Cúpula da Amazônia? Cadê?

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Cadê o resto do povo?

Estive na FIESP esses tempos durante a visita do presidente Álvaro Uribe ao Brasil. Durante os inflamados discursos de cooperação regional, integração e parceria, surge o tema da Amazônia. Lula promete uma reunião de cúpula entre os países amazônicos para definir uma estratégia e uma proposta para a Conferência do Clima de Copenhague.

Sinceramente, excelente idéia. De verdade. Seria fantástico ver os presidentes juntos, definindo uma estratégia, um plano, ou o que quer que seja para tentar melhorar o destino da Amazônia. Até o presidente Sarkozy foi convidado, por causa da Guiana Francesa. Mesmo que, no fim das contas, nada fosse decidido, só a simples reunião por si só já seria um gesto diplomático imenso.

Mas, adivinhem! Apenas três presidentes vieram (contando com o Lula)… Os outros foram o Sarkozy e o presidente da Guiana.

E o que esse episódio nos mostra?

1. O Brasil não está com essa bola toda, nem está liderando a América Latina ou a América do Sul. Nem mesmo um tema sensível como o meio ambiente, às vésperas da Conferência de Copenhague, foi suficiente para atrair 9 presidentes a uma reunião em Manaus. Imaginem quando temas sensíveis estiverem na mesa…

2. Quem adivinhar o porquê do Sarkozy ter vindo vai ganhar um doce (Já estou prometendo muitos doces por aqui)! Ele quer vender, e muito, os aviõezinhos dele, galera!

3. Além do evidente desprestígio do Brasil, o fato ainda nos tira legitimidade na própria conferência de Copenhague, uma vez que nosso governo, aspirante à condição de potência, não foi capaz de articular um plano para uma região de suposta influência. Isso mostra que a idéia de esverdear a Dilma e aprovar uma meta de redução de emissões às pressas, numa mudança rápida, radical e inesperada da posição brasileira, não convenceu e não convencerá na Dinamarca.

4. E tem coisas que são implícitas. O amigão do Lula, Chávez, não veio. Logo ele, a quem o Lula apóia tanto. E o Uribe? Muitas palavras bonitas em São Paulo, mas também não mostrou as caras. O que isso mostra? Em meio a inúmeros conflitos entre Colômbia e Venezuela, o Brasil teria uma chance de intermediar o conflito, e a reunião em Manaus também serviria indiretamente para isso. Ops, mas esqueceram de combinar isso tanto com o Uribe quanto com o Chávez, o que, mais uma vez, evidencia o desprestígio do nosso governo na resolução de conflitos regionais.

É isso, pessoal. Mais uma trapalhada da nossa política externa… E olha que não prentendo escrever sobre Honduras de novo, isso fica pra outro colaborador!


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Ganhar = levar?

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E não é que a Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) publicou uma resolução em que ameaça aplicar as medidas compensatórias autorizadas pela OMC no caso do algodão? (Não se lembra? Clique aqui). No total são 45o milhões de dólares em produtos e outros 450 em serviços. Pode-se aplicar uma tarifa adicional de 100% nas importações dos EUA. Ou seja, um item que tem hoje 2% de imposto pode ficar com 102%.

A publicação consta de uma lista preliminar com 222 itens de diversos setores. As empresas têm até o dia 30 para publicar sua posição com relação à manutenção ou retirada dos itens da lista. O governo quer ter uma posição final ainda este ano.

O problema é que ninguém sabe o que vai acontecer. Nunca o Brasil usou esse direito antes. Será que o governo irá mesmo olhar todos os milhões de roteiros de manifestação que vão chegar até o dia 30? Provavelmente, não. A tendência, como sempre, é que a decisão seja política.

