2009: Uma retrospectiva de mistérios

Por

Há algum tempo, o poeta português Fernando Pessoa escreveu: “Todas as nações são mistérios. Cada uma é o mundo todo a sós.” 2009 foi um ano de mistérios, de nações e ações misteriosas, de tentativas de se produzir um mundo inteiro dentro das próprias fronteiras ou de procurar criar um mundo a partir do território nacional.

No início do ano, tomou posse o 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com um discurso que conclamou a aproximação entre todos os povos, sob a liderança (e amizade) norte-americana. Neste ano, deveríamos escolher “a esperança em vez do medo”, segundo Obama. Nós escolhemos? Guantánamo deveria ser fechada, Afeganistão e Iraque deixados, um mundo sem armas nucleares criado, o meio ambiente preservado, o parte islâmica do globo agregada. Tudo isto em prol da paz. Do Prêmio Nobel da Paz, concedido pelas intenções, não pelas ações. Os Estados Unidos quiseram um mundo dentro de si mesmos.

Outros países se tornaram um mundo. No Sudão, o presidente Omar Hassan Ahmad al-Bassir foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional por causa do genocídio contra o seu próprio povo. Fato similar ocorreu na China, na província de Xinjiang, contra a minoria dos uigures (muçulmanos turcófonos), mas ninguém foi condenado. Nem mesmo o governo israelense foi condenado pela matança indiscriminada dos palestinos. Na Venezuela, Chávez lançou o gérmen para a perpetuação no poder, iniciativa também acatada por Uribe, na Colômbia. Irã e Coréia do Norte lançaram uma infindável empreitada nuclear. O Irã se converteu num barril de pólvora por causa das manifestações populares. Paquistão, Iraque e Afeganistão viveram sob a iminência de atentados violentos. G-8 e G-20 se reuniram para conter a crise econômica mundial. Cuba retornou ao imaginário político das Américas. E agora nós também conhecemos Honduras.

E os acontecimentos não param por aí. A ameaça terrorista está mais ameaçadora no mundo. A queda do Muro de Berlim completou 20 anos e ainda não abandonamos a idéia de fragmentar os povos, por mais que conclamemos a união de todos. Os países mais poderosos do mundo, diga-se aqueles que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU, reuniram-se diversas vezes para decretarem sanções contra os países aventureiros na questão nuclear, a qual ameaçava a própria sobrevivência do mundo, mas esqueceram que o apocalipse provém do meio ambiente. A Cúpula de Copenhague foi um fiasco.

E o Brasil? Eu, particularmente, arrisco-me a dizer que este foi um ano chave para o país convalidar o seu protagonismo crescente nas relações internacionais. Mas, é claro, este processo não foi tão simples e tampouco marcado só por avanços. Caminhamos ainda embalados pelo retrato da canção “Querelas do Brasil”: um Brasil que não se conhece, que não se merece e que mata a si próprio. Da epidemia da corrupção a uma sociedade inercial, dos encantos pelo estrangeiro a um consumo apátrida, das desigualdades sociais à disseminação da violência e da criminalidade. Com tantos problemas e dificuldades, por que pensarmos no externo? No Brasil “lá fora”?

Conquistar uma imagem positiva “lá fora” deve encorajar a conquista da mesma “aqui dentro”. Ao mesmo tempo, é necessário viabilizar as nossas potencialidades internas de acordo com as possibilidades externas. “Lá fora”, nosso governo e nossa diplomacia tiveram que atuar em eventos e casos sensíveis: Cesare Battisti e Sean Goldman, o acordo militar entre Estados Unidos e Colômbia, a mediação da violência do Oriente Médio e a interminável crise política de Honduras. Do ponto de vista econômico, depositamos uma enorme expectativa no pré-sal. Na área da defesa, estamos apressando os passos e correndo os riscos de “país grande”, segundo Nelson Jobim. Nossa missão de paz no Haiti completou cinco anos. Obama já disse que o nosso presidente é “o cara” e, de fato, Lula figura em diversas pesquisas como um dos líderes mais popular do mundo. Reforçamos o nosso compromisso para com o meio ambiente. Enfim, o Brasil está no mundo e espero que esteja para ficar!

Somos um país grande, do Oiapoque ao Arroio-Chuí, e a grandeza deve ser o nosso destino, aqui dentro e lá fora. É o que nos fará um povo grandioso. É o Brasil que conhece a si próprio e que o brasileiro merece. Que venha 2010!

