terça-feira, 31 de março de 2009

Saia Justa


[Pessoal, ultimamente temos feito muitas postagens sobre temas que envolvem a política externa brasileira, eu admito. Acontece que ultimamente tem ocorrido muitas coisas que envolvem nosso país e não podemos deixar isso de fora do blog. Sugestões para postagens ou podcasts? Email para paginainternacional@gmail.com]

Nosso país foi convidado para participar da Cúpula Árabe, que está ocorrendo hoje no Catar. Na verdade, está ocorrendo uma reunião que discute as relações entre as nações árabes e a América do Sul.

A reunião obviamente é importante e o Brasil não poderia ficar de fora. Os árabes representam um grande mercado para nossos produtos. No início do governo Lula foi um dos alvos das primeiras negociações comerciais, num dos poucos golpes certeiros do nosso governo em questões de comércio internacional.

O problema é que agora o feitiço tem virado contra o feiticeiro. O Brasil tem dado apoio político a muitas das nações árabes. Muitas delas ficam na África, onde o clima político é quente e há sérias polêmicas envolvendo direitos humanos, tirania política e outros males. Dentre esses governos questionáveis se destaca o do senhor Omar Hassan-Bashir, presidente do Sudão, contra o qual o Tribunal Penal Internacional publicou seu primeiro mandado de prisão contra um presidente em exercício. (clique aqui e aqui para entender melhor).

Em troca do apoio brasileiro, o Sudão tem se mostrado um parceiro político e comercial importante do Brasil na África.

Pois é. E agora? Teoricamente, o Brasil poderia até prender o presidente sudanês e entregá-lo à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, assim como alguns dos países presentes à Cúpula. O próprio Bashir já se manifestou várias vezes publicamente afirmando esperar o apoio formal do Brasil contra o Tribunal (leia aqui a entrevista exclusiva de Bashir ao Estadão).

O Brasil, no entanto, não se manifestará contrário à decisão do Tribunal (uma decisão muito mais do que prudente) mas também não prenderá nem condenará Bashir, tampouco se colocará contra uma declaração da Liga Árabe (que já saiu, inclusive, veja aqui) que condene a prisão do sudanês (decisão igualmente prudente, uma vez que não se pode ignorar o que os árabes representam, e nem é de bom tom chegar na casa dos outros 'causando', como se diz por aí).

Taí o tal comportamento diplomático. O Brasil nem se queima com um, nem com outro. Mas isso não tira a saia justa na qual estamos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Post do leitor - Luís Felipe Kitamura

[Mais um bom post de um de nossos leitores. Desta vez quem escreve é o Luís Felipe Kitamura, aluno do 4° ano de Relações Internacionais da UNESP-Franca. Boa leitura! Se quiser escrever aqui, e-mail para contato@paginainternacional.com.br]

Uma nova política externa americana?

Desde sua chegada a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama enfrenta diversos desafios e as mais variadas demandas. Esta semana vai ser especialmente importante para os rumos da sua administração, muitos assuntos sensíveis estarão em pauta. Primeiro, Obama irá a Londres para participar da reunião do G-20, para discutir suas políticas anti-crise frente à União Européia (que gostaria de construir uma arquitetura internacional anti-crise), a China (que defende a criação de uma moeda internacional de reserva) e os países emergentes (que procuram se projetar em termos de representação política). Ainda durante essa semana, se reunirá com o presidente chinês Hu Jintao - uma semana depois do Pentágono ter divulgado um relatório com referências a crescente militarização do gigante chinês, além de se encontrar com o presidente russo Dmitri Medvedev, com o qual os Estados Unidos desejam dar um “reset” em termos das suas relações bilaterais. Por último defenderá seu plano de ação para o Afeganistão na reunião da OTAN, desejando contar com o apoio dos seus países membros.

A grande mudança que se espera da política exterior de Obama é sua gradual desvinculação das políticas de segurança nacional, a qual imperava sob a administração Bush. Até o presente momento, no âmbito do discurso ao menos, parece que tem caminhado na direção correta, desde a resposta de Obama (em entrevista ao programa 60 minutes da rede americana CBS) ao ex-vice presidente Cheney (que na semana passada afirmou que o país poderia estar mais vulnerável a ameaças externas sob políticas na nova administração), passando pela mensagem ao Irã, pelo o desejo de reestabelecer o diálogo com países como Síria, pelo reconhecimento da necessidade de buscar alternativas as mudanças climáticas e pela a busca de uma maior cooperação com o México no combate ao narcotráfico.

Preocupa, no entanto, o mais novo plano para o Afeganistão. Parece mais do mesmo. O problema de fato, como Giovanni coloca em seu post, não é a falta de militares, mas sim o fracasso em si das políticas americanas para o Oriente Médio. A cada dia surgem novos desafios, frente à instabilidade no Paquistão e a imprevisibilidade do Irã.

Na revista Foreign Affairs deste bimestre, Bennett Ramberg defende a “retirada com honra” do Iraque (engolir o orgulho e partir, já que as instabilidades internas e disfunção política superam as tentativas externas de estabelecer a ordem, por isso partir o quanto antes seria a melhor forma de garantir os interesses dos Estados Unidos), utilizando os exemplos históricos como Vietnã e Camboja (1960´s), Líbano (1980´s) e Somália (1990´s). Trago essa referência para lembrar que historicamente os Estados Unidos sempre partem, mas o problema permanece ou se agrava. Ramberg ainda traz o caso da União Soviética, que durante a década de 1980 incorreu em prejuízos econômicos e políticos na tentativa de derrotar os afegãos.

Se o plano é derrotar o terrorismo com a força militar – tal qual Bush, o plano deve trazer mais um fracasso. Contudo, se conseguir maior engajamento de China, Índia e um maior diálogo com o Irã para resolver o problema da instabilidade da região, assim como o uso do serviço de inteligência ao invés da força militar, talvez exista uma real saída que não seja apenas a “retirada com honra”, mas a real estabilização da região. O problema é muito intricado e a solução deve ser multilateral, por isso é fundamental, nessa semana, Obama convencer os países membros da OTAN a apoiá-lo em seu plano “Afe-Paqui”. Acredito que é com isso que Obama conta. E Isso pode significar uma mudança do paradigma de política exterior americana para o Oriente Médio, como a atual prioridade, em concordância com os demais passos ensaiados por sua equipe em outras questões, o que seria, de fato, um grande progresso. Para encerrar, deixo aqui a declaração recente de Obama a respeito:

“The world cannot afford the price that will come due if Afghanistan slides back into chaos or al-Qaeda operates unchecked. We have a shared responsibility to act, not because we seek to project power for its own sake, but because our own peace and security depends upon it. And what’s at stake at this time is not just our own security; it’s the very idea that free nations can come together on behalf of our common security.” (Fonte: www.democracynow.org – The war and peace report - 30 de março)

domingo, 29 de março de 2009

Imagem da semana

Olá, pessoal.

Ao receber a The Economist essa semana (21/03 - 27/03) não pude deixar de scanear a capa e colocar aqui no blog.

Ela mostra de uma maneira muito bem humorada como a China vê o mundo.

Acontece que ela é tão interessante, que deixei para postá-la como imagem da semana. Não é uma foto, mas não deixa de ser uma imagem.

Por ser a capa toda da revista, ela ficou um pouco grande, por isso é melhor acessá-la aqui (obs. clique na lupa logo acima da imagem do lado direito para ampliá-la).

A imagem é um pouco pesada, mas vale a pena.

Post do leitor - Adriana Suzart de Pádua

[Pessoal, como eu havia previsto, nosso podcast levantou opiniões divergentes. A Adriana Suzart de Pádua, que já escreveu outros três posts aqui no blog, enviou o texto que segue abaixo. Antes, no entanto, gostaria de fazer algumas colocações. O objetivo deste blog não é apenas informar nossos leitores sobre o que está acontecendo no mundo. Pra isso basta colocarmos os links dos bons jornais que temos no país. Nós queremos ir além da informação pela informação, afinal, uma notícia sem a devida compreensão não passa de amontoado de palavras. E o que define essa compreensão necessária é o senso crítico. Senso Crítico não significa falar mal, criticar por criticar. É o resultado de debates e discussões, e é isso que queremos aqui. Não somos os donos da verdade, por isso mesmo abrimos espaços para que todos se posicionem e coloquem suas opiniões, mesmo que divergentes daquelas de quem escreveu um post. Por isso, fique tranquilo para comentar e divergir quando quiser. Segue o post!]

Metáforas Presidenciais e outras Gafes

Não é de hoje que o discurso de nosso presidente provoca controvérsia. Mas não se pode esquecer que foi com esse discurso “simplório” que ele se fez ouvir em fóruns importantes como o de Davos no início de seu primeiro mandato, quando arrancou aplausos e apoio dos países do primeiro mundo ao lançar a proposta de um “projeto fome zero internacional”. Feito que muitos presidentes mais letrados e anteriores a ele não conseguiram.

Gosto de me reportar a esses fatos porque, como já é uma característica assumida nossa, brasileiro tem memória curta, e muitas vezes nos valemos dela apenas para criticar por criticar, o que, aliás, também é um hábito bem brasileiro.

Nos últimos dias o presidente Lula tem sofrido várias críticas por sua frase dita a respeito dos responsáveis pela crise econômica mundial. Foi acusado de racista, de falta de polidez política e até diplomática. Mas, sua sinceridade pouco protocolar não é demagógica, pelo contrário. Tanto que o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o socialista francês Dominique Strauss-Khan, comentou que, de fato, a crise "surgiu no coração do sistema", ou seja, nos países desenvolvidos.

Metáfora infeliz, talvez. Gafe diplomática, com certeza. No entanto, não se pode negar a lucidez da afirmação. Ou alguém discorda que a crise imobiliária norte-americana foi o estopim desse cenário recessivo que atinge a todos?