Como não há precedentes, é possível até mesmo que o Brasil não utilize esse direito e, no fim das contas, apenas faça algum tipo de pressão política para barganhar alguma coisa. E já tem surtido efeito lá no irmão do norte, vi muitos emails e notícias correndo em que se afirma que Brasil APLICARÁ as medidas logo, parece que eles não entenderam que a lista publicada é apenas preliminar. Em segundo lugar, eles têm medo do que o Brasil pode fazer, e com razão. Até pouco tempo, o ambiente de negócios no país era bastante imprevisível. Por fim, o Brasil hoje é um mercado em expansão, ninguém quer ter de pagar até 100% de imposto adicional para vender aqui.

O problema é que pode ser que não valha a pena para o Brasil aplicar essas medidas, mesmoa após o tempo e o dinheiro gasto com o processo da OMC. Os EUA não vão retirar os subsídios que dão não só aos produtores de algodão, mas todos os outros. E outra, caso o Brasil queira ‘cantar de galo’, mesmo que com todo o direito, eles podem criar alguma medida de retaliação que leverá anos e muitos dólares para o Brasil contestar novamente na OMC.

E a medida pode acabar afetando a própria indústria nacional. O Brasil não produz todos os insumos utilizados pela indústria, e, mesmo que produza, muitas vezes a produção não é suficiente ou competitiva. Importar dos EUA pode ser uma solução. Taxar esses produtos, um problema. E o governo sabe muito bem disso.

Vamos ver no que dá essa história. A vitória do Brasil mostra que o que tem sido feito nos EUA com relação aos subsídios é ilegal. Agora o Brasil tem um trunfo pra utilizar em discursos… De qualquer forma, muitas vezes se ganha, mas não se leva…


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Mais uma missão para a Liga da Justiça do Sul!

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O Brasil não aprende mesmo. Depois do fiasco da Furada Doha, os estrategistas do Itamaraty vieram com uma nova super idéia para desemperrar as negociações na Organização Mundial do Comércio: um novo acordo entre Mercosul, Índia e os países da África.

A idéia vem cheia de problemas de todos os tipos. Em primeiro lugar, é muito difícil investir em negociações multilaterais, ainda mais no âmbito da OMC, onde os acordos têm de sair por consenso. Se o Brasil não consegue acabar com as inúmeras disputas comerciais sequer com a Argentina, quem garante que o país irá conseguir conciliar os interesses do próprio Mercosul e ainda os da Índia e dos conflituosos países africanos?

Tive a oportunidade uma vez de ouvir um ministro explicando o porquê de o nosso país gostar tanto de negociações multilaterais, quem quiser se lembrar, veja o post aqui.

Como se não bastasse, há uma questão ideológica por trás dessa idéia. Mais uma vez nosso governo tenta criar a Liga da Justiça do Sul. A idéia por trás disso: somos do sul, pobres, oprimidos, temos de nos unir contra os ricos insolentes do Norte desenvolvido e opressor. Aliás, essa mania do Brasil foi tema da primeira postagem deste blog.

O problema é que a Liga não emplaca e, além disso, contrasta com a retórica do próprio governo. Não temos de olhar pra frente, termos orgulho do nosso país? Então porque ficar se fazendo de coitado mundo afora? O Brasil não deve apelar pra essa desculpa esfarrapada de que o Sul deve se unir contra os países ricos na formação de suas alianças e acordos.

não adianta fazer cara de coitado!

O resultado disso? Críticas e mais crítcas. Apoio à regimes questionáveis, acordos desnecessários, Venezuela no Mercosul, baixar a cabeça pra Argentina e outros. E o que o Brasil ganhou com isso até agora? Com certeza muito pouco. A ver pelos resultados da Rodada Doha, na qual gastamos 10 anos enquanto o mundo todo avançava em inúmeros acordos comerciais.

Não que devessemos esfolar todo mundo, mas adotar uma postura mais coerente com a de uma potência aspirante e que quer uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU é bom de vez em quando.

E além disso, no que adianta ver e tratar os países ricos como inimigos? E não é só na área comercial, que o digam o Battisti e os cubanos que foram deportados.

Vamos ver até onde vai essa nova idéia de juntar o mundo pobre contra os ricos…

Será a mais nova integrante da Liga?