As nações são mistérios, e as ações mais misteriosas. Que mundo fizemos dentro e fora dos territórios nacionais? Dentro e fora de nós mesmos? Decerto, poderíamos encerrar com o brilhantismo de Shakespeare, “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que a vossa vã filosofia possa imaginar.”

Por fim, desejo a todos vocês um Feliz Ano Novo, repleto de paz, saúde, amor e harmonia. Que todos possam alcançar muitas realizações em 2009. Um grande abraço!


Categorias: Post Especial


Post do Leitor

Post do Leitor – Bianca Fadel

[Hoje temos uma estréia especial neste blog. Há muito tempo, a aluna do 3º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Bianca Fadel, nossa fiel leitora, disse que nos enviaria um post. Agora, o post chegou. Ela faz uma análise da questão étnica na China. Vale a pena conferir. Ótima leitura a todos!]

Etnicidade nas relações internacionais: o caso da China

Na contemporaneidade, a importância da reflexão acerca da(s) etnicidade(s) se mostra crescente, na medida em que se fortalecem os processos de interdependência característicos de uma era de globalização acentuada. A análise dos recentes conflitos relativos ao grupo étnico dos uigures na China pode ser utilizada como bom exemplo para o aprofundamento dos aspectos relativos a tal discussão no âmbito das Relações Internacionais.

No último dia 24 de dezembro, véspera de Natal, outros 5 representantes da etnia uigur receberam uma sentença nada festiva. Estes se juntaram aos 22 uigures que foram anteriormente condenados à pena de morte pelos conflitos étnicos ocorridos em julho deste ano – que deixaram aproximadamente 200 mortos e milhares de feridos na região noroeste da China (maiores informações aqui). Para compreender a situação, é importante uma breve contextualização a respeito do tema.

A província de Xinjiang é a maior da China, sendo considerada estratégica por suas características naturais de forte impacto econômico – a região concentra 15% das reservas nacionais de petróleo e 20% de suas reservas de gás (maiores informações aqui). Esta província foi incorporada à China no século XIX, comportando grande quantidade de uigures, povo de vinculação muçulmana e língua turca. Historicamente, o ‘medo chinês’ dos uigures é antigo, sendo que, em tempos mais recentes, a China possui como principal temor que o crescimento do movimento separatista uigur venha a incentivar conflitos entre a etnia dominante no país (chamada han) e as variadas minorias existentes na localidade (maiores informações aqui).

Em meados de julho deste ano, protestos com motivação cultural envolvendo a etnia uigur provocaram inúmeros casos de mortes e ferimentos no país. Os protestos ocorreram em resposta à morte por linchamento de dois uigures no começo do mesmo mês, sendo que estes criticam a discriminação por parte da etnia han, dominante no país. É preciso ressaltar as grandes diferenças entre os dois povos, o que acentua as animosidades.

Vale apontar, ainda, que a posição norte-americana, antigamente caracterizada por oposição aos abusos de direitos humanos em Xinjiang, modificou-se notadamente após os atentados de 11 de setembro, com vistas ao combate aos fundamentalistas islâmicos na desenfreada Guerra contra o Terror.

Considerando que cada uma das quatro pequenas estrelas da bandeira da China representa suas províncias autônomas, dentre as quais se encontra a de Xinjiang, é preciso refletir acerca dos efeitos da globalização na acentuação dos conflitos étnicos no país. Neste sentido, é interessante o posicionamento de Rebiya Kadeer, exilada uigur nos Estados Unidos e uma das principais vozes da etnia no mundo, a qual sugere que o momento, apesar de crítico, deve mostrar-se propício ao diálogo (maiores informações aqui). Este ponto de vista, no entanto, não tem caracterizado a atuação do governo chinês no que tange a punição aos uigures, tal como sugere o crescente número de representantes da etnia condenados à pena capital.

Percebe-se, pois, que apenas a partir da disposição das partes envolvidas em prol do alívio das tensões étnicas é que as ‘estrelas’ da bandeira chinesa poderão se complementar não apenas de forma simbólica, mas, principalmente, com o objetivo da coexistência política, econômica e social de forma harmoniosa, indiscriminada e benéfica a todas as partes envolvidas.