Sim, de fato, a crise chegou também ao Brasil, aliás, como era de se esperar, uma vez que estamos inseridos num sistema internacional interdependente. E, me valendo do mesmo artifício do presidente, na tentativa de ser didática, comparo os efeitos da crise no Brasil com um tsunami, isto é, uma propagação de ondas que provoca maiores estragos em regiões próximas ao seu epicentro (países desenvolvidos) e que vai perdendo força ao se afastar de seu centro de difusão. Não estou dizendo com isso que países subdesenvolvidos não serão afetados pela crise, não é isso. Acredito, inclusive, que quanto maior for a dependência destes em relação aos países centrais do sistema, maior serão os efeitos negativos. E é justamente esse o diferencial brasileiro. O país tem procurado diversificar seus contatos comerciais, seja através de negociações entre blocos regionais ou por meio de alinhamentos políticos. E isso é significativo, demonstra autonomia, passo importante em direção à liderança regional e a um posicionamento de destaque mundial.

Alguns analistas como Arnaldo Jabor, atribuem esse menor efeito sentido no país aos nossos sistemas financeiro e econômico rudimentares. Contudo, não se pode esquecer que as políticas que regem esses sistemas rudimentares foram responsáveis pela independência brasileira de uma importante instituição internacional financeira, o FMI. Coisa que muitos tentaram por vários anos e só esse governo conseguiu. Importante lembrar também que o governo Lula, depois do governo Itamar Franco, foi o único a se preocupar com o fomento das reservas nacionais. Não tenho dúvidas de que esses fatores têm ajudado a minimizar os efeitos da crise no país.

O peso da crise sobre os países emergentes é potencializado pela falta de responsabilidade dos países desenvolvidos, que como no caso das medidas a serem adotadas para minimizar o aquecimento global, além de querem se eximir da conta que deveriam pagar por anos de poluição desenfreada, querem que os emergentes assumam o compromisso de não poluírem em detrimento do seu desenvolvimento. Quando o presidente fala do sofrimento dos países emergentes, penso eu, que é a isso que se refere. Os países centrais, quando se trata de repartir o ônus, querem sempre parceiros, mas na hora do bônus...

sábado, 28 de março de 2009

A perpétua prisão afegã

Caros leitores, como sabemos, a Casa Branca anunciou ontem o novo plano para o Afeganistão: uma nova proposta para a reconstrução do país e mais uma quimera norte-americana.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos armaram o Afeganistão para conter a ameaça soviética. Hoje, quase duas décadas após a queda do Muro de Berlim, o Afeganistão tornou-se a ameaça do seu patrocinador. E, neste cenário de ameaças difusas e confusas, o Paquistão adentrou ao rol das preocupações norte-americanas.

A sensação do momento nos discursos de segurança nacional do governo norte-americano é o terrorismo. Termo que também se figurou na agenda dos predecessores de Obama. E conter o terrorismo tem sido sinônimo de inventar guerras contra inimigos sem face e contra países que supostamente abrigam fantasmas.

Pobre Afeganistão! Do passado glorioso à ruína. No desfiladeiro de Hindu Kush, caíram os mongóis liderados por Gengis Khan, mas a armadilha não serviu para os soviéticos e para os norte-americanos. Nem para o Taleban. As lembranças heróicas da bravura afegã explodem junto com as minas espalhadas por todo o território e escoam junto com as drogas que atravessam suas fronteiras. A glória se reduziu à areia. Hoje, o país tem de receber ajuda de um governo invasor que intervém sob os auspícios da reconstrução política, da disseminação da liberdade e da democracia pelo mundo. Combate-se a Al Qaeda e o Taleban ao mesmo tempo em que civis são mortos.

Fazendo alusão a uma postagem anterior: até o mendigo da esquina já sabia que a intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão só resultaria em bagunça. Quase oito anos após a primeira incursão, obteve-se uma ampla coleção de tentativas frustradas de eliminar a Al Qaeda e de reconstruir o país. E o resultado? Uma desaprovação de 51% da população norte-americana com relação à "Guerra" do Afeganistão, a permanente necessidade de ajuda externa, a emigração afegã pelo mundo, dentre outras desgraças. E a solução milagrosa? Enviar mais 4.000 militares com a finalidade de treinar as forças armadas e policiais afegãs. Que diferença isso faz?

Obama acaba de assumir uma guerra que não era sua - como se veiculou na mídia européia -, e da qual não era partidário. O Paquistão também. O país pediu o fim imediato do bombardeio norte-americano contra insurgentes em solo paquistanês.

Mais um complexo quadro moldado pela arrogância e prepotência dos Estados Unidos sob a insígnia da segurança nacional. Mais um motivo de descontentamento no Paquistão e mais tristeza no Afeganistão.

Se para John Keegan todas as civilizações tem origem na história da guerra, cabe-nos perguntar: quantas guerras o Afeganistão tem que travar para se tornar uma civilização, para se estabelecer genuinamente como um país? Por enquanto, tudo o que lhe resta é seguir confinado em prisão perpétua...

E não deixem de ouvir nossos podcasts! links ao lado.

Podcast # 2


Não tinha como deixar de ser, e o tema deste podcast, desta vez mais curto que o último, foram as declarações do presidente Lula, amplamente criticadas pela imprensa do mundo todo. Assim, acabamos mais ridicularizados e criticados, e o Brasil perde chances de mostrar que é um país que pode ser levado a sério.

Nosso presidente está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro...

Clique aqui para ouvir ou acesse pelos links ao lado.

Até mais!

PS.: Esse post coloca a minha opinião pessoal sobre o assunto (Alcir Candido). E, obviamente, é passível de críticas e opiniões divergentes.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A culpa é sempre dos outros

Segundo Lula, a culpa da crise é dos brancos de olhos azuis. Além disso, o presidente disse que nunca viu um baqueiro negro ou índio.

Sobre isso, sugiro que leiam o primeiro post da Página Internacional, chamado "Cuspindo no Prato que Come" aqui.

Além disso, não deixem de ouvir o comentário de Carlos Alberto Sardenberg na CBN de hoje de manhã aqui.

[desculpem a correria hoje!]

quinta-feira, 26 de março de 2009

Quem quer dinheiro?


A ONU anunciou que quer 1 trilhão de dólares do G-20 para combater a crise internacional. Segundo Ban Ki-moon, Secretário Geral das Nações Unidas, o mundo precisa de pelo menos US$ 900 bi para financiamentos aos países em desenvolvimento, uma vez que esse é o valor que, segundo dados do Banco Mundial, deverá deixar de ser ofertado a esses países.

Ainda hoje o presidente Lula junto o primeiro ministro Gordon Brown, do Reino Unido, anunciou que querem criar um fundo de US$ 100 bi para apoio às exportações.

Sinceramente, eu não acho que se deva deixar os bancos quebrarem, as exportações despencarem por falta de financiamentos, enfim. Não se pode jogar pro buraco o sistema financeiro internacional assim tão facilmente, as conseqüências para o mundo seriam catastróficas.

No entanto, é engraçado que agora todo mundo tenha dinheiro pra criar fundos, ajudar bancos, pagar bônus de executivos, enfim (veja um post legal aqui). Há um ano, se alguém ousasse pedir US$ 100 bi que fossem para um projeto assistencial de grande impacto na África certamente seria rechaçado...

Aliás, no ano passado, ainda em tempos de bonança, o que a Casa Branca mandou pra África foi uma quantia de menos de 4 bi de dólares. BEM menos do que os trilhares de dólares já investidos pelos EUA no salvamento de instituições financeiras e empresas ineficientes. E essa pequena ajuda já causa um impacto tremendo no continente, tanto que a popularidade do presidente Bush lá ainda é alta. Veja um post nosso comentando o assunto aqui.

Tem coisas que não se entende com tanta facilidade. No período de maior crescimento da economia mundial não se tinha dinheiro. Agora, durante a maior crise dos últimos 70 anos (como se gosta de falar), aparece dinheiro de todo lugar. Ele não deveria estar sumindo agora?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Escrevendo certo por linhas tortas

No início deste ano o Brasil fechou um acordo com a Bolívia para que fossem comprados 24 milhões de metros cúbicos por dia (mcd) de gás natural dos bolivianos.

Foi uma chuva de críticas contra o nosso governo, uma vez que a demanda aqui não estava passando de 19 mcd. O dinheiro podia estar sendo gasto na sáude, na educação, enfim, mas preferimos não contrariar o vizinho.

Pois é. Mas o Brasil é mais malandro. Embora tenha se comprometido formalmente com os bolivianos a comprar 24 mcd, compramos hoje somente 20. Ou seja, está-se dando uma de esperto pra cima deles.

Há quem diga que Deus escreve certo por linhas tortas, e o Brasil está tentando fazer o mesmo. Escrevendo certo ao comprar o que realmente precisa, ainda mais em tempos de crise, mas nas linhas tortas ao contrariar acordos firmados.

Isso, obviamente, só tem conseqüências ruins. Em primeiro lugar, reforça entre os vizinhos a idéia de que o Brasil só quer se dar bem às custas deles. Isso vai ter as devidas implicações quando precisarmos de apoio para qualquer coisa no âmbito internacional. Eles simplesmente não vão apoiar, como sempre fazem.

Em segundo lugar, como a gente quer que eles (não só a Bolívia) cumpram contratos se o Brasil não cumpre às escondidas?

Por fim, tem uma implicação interna. Pra onde está indo esse dinheiro que o Brasil disse que ia gastar com o gás? Eu não sei quanto a vocês, mas imagino que não está na educação nem na saúde.

O Brasil tem de parar de ter medo de contrariar os outros pra conseguir apoios que não existem e colocar suas posições de forma firme e pública. Assim se tem respeito.

É isso aí, pessoal, Deus escreve certo por linhas tortas porque ele é Deus, nós mortais devemos escrever mesmo certo e bem em cima das pautas.

Veja a notícia toda aqui.

terça-feira, 24 de março de 2009

Qualquer semelhança NÃO é mera coincidência...


Normalmente se retratam santos, como no caso acima o São Benedito (que é o da direita, não custa ressaltar), com auréolas.

Acho que não preciso detalhar muito o que símbolo da presidência dos Estados Unidos está fazendo aí atrás da Cabeça do Obama no dia em que ele detalhou seu pacote trilionário (que animou muito os mercados, diga-se de passagem). Essa é daquelas fotos raras que simbolizam tudo, do tipo que vale por mais de mil palavras.

Espera-se de Obama o mesmo que se espera dos santos...