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De volta ao Irã

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O Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), de 1970, teve como base a distinção entre as potências nucleares (que fabricavam ou acionaram alguma forma de armamento nuclear até janeiro de 1967) e os não detentores da tecnologia. O compromisso era recíproco. Por um lado, as potências nucleares garantiam a não transferência de suas armas para outros países e a negação ao auxílio aqueles em busca de adquiri-las. Por outro, os não dotados de tal capacidade ofereciam, como contrapartida , a garantia do não desenvolvimento ou compra de tal tecnologia, salvo no caso do seu uso pacífico.

O TNP, desta forma, tinha a intenção de fechar o clube dos países com armas nucleares. Índia, Paquistão e Israel, não são signatários do acordo, desenvolveram seus armamentos nucleares. O clube mostrou-se então menos fechado do que deveria. África do Sul e alguns países latino-americanos ratificaram o TNP, abrindo mão do desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins militares. Coréia do Norte e Irã são os dois países na pauta recente de discussões da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que regula a aplicação do tratado.

Vamos nos ater ao caso iraniano. O governo iraniano afirma que seu programa nuclear tem fins pacíficos. Há 20 dias, o Irã recusou uma proposta articulada pela AIEA, que propunha que 70% do urânio iraniano com baixo grau de enriquecimento fosse enviado à Rússia e à França para ser enriquecido e transformado em combustível nuclear, a fim de ser usado pelo próprio Irã. Algo errado? Em tese, não. O Irã somente está utilizando uma garantia existente no âmbito do TNP, qual seja, enriquecer o seu urânio a um nível necessário para a produção de combustível.

Mas se o Irã faz jus a uma prerrogativa do próprio acordo, qual é o motivo de alarde da comunidade internacional? O Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas ordenou a interrupção do enriquecimento de urânio pelo Irã porque a tecnologia empregada para transformá-lo em combustível também pode ser utilizada para enriquecê-lo ao nível necessário para explosão nuclear. Em grande medida, o CS agiu motivado pelo fato do Irã ter escondido por quase duas décadas o seu programa de enriquecimento de urânio. A posição é quase consensual: o Irã deve parar imediatamente seu programa nuclear, independente dos seus fins.

Um questionamento é evidente. Se os fins são pacíficos, por que esconder suas ações por tanto tempo? Quem não deve, não teme – já dizia a sabedoria popular.

No ato mais recente desta querela, a AIEA aprovou uma resolução contra o Irã, fruto da falta de cooperação do país nas investigações de suas atividades atômicas. Dos 35 países-membro da organização, 25 votaram a favor da resolução. Cuba, Venezuela e Malásia foram contrários, ao passo que Turquia, Paquistão, Afeganistão, Brasil, África do Sul e Egito se abstiveram. A pressão internacional contra os planos do presidente Ahmadinejad só faz crescer.

E o Brasil nessa? O professor Amado Cervo, da Universidade de Brasília, infere a isenção brasileira em relação ao programa nuclear iraniano como coerente com nossa posição histórica. Simplificando, os países signatários do TNP têm o direito de buscar a energia nuclear com fins pacíficos, como forma de alcançar patamares tecnológicos mais avançados. O Irã preconiza tal asserção, seguindo a regra do jogo. Logo, o Brasil não pode condenar suas ações.

O problema, na minha visão, é quem se responsabilizaria por um Irã dotado de capacidade nuclear? Israel não descarta um ataque preventivo ao país, caso fique evidente que este se aproxima de atingir construir um armamento atômico. O presidente Lula já expressou seu apoio ao Irã, em que pese as críticas contra os iranianos. A mensagem, no entanto, não é a mesma de nossa diplomacia. Abster-se é completamente diferente de solidarizar-se ou apoiar. Esta questão não faz alusão aos interesses nacionais brasileiros, nem mesmo aos nossos ideários. Então, por que se colocar ao lado de um parceiro tão controverso?

