? (Ouçam a entrevista do Prof. Dr. Hector Luis Saint-Pierre).

Por enquanto, a proposta de McChrystal está em discussão. Londres já fez a sua parte, mas Obama não parece muito animado para fazer a sua. O líder norte-americano não pretende executá-la enquanto não estiver convencido de que Cabul seja um parceiro confiável dos Estados Unidos. Até C se liga com C: Confiança – Cooperação, uma combinação já conhecida. Recentemente, a eleição de Hamid Karzai, atual presidente do Afeganistão foi anulada e será realizado um novo segundo turno. Motivo: fraude.

Aliás, para o presidente do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, Richard Haas, o Afeganistão (confiram aqui esta entrevista) já deixou de ser uma “guerra de necessidade”, como no imediato posterior ao 11/09, em que se urgiu a prevenção do terrorismo, para se tornar uma “guerra de escolha”, a escolha de Obama de persistir. Para Haas, é preciso um limite para a empreitada norte-americana no país. O próprio presidente norte-americano enfrenta fortes pressões contrárias a essa guerra. Mais importante até do que o envio de mais soldados ao Afeganistão é o fortalecimento da cooperação com o Paquistão, que trava uma constante batalha contra os insurgentes da Al-Qaeda e Taleban – por sinal, ambos os grupos se fortaleceram. É C com G: Conflito – Guerrilha.

E o Irã? Em tempos recentes, de ameaça se converteu no ameaçado. Os recentes atentados no país deixaram 42 mortos, dentre os quais, seis líderes da Guarda Revolucionária, a força militar mais poderosa do país. O grupo radical sunita Jundillah assumiu a autoria dos atos, mas o governo iraniano insiste em acusar os Estados Unidos, o Paquistão e o Reino Unido de envolvimento nos mesmos. E, ainda pior, o evento pode comprometer as negociações para o desarmamento do Irã. Que tal um A-C? Atentado – Crise, no caso, crise diplomática.

E essa agora entre Turquia e Israel? A Turquia vem se afastando do seu histórico relacionamento com Israel e se aproximando cada vez mais da Síria, inimiga declarada do governo israelense. Também, certamente, não é para menos após as “mancadas” de Shimon Peres e Benjamin Netanyahu, sobretudo, com relação ao desrespeito à mediação turca pela paz na Faixa de Gaza. Um T-C? Traição – Começo, ou seja, busca por novas relações.

Enfim, aqui se encerra uma breve aula de biologia no Oriente Médio, cujas ligações peptídicas desafiam à própria definição dos biólogos e geneticistas. Ter-se-ia criado um organismo completamente disforme? Talvez nem tanto, mas explicar o funcionamento do mesmo não é tarefa fácil para nenhuma área do conhecimento ou religiosa. Segue a vida belicosa, instável e até intermitente da região.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Lula e Uribe em São Paulo

Uribe e Lula na sede da FIESP hoje

[Post longo, mas legal!]

Estive hoje na FIESP para o Encontro Empresarial Brasil-Colômbia e tive a oportunidade de, pela primeira vez, ouvir um discurso do Lula poucos metros à minha frente.

Estavam, além do nosso presidente, o Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, os ministros Celso Amorim e Miguel Jorge, o governador José Serra e outras autoridades de alto escalão dos governos brasileiro e colombiano, além de empresários.

Depois do fórum, encerraram o evento as autoridades. O primeiro a falar foi o presidente da FIESP e da CIESP, Sr. Paulo Skaf.

Rasgou milhares de elogios ao seu 'amigo pessoal' presidente Lula. Elogiou a postura do Brasil na crise internacional, enfim. Estranho, pois o Sr. Skaf sempre foi um dos maiores críticos às políticas monetária e fiscal do governo. Será que é porque agora ele é filiado ao PSB, partido da base aliada, e vai disputar o governo de São Paulo?

Peraí! PSB? O tal Partido Socialista Brasileiro? O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo se filiou a um partido socialista? Isso mesmo... Não vou me estender demais na incongruência de o representante do setor privado paulista concorrer ao governo por um partido socialista. Se fosse em outro país eu duvidava. Mas no Brasil pode.

Uma decepção pessoal foi ouvir o discurso do Serra. Ele parecia confuso, nervoso. Cometeu vários erros, um que me marcou foi dizer que o Uribe é presidente desde 1902. Gafes pequenas, claro, mas que o mais cotado a ser o próximo presidente do país não poderia cometer, ainda mais com um Chefe de Estado. Tirando isso, nada de extraordinário em seu discurso, exceto as tentativas de falar nas entrelinhas que os centros de pesquisa e educação de São Paulo são superiores aos federais.

E veio a vez do Lula. No começo um discursinho lido meio mequetrefe. Nenhuma frase de efeito, nenhum improviso, até meio entediante.

Mas aí ficou nítido que ele tinha terminado de ler e disse: Uribe, agora vou falar mais umas palavrinhas.

E ele se livrou do papel e levantou a platéia! Ele é bom mesmo, não há o que se dizer.

O Presidente da Vale estava lá. E o governo anda querendo derrubá-lo (leia mais aqui). E o Lula não perdeu a oportunidade de cutucar o Agnelli. Saiu até nos jornais. Ele disse que a Vale investiu 380 milhões na Colômbia e poderia ter investido mais. Disse ainda que não adianta ficar sentado na cadeira da Vale, tem de sair pra vender, disputar 'cada milímetro'. O Lula poderia ser o presidente da Vale depois que acabar seu mandato, porque ele está dando muitos palpites sobre os rumos que a empresa deve tomar, não é mesmo?