Bom, não vou me ater muito ao pacote do Obama, quem deseja mais detalhes, ouça o comentário do Carlos Alberto Sardenberg na CBN de hoje de manhã aqui.

E veja aqui também o post em que citamos o artigo de J. R. Guzzo chamado 'Não adianta rezar a Santo Obama.

*A foto saiu na capa do jornal Valor Econômico de hoje e, também não custa ressaltar, foi um lance pego por um fotógrafo sem que, acredito eu, tenha sido intencional por parte da Casa Branca.

E não se esqueça dos podcasts, link aí do lado!

segunda-feira, 23 de março de 2009

'Change' nem sempre é fácil

[Pessoal, não se esqueçam dos podcasts! Os links estão aqui do lado]

A "The Economist" da semana passada trouxe uma reportagem interessante para aqueles que esperam mudanças na política dos EUA para a África. Seu título já diz tudo: "Não espere uma revolução".

Faz todo o sentido. Em primeiro lugar, Bush desfruta de uma popularidade ainda alta na África, segundo a revista. Muitos programas, entre os quais o PEPFAR (muito polêmico mas que dá muito dinheiro, veja detalhes aqui em inglês), injetaram quase 4 US$ bi em 2008.

Além do mais, a situação na África é espinhosa demais. Em primeiro lugar tem a questão do Sudão. O presidente do país está com mandato de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (veja aqui posts do nosso blog sobre o assunto). Acontece que Bush foi um ferrenho opositor do TPI e não dá pra mudar as coisas assim de uma hora pra outra, além disso, pega mal para os africanos um presidente negro perseguindo outro, segundo a The Economist.

Na Somália o negócio não é diferente (veja mais sobre a Somália aqui). Os EUA apoiou durante o governo Bush a invasão da Somália pela Etiópia a fim de derrubar os rebeldes islâmicos que estão extra-oficialmente no poder por lá. De repente, Obama provavelmente continuará apoiando a Etiópia, o que é mais fácil do que enfiar a mão no vespeiro da Somália.

Novamente, há outro ninho de vespas por lá, o Quênia, nação do pai do Obama. O país sempre foi um aliado chave dos EUA na África, mas a situação está esquentando, o país tem ficado instável e, dificilmente, o novo presidente americano vai querer enfrentar os custos políticos e econômicos de apagar o fogo no Quênia.

Assim, é muito mais provável que haja continuidade nas políticas americanas para a África do que mudanças, seja pelo trabalho de Bush, seja pelos custos de se fazer mudanças.

domingo, 22 de março de 2009

Imagem da semana

Essa é daquelas!

O Putin, no tempo em que ele trabalhava para a KGB espionando o presidente Reagan, e olha o visual de turista dele. E esse menino? Nada como o tempo para fazer as coisas aparecerem...

Quer mais detalhes? Clique aqui.

Essa foi a imagem que mais me chamou a atenção nesta semana. E aí? tem alguma sugestão? paginainternacional@gmail.com.

E não se esqueça do nosso podcast! Os links estão aqui embaixo e do lado.

sábado, 21 de março de 2009

Podcast #1

Finalmente ele saiu! Clique aqui.

Agora, sim, temos nossos podcasts!

Na primeira edição, comentamos a chegada e as conseqüências políticas da Crise para alguns países da América do Sul.

Você, claro, está convidado a baixar e a ouvir, são só 13 mb, não vai matar a conexão de ninguém! E, aqui do lado, está o link direto para ele e, quando houver mais, para os próximos.

E, quem quiser comentar, criticar, corrigir, enfim, fique a vontade comentando aqui.

Estamos recebendo sugestões para a próxima edição em paginainternacional@gmail.com.

Ouça o comentário de Arnaldo Jabor citado no podcast aqui.

Atualização: veja aqui os principais pontos do pacote de Chávez. O aumento da gasolina não saiu...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Esse tem cara de gente!


Olá, pessoal. As declarações do Obama para o Irã de fato foram muito impactantes. Renderia um bom post. Mas eu acho que o Marcos Guterman escreveu um post tão bom, chamado 'O Grande Satã estende a mão' (veja aqui), que eu me isento de postar sobre isso.

Mas ela estava entre nós hoje, e isso também é muito importante. A bela e elegante presidente da Argentina Cristina Kirchner esteve hoje no Brasil, em uma reunião da FIESP sobre oportunidades de negócios entre Brasil e Argentina.

Os poucos que esperavam que algo importante sobre a recente tensão comercial e a moleza do Brasil para com a Argentina fossem comentados se decepcionaram. Nenhuma novidade, nada do que a gente já não saiba. O Brasil tem pressionado o setor privado a negociar, produto a produto, setor com setor, cotas de exportação com a Argentina, e é isso que vai ocorrer, vamos baixar a cabeça de novo.

O pior é que a contrapartida que o Brasil espera da Argentina diz respeito ao desvio do comércio. Isso é muito simples. Nós deixamos de vender para lá e eles começam a comprar de outros países, como a China, que tem custos muito menores. Ou seja, o que era para proteger a indústria local acaba piorando ainda mais a situação, uma vez que o comércio se desvia beneficiando outro que nem da região é. E parece que a Argentina não quer barrar a entrada de produtos chineses...

Mas, pra variar, quem chamou mesmo a atenção foi nosso presidente. Talvez abalado pela queda em sua popularidade, ele resolveu 'improvisar'.

Isso aqui não é um convento de freiras, são duas nações soberanas (sobre as tensões comerciais entre Brasil e Argentina. O que ele tem contra as freiras?)

Agora os EUA têm um presidente com cara de gente (sobre o fato de os Estados Unidos terem um presidente do povo, que fala como a gente, etc.) - Sem comentários.

Concorda que agora eles têm um presidente que tem cara de gente? E os outros, cara de que tinham?

quinta-feira, 19 de março de 2009

Raposa Serra do Sangue

O STF aprovou hoje a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol. O problema é que a reserva está em uma área de fronteira. Não entrarei no mérito da decisão em termos da 'dívida histórica' que temos com os índios. Vou apenas comentar tendo em vista as questões internacionais.

Tudo bem que há um certo zum-zum-zum. A fronteira é com a Guiana e a Venezuela, não há risco imediato de que por ali entrem tropas que ameacem seriamente a soberania nacional. O problema é o precedente que isso abre. Além do mais, há outro problema maior, que é a atuação de ONGs com 'más intenções' junto aos índios, os problemas de exploração ilegal de minérios, enfim, isso é inegável.

O fato é que, uma vez demarcada, a reserva ficará impenetrável para quem não foi índio. Eu quero só ver se alguém vai entrar por lá sem provocar um conflito. Mas o nosso judiciário é muito mais esperto e já previu isso. Colocou entre as 19 condições da demarcação a de que a União, o exército, enfim, poderão entrar na reserva. Podíamos fazer um teste: levar o Gilmar Mendes com o texto da decisão lá na semana que vem e ver se ele entra...

E eles ainda criaram outro problema: os arrozeiros não vão deixar o local tão facilmente, mesmo o STF tendo ordenado a saída IMEDIATA. Há índios trabalhando nas fazendas ainda. Enfim, o clima está criado para mais um conflito. E fronteira ruim é fronteira conflituosa.

Não importa se a fronteira tem índio, branco ou quem quer que seja, desde que esteja povoada por brasileiros (e com a expulsão dos arrozeiros isso se complica, uma vez que os índios não são suficientes para ocupar a região) e em paz. E isso pelo jeito está longe de acontecer por lá.

Chutando cachorro morto


O Bin Laden apareceu de novo. Desta vez ele quer derrubar o presidente da Somália. Seria um pleonasmo, do tipo subir pra cima? É a primeira vez na vida que ouço alguém querer derrubar outro que já está no chão.

Sinceramente, eu esperava mais do Bin Laden. Pra quem estava há uns tempos atirando aviões contra os poderosos Estados Unidos, ele está jogando baixo.

Não que o coitado do presidente deva ser derrubado. Acontece que a Somália só tem presidente no papel. O único lugar onde o presidente tem autoridade é no centro da capital Mogadíscio. O parlamento do país se reune em um hotel perto da fronteira, em terrirório da Etiópia. Por aí já se vê...

É, com certeza, aquilo que se pode chamar de Estado Falido. O poder central não tem poder nenhum, as condições sociais são as piores possíveis e grupos rebeldes lutam pela hegemonia do país, financiados pelos atos de pirataria que ficaram famosos nos jornais.

É uma mistura de radicalismo religioso, pobreza, instabilidade social. Enfim, é um caos. E o pior é que muito pouco se pode fazer. A ONU, coitada, a gente já conhece. E nenhum país tem interesses suficientes na região para bancar uma empreitada contra quem quer que seja por lá. Ainda mais depois do 'exemplo' dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Já se diz que quem é esperto mesmo aprende com os erros dos outros.

O resto é idealismo: temos de fazer alguma coisa, os países têm de se unir, isso é um absurdo. Disso todo mundo sabe, na prática é tudo mais difícil.

Aí agora vem o Bin Laden querendo derrubar o coitado do presidente. Pra mim é chutar cachorro morto, chover no molhado.

Foi-se o tempo em que havia outros presidentes mais estáveis no poder pra ele querer derrubar. Agora que foram embora dá nisso.

quarta-feira, 18 de março de 2009

OTAN, alguém aí?


Hoje Medvedev, o presidente da Rússia, avisou a todos que está modernizando seu arsenal tendo em vista o “avanço da OTAN”. Algo facilmente explicado pela já manjado Dilema do Prisioneiro, que não vem ao caso comentar agora. O que importa é que a OTAN está tendo sérios problemas em atingir seus objetivos.

Após cancelar as atividades do Conselho OTAN-Rússia devido ao conflito na Geórgia, a OTAN decide realizar 2 atividades simultaneamente que beiram ao absurdo: retomar esse conselho e chamar a Ucrânia e a Geórgia para seu quadro de membros (esse é o tal “avanço” que Medvedev tem medo). É obvio que isso daria problema, é igual uma pessoa se separar porque o companheiro (a) tem uma amante e depois tentar voltar com as duas ao mesmo tempo, uma sabendo da outra. Será necessária uma excelente condução das políticas da Organização para conseguirem realizar tal fato, e se conseguirem, não será sem perdas.