Enquanto não se atinge um acordo, o Irã ganha tempo, seja para aumentar sua barganha, baseada no receio da comunidade internacional; seja para desenvolver efetivamente seu armamento nuclear. Impossível saber onde vamos chegar. Pode-se adiantar, contudo, que o Irã dotado de capacidade nuclear militar alteraria as regras do jogo no Oriente Médio, e são poucos os indícios que o equilíbrio do terror (que vigorou durante a Guerra Fria entre EUA e URSS, ambos com armas nucleares) possa ser estabelecido entre Irã e Israel.


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A volta do pequeno gigante

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O pequeno gigante adormecido volta aos noticiários e não poderia passar despercebido pelo blog. Se bem que é raríssimo deixar de falar de Israel. Dos generais sanguinários aos governantes trapalhões, o país sempre teve mania de grandeza, a qualquer custo. Não basta dominar as colinas de Golã ou historicamente massacrar de modo indiscriminado os palestinos para colher os frutos de conquistas ingloriosas, é preciso também peitar o seu maior aliado: os Estados Unidos.


Recentemente, Estados Unidos e Israel têm protagonizado uma típica briga de marido e mulher. Ambos reclamam, trocam farpas e no final fica tudo bem, como se nada tivesse acontecido. Ah, o motivo: os assentamentos judeus na Faixa de Gaza. Este tema já figura na agenda bilateral de ambos os países desde o início deste ano. Obama contestou os avanços israelenses sobre os palestinos, contudo, Netanyahu reclamou que tais medidas eram necessárias e contribuiriam para a segurança de Israel. Os dois líderes também divergiram no tocante à criação de um Estado Palestino. Mas a moda agora é outra: criar 900 casas sobre território ocupado na parte ocidental de Jerusalém.

Oh, e agora, quem poderá defender os palestinos? Não, não é o Chapolin Colorado. É o Obama. Somente o líder norte-americano pode conter o ímpeto voraz de Israel, na visão do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas. E logo quem, hein, Abbas? É bem verdade que ainda não foi feito tudo o que é possível, é imprescindível que Obama pressione o governo israelense contra os assentamentos e a favor da visão de dois Estados (Israel e Palestina). Por certo, esse histórico conflito no Oriente Médio se apresenta como uma excelente oportunidade para testar o poder real – e não simbólico – do recente Prêmio Nobel da Paz conquistado pelo presidente dos Estados Unidos da América.

Temos também uma novidade na política externa de Israel. Parece até inacreditável, mas Netanyahu tem abdicado de lançar primeiramente o soldado de Aron, aquele que mata, nos assuntos exteriores atinentes ao país; quem vai agora é o diplomata, aquele que fala em nome da nação que representa. Eis então que se percebe o emprego da diplomacia em duas questões.

Primeiramente, com quem se está buscando laços diplomáticos? Com ninguém menos que Ilhas Salomão, um micro-Estado da Oceania. E qual o motivo? Um tal de Relatório Goldstone (aqui). No dia 6 deste mês, tal relatório, cunhado pelo juiz sul-africano Richard Goldstone, foi adotado como resolução pela Assembléia Geral da ONU, solicitando a investigação de atos cometidos por Israel e pelo Hammas enquadrados como crimes de guerra e sugerindo a transferência desse relatório também ao Conselho de Segurança. Sim, Ilhas Salomão votou aprovou essa resolução e um diplomata israelense, “de passagem” pelo país, deveria comunicar o mau humor de Israel em relação a essa atitude. Ora, nos dizeres de Ygal Palmor, porta-voz do ministro das Relações Exteriores, “Diante da Assembléia Geral, a voz das Ilhas Salomão conta tanto quanto a da China ou da França.”

O outro ponto: Israel e o Hamas podem fechar um acordo para a troca de prisioneiros. Aliás, uma troca muito justa, um soldado israelense por centenas de prisioneiros palestinos – grande parte deles condenados pela organização de atentados ou por atos de terror, e um líder popular da Cisjordânia, Marwan Barghouti. Muito interessante a barganha diplomática de Israel: todos por um; todos que estarão novamente à caça para o predador exército israelense e que servirão como moeda em trocas futuras.