Integração foi a palavra de ordem. Em vários momentos, Lula falou do projeto de integração regional e de como a Colômbia é importante para ele.

Interessante foi a colocação do Brasil como o grande motor desse projeto. Em vários momentos, ele disse que o Brasil é um país grande, que tem força e é o único capaz de financiar a integração regional.

Ele disse: "É o Brasil que tem de tomar a dianteira para que aconteçam os negócios (...) Ou o Brasil reconhece que é grande e maior e resolve assumir seu papel, sem hegemonia, ou nada acontece".

Essa foi uma das muitas frases nesse sentido. Falou do BNDES como financiador, do Banco do Sul e outras iniciativas regionais.

Ele ainda reclamou que os EUA, país sem tantos laços regionais, tem 45% do comércio da Colômbia, enquanto a parcela do Brasil não chega a 20%. Disse ainda que Brasil e Colômbia precisam de um acordo forte em termos de segurança (e negou incômodo sobre as polêmicas bases). E, como sempre, reclamou daqueles que criticam seu governo em termos de política externa / acordos comerciais.

Um ponto interessante, e que já está há tempos sendo negociado, é que o presidente pretende levar uma posição conjunta dos países amazônicos para a Conferência do Clima no fim do ano. Interessante, mas nem o Brasil tem posição própria ainda... Se der certo, no entanto, seria extraordinário.

Uma parte engraçada foi quando Lula falou sobre o fim de seu mandato. Ele disse: "Uribe, tenho um ano e dois meses de mandato. Você... (risos da platéia e constrangimento nítido do Uribe) bem... pode ter... bem... teoricamente, termina seu mandato daqui a 10 meses..." Engraçado, mas constrangedor dadas as polêmicas do 3° mandato do Uribe.

Aí foi a vez do Uribe. Ele tem um estilo mais polido, diferente do Lula, mas tão bom quanto ele. Extraordinário. Falou muito bem de verdade, uma oratória fantástica. Deu pra ver porque o espanhol é considerada a língua mais rica para se escrever ou falar.

Mais uma vez, integração. Disse que antes não havia fronteira, havia uma parede. Agora, as coisas são diferentes. Investimentos, acordos comerciais, etc...

Uribe se comprometeu, junto ao Lula, a dobrarem o comércio bilateral nos próximos 10 meses (O comércio dobrou de 2004 a 2008).

Ainda disse que eles precisam da ajuda do Brasil para crescer, mas que os EUA são um parceiro estratégico. Aliás, ele ressaltou várias vezes que eles precisam da ajuda do Brasil, corroborando o que o Lula havia dito.

Disse ainda (O Lula também havia dito algo parecido) que antes se tinha temor do Brasil, que agora é visto como parceiro.

Fez questão, ainda, de falar do narcotráfico, dos avanços que conseguiu (justo, porque seu trabalho foi muito bem feito) e se posicionou contra a legalização das drogas.

Enfim, foi uma reunião muito legal, uma oportunidade ímpar de ouvir dois líderes da América Latina falando, há poucos metros, sobre integração regional.

sábado, 17 de outubro de 2009

Avançando para o Passado II

Lula e Roger Agnelli, presidente da Vale

Em qualquer país sério, quando um ministro de Estado diz que sua pasta está formulando um projeto para igualar um setor da economia ao de outros países em termos de competitividade, imagina-se que haverá desoneração de impostos, incentivos, qualquer coisa que seja para que o dito setor seja mais competitivo.

Mas no Brasil... Ah, no Brasil as coisas são diferentes... Bem diferentes!

O Excelmo. Sr. Ministro das Minas e Energias, Edson Lobão, quer que o setor de mineração no Brasil se iguale ao de outros países, como Austrália, nosso maior concorrente. Justo.

E ele está tomando as medidas. O seu ministério está preparando um novo Código Brasileiro de Mineração. Uma das seguintes medidas será adotada:

1. Criação de um imposto de exportação, ou seja, taxação das exportações das empresas brasileiras de mineração, como a Vale (atenção a este detalhe).

2. Aumento dos royalties pagos pelo setor ao governo.

Espetacular! Fiquemos, então, menos competitivos, porém, mais iguais aos concorrentes!

Se fosse em outro país eu duvidava.

Mas o pior não é nem isso, é a disputa política pela Vale. Pra quem não está acompanhando, tem ocorrido nos últimos dias uma verdadeira guerra nos bastidores do governo. Os protagonistas são o presidente Lula, Eike Batista e Roger Agnelli, presidente da Vale.

Não vou perder o tempo dos leitores explicando as versões "oficiais" da controvérsia, que tem a ver com as demissões da empresa no ano passado.

O causo é o seguinte: Lula quer tirar Agnelli da direção da empresa e colocar um lacaio no lugar. Lacaio este que atende pelo nome de Sérgio Rosa. Isso porque a Vale, desde que deixou de ser cabide de emprego do governo, em 1997, teve seu valor de mercado 'aumentado' de 8 para 125 bilhões de dólares, e empregos gerados de 10 para 60 mil.

E o Eike Batista entra como aliado de Lula porque está tentando, há tempos, em vão, sentar numa cadeira na Vale mas não consegue. E encontrou uma boa oportunidade agora.

Ter um lacaio instalado na Vale em ano eleitoral seria ótimo pro Lula. E ele tem ajuda do bilionário Eike Batista na empreitada.