Tanto que existem grandes chances do Conselho OTAN-Rússia voltar a funcionar, de acordo com os próprios russos, mas essa informação foi seguida logo por uma afirmação de seus receios com a OTAN! Pra que serve esse conselho então? Para trocarem farpas em hotéis de luxo ou pra realmente discutir o que deve ser acordado para a paz no Hemisfério Norte? Porque a negociação do escudo antimísseis ocorreu fora da OTAN (que tem planos de ter um projeto semelhante), e outros tópicos importantes podem ser resolvidos fora também.

Em suma, aonde essa OTAN quer chegar?

Os resultados falam por si


Vejam essas duas notícias que saíram no Valor ontem e hoje, respectivamente, e vejamos se é possível identificar uma diferença de foco entre o Brasil e a China.

1. China vai investir US$ 2 bi na África.
2. Lula planeja Instituto de combate à pobreza na África para 2011.

E aí? Só pra clarificar um pouco: a China já investe na África há tempos - inclusive em polêmicos projetos no Sudão - tanto pela via pública quanto privada. Existe até mesmo um fundo chinês - que ao contrário do que ocorre no Brasil realmente existe e é usado - para obras no continente africano. Agora, com a crise, muitas empresas deixaram a África e a China quer entrar no vácuo. Os objetivos são claros: a África tem minério e petróleo. A China precisa disso para financiar seu crescimento.

No caso da segunda notícia, ela não diz respeito à política externa do Brasil em si, mas de uma pretensão do Lula de criar o tal instituto para poder trabalhar depois que sair do governo, já que diz que não quer ficar dando palestras por aí. Mesmo assim, evidencia o foco que é dado por nossa política externa.

Em resumo: a China se usa da economia. O Brasil, da política.

Enquanto a China, não só na África, se utiliza de sua política externa e de sua força pensando em termos econômicos, o Brasil faz o mesmo, pensando em termos políticos.

A China investe, desburocratiza, constrói, abre caminho para suas empresas, fecha acordos comerciais e, no fim, estabelece relações políticas com os países africanos.

O Brasil cria institutos, faz tratados, quer unificar a língua, burocratiza o quanto pode a vida de suas empresas e se fecha a qualquer tipo de negociação comercial a fim de, por meio de acordos políticos, estabelecer relações econômicas com outros países.

Eu acho que os resultados de ambos os focos deixam claros qual seria a abordagem correta.

terça-feira, 17 de março de 2009

Nós podemos?

[Pessoal, este post é de autoria do Giovanni Okado, nosso colaborador, que, por problemas técnicos, pediu pra eu publicar seu post.]

Alguém já ouviu falar sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM)? Eles incorporam muitas premissas liberais e, supostamente, deveriam ser a referência central para a atuação de todos os Estados-membros das Nações Unidas no decorrer do novo milênio. Sim, supostamente...

Entre os dias 6 e 8 de setembro do ano de 2000, os líderes mundiais reuniram-se na Cúpula do Milênio da ONU para comprometerem suas nações tanto com esforços globais mais fortes a favor da paz, direitos humanos, democracia, boa governança, sustentabilidade ambiental e erradicação da pobreza, como para apoiarem os princípios da dignidade humana, igualdade e eqüidade. O resultado dessa reunião foi a elaboração de um documento histórico à humanidade: a Declaração do Milênio.

Assim sendo, o novo século começou com uma declaração de solidariedade e uma determinação sem precedentes de livrar o mundo dos velhos males que afligiam toda a humanidade (guerras, doenças, pobreza, etc.), já que as medidas anteriores se mostraram falhas.

Ao todo, foram definidos oito objetivos para serem alcançados até 2015, que vão desde a erradicação da extrema pobreza e da fome até ao estabelecimento de uma parceria mundial para o desenvolvimento. Para além desses objetivos, foram estabelecidas 18 metas e mais de 40 indicadores para mensurar o progresso dos ODM pelo mundo. O comprometimento para a realização desses fins foi universal, mas as iniciativas deveriam envolver um amplo conjunto de esforços coordenados nos níveis internacional, regional, nacional, municipal, comunitário e, ainda, familiar e individual. Dessa forma, deu-se início a campanha “Sim, Nós podemos”.

Apesar de todos os avanços e esforços da comunidade internacional, os ODM dificilmente serão cumpridos até 2015 – sobretudo no continente africano –, como demonstram os relatórios anuais do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Resta saber qual a resposta para a questão proposta por Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU: “A aqueles e àqueles que os elegeram, os povos do mundo, digo: só vós podeis decidir se a ONU estará à altura do desafio.”
Mesmo que os ODM rondem as mentes das pessoas e estejam em constante discussão por todos os países do globo, numa era de inimigos imaginários e de especulações financeiras, fazer guerras e inventar crises é a realidade. Aos ODM, deixemos a alegoria de um mundo melhor. Que eles sejam o mito da sociedade contemporânea! Querer nem sempre é poder e poder nem sempre é fazer, as condições para a implementação dos ODM estão à vista, mas o slogan da campanha deveria ser alterado para “Sim, Nós Fazemos”. Este talvez seja o caminho...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Negócio do momento!


Pessoal, que Renda Fixa que nada!

Muito menos frete de barco ou avião na Venezuela!

O negócio do momento é quebrar uma seguradora nos EUA!

(Não entendeu? Clique aqui e aqui. Ouça também o comentário da Miriam Leitão sobre isso aqui)

PS.: Esse nervosinho aí em cima é o secretário do tesouro dos Estados Unidos, porque será a braveza?

domingo, 15 de março de 2009

Imagem da Semana


Que Obama e Lula que nada. A gente é mais arrojado.

A imagem acima é a que mais me chamou atenção durante a semana. É daquelas que não tem o que se comentar, o Fidel com chapéu de cawboy (peronagem tipicamente americana).

Quer ver de onde isso saiu? Clique aqui.

Tem outra imagem? Compartilhe conosco: paginainternacional@gmail.com

até mais

Uma dupla do barulho


[Pessoal, novamente não vai ser neste fim de semana que nosso podcast vai sair. O site mypodcast.com, que serviria de servidor para nós, está em manutenção há duas semanas. Então, vai ficar pra semana que vem...]

Como todos sabem, o Lula esteve com o Obama ontem. Pra não ficar chovendo no molhado, vamos comentar alguns pontos relevantes:

"O presidente Obama e eu estamos convencidos (ele gosta dessa de convencidos...) de que essa crise pode ser resolvida com decisões políticas no próximo G-20" (Lula)

E aí? o que acharam? Eu, sinceramente, acho que faz um pouco de sentido. Na teoria, o fórum que reune as 20 maiores economias do mundo hoje pode, sim, fazer alguma coisa. Mas na prática a gente sabe que as coisas são muito diferentes. Há muitas divergências quanto a como essa crise deve ser resolvida, e isso, obviamente, tem conseqüências sobre qualquer decisão de um órgão multilateral.

Isso já pode ser visto na abordagem que se deu à crise na reunião de ministros do G-20, que ocorreu ontem também. Os EUA defenderam a intervenção maior do Estado (há oito meses isso seria um absurdo...); os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) já disseram que não vão mais dar dinheiro pro FMI. E a decisão final qual foi? Os países devem dar mais aportes de dinheiro ao Fundo Monetário Internacional. Por aí já se vê...

Além disso, o Brasil quer primeiro reformar o FMI pra depois colocar dinheiro. O Sardenberg usou uma figura importante pra ilustrar isso: "não adianta pedir pro doente na UTI parar de fumar". Eu concordo. O FMI tem de responder logo. Se eles não se entendem nem do jeito que está, imagine quanto tempo levaria para uma reforma....

Biocombustíveis

Mais uma vez, o etanol foi tema das conversas. Gente, não adianta querer reclamar, os EUA não vão abrir as fronteiras comerciais para o etanol, ainda mais agora em um momento de crise. Eles já estão investindo pesado em fazer o combustível deles. E a razão disso é muito simples: alguém realmente acha que os EUA vão querer se tornar dependentes em energia de um país subdesenvolvido? Segurança energética é coisa séria, e eles já sofrem na mão da Venezuela e não vão tomar qualquer decisão que os possa colocar em uma posição vulnerável, por menor que seja, com relação a um país como o Brasil.

Protecionismo e Doha

Mais uma vez o Brasil insiste na Furada de Doha. Eu já disse isso uma vez: até o mendigo da rua sabia que essa rodada não ia dar em nada. Durante o governo Lula, nosso país não fechou nenhum acordo comercial com quem quer que seja, e isso é grave. O que o Lula ouviu do Obama foi isso, que as medidas que eles estão tomando não contrariarão nenhum acordo internacional. Se o Brasil tivesse algum não teria do que reclamar.

Isso não significa aceitar qualquer coisa que eles quisessem, mas o Brasil se fechou para toda e qualquer forma de diálogo, só aceitava Doha. E o pior, ainda insiste nisso, nosso ministro Amorim já disse que até o fim do ano a rodada vai se encerrar. Pode ser que esteja certo, mas pra mim mostra a total falta de estratégia comercial do Itamaraty.

Encontro Histórico

Não há como negar. O encontro de Lula e Obama foi histórico. A eleição dos dois teve um peso muito grande para os dois países, e o nosso presidente foi o primeiro a ser recebido por Obama (antes ele tinha recebido dois primeiros-ministros).

É isso pessoal, claro que teríamos muitas coisas mais pra falar, mas preferimos pegar nos pontos mais fortes.

Se você gostou do nosso blog, divulgue! Vamos divulgar! Coloque no seu msn, mande emails! E, como sempre, este é um espaço aberto, quer comentar? Comente! Quer escrever aqui? Email para paginainternacional@gmail.com.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Post do leitor - Adriana Suzart de Pádua

[Olá, pessoal, mais um excelente post da Adriana Suzart de Pádua, que é graduanda em Relações Internacionais na UNESP - Franca, membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e redatora do "Observatório de Política Externa Brasileira". Quem quiser, mande um post no e-mail contato@paginainternacional.com.br que nós publicaremos. Bianca Fadel, você bem que poderia nos mandar um post, não é? Boa leitura, pessoal!]