Inegavelmente, Israel está de volta ao noticiário, em grande estilo, e provoca um rebuliço nas relações internacionais contemporâneas: contesta o seu aliado histórico de um lado, lança o diplomata de outro, repudiando até as Ilhas Salomão. E os palestinos, coitados, permanecem reclusos em suas próprias apreensões e vivem em busca de uma vida para se viver. Isto não muda!


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Bons negócios

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Nesta segunda-feira o Brasil receberá a visita de uma ilustre ‘persona’ internacional. Após a visita do primeiro ministro israelense Shimon Peres e do presidente da Autoridade Nacional da Palestina, Mahmoud Abbas, o presidente Lula receberá o iraniano Ahmadinejad.

A visita ocorre em um momento bastante polêmico. Após algumas tentativas da comunidade internacional em assegurar o programa de energia nuclear iraniano sem incorrer no risco da produção de armamentos atômicos, o regime de Mahmoud Ahmadinejad não favorável à elas.

A última tentativa de negociação partiu dos Estados Unidos, França e Rússia, em que propuseram, em Outubro, que o urânio que seria usado para a produção de energia fosse enriquecido fora do país, e assim seria devolvido ao Irã para dar sequência ao processo. O regime iraniano não se pronunciou a respeito da proposta, causando uma indisposição com os países. O presidente norte-americano Barack Obama advertiu Terrã sobre a não mudança de postura que o país vem levando até agora.

As implicações para o regime podem se dar na intensificação das sanções econômicas aplicadas ao país no âmbito do Conselho de Segurança da ONU. No entanto, a situação pode ficar mais delicada em virtude do relacionamento com Israel, que cogitou um ataque ao país de Ahmadinejad.

Nesse contexto, a visita do presidente iraniano à América do Sul busca apoio ao país em um momento não muito confortável. O principal parceiro iraniano na América do Sul é a Venezuela que declara abertamente seu apoio ao programa nuclear. O Brasil também mantém uma postura de aceitação do programa nuclear e defende os direitos do país para tê-lo.

Por outro lado, o Brasil atualmente tem um relacionamento comercial com o Irã de cerca de 1,5 bilhões em movimentações financeiras. Valor esse que compreende a importação de petróleo e derivados e a exportação de alimentos. Além disso, Lula busca uma aproximação do governo iraniano para a questão do etanol brasileiro e no campo político, o apoio do Irã para empreitada brasileira na reforma do Conselho de Segurança.

No entanto, o encontro do presidente Lula com o presidente Ahmedinejad, traz preocupações por ser um país com graves problemas relacionados principalmente ao reconhecimento dos direitos humanos e a sua posição radical a respeito do Holocausto.

Além disso, a luta iraniana pelo desenvolvimento nuclear pacífico é realmente um pouco difícil de acreditar. Em meio a uma região conflituosa como o Oriente Médio, e frente às repetidas ameaças de Israel a seu território, a “emancipação atômica” promoveria um poder de barganha (e de ataque) muito maior ao Irã frente ao país judeu. Nesse fim de semana, o Irã promoveu o que chama de “jogos de guerra”, que consiste num exercício militar como forma de responder às ameaças israelenses, o que elevou a atenção da comunidade internacional para a região.

Assim o apoio que o Brasil dá ao Irã advém claramente de interesses terceiros que nosso país tem com o relacionamento. Apesar de tantas críticas feitas ao presidente Lula, o encontro de amanhã ocorrerá sobre um clima aparentemente bastante amigável e, com certeza, promete alguns bons negócios.


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Batata quente

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Quem não te conhece que te compre!

Quando eu era criança, havia uma brincadeira chamada batata quente. Era basicamente a história de uma batata (representada por um objeto qualquer, como uma pedra) que passava pelas mãos de várias crianças até que “queimasse” na mão de alguém.