E quem perde? Nós, que corremos o risco de ver uma das maiores empresas do mundo, instalada no Brasil, que gera empregos, investe, enfim, ser alvo de disputas políticas do pior tipo.

Enfim, novamente, o Brasil está avançando para o passado.

Leia mais sobre o assunto aqui e aqui.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um gol pela união nacional

Segue o impasse em Honduras. Porém, ao menos, existe um motivo para comemoração. O país, na noite da última quarta-feira, conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 2010 – segunda vez na história -com a vitória por um a zero sobre El Salvador. Mas muitos podem perguntar, e eu com isso?

O futebol é somente um esporte, não?

Engana-se profundamente quem acredita que o jogo termine dentre de campo. Um exemplo, nas eliminatórias da Concacaf (Confederação de futebol que congrega os países da América Central e do Norte) para a Copa do Mundo de 1970, Honduras disputava uma vaga para a competição. Foram três jogos, o primeiro vencido por Honduras e o segundo por El Salvador. Em uma terceira partida – em campo neutro – El Salvador garantiu presença no mundial de 1970, vencido pelo Brasil de Pelé.

As hostilidades nos dois primeiros jogos trouxeram mais tensão a crise diplomática que viviam os dois países – que já discordavam em relação ao tratamento dado a imigrantes salvadorenhos que entravam ilegalmente em Honduras. Uma jovem salvadorenha se matou após a derrota no primeiro jogo, em Tegucigalpa, devido a revolta em relação ao tratamento ao time do país em Honduras. Virou mártir, com funeral transmitido ao vivo a seus compatriotas. No segundo jogo, a seleção hondurenha teve de ser levada ao estádio em carro blindado, e após o jogo hondurenhos foram agredidos nas ruas de São Salvador – alguns terminaram mortos.

A classificação de El Salvador não bastou para acalmar os ânimos salvadorenhos. Em julho de 1969, o exército do país invadiu Honduras. O conflito só cessou ante a mediação da OEA. O conflito ficou conhecido como a Guerra do Futebol. Esse é só um exemplo de que o futebol não termina necessariamente em campo com o apito final do juiz.

E novamente, 40 anos depois, Honduras e o futebol. Tegucigalpa, capital do país, não enfrentou as usuais manifestações políticas na noite de quarta-feira. Na verdade, a política ficou de lado. Micheletti, presidente interino, decretou o dia seguinte à classificação para Copa como feriado nacional. Finalmente um consenso no país: comemoração e um dia para a ressaca.

Ainda assim, existe um perdedor nessa história toda. Nosso amigo para todas as horas, Zelaya. Micheletti exultou o nacionalismo hondurenho, esvaziando o prazo final do presidente deposto para o acordo – terminava à meia-noite de quarta-feira. Os planos dos apoiadores de Zelaya foram suprimidos pelas manifestações populares em comemoração a vitória no futebol. E agora? Todos parecem preferir o futebol à política.

Se a seleção jogasse toda a semana até o início da Copa, Zelaya provavelmente terminaria por assistir da Embaixada Brasileira os jogos de sua seleção na África do Sul. Micheletti, contudo, não parece ter forças para capitalizar mais em cima da conquista. Ganhou alguns dias, frente a um acordo em que a maioria dos pontos já estão decididos, faltando só o principal: quem governará o país até o novo presidente assumir – isso, é claro, se as eleições acontecerem no final de Novembro. Mas o futebol já deixou sua marca, esse era o ponto em que queria chegar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O mundo é bão Sebastião

Pelo menos, é o que a canção do Nando Reis diz. Deve ser mesmo bom, mas para o Sebastião. Já para o Obama, as coisas são mais complicadas. Da América Central até a Coréia do Norte, fazendo uma longa parada no Oriente Médio, há inúmeros desafios que devem colocar em xeque a escolha do atual presidente norte-americano para o Prêmio Nobel da Paz deste ano.

Nem completou uma semana da concessão de tão distinta honraria e uma recente ata do Fatah afirmou categoricamente que a esperança sobre Obama acabou; o líder norte-americano cedeu em prol de Israel contra a causa palestina. Notem que mesmo no imediato posterior a sua nomeação, Ismail Haniyeh, líder do Hamas na faixa de Gaza, já havia declarado que "se não houver verdadeira mudança nas políticas dos EUA sobre o reconhecimento dos direitos palestinos, acho que esse prêmio não nos levará nem para frente nem para trás." Desde já, verifica-se uma postura de cobrança que sobreleva as responsabilidades a serem assumidas.

Se, por um lado, os palestinos desacreditaram Obama, por outro, alguns inimigos dos Estados Unidos resolveram "comemorar" a concessão do Nobel da Paz ao seus atual presidente. No Dia das Crianças deste ano, até gente grande decidiu brincar e brincaram com brinquedos perigosos. Por exemplo, no Paquistão, o Taleban soltou um carro-bomba que matou mais de 40 pessoas. A Coréia do Norte não ficou atrás, Kim Jong-il, para relembrar os seus quase apagados anos de infância, ordenou o teste de cinco mísseis de curto alcance. O Irã também tem relutado na questão nuclear e o governo norte-americano sofre discordância da Rússia para aplicação de sanções ao país.