Criado por iniciativa do Brasil, o Conselho Sul-Americano de Defesa (CSD) foi efetivado em dezembro de 2008, depois de muitas conversas bilaterais entre Brasil e Colômbia, devido a resistência deste país em aceitar a formação de uma instituição de tal calibre na região sem a participação dos Estados Unidos.

Mas sabem quem começou com essa conversa de criar um órgão de defesa para a região? Pasmem! Hugo Chávez.

Pouco depois de tomar posse, em uma reunião com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2000, Chávez já apresentava uma proposta de formação de um organismo de defesa aos moldes da OTAN e que se chamaria OTAS (Organização do Tratado do Atlântico Sul). Tal proposta, além da unificação das Forças Armadas dos países da região, previa também a elaboração de uma doutrina militar regional pautada em valores bolivarianos e com o objetivo de proteger a região da ingerência das potências imperialistas.

A proposta chavista não encontrou apoio dos vizinhos na época. Mas, como sabemos, nosso amigo Chávez não desiste facilmente e desde então, sempre que pode, ele traz o assunto à tona.

Após o ataque colombiano à fronteira do Equador, com o objetivo de eliminar um acampamento das Farc, em março de 2008, sob o pretexto de ataque preventivo (como reza a doutrina de segurança norte-americana) e sem comunicação prévia ao governo Correa, ficou clara, para muitos países sul-americanos, a necessidade de elaborar um plano de defesa próprio para a região. Era a oportunidade esperada.

O Brasil, para não perder o bonde da História para a Venezuela, mais que depressa mandou o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, em um tour regional para apresentar a ideia de formação de um CSD e conseguir adeptos. Na época, o Conselho idealizado pelo Brasil, nas palavras do ministro Jobim, estaria vinculado à UNASUL e seria apenas consultivo, não se cogitando a hipótese de fusão das Forças Armadas da região. Limitaria-se a constituir-se em uma voz única em assuntos de defesa e segurança para a região em fóruns multilaterais, isento de tendências ideológicas ou de confrontação contra nenhum Estado em particular. Fomentaria ainda o desenvolvimento da indústria bélica regional.

Porém, alguma coisa mudou. Dois jornais de circulação nacional publicaram essa semana que o CSD poderá tomar a forma de uma aliança militar defensiva regional, com a aprovação de um plano de ação ocorrida no dia 11 deste mês, que prevê a adoção de uma doutrina política comum, o inventário da atual capacidade militar de todos os países da região e o monitoramento dos gastos do setor de defesa. Também deverá ser criado um mecanismo de consulta imediata para situações de emergência, com avaliação de ameaças e ação de resposta, além a criação do Centro Sul-Americano de Estudos Estratégicos de Defesa (CSEED), em Buenos Aires. Um grupo de trabalho coordenado pela Venezuela vai elaborar o registro das academias e centros de estudo em defesa e de seus programas e criar uma rede sul-americana de capacitação e formação.

Será impressão minha ou o CSD está ficando com a cara de seu primeiro idealizador?

O irônico disso tudo é que, embora haja divergências entre os países componentes do Conselho quanto ao lugar ocupado pelos Estados Unidos nessa história toda, resultando em conversas acaloradas durante a I reunião desse organismo, Chávez tem conseguido fazer valer seu projeto sem chamar a atenção sobre si mesmo. E o Brasil, na tentativa de se firmar definitivamente como líder regional, tem dado condições e aberto caminhos para a concretização de projetos nacionais alheios.

A oportunidade faz o ladrão, mas ri melhor quem ri por último.

*A charge que ilustra o post está disponível em: http://chargesdobenett.zip.net/images/Ch-Unasul.jpg

Atualizações

[Informe]

Pessoal, só pra ressaltar: estamos por dentro de muita coisa que está acontecendo por aí, como o caso do menino americano trazido pela mãe ao Brasil que está dando o maior rolo nos EUA e que deve ser tema da conversa entre o Obama e o Lula amanhã. Também estamos por dentro do rolo entre EUA e China (O Obama mandou embarcações armadas para perto da China). Assuntos como estes serão tratados no nosso primeiro podcast, que irá ao ar no domingo. Quer mandar uma sugestão para o podcast? Email para paginainternacional@gmail.com.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Velhas discussões

[Post rápido]

Uma velha discussão tomou conta essa semana da reunião da ONU sobre drogas. Liberar ou não? Política de enfrentamento ou redução de danos?

Minha opinião é clara: As drogas devem ser proibidas. E essa conversa de redução de danos pra mim não passa de lero-lero.

Não vou entrar em questões nacionais, como, por exemplo, a legalização da droga no Brasil. Até porque eu duvido muito que traficante vá recolher ICMS e fazer nota fiscal de suas vendas. Se bandido quisesse fazer isso, não seria bandido...

No plano internacional a questão das drogas está relacionada com a segurança internacional. A exploração da pobreza em países como o Afeganistão é que gera a renda utilizada por grupos terroristas. As drogras também estão ligadas ao tráfico de pessoas e de armas.

Sobre as armas, é com a venda de drogas que grupos extremistas em países da África, Oriente Médio e Ásia Central, entre outros, compram as armas utilizadas para desestabilizar a ordem não só em seu país como também de sua região. Ordem essa normalmente muito precária nesses países.

De onde vem o dinheiro das FARC? Com toda certeza vem dos cartéis de cocaína da Colômbia. O mesmo grupo que se utiliza desse tipo de financiamento também promove seqüestros.

Portanto, não há razão para se pensar em legalizar drogas ou incentivar seu uso com as políticas de redução de danos, distribuindo-se seringas descartáveis, por exemplo.

E antes que alguém se lembre da Holanda, a Suécia resolveu seu problema com as drogas com uma legislação extremamente rígida...

Essa é uma velha discussão, e minha opinião, certamente, é passível de críticas. Se você não concorda, desça a lenha!

até mais pessoal, está tudo meio corrido e eu tinha preparado um post maior e mais abrangente, mas o navegador travou e eu perdi tudo, por isso fiz esse mais curto. Sobre a reunião da UNASUL, não estou encontrando nada muito interessante, caso alguém tenha, por favor nos envie!

Correria


Pessoal, desculpem a ausência, a correria está grande...

Bom, Bianca, muito obrigado pelo comentário, você sabe que eu te admiro muito! Apareça sempre por aqui!

Estamos preparando um post sobre a reunião do conselho de defesa da UNASUL, só está meio difícil arrumar os dados...

Só a título de conhecimento, que história é essa de o Evo Morales estar querendo tirar a Coca da lista de drogas da ONU? (Clique aqui)

Pessoal, logo mais sairá um novo post! Até mais!

terça-feira, 10 de março de 2009

Sobre cartas e escudos...


Desde 2001, o escudo antimísseis norte-americano tem polemizado especialistas e governantes mundo afora. Começou como projeto lunático da plataforma de governo Bush, reeditando a Guerra nas Estrelas do presidente Reagan, para tornar-se a opção mais sensata para defender os EUA contra um ataque de mísseis balísticos intercontinentais provenientes de Irã e Coréia do Norte, principalmente. O projeto, amparado pela OTAN e acordado com a Polônia e República Tcheca, que hospedariam radares e interceptores, tomou outro rumo depois da eleição de Obama: os EUA estão em cima do muro.

Na quarta-feira passada, o presidente americano Barack Obama confirmou ter enviado uma carta à Moscou, na qual afirma que a instalação do escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca seria desnecessária caso a Rússia ajudasse a impedir que o Irã prossiga com seu programa nuclear. O Kremlin, no entanto, nega que seja este o conteúdo da carta.

O governo Obama vem até agora mudando muitas das pedras fundamentais do antecessor Bush, como no caso da assinatura de protocolos ambientais, leis trabalhistas e o fechamento de Guantánamo. Ocorre que no episódio do escudo, a posição do governo ainda é bastante nebulosa.

Durante a campanha, Obama mostrou-se cético quanto ao acordo assinado em agosto passado entre EUA e Polônia, preocupando autoridades polonesas no que se refere à efetividade do acordo, negociado por um ano e meio e fonte de muita barganha para o país europeu. A incerteza sobre o futuro do projeto americano gerou euforia do lado russo, que abriu portas para o diálogo ao suspender o desdobramento de foguetes táticos no Kaliningrado “já que o novo Governo americano não reforça os planos de colocar elementos de seu escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca”.

Chegou-se a especular que Obama faria o escudo após verificar a relação custo-benefício. Nem bem o presidente americano fez seu primeiro discurso e o seu colega polonês já deu declarações visivelmente desesperadas afirmando que os planos seriam mantidos. Os EUA deram sinais de disposição para retomar diálogo com o Irã; contudo, poloneses exigem uma posição definida sobre as instalações do escudo. A OTAN aceitou retomar relações com a Rússia, e é nesse contexto que surge a declaração do presidente Obama de que sem um Irã nuclear, a defesa antimíssil na Europa é desnecessária.

Ocorre que os EUA encontram-se numa sinuca de bico. O Irã muito provavelmente já tem tecnologia (provinda da Rússia) nuclear bélica: falta o míssil lançador. Agora que convenceram a Europa da necessidade do sistema (e mais que isso, depois que prometeram defesa aos aliados do velho continente), há uma pressão favorável à continuidade de políticas do governo Bush para o Obama, de forma a concretizar o acordo. Por outro lado, se os EUA levam a cabo as intenções da administração anterior, serão contraditórios em vários pontos como a reaproximação com o mundo árabe e a delicada reconciliação entre seu país com a Rússia.

Creio que o Obama vai cozinhar o assunto em banho-maria por um bom tempo, enquanto os maiores problemas de sua administração forem de ordem econômica. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ele não sossega...


Há um tempo ele causou um estardalhaço no mundo ao anunciar que tinha testado armas nucleares. Ficou bravo ao fazerem um bloqueio marítimo que impediu a chegada dos mimos que tanto gostava, entre os quais caviar de esturjão e duas (isso mesmo, sempre em duplas) modelos suecas (isso mesmo, suecas). Agora ele ataca novamente, com caviar, modelo e tudo o que tem direito. E mais, reeleito com 100 % dos votos, nem mesmo o presidente Lula, no alto do bolsa família, seria reeleito assim, só o Saddam... É ele mesmo, Kim Jong-Il.