E não é que a batata quente chegou à Brasilia? E no caso, atende pelo nome de Cesare Battisti, o famigerado italiano que cometeu / não cometeu crimes de sangue na Itália. Polêmicas à parte, dada benvolência do nosso ministro da justiça, o italiano recebeu refúgio político no Brasil.

Detalhe: Tarso Genro converteu-se ao humanismo, talvez, após as críticas recebidas pela extradição daqueles cubanos que queriam refúgio no Brasil… Não imagino que eles foram recebidos com flores pelo Fidel Castro.

O ministro, tal como uma criança pega uma pedra e a transforma na batata, pegou o caso do italiano que estava escondido das autoridades italianas aqui pelos trópicos e o transformou num caso de repercusão mundial. Não podia ter Tarso Genro simplesmente concedido algum tipo de refúgio ao Battisti sem ter alarmado que ele estava sendo perseguido justamente pelo governo da Itália – governo esse eleito democraticamente?

Não, claro. É muito mais legal assumir o papel de integrante da Liga da Justiça do Sul e desafiar o norte desenvolvido, rico e opressor. Afinal, quando os perseguidos são os aliados cubanos, deportação neles!

O ministro criou a batata. E quem botou fogo nela foi a mídia. E com razão, afinal, como não se falar do caso do “refúgio” dado a um indívido condenado por crimes comuns, mesmo com orientação contrária do Conselho Nacional de Refugiados e depois do tal caso dos cubanos? É claro que também teve a mãozinha dos italianos, da oposição, enfim, mas aí entramos no campo das conspirações…

Aí a batata passou para as mãos do Supremo Tribunal Federal, o guardião da nossa Carta Magna. E os nobres ministros arrumaram um jeito muito brasileiro, uma verdadeira gambiarra jurídica para passar a batata quente adiante: cabe ao presidente Lula decidir, mesmo com a decisão de que o refúgio é ilegal.

Ora, mas para que serve, então, o Supremo? Teoricamente, se a instância máxima da justiça brasileira decide que uma decisão do governo é ilegal, como pode o governo, em seguida, fazer o contrário, e ainda com a benção desse mesmo organismo? Não faz sentido nenhum.

E se um cidadão comum decide não cumprir a decisão dada pelo STF? O que faz com que o presidente da República possa ter essa autonomia? E depois os magistrados reclamam que o Executivo vive a passar por cima da isonomia dos poderes assumindo atribuições do judiciário…

E a batata passou para as mãos do Lula. E agora, Lula? Dar o refúgio ao homem e seguir com o descurso de adolescente rebelde que quer mostrar independência ou cumprir a decisão do Supremo?

Na brincadeira original, uma criança vendada, que não sabia nas mãos de quem estava o tubérculo, gritava: “queimou!” e aí o infeliz que estivesse com ele nas mãos perdia o jogo.

Mas em Brasília é diferente: em mais um jeitinho, o governo tende a arrumar uma desculpa humanitária para deixar o Battisti aqui, sem a condição de refugiado político, não se queimando nem um lado, nem outro. Ou seja, alguém não vendado, que sabe muito bem na mão de quem está a batata e não querendo que ele se queime, grita: “Esfriou!”.

E aí o Lula não se queima, o STF não se queima, o ministro não se queima, a “democracia” segue normalmente, o caso deixa de vender papel, a mídia deixa de falar sobre o assunto e o Brasil segue seu futuro… Com ou sem batatas quentes.


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O trem da alegria

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Aproxima-se o momento. O Brasil já está em clima de campanha para as eleições presidenciais de 2010. É o momento de pegar candidatos na mentira. Uma das artimanhas mais utilizadas nesse período é o uso na máquina pública em favor de determinados pré-candidatos (alguns não tão “pré” assim).

Pensar a democracia remete aos áureos tempos da Grécia Antiga, mais especificamente ao regime empregado em Atenas. Faz alusão, em realidade, a um sistema político possível no qual pessoas soberanas governam a si mesmas, utilizando, para isso, os recursos e instituições imperiosos para consubstanciar tal objetivo. Pode-se dizer que a experiência dos gregos permeou as mais diversas manifestações políticas que se seguiram, passando pelos romanos; pelos ideários liberais do Iluminismo; e atingindo, talvez, seu ápice com a derrota dos totalitarismos na Segunda Guerra Mundial.