Inegavelmente, sobressai a indagação: é possível um mundo sem armas nucleares? Aliás, este foi um dos quesitos para a contemplação de Obama, já que o líder assumiu o compromisso de libertar o globo desse flagelo. (Vejam o discurso de Obama sobre a premiação) Até agora, as iniciativas são maiores que as realizações. Mas tudo bem, está em perfeito acordo com o propósito da premiação. Vejam vocês que no próprio testamento do criador do prêmio - há mais de cem anos -, Alfred Nobel, elencava que os escolhidos deveriam apresentar "tendências idealistas". Ressalta-se também todo o pacifismo do próprio Nobel, que foi químico e inventou a dinamite.

A vida é mesmo uma caixinha de surpresas! E de incongruências também.

Outro aspecto interessante - já tratado no post do Alcir - é a humildade e a sua auto-cobrança no discurso de Obama após a premiação. E, é claro, não poderia falta a ênfase na liderança dos Estados Unidos. Seria possível a conciliação dessa liderança com os propósitos da paz? Que tipo de paz se busca, apenas a mera ausência da guerra? A paz implica no preparo para a guerra, num estrito sentido realista? Nem mesmo quando falamos de paz deixamos o seu gêmeo siamês de lado, a guerra. Sempre brigam, são definidos em oposição, mas um não vive sem o outro.

Diz um trecho da canção mencionada no início "quando invento, o mundo é feito de idéias". Isso para o Sebastião. Para o Obama, inventar pode não ser tão complicado, mas pôr em prática sim. O Nobel da Paz traz, indubitavelmente, grandes desafios para o atual presidente dos Estados Unidos e seu dever é para com a paz, não apenas para a idealização da mesma. Uma paz em um mundo não tão "bão". Reescrevamos a música, "O mundo não é bão, Obama", e deixemos que o tempo reescreva a letra.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Qual será o próximo passo?


Chávez deve estar se achando o homem mais esperto do mundo. Só que parece que as coisas não são bem assim...

Nacionalizar é uma palavra tão bonita... Trazer para o Estado os meios de produção de riquezas! Sem entrar no mérito de neoliberalização ou bolivarianismo, mas aos olhos do setor privado nacionalização é, basicamente, o furto de propriedade privada pelo governo.

Esse furto/nacionalização ocorre pois o Estado venezuelano não possui os recursos próprios para realizar as iniciativas cobertas por essas (ex)propriedades privadas, portanto em nome do bem da população, o Estado pega para si e cobre as áreas que não tem poder para tal. Ou até mesmo as áreas que tem poder, já que acaba de incorporar/nacionalizar milícias civis "bolivarianas".

Mas... se o governo Venezuelano continuar com essa mania, isso não poderia afastar os investidores externos, com medo de perderem seus negócios? Chega ao ponto de que se as nacionalizações não forem suficientes (e certamente não serão), o governo Chávez terá na sua frente uma falta de oferta de estruturas privadas para serem apropriadas! Será obrigado a realizar uma forte re-estruturação de sua política econômica bolivariana. Que por sinal, é muito mais forte no discurso do que nos resultados.

Melhor parar por aqui senão o blog pode ser nacionalizado também...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

África esquecida?

Olá, leitores! Por hoje, vou permanecer no mote levantado pelo Kita ontem: a África.


Para quem pensa na África como um continente abandonado a própria sorte, que sofre com miséria e condições sub-humanas de sobrevivência, enfim, um lugar esquecido e negligenciado por tudo e por todos, cuidado. É melhor revermos nossos conceitos. Ou não.

Cerca de 13 das 31 resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas até agora em 2009 dirigem-se nominalmente a países africanos. Isso retoma a imagem de uma situação sem saída, estados falidos, guerras civis, epidemias, violência e genocídios tribais. Hoje com apenas 2,3% do PIB mundial e 1 bilhão de habitantes distribuídos em 56 Estados recortados pelas potências coloniais européias, o continente africano despertou grandes expectativas com relação aos seus projetos de desenvolvimento durante o período de independência. Como bem lembra Fiori, atropelado por sucessivos golpes e regimes militares e pela crise econômica mundial da década de 1970, o continente passou por um prolongado declínio de sua economia até o início do século XXI.

A partir de 2001, no entanto, a taxa de crescimento da economia africana saltou de 2,4% em 1990 para 5,5% em 2008. Ora, a China encontrou na África o território promissor para fornecimento de recursos, com o comércio entre as partes alcançando a cifra de 76 bilhões de euros. Os interesses de todos se resumem basicamente em uma commodity: o petróleo. Afinal, são 8% da reserva bruta mundial. Os investimentos incluem até mesmo a construção de um teatro no Senegal, e o detalhe é que os montantes não estão condicionados a reformas políticas ou humanitárias, como fazem europeus e americanos. Governos exilados pelo Ocidente descobriram a parceria perfeita em Pequim.

As antigas potências coloniais européias ficam para trás não somente no campo das idéias. Competem agora com outros atores emergentes (Índia, Brasil ou Rússia) por recursos secundários, já que mais de 70% dos contratos de obras públicas na África subsaariana são concedidos a companhias chinesas ou indianas. Definitivamente, a influência em países africanos não é mais a mesma de algumas décadas atrás.


Sentindo isso, a Hillary Clinton já em agosto desse ano iniciou uma série de visitas oficiais de 11 dias à África Subsaariana. Sete países foram escolhidos, iniciando pelo Quênia, considerado um território estável. Em seguida, veio a maior potência regional, África do Sul, e Angola, graças às reservas de petróleo. Segundo consta, a última eleição presidencial foi em 1992; e o presidente ocupa o cargo desde 1979. Outra parada foi o Congo: grandes proporções, grande violência, governabilidade mínima. Além disso, a visita contou com visitas à Nigéria, Libéria, que se recupera de guerra civil, e Cabo Verde, muito elogiado por seu modelo de democracia.

