O Empreendedorismo Social – Parte 2 (Saúde)

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Em meados da década de 1980, a cada ano morriam cerca de 14 milhões de crianças menores de 5 anos. A maior parte dos óbitos era relacionada a doenças como diarréia; desnutrição; pneumonia; e outras enfermidades que uma simples vacinação poderia evitar maiores complicações. Assim, o quadro mostrava-se reversível através de medidas preventivas relativamente simples e baratas.

Um exemplo disso é o tratamento desenvolvido, na década de 1970, para a diarréia – que provocava 5 milhões de mortes anualmente. Pesquisadores descobriram que uma solução de água, sal e açúcar auxiliava na retenção de fluidos e sais minerais, o que possibilitou a diminuição em mais de 50% das mortes por desidratação decorrentes da diarréia. Não havia a necessidade de grandes infra-estruturas ou equipamentos para evitar milhões de mortes todos os anos. Na verdade, o custo desses kits de hidratação ficava em centavos.

James Grant, norte-americano, assumiu a diretoria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para as crianças) e deu início a uma vigorosa estratégia de combate ao que chamou de “emergência global silenciosa”. Fazia referência justamente aos óbitos de crianças fruto de doenças que poderiam ser facilmente tratadas ou prevenidas. No início foram grandes as resistências dentro da Unicef, à medida que Grant promoveu uma completa mudança no modus operanti da organização, passando do simples apoio a campanhas e projetos para a execução direta de iniciativas. Dessa maneira, eram utilizados o prestígio, o reconhecimento global, a neutralidade política e a influência moral das Nações Unidas (ONU), que acabaram sendo fundamentais para consubstanciar tais iniciativas.

O final de 1982 marcou o início da jornada, com o lançamento da estratégia inicial do planejamento de Grant no comando da Unicef, era a GOFI. Fazia referência a quatro ações: o acompanhamento do crescimento, a reidratação, a amamentação e a imunização. Logo foram acrescentadas mais três ações: a suplementação alimentar, o planejamento familiar e a educação das mulheres. A estratégia de Grant foi severamente criticada, mesmo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que defendia a mudança do quadro mediante a uma reestruturação mais abrangente da assistência médica. O trabalho da Unicef não parou; a situação das crianças dos países em desenvolvimento exigia uma ação imediata. Aos poucos, a organização construiu uma sólida base de apoio, através do incansável trabalho da equipe de Grant, junto a organizações civis; lideranças políticas e religiosas; e empresários. Eventualmente, mesmo a OMS engajou-se nas iniciativas da Unicef.

Os resultados foram surpreendentes, no início da década de 1990, dados apontavam que, por exemplo, a imunização atingia 80% da população dos países em desenvolvimento, antes não alcançava 20%. Outra proposta de Grant foi uma reunião na sede da ONU, em Nova Iorque, com os chefes de Estado para discutir a situação das crianças no mundo – nunca as Nações Unidas haviam proposto um encontro com todas as lideranças mundiais. Nem mesmo os membros da Unicef acreditavam na idéia de Grant. A World Summit for Children (Reunião Mundial para as Crianças – em tradução livre) terminou acontecendo, em 1990, sendo a maior reunião já realizada em âmbito da ONU para se discutir um único assunto, com a presença de 71 chefes de Estado. Desse encontro, surgiu a Convenção dos Direitos da Criança, ratificada por todas as nações presentes, menos Estados Unidos e Sudão.

O exemplo utilizado evidencia dois fatos. O primeiro é o potencial de ação das agências das Nações Unidas – que possuem grande poder de mobilização seja moral, econômico ou político. Em segundo lugar as características que promovem o sucesso de iniciativas sociais: o forte referente ético; a constante disposição a corrigir estratégias para vencer obstáculos; a abertura a mudanças em estruturas previamente empregadas; e a busca pela colaboração – por vezes multidisciplinar. Tantos outros são os exemplos de empreendedores sociais no campo da saúde, mas é inegável o potencial para a mudança advinda da soma de uma vontade e disposição inquebrável (personificada pelo empreendedor social) a uma organização descentralizada de alcance e influência capazes de gerar efetivas alterações junto à comunidade internacional, como no caso tratado.