Categorias: Post do leitor


Post do Leitor

Post do Leitor – Raphael Camargo Lima

[Pessoal, recebemos mais um post do nosso leitor Raphael Camargo Lima, aluno do 2º ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca. Desta vez, ele trata do falecimento de Houssein Ali Montarezi, uma autoridade religiosa iraniana, e os desdobramentos deste acontecimento. Apreciem a leitura! Só para lembrá-los, quem quiser postar no blog, basta nos enviar um e-mail com o post.]

A volta dos que já foram


O clima de festividades de fim de ano parece tomar outros rumos no Oriente Medio. E no Irã, nem mesmo se Papai Noel desse as caras o clima poderia ficar mais agitado. Desde o falecimento de um dos Aiatolás (clérigos de significativa importância religiosa) do Irã, Houssein Ali Montazeri, no último dia 19, Teerã tem sido palco de constantes e reincidentes protestos contra o atual governo de Mammoud Ahmadnejad. O funeral do líder religioso concentrou policiais, religiosos, oposição e governistas num mesmo ambiente, não muito ameno. Os protestos levaram até a paralização dos precedimentos e a intervenção da polícia local, ao som de manifestantes gritando pelo fim do atual governo. Montazeri era mais do que um líder religioso, fora fundador da República Islâmica em 1979, um dos idealizadores da Constituição e principalmente uma importante figura da oposição. Mas uma coisa é o que ele representou, outra é o que seu falecimento representa ou pode desencadear.

Em um governo regrado às sombras do autoritarismo, como o do Irã, aos poucos parte da população vai se privando dos tão conhecidos princípios democráticos e gradualmente vai deixando de lado críticas ao governo em virtude da possível repressão. O que a moveria novamente em torno desses princípios ou de um governo mais democrático são alguns dos aspectos das chamadas “identidades”, consideradas por muitos como comunidades imaginadas que vibram em torno de um passado comum e expectativas conjuntas. Um dos traços que marcam essas comunidades são os mártires. Figuras que podem não ter tido grande representatividade no momento em que viveram, mas que são construídas como grandes heróis em busca de um bem maior a determinada população.

Agora pensemos o Irã de novo.

Seria essa uma tentativa de se construir um mártir que possa motivar mais a oposição a reagir contra um governo por demais autoritário? Não se pode pensar que uma figura como Montazeri pode urgir esse grupo a buscar de forma mais firmemente uma democracia mais bem consolidada, ou simplesmente um sentimento anti-governista mais forte?

Esta, na minha opinião, é a raiz primeira desses protestos em Teerã. Paralelamene, o esforço contrário é também grande, o que demonstra a capacidade criativa de um governo incapaz de silenciar essa voz da oposição pelo seu peso religioso, e que agora busca silenciá-lo depois da morte, conduzindo-o ao esquecimento.

Se religiosamente, os Aiatolás podem compreendidos como sinais de Deus, aqueles que são iluminados com a palavra divina, no caso particular de Montazeri pode-se dizer que vai um pouco além, é também um sinal de palavra para a oposição.

Se religiosamente, os Aiatolás podem compreendidos como sinais de Deus, aqueles que são iluminados com a palavra divina, no caso particular de Montazeri pode-se dizer que vai um pouco além, é também um sinal de palavra para a oposição.


Categorias: Post do leitor


Um acordo por uma criança? Não neste caso

Por

Há poucos minutos, foi entregue às autoridades americanas o menino Sean Goldman, alvo de uma disputa entre o pai americano e a família brasileira. Ele e o pai já embarcaram para os EUA. O caso, no entanto, ultrapassou a esfera privada e acabou tornando-se uma disputa diplomática com repercussão internacional. O caso é conhecido e já foi, inclusive, tema de conversas entre o presidente Lula e seu colega Obama. Leia mais sobre o caso aqui.

Independemente do mérito da decisão da justiça brasileira, o que me chamou atenção no caso foi a denúncia da avó do garoto, em carta aberta, de que o que houve, na verdade, foi a “troca” da criança por um acordo econômico. Não foi isso que aconteceu.

Sinceramente, a acusação da avó não passa de um relato de uma pessoa emocionada que terá de se separar de seu neto. Nada além disso.