Os fatos têm apontado em uma só direção: sim, a África é novamente o fim maior de uma disputa acirrada pela influência na região em busca dos recursos de lá advindos. Ajuda humanitária? Preocupação com a segurança regional? Democracia e desenvolvimento? Só se facilitarem as negociações.

domingo, 11 de outubro de 2009

O concerto pós-crise no Quênia

As eleições de 2007 provocaram intensos conflitos e uma grave crise política. A instabilidade foi fruto dos questionamentos do candidato oposicionista, Raila Odinga, quanto a possíveis irregularidades durante o processo eleitoral – que teriam beneficiado o presidente reeleito Mwai Kibaki.

O Quênia, antes da crise, era considerado modelo de prosperidade e estabilidade econômica, sendo ainda ponto de encontro humanitário (abrigando sedes regionais de órgãos das Nações Unidas e de organizações internacionais), centro de concentração de jornalistas estrangeiros e de empresas multinacionais. O crescimento econômico de 6% ao ano e uma valorização de 800% – em seis anos – da bolsa de valores do país contribuíram para construir a imagem de um país próspero, longe das agitações características da região do Chifre Africano.

A aparência de tranqüilidade, contudo, escondia um imenso ressentimento étnico prestes a explodir. Milícias luo e kikuyo lutavam pelo controle de uma bebida alcoólica tradicional do país. Além disso, havia denúncias, pela Comissão queniana de Direitos Humanos, de crueldade das milícias kikuyo, o que contribuiu para o aumento do ressentimento contra a etnia – a mesma do presidente Kibaki.

As pesquisas indicam favoritismo do candidato da oposição, Odinga – da etnia luo. As eleições transcorreram em clima de tranqüilidade. Ao fim da apuração, Kibaki foi declarado vencedor. Observadores da União Européia denunciaram graves irregularidades, como, por exemplo, a existência de mais votos do que eleitores registrados em algumas regiões quenianas. Neste cenário de conflitos étnicos iminentes, milícias manipuladas por políticos poderosos e eleições fraudadas era evidente que explodiria um generalizado conflito.

A solução para a hecatombe social, étnica e política foi um acordo de paz – mediado pelo então do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, e outros líderes africanos – entre Odinga e Kibaki. A missão foi considerada bem sucedida. Ocorreu uma divisão do poder político, Kibaki como presidente e Odinga como primeiro-ministro, a promessa da discussão de uma nova constituição e do fim do conflito étnico, assim como a abertura de processos criminais para a apuração do desrespeito aos Direitos Humanos. Kofi Annan, na época, afirmou a necessidade de uma radical mudança na política queniana, historicamente marcada pela corrupção, mas que o otimismo era grande com o acordo, mesmo que constituindo um pequeno passo ante uma jornada maior pela estabilização do país.

Após cerca de 20 meses do fim da crise, pouco foi realizado. As reformas prometidas não foram iniciadas, e o único consenso dentro do governo de coalizão parece ser o desejo por mais poder. A comunidade internacional aumenta a pressão, ameaçando impor sanções caso as reformas acordadas não sejam colocadas em prática. Exemplo disso é o Tribunal Penal Internacional, que promete iniciar processos contra aqueles que iniciaram e participaram da violência que seguiu as eleições de 2007, incluindo figuras políticas.

O que pode a comunidade internacional fazer pelo fortalecimento das instituições democráticas, por processos eleitorais limpos, por práticas de governança mais efetivas? Em um país homogêneo em termos étnico-sociais já seria uma tarefa ingrata, imagine então em um país com 40 grupos étnicos, tradições antidemocráticas, milícias étnicas mobilizadas por causas políticas, elites relutantes em aceitas reformas abrangentes. As próximas eleições ocorrerão em 2012. O que será do Quênia então? A questão é especialmente importante pelos impactos gerados em seus países vizinhos.

A crise queniana é um dos exemplos em que a comunidade internacional não conseguiu ter um papel efetivo no controle de regiões instáveis no continente africano. Solução semelhante – a formação de coalizões políticas – foi adotada no Zimbábue, também após crises advindas do processo eleitoral irregular. Outro país em que são poucas as realizações. Fácil reconhecer o problema, difícil executar um plano que funcione em ambos os casos. Alguém se habilita?

Acessem!


[Indicação de site]

Pessoal, estamos divulgando a nova página Web do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI).

Clique aqui para acessar.

O IEEI é um centro de análises e pesquisas sobre questões econômicas internacionais.

É um excelente site, repleto de ótimas leituras para os leitores que pretendem se aprofundar em muitos dos assuntos que são discutidos aqui no blog.

Vale a pena!

sábado, 10 de outubro de 2009

Post da leitora - Marcela Fontana

[Galera, hoje recebi um post de uma aluna do Ensino Médio, que está prestando vestibular e acompanha nosso blog! Tive a oportunidade de dar algumas palestras para a turma da Marcela Fontana, que estuda em Dourados - MS. Aparentemente, o tema não é relacionado às Relações Internacionais, mas não preciso dizer o quanto o descaso do governo com educação prejudica o desenvolvimento do país e sua projeção internacional. Compartilhando a indignação dos nossos leitores do ensino médio, segue o post. Piadas à parte sobre a citação que ela coloca, contextualizando, ela se refere ao caso do ENEM. O Dr. Fernando Haddad, mesmo com esse triste episódio, é um grande (e bem capacitado) ministro da educação. No caso do Lula, polêmicas e críticas à política externa à parte, também é inegável que está conduzindo um bom mandato. E boa sorte nos vestibulares, Marcela!]