Fonte: Como mudar o mundo: empreendedores sociais e o poder das novas idéias – David Bornstein (Editora Record)


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Nada mudou

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Quanta ironia no caso de Honduras. Finalmente se chegou a um acordo (veja os principais pontos aqui). Em suma: não haverá mais reforma da constituição e o Congresso e a Suprema Corte vão decidir o destino do Zelaya.


Pra quem não se lembra, o estopim da crise foi o fato de o presidente Zelaya ter contrariado o Congresso e a Suprema Corte por conta de uma reforma constitucional que, acredita-se, seria para que ele pudesse se reeleger.

Golpe ou destituição? Não vou entrar nesse mérito. O fato é que, depois de todo o rolo, o que o Zelaya conseguiu? Conseguiu não fazer a reforma que queria e, de quebra, ainda ter de aceitar o poder do Congresso e da Suprema Corte em selar seu destino.

Em condições normais, um presidente respeitar a constituição (no caso da hondurenha tentar se reeleger é desrespeitá-la),a Suprema Corte e a ordem jurídica estabelecida é condição normal de um regime democrático.

Zelaya desafiou isso tudo e acabou, no fim das contas, tendo de aceitar a lei. A oposição desafiou a memória coletiva ao dar um golpe branco ‘democrático’ no país. No fim das contas, vai ter de aceitar o presidente eleito.

Não vejo nenhuma saída mais democrática.

Portanto, essa crise de Honduras deixou um recado claro para os países da América Latina: não adianta querer tirar presidente eleito do poder no meio da madrugada de pijama com uma garrucha na orelha. Para os presidentes saidinhos, nem vem que não tem, democracia é aceitar as regras do jogo e não desafiar os poderes estabelecidos. Se não quer, fique em casa e não entre para a política.

Mas o que saiu mais queimado nessa história foi o Brasil.


Entrou no olho do furacão, deixou o Zelaya deitar e rolar na embaixada e fazer uso político dela. Foi acusado de ingerência, prepotência e tudo mais. E no fim, o que conseguiu? Perdeu toda a legitimidade que tinha para tentar mediar a crise, uma vez que o governo interino não aceitou o Brasil nas conversas.

E aí? E aí que o mundo é dos espertos. Os Estados Unidos foram lá e resolveram o problema! Costuraram um acordo que levou a uma saída democrática, mandaram o recado para os outros e, de quebra, ainda se reaproximaram da América Latina, tentando desconstruir a imagem de um financiador de golpes e ditaduras para um restaurador da ordem democrática. Ainda vão acompanhar as eleições em novembro, mantendo a posição que tinham em Honduras (aliado histórico) antes do rolo.

O Brasil não poderia ter se saído pior. Mais uma trapalhada da nossa Política Externa Independente new age da liga do sul. Quero só ver quem é que vai respeitar agora.

Mas o pior mesmo vai ser ouvir daqui uns dias o governo dizendo que seu papel foi preponderante para a restauração da ordem em Honduras. Se bem que, façamos justiça, se Zelaya estivesse fora do país talvez não tivesse havido acordo. Mas os fins não justificam os meios. O que foi feito com a embaixada e a ‘atuação’ nada precisa do Brasil só causou problemas.

Conclusão: Zelaya vai continuar presidente, sem direito à reeleição, submetido às leis e à constituição e o Brasil continua queimado em termos de política externa.

Nada mudou.


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Nas mãos do Paraguai

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[Post rápido, mais tarde eu volto pra tratar do acordo em Honduras]

A Comissão de Assuntos exteriores do Senado brasileiro aprovou ontem, com ampla maioria -ao contrário do que se pensava – a entrada da Venezuela no Mercosul.