A sra. Silvana Bianchi falou do fato de o senado americano ter aprovado por unanimidade a prorrogação do chamado SGP, Sistema Geral de Preferências dos Estados Unidos. O programa oferece isenção de tarifas de importação para uma série de produtos de países em desenvolvimento, inclusive o Brasil.

A indignação da avó não faz sentido, em primeiro lugar, porque o SGP não é um acordo negociado. Os países que têm sistemas gerais de preferências instituem as medidas por decisão unilateral. Pode até haver algo nos bastidores, mas é muito pouco provável, uma vez que ter esse tipo de benefício a países em desenvolvimento é prática comum de países desenvolvidos.

Em segundo lugar, por mais repercussão que esse caso tenha tido, não é uma criança que ia movimentar os poderes executivo, legislativo e judiciário dos Estados Unidos e do Brasil em uma ação coordenada. A decisão de entregar o menino já vem correndo na justiça brasileira e americana há anos. Quem aprovou a extensão do SGP foi o congresso americano, por unanimidade. Seria possível convencer todos os congressistas, com toda a política que isso envolveria, a beneficar o Brasil com um acordo por conta de uma criança? Haveria outros meios políticos mais simples e que chamassem menos a atenção, sobretudo em um período onde o legislativo americano se encontra ‘atolado’ de propostas, como a reforma do sistema de saúde.

Aliás, foi justamente o excesso de trabalho dos congressistas que levou a prorrogação do SGP. E falo isso por experiência própria, pois tive a oportunidade de trabalhar junto a FIESP e a AMCHAM, representando a empresa onde trabalhava, que se beneficia do programa, nas ações para convencer os americanos a não excluir o Brasil do SGP.

O programa tem data para expirar, e já deveria ter vencido há dois anos. No ano passado, houve um debate amplo no sentido de reformar o SGP excluindo países que não estivessem num nível de desenvimento tão baixo, como é o caso do Brasil, que não é mais considerado por alguns como subdesenvolvido.

Na falta de consenso e na expectativa de mudanças por conta da saída do presidente Bush, os congressistas decidiram adiar a reforma do programa para este ano. No entanto, por conta da crise e questões políticas internas, como a reforma do sistema de saúde, o caso foi deixado de lado em 2009. Como, sem decisão, o SGP simplesmente deixaria de existir, novamente houve a decisão de postergar a reforma.

Essa discussão, portanto, já é antiga. Não acredito que o caso do Sean, que também corre na justiça há anos, tenha influenciado a decisão dos congressistas.

Por fim, o Brasil não é o único país que se beneficiou com a prorrogação do SGP. Muitos outros países estão no bolo dos que ganham mais um ano de isenção de tarifas. Aprovar o programa por um ano é simples, basta que se faça uma votação. Retirar o Brasil dele seria complicado e não seria possível, por questões regimentais, até o fim deste ano, quando venceria o programa, o que torna uma chantagem do tipo “entreguem o menino ou saiam do programa” simplesmente impossível.

No entanto, vale ressaltar que, durante o ano, houve uma proposta de um congressista de retirar o Brasil do SGP pelo país não ter ratificado uma convenção da ONU sobre ‘sequestro’ (abduction) de crianças, numa referência clara, porém indireta, ao caso do garoto.

Infelizmente não encontrei a notícia sobre o caso, mas a proposta foi simplesmente ignorada e engavetada por não fazer sentido. Tratava-se de uma ‘desculpa’ para retirar o Brasil, pois o congressista em questão é republicano e contrário a esse tipo de benefícios. Sabem aqueles projetos de lei sem pé nem cabeça que são apresentados no Brasil? Foi considerado assim por lá.

Resumindo, trocar uma criança por um acordo comercial? Neste caso, NÃO.


Categorias: Brasil, Estados Unidos


Guantánamo e a esperteza

Por

Que conforto, parece até um hotel Hilton


O Sr. Presidente dos EUA prometeu pro Papai Noel (e pro mundo também) que ia conseguir fechar a prisão/centro de tortura de luxo de Guantánamo até 2011. Pelo jeito alguém vai ficar sem presente esse ano…

Havia uma requisição de 200 milhões de dólares para construir a prisão para onde os atuais encarcerados em Cuba seriam destinados com o fechamento de Guantánamo. Porém, os DEMOCRATAS (que deveriam estar de acordo com Obama) vetaram a decisão. Bacana ein? Fica a pergunta, onde é que os presos irão? Será que adotarão o sistema brasileiro de conforto carcerário ou vão enfiar os supostos terroristas como penetra em festas da Casa Branca…

Devemos lembrar que desde que foi proposto o encerramento das atividades de “Gitmo”, muitos viram com descrença e já davam como certo a mudança dos prazos (como ocorreu), problemas e etc. Agora perder o apoio do seu partido já é demais, faz toda essa mudança se tornar cada vez mais irreal e midiática, deixando mais aparente que isso não passou de uma promessa eleitoral sem fundamento.