ENEM: recorde da palhaçada


“Nunca na história dessa República (como diz o Lula) houve tantos palhaços no Brasil: quatro milhões no ensino médio, um no ministério da educação e outro na presidência da República...”. O comentário de Alcir Candido, autor deste blog, retrata o sentimento de indignação que tomou conta do país nas últimas semanas.

Dois dias antes da realização do ENEM, estudantes de todas as regiões do país depararam-se com a notícia de que a prova havia sido cancelada. Ainda bestificados e incrédulos com o que acontecera, eles e seus professores tentaram continuar com a programação escolar que fora toda modificada para adequarem-se às novas propostas desse exame. A tentativa não foi totalmente bem sucedida, afinal, eram visíveis o desanimo e a decepção de todos.

Sem muito que fazer sobre este assunto, todos decidiram esperar pela nova data de realização da prova. Crentes de que o ministro da educação, Fernando Haddad, escolheria uma data que não prejudicaria os estudantes – afinal, a proposta inicial deste novo ENEM era beneficiar e facilitar a vida dos mesmos –, a população mais uma vez pasmou-se diante das decisões. Haddad marcou a nova data para os dias 05 e 06 de dezembro. Esta data coincidiu com importantes vestibulares do país. Entretanto, o ministério da educação convenceu algumas faculdades a mudarem a data de seus vestibulares, evitando assim prejudicar os alunos. A tentativa foi em vão. Os estudantes continuam sendo prejudicados, pois agora varias faculdades tiveram as segundas fases marcadas para o mesmo dia.

Chega de tanta palhaçada. A educação é fundamental para um país – transforma e capacita às futuras gerações, e garante o desenvolvimento da nação. Já é hora de governantes e ministros acabarem com discursos que ficam só na teoria, e que, na pratica, são falhos. Já é hora do MEC (Ministério da Educação) deixar de estar ENEM aí para os estudantes. Já é hora de por um fim na palhaçada em que a educação se transformou.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Como assim?!

[Post rápido]

Como assim? Obama ganha o Nobel da Paz? Com certeza nem ele acreditou.

Ganhou o prêmio pelos 'esforços diplomáticos'. Tudo bem que ele esteve em vários países, fez discursos memoráveis (veja aqui comentários sobre o discurso do Egito).

Mas o fato é que Obama até agora não fez nada de concreto pela paz mundial. Discursos idealizados sobre um mundo sem armas nucleares, oriente médio, duas guerras nas costas... enfim... não é o estereótipo de um Nobel da Paz.

E as críticas não foram leves...

Mas com certeza nenhum outro Nobel da Paz até agora teve tanto poder de mudar algo como Obama tem. O mundo inteiro gosta dele, ainda tem maioria no Congresso americano (pelo menos até as próximas eleições) e é, pelo menos na teoria, o homem mais poderoso do mundo, o presidente dos Estados Unidos da América. Não é pouca coisa. Já houve dois outros presidentes americanos em exercício a ganharem o Nobel da Paz (Woodrow Wilson e Theodore Roosevelt), mas nenhum com tantas possibilidades como Obama.

[Tá certo que quase nada em termos de mudanças também foi feito nos EUA, mas ele ainda tem algum tempo pela frente...]

E aí está a grande sacada do Parlamento Norueguês (que decide o Nobel da Paz). Obama agora está mais pressionado ainda a fazer algo pela paz mundial. E ele pode fazer isso. É um chamado para a ação, como ele mesmo disse.

Por isso, talvez não tenha sido tanta supresa assim a escolha do Obama pelo que pode fazer, e não pelo que tenha feito.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

E sobre o caso hondurenho...


A situação em Honduras continua do mesmo jeito, Zelaya que voltar à presidência e Micheletti não quer que Zelaya volte à presidência. Esse impasse que parece não ter fim, a partir de hoje vai ser mediado por uma missão da Organização dos Estados Americanos, a OEA. A missão composta pelo secretário geral da organização José Miguel Insulza acompanhado por dez representantes de países, entre eles cinco chanceleres, chegou hoje ao país em crise com uma perspectiva bastante consciente da gravidade e dificuldade da situação, resolver o impasse e devolver o processo democrático ao país não será uma tarefa cômoda.

A situação continua bastante delicada. Ainda há exército nas ruas, como já mencionado o impasse ainda deixa um clima de tensão bastante intenso entre o ex-presidente e o governo de facto, o toque de recolher vai por hora sim e hora não...

Muitos especialistas e profissionais da área do Direito afirmam que realmente a empreitada de Zelaya em realizar o referendo na época, era ilegal e realmente feria a constituição do país (principalmente ao que se refere ao tempo que havia antes das eleições para presidência), e com certeza para um país democrático, a pior coisa que pode acontecer é o desrespeito à constituição, quanto mais se este for do próprio presidente.

Entendo que muitos especialistas em direito internacional afirmam que Zelaya não estava certo ao realizar o referendo em virtude do tempo que havia para as eleições nacionais do país. Tudo bem, isso pode verdade, mas... existe alguma parte da constituição que delimita que em tais e tais casos o presidente pode ser deposto? Com direito a entrada do exército à noite na casa do suspeito e fuga do presidente de pijama? Convenhamos senhores que talvez tenha sido um pouco exagerado.