Teoricamente, o plenário da Casa ainda pode barrar a entrada do país no bloco. No entanto, é muito improvável que o governo não consiga o quórum mínimo na sessão e uma maioria simples. Ou seja, a Venezuela está a um passo do Mercosul.

Mas esse passo não é a aprovação do Brasil, que já é certa, mas a do Paraguai. Pelas regras do bloco, todos os países membros precisam aprovar a entrada de um novo sócio. O único que ainda não votou em definitivo é o Paraguai.

Sinceramente, não estou muito interado da situação interna por lá. Mas é sabido que o governo do ex-bispo Fernando Lugo vem enfrentando grande oposição (de verdade, ao contrário do Brasil), sobretudo no congresso, que é quem vai votar a medida.

Mesmo assim, o governo Lugo tem fortes laços políticos e ideológicos com o governo Chávez, então, é provável que exerça alguma pressão na votação.

E não sejamos ingênuos de achar que, por trás dos panos, Brasil, Argentina e a própria Venezuela não estão pressionando…

O cenário está mais provável para a entrada da Venezuela, mas a decisão final está nas mãos dos congressistas paraguaios.

Por fim, sugiro a leitura do artigo “Venezuela no Mercosul: lamentável fato consumado” de Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil na OMC.


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De volta aos saudosos tempos da espionagem!

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Foi revelado que Ahmed Wali Karzai, irmão do atual presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, está há anos recebendo pagamentos da CIA, a agência de inteligência estado-unidense. Não só para a obtenção de informações, mas diz-se que Ahmed também recrutava milicianos para compor forças para-militares anti-Taleban na província de Kandahar no Afeganisão, uma força que poderia usar de métodos “menos éticos”, já que não era oficial.

Pra complicar ainda mais a questão, o indivíduo ainda estaria fortemente ligado ao tráfico de ópio da região, que é a principal fonte de recursos do Taleban. Malandro como todo informante bem-remunerado, já negou veemente a história.

Devem estar pensando – pera aí, os EUA pagavam um traficante, irmão do presidente que vive em um caos político, para recrutar para-militares anti-Taleban? Sim, é assim que funciona a espionagem dos EUA! Ações sem sentido legitimadas por diretrizes não melhor elaboradas!

Como será que são as reuniões em que se decidem esse tipo de iniciativa? Como eles pensaram que uma pessoa desse tipo nunca fosse vazar informações? Isso se complica quando levamos em consideração, com total certeza, de que há muito mais pessoas de “baixa índole” na folha de pagamentos da CIA, FBI, ASN, etc.

É como se tivéssemos voltado à Guerra Fria, com aquele número expressivo de informantes das mais diferentes origens que repassavam informações conflituosas para ambas as partes, que em vez de trazer segurança para o processo de tomada de decisão, só acabavam por trazer medo e paranóia aos órgãos de segurança nacional.

Devemos lembrar que nosso querido presidente Obamenon sempre afirmou que seu governo seria diferente no que é relativo a espionagem e etc… Mas é muito difícil um presidente modificar em 180 graus toda uma tendência na Segurança e Defesa de um país, o que piora quando tratamos do principal vilão do século XXI, o TERRORISMO! Tudo em nome ao combate ao TERRORISMO! Sim, aquela ameaça que mata menos que a fome, várias doenças que já tem cura, etc…

Com esse bicho-papão no armário de todos os políticos americanos (e de seus eleitores), infelizmente esse tipo de bizarrice continuará a ocorrer. As políticas de perpetuação do medo continuarão (pois trazem resultado) e os informantes que forem espertos continuarão sendo pagos. Não importa o que Obama – supostamente – faça.


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Post do Leitor

Post do leitor – Raphael Camargo Lima

[Pessoal, o post abaixo foi enviado hoje pelo leitor Raphael Camargo Lima, do 2° ano de RI da UNESP – Franca. Acompanhem a interessante leitura!]