Se já não era o bastante aquela prisão ser composta por brechas legais, falta de informação sobre suas reais condições de vida e dos interrogatórios realizados em presos que não possuem nem processo formal, agora eles não tem idéia onde ficarão presos sem ter razão aparente. Mandou bem Sr. Presidente!


Categorias: Estados Unidos


Entrevista – Marcelo Rech

Por

Pessoal, como nem sempre estamos conseguindo manter os podcasts atualizados, procuramos inovar de alguma forma. A partir de agora, tentaremos realizar algumas entrevistas via e-mail com profissionais da área de Relações Internacionais especialistas nos assuntos que trataremos. E para começar esse novo procedimento, trouxemos o nosso novo parceiro, o editor do InfoRel, (consulte o site aqui) Marcelo Rech. O título desta entrevista é: Mídia, relações internacionais e a importância da informação.

Todos nós, da Página Inernacional, gostaríamos de agradecer imensamente ao Marcelo tanto pela parceria como pela concessão desta importante entrevista. Muito obrigado!


Currículo: Marcelo Rech tem 39 anos e 20 de profissão. É jornalista com especialização em relações internacionais, estratégias e políticas de defesa e terrorismo e contra-insurgência. Foi correspondente internacional, coordenador de análise política da Fundação Getúlio Vargas e é o editor do InfoRel há cinco anos.

Perguntas:

1) Quais as principais convergências e divergências entre o campo de estudos do Jornalismo e o das Relações Internacionais?

Sinceramente, acredito que existam muito mais convergências. São áreas afins, que têm muito a ver. Na minha formação, sempre privilegiei o jornalismo internacional. Entendo que evoluíram muito. O Brasil firmou-se como protagonista das relações internacionais e isso também exige uma maior preparação por parte de seus jornalistas. Eu procurei me especializar na área para entender melhor como é o processo como um todo. Não dá para um “generalista” cobrir a política externa. Um problema que ainda observo diz respeito ao comportamento dos nossos diplomatas. Em sua maioria, se consideram os únicos em condições de analisar e discutir política externa. Também em algumas universidades, temos aqueles “deuses” que se acreditam donos da verdade quando o assunto é relações internacionais. Eu procuro analisar da forma mais simples para que os leitores possam, em poucas palavras, ter uma idéia do que se passa. Minhas análises formam um recorte, apenas um recorte e assim devem ser as demais análises.

2) A mídia presta uma contribuição benéfica ou é prejudicial aos fenômenos em curso nas relações internacionais?

Apesar de alguns absurdos, é e sempre será benéfica. Precisamos explorar cada vez mais o tema. Quanto mais análises produzirmos, mais textos, mais coberturas fizermos, melhores seremos. Os meios de comunicação entenderam que os temas internacionais são tão relevantes quanto os assuntos internos. Atualmente, muitas coisas que se passam em outros continentes impactam a nossa vida, o nosso dia-a-dia. Não há tema que possamos dizer: não temos nada com isso. Cedo ou tarde estaremos implicados, para o bem ou para o mal.

3) Como jornalista, o senhor poderia nos relatar uma das experiências mais marcante de sua profissão?

Tive algumas experiências interessantes, mas destaco as viagens ao exterior como as principais. Nada substitui o contato direto com determinadas realidades, como da Colômbia onde estive em acampamentos das Farc, com ex-guerrilheiros. No Peru, pude conhecer melhor como o país conseguiu impor o fim do terrorismo do Sendero Luminoso. Do Panamá, escrevi diretamente do Canal. Uma de minhas maiores frustrações foi a viagem que fiz a Cuba. Era algo que queria muito e pelo qual corri atrás de recursos. Estive por uma semana em Havana, mas não me deixaram falar com nenhuma das pessoas que havia proposto. Todo o tempo, gente do governo me monitorava, acompanhavam minhas entrevistas. Eu cheguei a pensar em voltar antes e só não o fiz porque teria de pagar uma multa altíssima à companhia aérea. Foi decepcionante em todos os sentidos.