Em caso de desrespeito à constituição o passo principal deve ser... seguir a constituição, ou seja, o presidente deve ser julgado por uma corte de justiça (no caso do Brasil o Supremo Tribunal Federal). Tem direito à defesa, apresente os fatos e ai sim que seja dado o veredicto, afastando-o do cargo ou não.

Muitos criticam da mesma forma a Organização dos Estados Americanos como sendo uma organização ineficiente ou mesmo não demonstrar uma posição mais rígida ou dura no caso de Honduras. Acontece que para uma organização como a OEA não é possível que se tome uma decisão de invasão ou interferência em um território.

Em uma palestra na Universidade Estadual Paulista (UNESP), na cidade de Franca no dia 05 de outubro, a pesquisadora e atuante na OEA, Prof. Dra. Rita de Cássia Biason afirmou que a atuação da OEA no caso de Honduras se dá dentro da capacidade da organização e que esta está tentando de uma forma possível conduzir o processo. Ainda confirma que a atuação da organização se dá e se dará sempre através de pressão política, negociação, mediação e sanções, pois afinal a OEA é limitada pela soberania dos países e qualquer outra intenção que não seja a de recomendação ou sugestão poderia acarretar em tal desrespeito, ferindo gravemente um dos princípios mais básicos do sistema internacional.

A linha que separa a jurisdição da organização e a soberania do país é muito tênue e precisa ser levada com bastante cuidado pelos que discutem a situação. Uma organização supranacional como a OEA tem como principal objetivo promover o entendimento entre os países de forma a evitar ou remediar conflitos e buscar soluções conjuntas para problemas que assolam a América (Carta da OEA) respeitando e seguindo sempre o princípio da não-intervenção (ver artigos 1 e 2 da Carta da Organização dos Estados americanos). Não é possível tomar uma decisão mais “dura” como mandar tropas ao país ou qualquer outro tipo de ataque.

Pois é senhores, ficaremos atentos a uma possível resolução do caso nas próximas semanas, pois lembremos que as eleições hondurenhas estão marcadas para 29 de novembro, ou seja, a corrida agora é contra o tempo para o restabelecimento da ordem democrática.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pegadinha do Malandro!

Antes do post, um comentário: é melhor que esse povo arrume um bom acordo do clima na Conferência de Copenhagen em dezembro. Vejam só o que aconteceu na Jordânia... E tem gente que duvida do aquecimento global!

Bom, vamos ao que interessa!

O Obama já tinha anunciado no início do mandato que ia fechar a prisão de Guantánamo este ano. Mas não fechou. O motivo era simples: pra onde levar aquele povo todo? Quem seria o doido a receber 229 suspeitos de terrorismo? E deixar em solo americano, então?

Direitos Humanos são ótimos, mas na prisão dos outros. Todo mundo acusa, reclama, pressiona. Mas na hora de aceitar os presos, ninguém quer. Nada mais natural.

E o Obama não fechou a prisão. E anunciou o novo fechamento para janeiro do ano que vem.

Quem acertar o que aconteceu leva um doce! Já estão falando que o prazo é apertado...


Mas não culpemos o coitado do Obama. Até de nazista ele está sendo chamado.

O fato é que ele prometeu demais. E prometeu demais num momento em que todos estavam sedentos por mudanças. Ganhou a eleição, veio a lua-de-mel com a mídia e o senado, mas durou pouco. A popularidade despencou.

E logo tem eleições pro legislativo nos EUA. E no embalo da queda de popularidade do Obama e na ausência de mudanças visíveis, ele pode perder a maioria que tem no legislativo.

Agora, o governo Obama corre o risco de ter passado metade do mandato com maioria na Câmara e no Senado e não ter aprovado nada relevante. Sobretudo a tal reforma da saúde. E também as questõs climáticas (que estão matando ovelhas pelo mundo afora), já que até sem proposta os EUA podem chegar à Copenhagen. E aí seria uma decepção total para o eleitorado americano.

De fato, imaginar um governo com maioria absoluta e que não aprova nada só nos faz imaginar que há muito mais do que se pode imaginar pelos corredores da política americana. Nada mais natural.

O duro é que o sonho da mudança pode ir junto nesse rolo todo...

Será que existe mesmo a possibilidade de mudança?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Irã, Irã, o...

Pessoal, estamos de volta à dança do Irã. Aproveitando também o embalo da premiação no Top Blog, o que vocês acham de iniciarmos também uma eleição neste blog? Que tal elegermos o Prêmio Robert do Noticiário? Digo isso, na verdade, porque está difícil de tratar de outras notícias senão daquelas correlatas ao Irã - aliás, o país esteve em evidência na mídia internacional praticamente o ano todo. Outro forte candidato é o Afeganistão. Por enquanto, concentremo-nos na terra dos atoladinhos. Ops, aiatolás.

Como falamos em outro post, o gentílico do Irã mudou: agora, quem nasce no país é irado. Atualmente, uma porção de dirigente irados estão envoltos por tanta retórica com relação à questão nuclear. Outrossim, a comunidade internacional afirma que o Irã já dispõe da tecnologia necessária para construir uma bomba atômica, contudo, as evidências não são tão factuais, a ponto do diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, discordar da autenticidade delas. De um lado, um discurso marcado por provocações e ambigüidades, de outro, intimidações superficiais sem a comprovação dos fatos.