Não obstante ao fato de ter se tornado o modelo mais basal da organização política no pensamento ocidental, o resultado conspícuo dos governos que o tomam como princípio não é necessariamente o poder para todos, no sentido grego, qual seja, uma sociedade que respeitaria as liberdades individuais, a diversidade e os direitos fundamentais; mas sim, em grande medida, sociedades de expressiva desigualdade política, de poder decisório circunscrito a grupos sociais específicos e na qual os procedimentos de deliberação não remetem aos anseios do povo.

A política brasileira é marcada por conchavos, acordos de bastidores e o emprego de qualquer meio que garanta benefícios políticos. Isso não é exclusividade do Partido dos Trabalhadores – longe disso, na verdade. Nem mesmo há indícios que a ascensão de outro partido ao poder mude tal valoração.

Contudo, brincadeira tem limite. Ninguém é “trouxa” também.

Já não basta mais o presidente Lula – nosso representante-mor – carregar sua ministra e pré-canditada a presidência, Dilma Roussef, em eventos oficiais para descaradamente construir sua campanha. Além disso, se ocorrer um apagão, nada mais justo do que quase esconder Dilma – que só foi aparecer para comentar a situação quase dois dias depois (logo Dilma que foi Ministra de Minas e Energia). Se surgirem questionamentos ao currículo de Dilma, nada mais justo do que novamente se abster.

Eis que surge uma nova Dilma. Como diria Baudrillard, estamos vivendo a hiper-realidade, só pode ser. Dilma é a mãe do PAC, mas se tiver apagão; prestação de contas irregulares de acordo com TCU; ou questionamentos dos ambientalistas, a culpa será de um burocrata pouco competente. A mesma Dilma que tão pouco se apegou a proteção ambiental durante seu período como Ministra de Minas e Energia, surge como a porta-voz da ambiciosa proposta de redução de emissões que o Brasil levará a COP-15, em dezembro. É a nova mãe do projeto de sustentabilidade na Amazônia. Só esquecem (ou não) de lembrar do Pré-sal, que também tem Dilma como uma de suas grandes figuras. Esses filhos logo vão começar a brigar. O que não deve ser problema para a hiper-mãe Dilma.

O que puder ajudar, em termos eleitorais, permanece em pauta, vide o possível Bolsa-celular. Afinal, nada mais útil as famílias de baixa renda do que um celular e sete reais por mês de crédito, não? Educação? Para que? Eu quero é um celular, isso sim.

Democracia, em um sentido amplo, seria o mecanismo intermediário entre o poder e a vontade (igualdade e liberdade). Para os gregos, o bom cidadão empregaria sua virtude cívica para buscar o bem, e sendo assim, promoveria a virtude em sua comunidade. O pensamento ocidental formalizou a tradição democrática, buscando formas de positivar os direitos individuais, seja através de um contrato social, do estabelecimento de governos representativos ou da separação de poderes. A instrumentalização democrática visando proteger o indivíduo, antes de seus iguais e depois do próprio Estado, ampliou seu espectro, passando a atingir mais pessoas e regiões, ao passo que distanciou gradualmente o indivíduo das decisões políticas.

Os nossos promotores da cidadania e dos ideários democráticos não parecem idôneos. O apego ao poder e suas benesses move os passos dos políticos. Temerário é considerar o exemplo de conduta com o bem público. Capitalizar (não somente em termos financeiros) é a regra de ouro.

Brincadeira deveria ter limite. Filho ruim não tem pai, nem mãe. Dilma que o diga. A alegria parece não ter fim. Mesmo para um assunto tão sério: a condução dos rumos do Brasil, de tantas potencialidades e que está prestes a decolar, nas palavras de The Economist.


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Será que essa vai dar certo?