O Problema da Guerra e o Nobel da Paz

Obaminha paz e amor


Seriam as motivações de um governante o suficiente para garantirem-lhe credibilidade perante a comunidade internacional? Teriam importância todos os discursos emancipatórios contra a prática da guerra quando acompanhados da inação? No próprio campo acadêmico das Relações Internacionais, alguns autores clássicos buscaram a resposta para essa questão, como Hans Morgenthau em sua seminal obra “A Política entre as Nações”. O autor acreditava que a política deveria ser entendida por meio das ações dos estadistas, e que cometiam falácias todos aqueles analistas que buscavam interpretá-la por meio das motivações dos atores. Bom, no campo teórico isso faz muito sentido, mas no campo da prática as coisas parecem ser um pouco diferentes e aparentemente envolvem algumas outras variáveis, principalmente quando se trata de nosso Tio Sam.

Recentemente o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama foi contemplado com o prêmio Nobel da Paz, posto assim, no mesmo patamar de grandes ativistas pela paz como Kofi Annan, Jimmy Carter, os Médicos Sem Fronteiras e outros muitos militantes da paz e dos direitos humanos. Agora convenhamos, o que realmente foi feito por Obama em prol da paz? O único avanço concreto fora o decreto para o fechamento da prisão de Guantánamo no início desse ano.

Mas todas aquelas conjecturas sobre guerra, muito bem concebidas, que se configuraram como promessas símbolo de sua campanha, como a retirada das tropas do Afeganistão e Iraque, ainda permanecem no plano das idéias, sem jamais ter se consolidado inteiramente. Discussões foram iniciadas, claro, mas o impasse interno sobre o aumento de tropas é tão evidente, que não se pode prospectar o fim dessas guerras. Em contrapartida deve-se entender também as dificuldades de realizar tais feitos, uma vez que um governo não se constitui unicamente pelo seu chefe de Estado e Governo, o que garante suma relevância a outros fatores chave como bases parlamentares e a viabilidade de se realizar esses projetos.

Existe, portanto a pressão interna para que a Guerra do Afeganistão não se torne um novo Vietnã. Ademais do orgulho que rega a questão da retirada das tropas, coexistem também, percepções diferenciadas sobre essas guerras dentro do próprio governo e dessa forma configuram-se diferentes lobbies sobre o tema. O comandante de operações no Afeganistão, Stanley A. Mc Chrystal, por exemplo, é o maior pivô nas pressões para um aumento de contingente nessa guerra, afirmando que o presidente deve fazer o que for preciso para por um fim a essa guerra. Para clarificar um pouco mais a situação, podemos ter em vista também que somente uma minoria da população apóia essas guerras. Em recente pesquisa de opinião nos EUA publicada pela folha online no dia 26/10/2009, é apontado que somente 26% da população apóia o envio de mais tropas ao Afeganistão. Assim, Obama encontra-se posicionado no olho de um furacão de grupos de pressão e lobbies.

Não se pode muito prever quais as direções que a guerra e o governo Obama irão tomar e nem será de grande valia filosofias sobre os valores por trás desses eventos. Todavia pode-se com certo êxito notar um conjunto de contradições entre o discurso de Barack Obama e as operações no Oriente Médio. A ironia reside no fato de que no mesmo momento histórico em que o governo estadunidense discute o envio de mais tropas para o Afeganistão, Obama é considerado o mais novo arauto da paz. Haveria uma lógica implícita nisso?

Talvez seja esse o ponto seminal, a pedra basilar da compreensão desse inusitado evento. Um prêmio dessa magnitude tem um significado muito mais subjetivo do que objetivo. Ou seja, serve como forma de urgir os policymakers estadunidenses a tomar posições mais condizentes com os discursos proferidos, em direção do fim da guerra. Mas esse trabalho deve ser realizado com certa prudência e rapidez, antes que o governo do partido democrata caia em descrédito e acabe sem base parlamentar nas próximas eleições do congresso em 2010. O Nobel da Paz é um depósito de confiança no discurso de Obama e uma exigência de accountability vertical da sociedade internacional.