4) De que maneira surgiu o InfoRel? Poderia nos contar mais sobre essa agência de informação?

O InfoRel nasceu há cinco anos como uma proposta de reunir notícia e informação num único lugar. Eu havia trabalhado muitos anos na Comissão de Relações Exteriores da Câmara e via o quanto de informação era ignorada pelos meios convencionais. Atualmente, o InfoRel é lido em 86 países apesar de seu conteúdo ser totalmente em língua portuguesa. Há ainda muito para ser feito. Não é fácil nem simples ser empreendedor no Brasil. Os obstáculos são enormes, mas aos poucos vamos sedimentando o projeto.

5) Qual a sua opinião sobre a difusão da informação via internet? Até que ponto as fontes são confiáveis? Os blogs prestam uma contribuição positiva para manter o leitor informado?

Há de tudo nesse meio, mas no final, os que sobrevivem são aqueles que contam com a credibilidade dos leitores. As pessoas conseguem enxergar o que é bom e o que não é. É claro que a velocidade com que as informações transitam exige um cuidado maior. É muito mais fácil fazer as coisas hoje em dia. É possível montar um jornal ou uma revista sem sair de casa e sem falar com ninguém, afinal tudo está na internet. Quando tivemos o boom da internet, muitas coisa se criou, mas poucos ficaram. Eu espero que o InfoRel consiga sobreviver às dificuldades e chegue a ser uma referência latino-americana para os temas das relações internacionais e defesa. Sinto que o pior já passou e que hoje, os que nos acessam o fazem por confiar em nosso trabalho. Temos consciência de que somos muito pequenos ainda e que temos de melhorar muito, mas o fato de estarmos cientes disso nos dá alguma vantagem. O importante é que as pessoas nos percebem e ao nosso esforço. Eu sinto isso.

6) Considerações finais.

O InfoRel não nasceu para concorrer ou competir com os demais, mas para somar-se. Sempre digo que ninguém precisa deixar de ler isso ou aquilo, mas se puder agregar o site à sua leitura e às suas pesquisas, então estamos cumprindo com a nossa missão. As relações internacionais são algo complexo e difícil e o nosso compromisso é o de nos atualizarmos sempre para tentarmos fazer um site melhor a cada dia.


Categorias: Mídia


Pleito hondurenho

Por

[No intervalo de Cop15 e Irã…]

Depois de muito teretetê com as eleições em Honduras, o Tribunal Eleitoral anunciou que o Porfírio Lobo foi, sim, legitimamente escolhido para ocupar o leme do país latino. Saída de Zelaya e renúncia de Micheletti: isso é o que o futuro mandatário exige desde já. A partir dessa declaração, também advogou por uma saída ‘honrosa’ do [desgastado] morador da embaixada brasileira.

Se o comparecimento às urnas fosse alto, a diplomacia brasileira teria um impasse pela frente: defender Zelaya mesmo frente a eleições democráticas e representativas? Por sorte, manteve-se o mesmo nível da eleição anterior – menos da metade da população.

Ora, a Frente de Resistência ao Golpe de Estado em Honduras proclamou uma “vitória sobre o golpe”. O líder Rafael Alegria chegou a dizer que “está claríssimo que há uma rejeição à legitimação do golpe, o povo deu um golpe no golpe de Estado”. Não. Foi simplesmente a população hondurenha sendo “cidadã” em seu padrão normal.

Por sorte, o Brasil não teve que passar por mais essa saia justa. A América Latina inteira classificou como ilegítimas as eleições hondurenhas. Aliás, até agora, apenas Colômbia, Costa Rica, Panamá e Peru – além do mentor de todos eles, EUA – aceitaram este pleito. Os demais, desde líderes de esquerda aos discursos do Brasil e Argentina, questionam e condenam a realização das eleições.