Pobre daqueles que pensaram que ele tinha sossegado ao ter o país retirado do eixo do mal pelo então presidente Bush ao aceitar um acordo em que desistia de seu programa nuclerar...

Eu, pessoalmente, não acredito que um país pobre como a Coréia do Norte tenha intenções boas em investir em armamentos nucleares enquanto o povo morre de fome. Do mesmo jeito que tenha minhas dúvidas quando um Aiatolá sentado no petróleo e que tem, portanto, energia de sobre, diz que vai investir em energia nuclear para fins pacíficos... Enfim, não vou entrar necessariamente nesse mérito.

O fato é que o problema na Coréia do Norte não é necessariamente eles terem o armamento nuclear. Tudo bem que é caro construí-lo, o investimento em tecnologia nuclear é muito alto. Mas, não adianta se ter uma bomba dessas debaixo da cama. Aliás, perto de si é que não se quer esse tipo de artefato nunca.

O problema é quando se tem um míssil capaz de carregar uma ogiva nuclear, principalmente quando esse míssil é de longo alcance. Porque será que quando o Irã consegue testar um míssil eles gravam, colocam no youtube, vai pra TV e os EUA ficam doidos, principalmente no tempo do Bush e de suas doutrinas de segurança?

No caso da Coréia do Norte, míssil suficiente para atingir os EUA, a Coréia do Sul, Japão, enfim... o suficiente para colocar mais mais lenha na fogueira de uma região com 4 potências nucleares e problemas demais com que se preocupar.

E há com o que se preocupar, sim, pois há uns tempos atrás a Coréia do Norte fez um teste com outro míssil que passou por cima do Japão antes de cair no mar. Quer ameaça maior do que essa? É mole? É mole mais sobe, como diz o macaco simão, e no caso do míssil sobr mesmo, o duro é onde ele vai cair...

Portanto, é isso que está acontecendo por lá nessa semana. O tal do Kim Jong-Il inventou que quer testar um satélite. Os serviços de espionagem da Coréia do Sul dizem que, na verdade, ele quer testar um míssil. E pra complicar ainda mais, é óbvio que não querem deixar ele fazer o teste, que ocorreria bem na época em que EUA e Coréia do Sul estão realizando um exercício militar por lá, olha que coincidência!

Tanto que se cogita, inclusive, que, ao anunciar essa semana que não daria mais segurança ao aviões que sobrevoassem seu espaço aéreo, a Coréia do Norte deixou o espaço aéreo do país limpinho pra lançar o que queria propositalmente, já que as empresas aéreas foram obrigadas a refazer as rotas.

Resumindo, a situação por lá está tensa. A Coréia do Norte está até ameaçando de guerra quem derrubar o tal satélite-míssil... O povo está, como se diz por aqui, de cabelo em pé.

Aliás, o ditador por lá também está de cabelo em pé... clique aqui

Pra descontrair um pouco, olha essas fotos'' que eu achei do cara pela internet... o povo gosta dele!

Dançando tango

Em Thriller

Fazendo uma ponta em Heroes

Vestido de matrix

E, pra terminar, pego em uma hora não muito boa...

Até mais!

domingo, 8 de março de 2009

Imagem da Semana


Olá, pessoal. Desculpem a ausência por hoje. Passei a manhã tentando colocar um podcast aqui no site. Está tudo ok, a partir de semana que vem teremos podcasts semanais! O que vcs acham? Sobre as postagens, bem, não tive muito tempo hoje... Além disso, a Telefônica resolveu 'brincar' com a internet aqui de casa e fiquei uns dias offline.

Bom, vamos ao que interessa, post rápido.

Escolhi uma imagem que nomearia como a "imagem da semana". Mais uma vez, isso é o que eu acho, se alguém tiver alguma imagem para compartilhar, fique a vontade.

Pela polêmica que causou, para os que defendem a decisão pelo marco que representa tanto para os que dizem que se trata de uma daquelas para 'inglês ver', acho que esta semana ficou marcada pela decisão oficial do Tribunal Penal Internacional em ordenar a prisão do presidente em exercício do Sudão.

A foto aí em cima está no Estadão (clique aqui). Na ocasião, o presidente do Sudão, Omar Hassan-Bashir, estava com seu tradicional chapéu de penas fazendo um discurso em que desafiava a decisão do tribunal, para mais informações, acesse o link acima.

Bom, pessoal, é isso. Mais umas notícias que achei legais:

Sobre as relações entre EUA, Irã e Síria, demontrando as mudanças do Obama (clique aqui);
Sobre a Rússia e EUA, o recomeço... (clique aqui)
Sobre os pedidos do Lula para o Obama na reunião do dia 14 de março (clique aqui)

Até mais!

sábado, 7 de março de 2009

Post do leitor - Adriana Suzart de Pádua

[Olá, pessoal. Mais uma vez temos um post dos nossos leitores! Desta vez quem escreve é a Adriana Suzart de Pádua, graduanda em Relações Internacionais na UNESP-Franca e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional – GEDES. Redatora do “Observatório de Política Externa Brasileira". Quer escrever aqui também? Envie e-mail para contato@paginainternacional.com.br]

Interesses nacionais

Embora esse não seja um espaço acadêmico, optei por recorrer a alguns conceitos teóricos para cumprir um dos objetivos desse blog, que é também, além de promover um espaço para discussão, informar os leigos nas áreas de Política e de Relações Internacionais, para que estes entendam como esses assuntos afetam sua vida.

O conceito que gostaria de tratar aqui é o de Interesses Nacionais. Para tanto, se os autores anteriores me permitirem, usarei alguns tópicos já abordados neste espaço para demonstrar o tema proposto.

Interesses nacionais, ou objetivos nacionais, são aqueles que devem ser atingidos por um país, tanto em âmbito interno quanto externo, visando garantir o bem comum e a segurança da comunidade que o compõe. Isso quer dizer que o Estado, por meio de seu corpo político, eleito democraticamente ou não, deve assegurar que os indivíduos tenham condições de exercer todas suas atividades vitais, isentos de perigos, riscos ou prejuízos de qualquer natureza.

Em tese, os interesses nacionais deveriam ser determinados pela sociedade que integra o Estado-Nação. No entanto, na prática, o que se percebe é que apenas alguns grupos de interesses, por meio de sua influência econômica, política ou cultural determinam os rumos das políticas e metas adotadas pelo Estado.

Dias atrás, um jornal de circulação nacional trouxe uma notícia relatando o otimismo do Itamaraty com a retomada discreta da rodada de negociações para a reforma, com possível ampliação de assentos permanentes e temporários, do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar do desejo antigo do Brasil de compor este Conselho, é a partir de 1993 que essa intenção assume o status de prioridade e passa a ser perseguida como um interesse nacional. Mas por que o status de prioridade em 1993 e não antes? E em que um assento permanente no Conselho de segurança da ONU atenderia os interesses nacionais?

A nova ordem mundial, instalada a partir dos anos 90, abriu a possibilidade de países emergentes, como o Brasil, se manifestarem com maior liberdade no cenário internacional, sob a bandeira da democracia empunhada pela potência do norte. É neste contexto que a reivindicação de ampliação do Conselho de Segurança não só brasileira, mas também de outros países desenvolvidos, ganha corpo.

O interesse do Brasil de fazer parte do Conselho reside na possibilidade de fazer-se ouvir no fórum internacional mais importante na atualidade. Pertencer à elite internacional, sem dúvida, é reflexo de influência e poder, mesmo que sejam apenas potenciais e não reais, como no nosso caso. Digo potenciais porque a percepção de influência e poder passam, antes de tudo, por um entendimento subjetivo do outro.

Não se pode negar que, influência e poder exercidos no âmbito e por meio de uma organização internacional, como a ONU, apesar de eventualmente ignorada como foi pelos Estados Unidos (EUA), confira grande legitimidade às ações tomadas. E é isso que o Brasil busca. Reconhecimento internacional em fórum legítimo.

Mas, e as ações bilaterais ou mesmo unilaterais não atendem os interesses nacionais? Sem dúvida que atendem. Entretanto é preciso pensar no custo/beneficio que trazem. Era interesse nacional dos EUA garantir o suprimento de petróleo do Iraque. Para isso, promoveu a destituição de um governante déspota e de uma guerra, que deveria ter sido rápida e com pouquíssimas baixas, mas que já dura mais do que o desejado e com mais mortes do que as previstas. A consecução desse interesse nacional desagrada mais a cada dia que passa a população estadunidense, que não vê a hora de ter seus soldados em casa, pouco se importando com a obtenção do óleo negro.

Outro exemplo envolvendo novamente os EUA. A invasão do Afeganistão também visou atender o interesse nacional norte-americano de capturar o agressor da pátria, responsável pelo inesquecível atentado às Torres Gêmeas. Bin Laden nunca foi capturado e os resultados dessa ação foram gastos norte-americanos, morte de alguns colaboradores do terrorista e destruição de uma população já sofrida devido a própria condição de Estado afegão. Tenho minhas dúvidas se qualquer país do mundo, em sã consciência se arriscaria a colocar a mão nesse vespeiro sozinho. Certas situações atualmente só são passíveis de resolução sob o respaldo de uma organização internacional, e mesmo assim a duras penas.

Para que as ações bilaterais atendam aos interesses nacionais é preciso que haja antes de tudo consentimento e cooperação. Os EUA “presumiram (?)”, que garantindo seu suprimento de petróleo, estariam libertando uma população oprimida. Mas será que perguntaram para a população iraquiana (não digo a elite) se ela queria se livrar de Saddam Hussein? Da mesma forma, quando pensamos em ajudar Estados falidos como o Afeganistão, visando nossos interesses, temos que primeiro pesar se as consequências dessa ajuda será útil para os dois lados, e principalmente, se será aceita pela outra parte.

A política externa de um país é o seu cartão de visitas. É por ela que um Estado é medido e rotulado. O objetivo brasileiro é exercer influência sem fazer uso da força ou violar a autodeterminação dos outros Estados. Para isso fóruns multilaterais como a ONU são altamente favoráveis.