Mesmo assim, a agência nuclear da ONU divulgou um relatório - no mínimo, apressadamente - que exalta as condições e os anseios iranianos para produzir artefatos nucleares. E qual o título desse relatório? "Possíveis Dimensões do Projeto Nuclear Iraniano". Sim, POSSÍVEIS. Outro funcionário da agência chegou a declarar que tal relatório se trata, na verdade, de um resumo atual das investigações no país e que não estava pronto para ser emitido como um documento oficial. Qual a nossa surpresa: temos um documento oficial que se baseia em possibilidades para justificar uma ação precipitada.

No entanto, não é para menos, ainda mais quando se trata do Irã. Todos sabemos do seu polêmico presidente, do resultado das eleições deste ano e da empreitada pirotécnica do país. Muitas vezes, os dirigentes irados perdem a chance de permanecerem calados quando alegam direitos iguais e afirmam lutar pelo desarmamento. Para que inventar tantas fábulas? Em recente entrevista ao jornal Der Spiegel, Saeed Jalili, negociador chefe nuclear, mostrou porque foi escolhido para o posto. É impressionante como as suas palavras se metamorfoseiam para não chegar a lugar algum. Jalili demonstra toda a sua preocupação com a humanidade, afirmando que a luta pelo desarmamento é um dever de todos (inclusive do Irã), ao mesmo tempo em que defende o direito iraniano (irado) de enriquecer urânio para fins pacíficos. Eliminar o câncer da Terra (ou seja, Israel) é um dever para a humanidade? Mostrar ao mundo, no dia 28 de setembro, a realização de testes de mísseis de longo alcance (capazes de combater o câncer e as substâncias cancerígenas - as bases dos EUA no Oriente Médio) é usar a tecnologia nuclear para fins pacíficos ou lutar pelo desarmamento?

A comunidade internacional - mais especificamente China, EUA, França, Reino Unido e Rússia - iniciou no dia 1º de outubro um diálogo com o Irã acerca do "virtual" desarmamento do país e da inspeção de uma usina de enriquecimento de urânio, perto da cidade de Qum. Por enquanto, está prevista uma inspeção ao local no prazo de duas semanas e o envio de parte do urânio enriquecido para a Rússia - que deve ser testado -, resultado das primeiras negociações.

Levantemos agora um último aspecto: a atual situação do Irã e a repercussão que ela traz para os EUA. Os recentes desdobramentos traz diversos desafios para a política de segurança do governo Obama: pressão interna, posição do país no Oriente Médio, papel dos EUA no sistema internacional, dentre outros. O presidente norte-americano busca o endurecimento de sua postura, diz que não negociará eternamente com Ahmadinejad e prevê sanções severas, mas o Irã não sossega. Mas dissimula e provoca. Envia chanceler a Washington e Jalili diz ter apreço por novas sanções.

E aí, o que vocês acham do nosso primeiro candidato ao Prêmio Robert do Noticiário? O Irã e a comunidade internacional se perderam em suas mentiras: fala-se o que não se faz e se intervém pelo que não se comprova. Um novo exemplo para a já conhecida máxima do senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917, "a primeira vítima quando começa a guerra é a verdade". E quando matam a verdade antes da guerra, quem são as próximas vítimas?

No reino dos relatórios...

Saakashvili, presidente da Geórgia

Lembram da Ossétia do Sul? Aquele pedaçinho de terra de 3.900 km2 e cerca de 70.000 habitantes que fica entre a Rússia e a Georgia? Pois é, ano passado, depois de toda a polêmica de soberania, legitimidade, independência, inspiração de Kosovo, iminência de conflito entre Rússia e EUA e conflito de fato entre Rússia e Georgia, a Rússia saiu como bandida imperialista da história e as relações da mesma com o restante do mundo ficaram em suspenso por um tempo. Somente agora o Kremlin e a OTAN retomam contato.

Ocorre que um relatório de uma missão da União Européia na Georgia (EU Monitoring Mission in Georgia) revela que na verdade, quem começou a atacar foi a Geórgia, não a Rússia. "A alegação da Geórgia sobre a presença de forças armadas russas em larga escala na Ossétia do Sul antes da ofensiva georgiana em 7 e 8 de agosto não foi confirmada pela missão". O relatório tem mais de mil páginas e demonstra que as informações do presidente georgiano Mikhail Saakashvili são fabricadas, apesar de evitar a palavra 'mentira' no relatório.

Pronto! A Rússia já tratou de tomar para si a posição de vítima injustiçada. Reclamou que o relatório não menciona o peso decisivo dos EUA no conflito. De fato, quando Bush assumiu a presidência, continou a política de Clinton aceitando a vocação 'ocidental' da Geórgia e apoiando a sua candidatura a OTAN. Após os atentados de 11 de setembro, promoveu a Geórgia a um 'parceiro estratégico' de seu país, tanto na luta contra o terrorismo como na promoção da democracia. Viu-se tão preso a essa exaltação da importância de Tbilisi a Washington que, mesmo sabendo que a Rússia é peça chave para a resolução da questão nuclear no Irã, manteve-se ao lado da Geórgia.

O fato é que a Geórgia está em maus lençóis agora. Outrora contava com o apoio determinante do Ocidente. Era considerado o país do Caucaso com maior probabilidade de entrar na União Européia. O país também era cotado para a OTAN, mas não teve acesso na Cúpula de Bucareste em 2008 (ainda bem, ou o conflito de agosto com a Rússia poderia tornar-se global).

E agora, Saakashvili? E agora, Obama? Qual vai ser a política adotada com relação a Geórgia?