Não entrando no mérito substancial da legitimidade das eleições em Honduras, o fato é que essa atitude por parte do governo americano remonta tempos não muito distantes. A discrepância de reações no continente americano lembra os contrapontos unilaterais que os EUA assumiam na administração Bush. Nós e eles. Apesar da natureza dos discursos e da postura americana parecer alterada na Era Obama, posições radicalmente opostas de EUA e América Latina no que concerne a situação política deste mesmo ambiente desperta desconfiaça por parte de analistas, governantes e – devo confessar – da minha parte também. Após ouvir do Nobel da Paz que a guerra é, sim, um meio de manutenção da paz, quem nos garante que a polarização na América tenha, de fato, seu prazo de validade vencido, como nos afirmou Obama?

Será mesmo?


Categorias: Américas, Estados Unidos, Política e Política Externa


Post do Leitor

Post do Leitor – Álvaro Panazzolo Neto

[Pessoal, recebemos mais um post do aluno do 4º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Álvaro Panazzolo Neto. Desta vez, ele trata da interminável questão sudanesa, bastante em voga no noticiário internacional, após a condenação do seu presidente pelo TPI. Apreciem a leitura. Quem quiser postar na Página Internacional, é só enviar um e-mail para [email protected]]

Clima ruim no norte da África

Enquanto os olhos do mundo estão voltados para as discussões sobre o clima nas aprazíveis paisagens da Dinamarca, dão as costas à feiúra e morticínio que ocorrem no continente mais pobre do mundo. Isso não é novidade, mas neste momento há uma questão extremamente pertinente que passa ao largo do noticiário internacional, que é a nova escalada da violência no Sudão. Não bastasse a guerra do futebol (a partida-desempate entre Egito e Argélia, pelas eliminatórias da Copa de 2010, em território sudanês, terminou como incidente diplomático), o mundo parece ignorar a piora de uma das maiores crises humanitárias da atualidade.


A história é conhecida: sempre que uma solução é alcançada, ocorre um novo fator de instabilidade. Desde o cessar-fogo que interrompeu uma cruenta e longa guerra civil entre o norte e o sul do país africano, a situação nunca se estabilizou. A piora se deu com a promulgação de um mandado de prisão do TPI contra o excelentíssimo presidente Omar Al-Bashir, acusado de genocídio e tantos outros crimes. A isso se seguiu a expulsão de ONGs do país e uma silenciosa operação de massacre continua. Blindado nos organismo internacionais por parceiros econômicos pouco afeitos aos direitos humanos (leia-se China), o Sudão permanece sendo abastecido de armas (apesar de sanções internacionais) e continua a fomentar grupos paramilitares que atuam em conflitos nas diversas regiões do país. Mesmo com toda a “pressão” da comunidade internacional, apenas em 2009 mais de 2 mil pessoas morreram e 250 mil foram deslocadas devido ao conflito no sul, enquanto 75% da população não tem acesso à saúde básica (ironicamente, o conflito de Darfur, o mais famoso internacionalmente, se encontra em um período de relativa calmaria).

O que torna a crise recente mais pungente é o fato de que há um referendo marcado para 2010, fruto do acordo de cessar-fogo, o qual versaria sobre a independência da região sul e que teoricamente daria fim ao conflito. Entretanto, há fortes indícios de que o governo esteja armando milícias e grupos rebeldes para atirar uns contra os outros e por em xeque a ocorrência do referendo. Não é apenas uma crise incitada pelo governo, mas pela corrupção e incompetência do recém-instalado governo autônomo do sul e pela complacência da comunidade internacional. Enquanto o marginalizado (mas ainda empossado) Bashir causa constrangimentos a Sarkozy e Obama, prende membros da oposição livremente e deslegitima todos os esforços feitos no sentido de alcançar a paz, o mundo cruza os braços. O pior cego é o que não quer ver. A situação atual, caso se torne um conflito novamente, pode fazer implodir completamente o Estado sudanês (com tropas de prontidão e facções sedentas pelo poder por todos os lados) e reverberar nos países vizinhos como o Chade, em um efeito cascata de conseqüências desastrosas para o continente.

As mudanças climáticas são consideradas de fato uma possível causa para os conflitos (o regime de chuvas da região está atípico e há uma grande onde de fome). Mas nuvens negras se formam no horizonte do país africano, sem perspectiva de um governo justo, capaz de manter um Estado de direito, e com o desserviço configurado no “auxílio” dissimulado de países como a China e membros da União Africana através do trafico de armas e “proteção” em foros internacionais. Não basta que haja a vontade política dos países capacitados a intervir, visto que não produz resultados, mas situação não pode passar despercebida pela comunidade internacional.