A tal da Tortura

Senador Leahy, de Vermont acaba de requisitar uma comissão da verdade (“comission of truth”) para lidar com as acusações de tortura que os EUA recebem diariamente. Diz que nada danificou mais a imagem dos EUA do que o mundo saber que eles “cruzam a fronteira da lei e do poder executivo” para obter informações. Mas só os EUA fazem isso? E até que ponto isso é errado?

Em relação a primeira pergunta, é bem difícil que nenhum país tenha utilizado de meios “não-ortodoxos” para obter informação, exceto é claro, na Disneylândia e no Hopi Hari. Afinal, em situações com baixo tempo de resposta + alto risco é a tendência do ser humano ir alem dos limites de sua moral para garantir a sobrevivência, além da justificativa normalmente empregada “machucar um para salvar vários”. Não estou querendo justificar Abu Ghraib e Guantánamo (longe disso, esses locais são aberrações), mas nós aqui no Brasil não estamos ou acreditamos estar sob ameaça de forças além-mar. Nós aqui no Brasil torturamos sim, não só para obter informações (de forma não oficial, claro), mas para moldar oficiais (quem conhece a formação de militares do Brasil deve concordar com isso).

“Ah! Então é correto torturar?”. 26% dos brasileiros dizem que se fossem policiais torturariam criminosos para obter informações (IBOPE – Mar/08). “Tropa de Elite” foi um grande sucesso, chegando a ser mais sado-masoquista que 24 horas. Ambas obras de ficção que tem heróis fãs da violência com suspeitos.

“Então a tortura ser relativamente legitimada pela população deveria torná-la melhor vista por seus opositores?” Nunca. Obviamente existem limites para essa prática e situações, de certa forma bem definidas, de quando ela deve ser usada, como em casos de extrema urgência ou quando os meios de negociação formais falharem. E apenas em crimes graves que envolvam perdas iminentes de vidas, e assim vai.

Melhor parar por aqui senão podem acusar este que vos fala de apologia à violência ou algo assim. Mas pelo menos pensem se não estão sendo hipócritas antes de tudo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Da ação do Tribunal para a inação do Brasil

[Olá, pessoal. Este post foi escrito em colaboração com o Ivan Boscariol. Os trechos que ele escreveu estão entre aspas.]

É um avanço o Tribunal Penal Internacional ter expedido um mandado de prisão contra um presidente em exercício, isso não se pode negar. Ainda mais que a medida saiu uma semana depois de a mesma corte ter julgado os réus que sobravam da defunta Iugoslávia. No entanto, essa medida é demasiado ineficiente, aliás, é daquelas medidas tomadas por Organizações Internacionais somente pra que não se diga depois que nada foi feito, como quando a Assembléia Geral da ONU vota uma recomendação para que se pare alguma guerra.

(Clique aqui para a notícia. Clique aqui para o blog do Marcos Guterman sobre o Brasil e o Sudão neste caso.)

O Tribunal Penal representa o preenchimento de uma lacuna do Direito Penal Internacional. É uma instituição autônoma, embora mantenha uma espécie de "convênio" com a ONU. É a única corte em que se podem julgar os indivíduos acusados de crimes contra a humanidade, genocídio, entre outros. O único problema é que a Corte é ineficiente.

Em primeiro lugar, o cimininoso em custódia do TPI ou aquele contra o qual foi emitido algum mandado precisa ser entregue ao Tribunal e, na maior parte dos casos, ele encontra-se sobre jurisdição do próprio país em que cometeu os crimes. Em países em que houve mudanças no regime e o criminoso não está mais no poder, como no caso da Iugoslávia, isso não é problema. Acontece que, como no caso do Sudão, o Sr. Omar Hassan Ahmad al-Basir ainda é o presidente em exercíco e, sinceramente, eu acho muito difícil que o governo do Sudão, comandado por ele, aceite o entregar à jurisdição da Corte Penal.

O segundo problema é que o Tratado de Roma está longe de ser um consenso na Comunidade Internacional. "Os EUA, por exemplo, aprovaram um ato que ficou conhecido como "Ato de Haia", que diz que qualquer norte-americano que for preso internacionalmente por órgãos não reconhecidos pelos EUA devem ser trazidos de volta a seu país, nem que seja a força. Ou seja, se um americano for preso pelo TPI os EUA já tem o ordenamento jurídico que autorizaria uma invasão de território caso o Tribunal não liberte o prisioneiro"

Além disso, o nosso vizinho do norte também pressiona vários estados, sobretudo na África, a aprovarem leis que os impeçam de entregar um americano à Corte em troca de ajuda humanitária. "São tratados bilaterais que que se o país não aceitar, a ajuda militar e humanitária será drásticamente reduzida (o Brasil não assinou e está ganhando 90% a menos do que recebia)" Clique aqui e aqui para mais informações sobre isso.

Então, embora represente um avanço, o TPI tem muito a melhorar. Está prevista para esses tempos uma conferência para revisar o Tratado de Roma, tomara que saia alguma coisa dessa reunião...

Mudando de assunto, para terminar, que palhaçada é essa de o governo brasileiro "reagir" às medidas protecionistas da Argentina adotanto "cotas de exportação", isso mesmo, COTAS DE EXPORTAÇÃO?! Pois é, mais uma vez nosso governo baixa a cabeça aos argentinos... Ao invés de, pelo menos, fazer uma pressão que seja, o governo já chamou empresários de vários setores para "negociar" um acordo de restrições voluntárias às exportações.Isso tudo porque a Argentina tem adotado uma série de medidas protecionistas contra o Brasil como forma de se defender da crise, se bem que eles já estavam tomando esse tipo de medida antes da crise estourar...

Clique aqui e aqui para algumas notícias.

Ou seja, o nosso governo não somente aceitou o protecionismo da Argentina como também vai institucionalizar isso... É o primeiro caso assim de que se tem notícia. Aliás, não é o primeiro, o Brasil já fez isso antes com resultados não muito bons...

Bom, se alguém tiver alguma coisa a dizer a favor do nosso governo, por favor o diga, de verdade. Essa é a minha opinião pessoal e, obviamente, é passível de críticas. Inclusive, quem quiser fazer um post em que se posicione a favor da nossa política externa, envie para paginainternacional@gmail.com que nós publicamos!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Impressões desde os Andes Peruanos

Querido Alcir,
Desculpe a demora, enfim tomei vergonha na cara e escrevi algo sucinto para postar. (risos)

Gostei da sua sugestão de comentar algo sobre o que é ser Brasileiro aqui em Lima, Peru. Pensei em buscar artigos e temas mais teóricos para dar sustento ao que pensava escrever, mas analisando com mais atenção o blog cheguei à conclusão que o mais adequado seria comentar notícias, impressões e histórias pessoais com relação ao que venho experimentando por aqui.

Já cumpro dois anos em Lima, cheguei justo dois dias depois do terremoto de 15 de agosto de 2007 que teve muita repercussão internacional. Pude sentir as acaloradas histórias de familiares e amigos de como experimentaram o grande susto na capital, felizmente só um susto por aqui. Não tiveram a mesma sorte os moradores das cidades de Ica, Pisco e Chincha, região litorânea ao sul de Lima. Lá sim, diversas perdas humanas foram perdidas, total de 350 mortos e mais de 1000 feridos.

Além disso, cidades praticamente desapareceram do mapa como a cidade de Pisco a 290 km ao sul de Lima onde mais de 70% das habitações ficaram destruídas, ou seja, só ficou o pó das mesmas. Pude comprovar em Ica o grave que estava, estive por lá quatro meses depois do evento fatídico. Lamentavelmente, os trabalhos de recuperação das cidades afetadas ainda estão a passos de tartaruga. É inacreditável que por falta de interesse político e coordenação inadequada permita tal situação “nas coxas”. Só para vocês terem uma idéia do que estou falando vejam a notícia postada no dia 5 de fevereiro no site do diário El Comércio, um dos diários mais tradicionais do país. Clique aqui.

Aí vemos uma demonstração clara do descaso governamental quanto ao atraso na reconstrução das escolas públicas na região de Ica. Enfim, situação não muito diferente que encontramos nas zonas escondidas e esquecidas no interior do nosso Brasil, porém com a diferença que não temos terremotos. Até porque já bastam os “terremotos” diários de corrupção, clientelismos, mentiras e impunidades que recheiam as manchetes dos jornais do nosso país.

Enfim, tomando sua idéia Alcir, minha intenção neste primeiro post, assim como nos seguintes, é comentar minhas experiências e impressões do que é ser brasileira no Peru. Pra dizer a verdade peruano-brasileira já que sou resultado de uma “relação bilateral”, pai peruano e mãe brasileirinha.

Leitores da Página Internacional, podem contar com sua mais nova colaboradora internacional.

terça-feira, 3 de março de 2009

Uribe e sua turma

Todos adoram criticar o Chávez por querer a reeleição “infinita” para a presidência e etc., alguns considerando que suas sucessivas tentativas para atingir tal fim podem terminar por acabar com qualquer chance de estabilidade na América Latina. Já ouvimos até dizer que o “Sim” no referendo foi o pior que poderia ocorrer para nós e etc. Mas mais uma vez devemos prestar atenção em algo grave que está ocorrendo ao nosso redor que está sendo pouco noticiado.

Durante o carnaval saíram notícias em diversos jornais sobre a crise que está ocorrendo no DAS (Departamento Administrativo de Seguridad), o serviço de inteligência Colombiano. Foram denunciadas escutas ilegais realizadas em opositores políticos, na imprensa e até em membros do governo Uribe, incluindo sua secretária particular. Como nós sabemos, pela nossa experiência brasileira no assunto, escutas telefônicas ilegais são um excelente meio para atingir fins políticos da base governista.

O chefe por trás dessas escutas acredita-se ser a única pessoa que tem controle sobre o DAS, o Presidente Álvaro Uribe.

A tese mais aceita atualmente é de que Uribe esteja querendo minar qualquer tipo de concorrência que possa ter em um terceiro mandato, sendo que para essa re-eleição ser possível seria necessário uma mudança na constituição, a la Chávez. Tese reforçada pela instalação de escutas na secretária de Uribe e no Ministro da Defesa, ,altamente cotado para suceder Uribe.

Chega de resumir as noticias da semana, vamos comentar (afinal, é um blog).

É impressionante como um país consegue se esquivar de notícias e comentários simplesmente por ter um governo de direita e aliado dos EUA. Porque dificilmente um país de esquerda conseguiria passar por um escândalo desses sem ter que ouvir os discursos que esquecem a existência do Ato Patriótico. Até mesmo de organismos internacionais que estão mais do que felizes em encontrarem mais um assunto para escrever um relatório ou uma carta de repúdio.

Estamos vendo as ações de um governo que ao lutar contra as milícias paramilitares infringiu leis internacionais, levando a sério o Plano Colômbia. Um governo que constantemente descobre parlamentares e etc. envolvidos diretamente com paramilitares, sejam elas de esquerda ou de direita.

Devemos lembrar de uma característica importante do DAS – essa agência é subordinada apenas ao Presidente, então das duas, uma : 1. Uribe ordenou essas escutas ou 2. ele não tem controle sobre esse Departamento. È difícil saber qual é pior. Lembrando que houve um escândalo de escutas em 2005 relacionados a uma suposta ajuda do DAS às milícias paramilitares de direita.

Será que Uribe realmente ordenou as escutas? Já vimos pela história regentes serem consumidos por uma missão e fazerem de tudo para proteger seu território, sempre caminhando por áreas cinzentas. Seria Uribe um desses? Ou apenas um homem sedento pelo poder, que tem na luta contra as FARC o trunfo que precisa para se manter no poder?

Se essa denúncia fosse no governo Chávez (que certamente deve ter escutas em seus opositores) estaríamos vendo capas de jornais comentar o assunto, revistas semanais com capas estilizadas do rosto do Presidente Venezuelano e assim vai.

E se não foi ele? Ou isso for o provado pelas autoridades? No Brasil isso não deu em quase nada, e duvido que lá vá dar também. No máximo uma notícia aqui e acolá, como sempre...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Queimada, mas orientada...

[Post rápido. Desculpem não estar mais presente por aqui quanto gostaria, é que as coisas estão meio corridas. Ainda bem que temos colaboradores. Quer mandar um post, uma dúvida ou uma sugestão? O endereço é: paginainternacional@gmail.com]

Antes de eu entrar na faculdade, lembro de ter visto uma entrevista com o ministro Celso Amorim. Como sempre, a gente lembra mais das coisas que não tem tanta importância e, de tudo o que ele falou, ficaram na minha cabeça duas 'curiosidades'.

Amorim disse que viajava muito e, por isso, vivia se queimando nos chuveiros dos hotéis, já que as torneiras eram muito diferentes de um lugar para o outro e isso dificultava a regulagem da temperatura da água. A outra coisa é que, devido a tantas viagens, às vezes ele acordava sem saber onde estava. Se bem que às vezes eu acho que ele está muito bem acordado, mas ainda assim age como se não soubesse em que mundo está...

Bom, se é verdade que quem viaja muito se queima (sem ser pejorativo), uma que deve estar toda queimada é a Hillary Clinton, que, desde que Obama assumiu, está viajando bastante. Agora mesmo ela está no Egito e já passou pela Ásia.

Isso tudo sinaliza a mudança de foco da política externa do governo Obama. Mandar o chanceller pra algum lugar em início de governo quer dizer muito. E a Hillary foi pra China, por exemplo, pra uma reunião preliminar sobre mudanças climáticas, algo impensável no governo Bush. Aliás, Obama também tem sinalizado que está mesmo disposto a negociar um novo acordo sobre mudanças climáticas, e tem também tomado medidas internas sobre o mercado de carbono, algo muito bom.

Essa viagem quer dizer muito: mostra que os EUA estão dispostos a negociar, e, além disso, mostra que a Ásia e a China têm um peso importante para seu governo.

Além dessa, o governo Obama também anunciou hoje a intenção de reduzir os subsídios agrícolas, o que certamente vai dar muito pano pra manga ainda porque o lobby do setor agrícola é muito forte no congresso e não vai deixar essa passar assim tão fácil.

Pois é, pessoal, a Hillary deve estar se queimando pelos hotéis por aí. Tomara que, ao menos, ao contrário do nosso ministro, ela saiba onde está...

domingo, 1 de março de 2009

Levanta o topete, bate no peito e diz que tem moral...

[Olá, pessoal. Por favor, comentem! Quem quiser fazer um post: envie um e-mail para paginainternacional@gmail.com. E, se você gostou da Página Internacional, ajude a divulgar!]

A Exame dessa semana trouxe um artigo do J. R. Guzzo (quem quiser ler clique aqui), chamado: "Não adianta rezar a Santo Obama".

Como sempre, esse cara é demais, escreve muito bem, e o próprio título do seu artigo já denuncia o que ele escreve. Não adianta ficar esperando que o pacotão do Obama resolva todos os problemas da economia. Uma frase me chamou a atenção: "Aconteceu apenas o que acontece quando se espera um milagre: o milagre não veio".

De fato, quem esperava que o Obama, com uma canetada, resolvesse tudo, no mínimo, lascou-se. A coisa lá tá preta, e não vai se resolver assim tão logo.

Os EUA tem dois problemas hoje. O primeiro é o déficit orçamentário. Em palavras simples, o governo tem gastado muito mais do arrecada. E o novo orçamento do Obama vai aumentar esse rombo pra 12% do orçamento no ano que vem. Na CBN nesta sexta, o economista Carlos Auberto Sardenberg falou do assunto. Segundo ele, o normal é um país ter um déficit de 3 -4 % do PIB, e qualquer outro país do mundo já estaria quebrado com o rombo que os EUA têm.

Pois é, pessoal. Acontece que uma parte desse buraco ocorria nas contas correntes dos EUA. Ou seja, a grosso modo, eles importavam muito mais produtos do que exportavam. E foi exatamente isso que ajudou a puxar o crescimento do países que criaram um modelo chamado export-led. Ou seja, se industrializaram pensando em exportar. É óbvio que não vou me aprofundar muito nisso, mas os principais países dessa lista são Japão, Alemanha e China. Opa, mas essas não são as maiores economias do mundo depois dos EUA? São, sim, e aí reside o problema.

Com o Great Crash, como Roger Alpert chama a crise na edição de Jan/Fev da Foreign Affairs, esses países serão duramente afetados, uma vez que orientaram suas economias para a exportação, sobretudo para os EUA, que com eles mantinham um déficit. Agora a situação mudou. O Brasil, nesse rolo todo, obviamente se lasca também, porque vinha aproveitando a bonança do comércio internacional exportando commodities agrícolas e minerais para esses países todos.

O segundo problema a que eu me refiro é a taxa de poupança dos EUA. Ela está muito baixa, isso porque o governo, através da política que agora acabou, incentivava o consumo e o crédito farto. Por isso, a grosso modo, ao invés de poupar as pessoas se individavam.

Esses problemas parecem que não se resolverão tão cedo. A poupança não vai aumentar agora porque a tendência é que falte dinheiro. Além disso, o pouco dinheiro deve ser usado para o consumo básico. A questão do déficit, o orçamento do Obama já diz tudo, está aumentando. Com relação ao déficit em contas correntes (importa mais que exporta), por razões óbvias já está diminuindo. Assim, as perspectivas de melhora são pequenas, e não há Santo Obama que dê jeito nisso.

Mudando um pouquinho, mas ainda no mesmo tema, vocês devem estar acompanhando também a choradeira do Brasil reclamando do protecionismo dos EUA. Pois é, de fato eles estão sendo protecionistas, mas acho engraçado o governo que diz que o protecionismo deve diminuir, esses tempos tenha tentado voltar as defuntas licenças prévias de exportação... Elas só não ressucitaram porque a pressão foi enorme.

Agora vai ter a reunião do G-20 na Inglaterra e o Brasil já começou a querer levantar o topete de novo. Lula disse essa semana que o Brasil é o único país do mundo com moral pra lidar com a crise e que vai deixar isso claro na reunião do G-20. Por favor, né?! Não vou me delongar sobre isso, mas, por exemplo, o nosso senado até agora não se reuniu seriamente uma vez, não votou nenhuma medida anti-crise e o povo lá está brigando mesmo por conta da direção das Comissões. Sobre o executivo, há mais lero-lero do que ação prática. Autorizaram empresas com faturamento de até 600 mil reais a usarem o dinheiro do fundo para exportação mas não aumentaram a receita do fundo, aí fica difícil, né? Essa semana saiu outro indicador que mostra que o governo não cumpriu com o meta do superávit primário. Ou seja, está gastando mais do que deveria, mais do que está planejado, e não é com medidas anti-crise, não. Gasta com pessoal, com viagem de prefeito, enfim. Enquanto o Brasil estava bem economicamente e arrecando muito com impostos, isso não era problema, vamos ver agora. Isso é ter moral? Nem aqui nem na China.

Aliás, o Brasil está levantando o topete mesmo, o Amorim quis até indicar alguém para ser representante do comércio dos EUA... Além do mais está ameaçando os EUA de entrar na OMC. Por favor, né. Depois de torrar milhões de dólares com um processo na OMC por causa do algodão, que o Brasil ganhou, até hoje não teve coragem de aplicar o direito anti-dumping contra os EUA. Agora quer ameaçar? O Brasil teve muito tempo durante o governo Lula pra fechar um acordo comercial com os EUA (não estou falando da ALCA), como muitos países fizeram, inclusive o Uruguai, contrariando as regras do Mercosul. Mas não fechou nada nem com os EUA nem com nenhum outro país apostando na rodada Doha que até o mendigo da rua sabia que não ia dar em nada. Os EUA vão respeitar todos os acordos comerciais na Buy American... E a gente não tem nada com eles. A única coisa é o SGP (Sistema Geral de Preferências), que é unilateral e isenta alguns produtos de tarifa de exportação, mas ele vence esse ano e estão querendo tirar o Brasil.

Bom, resumindo. A coisa está feia para os EUA, está feia para o mundo e para o Brasil também. Ao invés de fazer alguma coisa o governo só reclama e diz que o Brasil tem moral, o que a gente sabe que não tem.

PS.: As regras do Mercosul impedem que um país do bloco feche um acordo bilateral com outro país. Assim, o Brasil não poderia fechar sozinho um acordo com os EUA, mas poderia ter negociado acordos de preferência tarifária, por exemplo, como vem fazendo ao conceder isenções de impostos para muitos países...