Se foram esses os reais motivos da comunidade internacional ao conceder esse prêmio, jamais teremos conhecimento. Sejam quais forem os motivos esperamos observar os efeitos em curto prazo. Acredita-se, assim, que nesse conturbado novo milênio as vias de paz podem ser diferenciadas e as motivações dos atores possam significar algo a mais. Se o Nobel de Paz será uma dessas novas vias de paz, somente o tempo dirá. . .


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Iraque, que ira, queira?

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Só pelos últimos acontecimentos, poder-se-ia produzir mais uma aula de biologia no Oriente Médio, mas vamos mudar de matéria, fiquemos nas Relações Internacionais por hoje e, mais especificamente, concentremo-nos naquilo que engendrou a disciplina no alvorecer do século XX: a antinomia guerra e paz. Evidentemente, ressalta-se que os conceitos também sofrem a ação do tempo: da Primeira Guerra Mundial aos atuais grupos terroristas, muita coisa mudou no modo de guerra e, por conseguinte, nas perspectivas para a paz.


Que tal um anagrama? Vamos jogar com as palavras. O país é o Iraque. A atual guerra no país incita a pergunta: que ira? Ira para com as tropas norte-americanas, a corrupta administração iraquiana, os países estrangeiros que financiam os insurgentes terroristas, o fanatismo, o extremismo, o xenofobismo? Na junção das palavras da primeira pergunta, temos uma nova: queira. Pois é, queira o Iraque ser Iraque novamente, isto é, ser um país.

Outubro está quase indo embora, mas o Dia das Crianças perdura. As brincadeiras continuam, só que estão perdendo a graça. Como ainda não inventaram o Dia dos Adultos, eles o roubam das crianças, ou agem para relembrar os velhos tempos de infância. Desta vez, dois carros-bomba explodiram no Iraque, matando mais de 150 pessoas. Foi o pior atentado dos últimos dois anos. Uma tragédia! Isto porque o país estava ficando mais seguro (confiram esta interessante matéria), mas resolveram pentelhar. E quem foi responsável por tal ato?

Até agora, ninguém assumiu a autoria. Uns dizem que foi a Al Qaeda ou partidários do partido Baath, do ex-ditador Saddam Hussein, outros incriminam o suporte dado ao terrorismo pelo Irã, Arábia Saudita e Síria. O fato é: inventou-se uma nova concepção de guerra, não mais travada por exércitos regulares em campos opostos, mas batalhas entre inimigos sem faces, lutando até mesmo de modo precário e fazendo do corpo uma arma mortífera. Se Clausewitz outrora argumentou que a guerra era “a continuação da política por outros meios”, hoje o terrorismo se apropria desse mote. A disseminação do terror e da violência tem um propósito, embora os meios empregados sejam repugnantes.

E o arauto da paz, Barack Obama, o que disse? Que as bombas são inaceitáveis e, é claro, que atrapalham o progresso iraquiano. Ademais, os atentados sobrelevam a fragilidade do governo do país em garantir o monopólio legítimo do uso da força (conceito weberiano) e, conseqüentemente, zelar pela segurança de seus cidadãos. E é bom o Iraque ficar esperto, pois o prazo para a presença das tropas norte-americanas está expirando: uma Copa do Mundo, uma Olimpíada e adeus!

Aliás, pode-se até questionar o quanto os Estados Unidos estão ajudando o Iraque, ontem mesmo, o governo iraquiano solicitou a ajuda da ONU para investigar quais os países estrangeiros estão dando apoio aos insurgentes internos. Apenas para recordarmos: já que Saddam Hussein não dispunha de armas de destruição em massa, a alegação para sustentar a atual guerra no Iraque foi a prevenção e a necessidade de instaurar um regime democrático no país. Ora, guerras preventivas – ou seja, agir antes que o inimigo o faça – não são novas na história da humanidade e as mentiras também não. Da mesma forma, há aqueles que argumentam que a democracia é um imperativo para a paz. Dançam os conceitos no ritmo do tempo.

O Iraque trava agora a sua batalha para desfazer o anagrama e construir a paz sobre os escombros da guerra. E, decerto, como conclusão deste post, poderíamos extrair as considerações finais do livro de Luigi Bonanate intitulado A Guerra: “Qual país nasceu pacificamente? E, se são várias as concessões exigidas pela paz, o resultado então será a guerra.”


Categorias: Conflitos, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Milícias Bolivarianas

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[Post rápido e sem muita inspiração…]

Mais um passo rumo à Revolução Bolivariana.

Nesta quarta-feira, Chávez editou a Lei Orgânica da Força Armada Nacional que legaliza as milícias civis bolivarianas.

O engraçado é que essas forças se destinam a complementar a Força Armada Nacional que, inclusive, agora tem outro nome: Força Armada Nacional Bolivariana.

Mas não é mais lógico melhorar o próprio exército nacional?

Pois é. Mais uma vez as bases do Estado Moderno estão sendo desafiadas mundo afora. O monopólio do uso legítimo da força na Venezuela passa a ser um duopólio.

Chavez acaba de criar um ‘novo exército’ que, certamente, será fiel somente à sua figura. Isto porque essa força paralela será composta pelos militantes bolivarianos. Assim, na Venezuela, a força e as armas não estarão mais em só uma mão.

Aliás, o próprio Chávez tem dito que agora quem quiser poderá ser militar. E quem será que vai querer ser membro dessa nova força armada? Os opositores? Certamente que não…

Esta medida cria algo que se parece, e muito, com a Guarda Revolucionária do Irã. Esta força de elite, naquele país, é submetida diretamente ao Aiatolá e tem a função de proteger o Estado Revolucionário Iraniano de qualquer mudança. Tanto que foi a Guarda Revolucionária que manteve a ‘ordem’ no país durante os protestos contra fraudes nas últimas eleições presidenciais.

É óbvio demais para mim que esta força civil criada por Chávez é mais um instrumento político para manter a revolução que ele criou. Nem o mais cândido dos ingênuos, como diria o ministro Gilmar Mendes, acreditaria que ela se destina a complementar a defesa e a segurança nacional…

É uma boa desculpa para se entregar mais armas aos militantes revolucionários civis.


Categorias: Américas


Acessem!

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[Indicação de site]

Pessoal, estamos divulgando a nova página do GEDES – Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional.

Clique aqui para acessar.

É um excelente site, repleto de ótimas leituras para aqueles que pretendem se aprofundar em muitos dos assuntos que são discutidos aqui no blog.

Vale a pena!


Categorias: Post Especial


O empreendedorismo social – PARTE 1

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Primeiro, vamos às definições:

Empreendedorismo social trata de abordar de forma inovadora, prática e sustentável os problemas da sociedade, enfocando os marginalizados e os mais carentes. É um termo que captura o valor único dessa abordagem para temáticas sociais e econômicas, que vai além da divisão de disciplinas e temas, pautando-se em valores e práticas comuns aos empreendedores sociais, independente da área de atuação.” (Fundação Schwab – Suíça)  

Empreendedor social é aquele que promove mudanças que servem à comunidade por meio da identificação de novos processos, serviços e produtos, criando uma nova maneira novas formas de sustentabilidade e replicabilidade da atividade e/ou soluções encontrada. (Klaus Schwab, Fundação Schwab – Suíça)”  

A partir do final do século XX uma situação paradoxal formalizou-se. O capitalismo moderno e a aplicação das teorias neoliberais levaram a duas realidades opostas. De um lado, avanços tecnológicos, das informações e do conhecimento; os quais ensejaram oportunidades maiores que em qualquer outra época da história da humanidade. Por outro lado, é crescente o número de regiões que apresentam níveis humanos e sociais, em termos de bem-estar, entre os mais baixos também de nossa história. A valoração produtiva do sistema em prática funciona como um catalisador desses impactos, promovendo o crescimento econômico sem a contrapartida de políticas eficientes para lidar com os que não conseguem se inserir nessa dinâmica.

O tratamento à pobreza já atravessou diversas etapas – faço referência a definição do professor Edson Oliveira – a era da ajuda pela ajuda, típica da pré-história; a era da caridade, da época dos grandes impérios, pautava-se na influência religiosa e política da Igreja; a era da filantropia, prenúncio da passagem ao modelo capitalista e seus inerentes efeitos sociais; e por último a era das políticas sociais, essencialmente do pós 2ª Guerra Mundial, o Estado tomava a questão social como sua responsabilidade – em seus tempos áureos surgiu a concepção de Estado de Bem-Estar Social. A evolução dessa temática evidencia que a pobreza, assim como outras temáticas sociais, não pode mais ser tratada como questão de filantropia ou caridade, à medida que tais medidas não fornecem elementos para a superação dessas realidades, mas, em realidade, promovem a sua perpetuação. Frente a ineficiência estatal, iniciativas da sociedade civil cresceram e, eventualmente, angariaram o apoio do Estado.

Grande atenção sempre receberam os empreendedores de negócios, em especial a partir da segunda metade do século XX. São diversos os estudos que procuraram identificar seus valores pessoais, auto-controle e orientação para o risco, para assim traçar paralelos entre a mudança e o perfil dos empreendedores. Padrões foram identificados e viraram prática, em esferas privadas e públicas. Neste ínterim, diversas iniciativas surgiram para enfrentar desafios sociais – muitas das quais levaram a grandes mudanças no tratamento médico, no sistema de ensino, na preservação ambiental, nos direitos humanos. As denominações utilizadas, de filantropo a caridoso, não compreendem suas atuações por completo. Citando outro autor, David Bornstein: “as teorias de mudança social se concentram mais em como as idéias mudam as pessoas do que em como as pessoas mudam as idéias”.

Nas próximas semanas duas semanas tratarei de dois exemplos de empreendedores sociais, um no campo da educação e outro no campo da saúde. Como indivíduos alteraram idéias e padrões? E como esta mudança afetou a sociedade. Práticas, por vezes simples, mas que com a vontade de pessoas motivadas, cheias de energia e mesmo obsessivas, tornaram-se campeãs.

Alguns links (em inglês) para os interessados: AQUI, AQUI


Categorias: Política e Política Externa


Uma breve aula de biologia no Oriente Médio

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[Gostaria de agradecer a minha amiga Natalia Santos, granduanda em Farmácia pela UNIP-Rio Preto, pelo apoio prestado a este post. Sem as suas considerações e esclarecimentos, não teria sido possível eu fazê-lo. Muito obrigado!]

À primeira vista, pode parecer estranho, mas este post é sobre relações internacionais. Ou sobre relações tensas, conflituosas, desconfiadas, terroristas e, até mesmo, entediantes. Pois é, pessoal, estamos falando sobre o Oriente Médio e os acontecimentos mais recentes nessa incandescente parte do globo. Mas o que a biologia tem a ver com isso? Logo explico, os primeiros estudos dos antropólogos sobre as causas da guerra levaram em consideração a natureza humana e suas predisposições biológicas para fazê-la, como a “sede de agressão”, localizada no sistema límbico, na região cerebral. Estariam os homens lá lutando até hoje por causa desse impulso?


Prossigamos com esta aula de biologia no Oriente Médio. Que tal falarmos um pouco sobre o seu DNA (ácido desoxirribonucléico), que possui peculiaridades em relação ao DNA humano. Nessa região, as bases nitrogenadas metamorfoseiam os seus significados, não se restringindo a palavras fixas como: T timina, A adenina, C citosina ou G guanina. Nem mesmo as suas ligações peptídicas (A-T e C-G) são mantidas. Ora, encontramos uma nova razão para a incandescência do Oriente Médio. Bem, deixemos a teoria um pouco de lado em prol da observação empírica.

E o Afeganistão? O “Santo Graal” da atual política externa dos Estados Unidos. Uma mística busca sem fim pela estabilidade e redemocratização do país, de modo a combater qualquer reduto terrorista. No final de setembro, o general responsável pelas tropas norte-americanas em solo afegão, Stanley A. McChrystal, divulgou um relatório intitulado “Relatório Inicial de Comando” que, diga-se de passagem, de inicial nada tem, afinal já são oito anos no Afeganistão. No documento, o general considerou necessário o envio de mais soldados – um contingente de 40 mil homens –, dado o perigo de uma guerra longínqua e prolongada. Notem, pessoal, a primeira ligação: A-T = Afeganistão – Terror; e outra não convencional: G-T = Guerra – Terrorismo. Mas seria interessante estender o tempo dessa guerra? (Ouçam a entrevista do Prof. Dr. Hector Luis Saint-Pierre).

Por enquanto, a proposta de McChrystal está em discussão. Londres já fez a sua parte, mas Obama não parece muito animado para fazer a sua. O líder norte-americano não pretende executá-la enquanto não estiver convencido de que Cabul seja um parceiro confiável dos Estados Unidos. Até C se liga com C: Confiança – Cooperação, uma combinação já conhecida. Recentemente, a eleição de Hamid Karzai, atual presidente do Afeganistão foi anulada e será realizado um novo segundo turno. Motivo: fraude.

Aliás, para o presidente do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, Richard Haas, o Afeganistão (confiram aqui esta entrevista) já deixou de ser uma “guerra de necessidade”, como no imediato posterior ao 11/09, em que se urgiu a prevenção do terrorismo, para se tornar uma “guerra de escolha”, a escolha de Obama de persistir. Para Haas, é preciso um limite para a empreitada norte-americana no país. O próprio presidente norte-americano enfrenta fortes pressões contrárias a essa guerra. Mais importante até do que o envio de mais soldados ao Afeganistão é o fortalecimento da cooperação com o Paquistão, que trava uma constante batalha contra os insurgentes da Al-Qaeda e Taleban – por sinal, ambos os grupos se fortaleceram. É C com G: Conflito – Guerrilha.

E o Irã? Em tempos recentes, de ameaça se converteu no ameaçado. Os recentes atentados no país deixaram 42 mortos, dentre os quais, seis líderes da Guarda Revolucionária, a força militar mais poderosa do país. O grupo radical sunita Jundillah assumiu a autoria dos atos, mas o governo iraniano insiste em acusar os Estados Unidos, o Paquistão e o Reino Unido de envolvimento nos mesmos. E, ainda pior, o evento pode comprometer as negociações para o desarmamento do Irã. Que tal um A-C? Atentado – Crise, no caso, crise diplomática.

E essa agora entre Turquia e Israel? A Turquia vem se afastando do seu histórico relacionamento com Israel e se aproximando cada vez mais da Síria, inimiga declarada do governo israelense. Também, certamente, não é para menos após as “mancadas” de Shimon Peres e Benjamin Netanyahu, sobretudo, com relação ao desrespeito à mediação turca pela paz na Faixa de Gaza. Um T-C? Traição – Começo, ou seja, busca por novas relações.

Enfim, aqui se encerra uma breve aula de biologia no Oriente Médio, cujas ligações peptídicas desafiam à própria definição dos biólogos e geneticistas. Ter-se-ia criado um organismo completamente disforme? Talvez nem tanto, mas explicar o funcionamento do mesmo não é tarefa fácil para nenhuma área do conhecimento ou religiosa. Segue a vida belicosa, instável e até intermitente da região.


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