Fica difícil de entender o que a ANP (Autoridade Nacional Palestina) quer com essa nova “empreitada”. Suscintamente: o atual presidente da ANP, Mahmoud Abbas, disse que irá apresentar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas uma declaração de independência/soberania. Essa declaração é uma afirmação unilateral de que a Palestina agora é território independente de Israel.

Nada contra essa independencia, pelo contrário, ela já viria tarde. Mas é no mínimo complicado acreditar que essa declaração será aceita na maior boa vontade, que todos aprovarão e que no final da reunião vai rolar um bolo, champange, etc. E não sei de onde o Abbas tirou que “se não aceitarem, eu renuncio” vai fazer os membros do Conselho mudarem de idéia. Porém, devemos analisar friamente a geopolítica da questão: essa possível independência pode alterar dráaticamente a dinâmica dos conflitos e tensões do Oriente Médio.

Por mais que o Obamias agora seja a favor da Palestina, que diga que as demandas são legítimas, que as colônias isralenses na Faixa de Gaza e na CisJordânia devem ser removidas gradualmente e etc, ele dificilmente vai aprovar essa declaração. Os EUA irão argumentar coisas na linha de:

1- “Não existem condições de paz”

2- “O processo deve ser gradual”

3- “Israel pediu pro Papai Noel o veto no Conselho. E nada pode entrar no caminho do Natal.”

Não que esses argumentos não sejam verdades em alguma escala, mas nesse caso serão usadas como desculpa para a manutenção do status quo geopolítico atual e continuar o agrado aos parceiros/escudos Israelenses.

Pra piorar a questão, eles e a UE já disseram que vetarão, pois os palestinos devem “dar ao novo governo de Israel uma oportunidade na mesa de negociações”. Afinal, essas negociações sempre deram certo…


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Enquanto isso, no não-tão-Pacífico oceano ali do lado

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“As expressões que ouvimos ontem, que classificaria de ofensivas e arrogantes, não contribuem para a integração e colaboração que deveriam existir entre vizinhos”. Se eu dissesse que essa frase veio da presidente chilena Michelle Bachelet, muita gente ficaria surpresa. Outra troca de farpas na América do Sul, e agora envolvendo dois atores tão pouco polêmicos quanto Chile e Peru?

Pois é. O Peru está acusando o governo chileno de espionagem. Prenderam um suboficial da aeronáutica peruana, e anunciaram que vão pedir que a Interpol verifique a autenticidade das informações. O Chile, obviamente, nega tudo e devolve as farpas com declarações como essa aí em cima.

É, acontece que a tensão não é tão nova e os dois países já protagonizaram (e ainda estrelam) disputas territoriais. Tudo remonta à Guerra do Pacífico, que durou de 1879 a 1883 e envolvia inicialmente apenas Chile e Bolívia. Ambos os países disputavam recursos minerais na região (cobre, principalmente), até que a Bolívia resolveu criar uma taxa para exploração dos minérios e o Chile invadiu a Bolívia, que por sua vez declarou guerra e convocou um acordo de defesa secreto com o Peru. Esse último entrou de gaiato e acabou perdendo território, e a Bolívia disse adeus à sua última saída para o mar…

Mas o que isso tem a ver com a suposta espionagem chilena? No ano passado, o Peru entrou com um processo na Corte Internacional de Justiça de Haia, pedindo um maior acesso ao Oceano Pacífico. Eis que surge, novamente, a província de Taparacá, anexada pelo Chile.

Ora, segundo o Peru, os tratados assinados assinados na época da guerra não eram formais, mas meramente pesqueiros. O Chile não ficou nada satisfeito com essa iniciativa peruana. A província é muito rica em recursos, menina dos olhos de todos os lados. O andamento do processo ainda se encontra em fase inicial, mas um parecer favorável ao Peru poderia desencadear uma série de problemas na região, que já conta com combustível suficiente por conta de Equador, Venezuela e Colômbia.

Espionagem ali é quase certeza. Interpol e Haia envolvidas, será que a América do Sul é assim tão tranquila quanto dizem?


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