Categorias: Post do leitor


Crônica de uma morte anunciada

Por

A Cop 15 foi um fiasco. Mas disso todo mundo já sabia antes mesmo do início da Cúpula. Apesar do emocionante vídeo de abertura da (este aí em cima), o encerramento da Conferência não foi tão lindo assim. Um acordo que não vale nada e que, aliás, nem todos os países aceitaram. Metas? Nem se fala no assunto. O que houve na Dinamarca foi uma gastança de dinheiro, muita conversa fiada e, acordo que é bom, nada.

Os jornais estão cheios de matérias sobre o assunto (aliás, vejam uma matéria legal que foi ao ar no Jornal Hoje clicando aqui), por isso, não vamos nos ater ao acordo em si ou no que rolou por lá.

A pergunta mais importante e que, certamente, muitos já se fizeram é simples: será que nem mesmo o fim do mundo é suficiente para fazer com que os países façam um acordo de redução de emissões de gases que aumentam o efeito estufa?

A resposta é complexa, mas gira em torno de uma questão simples: poder. Nenhum país quer perder o direito de emitir poluentes. Em outras palavras, no modelo econômico que temos hoje, poluição significa desenvolvimento e desenvolvimento, poder. Ainda não há uma matriz energética tão simples e barata como o petróleo, carvão e seus derivados. É muito mais fácil queimar toneladas de carvão para aquecer as caldeiras das siderúrgicas do que desenvolver uma nova tecnologia, por exemplo. Além disso, o mundo já conta com uma infra estrutura adequada para a retirada, refino e distribuição de petróleo.

Cortar emissões significa ter de gastar muito no desenvolvimento de novos modelos, sem que haja garantias de que, um dia, eles serão tão compensatórios como o que temos hoje. E segurança energética é coisa séria.

De uma forma ou de outra, todos têm acesso ao petróleo. Alguém já imaginou, no entanto, num futuro próximo, um mundo que dependa do etanol produzido no Brasil e em países africanos? Alguém em sã consciência ia querer depender de algo oriundo de países tão instáveis?

A questão é que a energia e o desenvolvimento são assuntos sensíveis para qualquer país. Até mesmo para o Brasil. Apesar de o Lula ter pintado a Dilma de verde, nossos projetos de energia são sujos.

Todos sabem do risco que o planeta corre. Todos têm, de algum modo, medo do aquecimento global. Acontece que todos pensam também no curto prazo. A China, por exemplo, que cresce a uma taxa média de 10% ao ano, não pode se dar ao luxo de se comprometer com um corte ‘ousado’ de emissões sem ter de pagar um alto preço por isso. E nem a China nem qualquer outro país está disposto a pagar esse preço.

O fato é que enquanto não houver alternativa sustentável viável do ponto de vista econômico, não haverá acordo nem em Copenhague, nem no Rio de Janeiro, nem na Conchinchina.


Categorias: Meio Ambiente


Um míssil do barulho!

Por

Que gracinha! Tem até uma estrelinha desenhada na ponta do míssil!

Esse pessoal do Irâ anda aprontando demais! Eles, sob embargo de armamentos, decidiram “desenvolver” (leia-se copiar dos russos) mísseis de longo-alcance capazes, de acordo com eles mesmo, de atingir Israel!

Não que Israel seja bonzinho e toda semana chame seus vizinhos para fazer um churrasco na laje, mas como é que eles querem ser respeitados como “país estável” se só fazem discursos agressivos? Ainda mais quando esse míssil é da categoria terra-terra, ou seja, destinado ao ataque de instalações físicas, não sendo um míssil de defesa.

A Tia Hillary disse que devemos tomar cuidado com a influência do Irã, como se ele fosse roubar nossa mulher ou nos oferecer drogas depois da aula, e o Irã obviamente diz que isso é coisa dos imperialistas violentos. E fala a verdade, não tem maneira melhor de contrariar esse argumento do que com um bom e velho teste de armamentos? Com certeza fez maravilhas para a relação da Coréia do Norte com o mundo “judaico-cristão-ocidental”.

Claro que todos tem o direito à auto-defesa, ainda mais em uma área instável como é o Oriente Médio. Porém, a retórica se torna quase insustentável quando as ações empregadas levam mais a INstabilidade do que seu inverso. E isso vale pra todos ali ao redor.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico