Respeito tem limites

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Enquanto o mundo se concentra em Honduras, continuamos com nossa análise nos cantos esquecidos do mundo.

Nesses dias em Guiné, a Junta Militar que assumiu recentemente o governo reprimiu de forma opressiva (com muito eufemismo) os protestos que ocorriam contra a Ditadura vigente. Relatos de mortes de crianças, estupros e outras atrocidades se misturam com declarações oficiais de que isso “é invenção da mídia”. Sempre é. Como no caso do Sudão, Ruanda, Argélia…

Para complicar, o chefe da Junta militar diz que “Os fatos me superaram. Deste Exército eu não controlo todas as atividades. Dizer que eu controlo este Exército seria demagógico”. Qual é o propóstio de um governo militar se ele nem consegue controlar…. os militares?

Porque ninguém faz nada para controlar essa situação? Porque ninguém vai lá e pune os culpados por essas atrocidades. Várias razões podem ser apontadas, mas a base da maior parte dos argumentos que buscam legitimizar a passividade mundial nessas questões é uma: soberania.

Soberania: os governos tem autonomia para tomar as decisões relativas a suas políticas internas. Até então nada de errado. Porém, esse argumento é continuamente utilizado para impedir a entrada de ajuda internacional nos países de governo não-democrático, e como ninguém quer ter a sua soberania violada, nenhum Chefe de Estado irá violar a dos outros (claro que existem exceções, não é George Filho?).

“Não podemos sair por aí entrando no país dos outros”. Sim, tudo bem. Mas igualmente errado é deixar essas e outras questões continuarem ocorrendo, de forma que a inação do sistema internacional acaba por quase que legitimar as atrocidades cometidas, já que se nenhum país faz nada de efetivo contra, é porque não há nada de errado.

Infelizmente a resposta para esse problema é extremamente difícil de se encontrar… Mas ela só chegará se alguém buscá-la.


Categorias: África, Política e Política Externa


Post Rápido: Índia nuclear

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Olá, leitores!

Como o Alcir disse, todos os colaboradores estão muito atarefados por esses dias, mas vou postar rapidamente sobre o anúncio da Índia de que igualou a capacidade nuclear às grandes potências. As armas juntas tem 200 quilotons de potência. 50 quilotons já são consideradas bastante destrutivas. E lá vem mais polêmica…

A Índia se recusou a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e começou a desenvolver seu arsenal nuclear em 1974. Em 2006, os EUA fecharam um acordo de cooperação militar com a Índia e nesse ano falava-se até em respeitar o TNP. Aqui mesmo no blog, já postamos sobre isso.

Ocorre que o anúncio da Índia veio num momento particularmente delicado no cenário internacional. Como se sabe, o Irã realizou simulações de operações militares testando mísseis de curta distância, poucos dias depois de anunciar que havia construído uma nova fábrica de enriquecimento de urânio. Os governos ocidentais tomaram isso como mais uma prova de que Teerã está desrespeitando as determinações da ONU. Mas a Índia pode!!!

Além disso, não podemos ignorar o Paquistão, vizinho perigosamente armado da Índia e reclamante da Caxemira. A região é turbulenta o bastante para mais esse pepino. O Paquistão tende a avançar em uma corrida armamentista.

Mas o Conselho de Segurança não deve agir com a mesma firmeza com relação à Índia. Sanções? Repreensões? Alguém vai ser mal visto por convidar o primeiro-ministro indiano para visitar o seu país? Não!

Mas com a Coréia do Norte e o Irã, melhor tomar cuidado. E isso não é uma ironia…


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


Desculpem

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Pessoal, desculpem a desatualização do blog. Estamos todos enrolados com tudo quanto é coisa, desde trabalho, TCC, processos de trainee, etc.

Pedimos a compreensão de todos!

Mas logo estaremos de volta!


Categorias: Post Especial


Lidando com os norte-coreanos…

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[Mais um post do ex colaborador fantasma Rafael Teixeira Braz que, pelo reaparecimento e apoio nos podcasts, será reintegrado à equipe da Página Internacional!]

Veja aqui e aqui os links deste post.

Na mais recente reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas, uma das principais preocupações das nações continua sendo a questão nuclear no que concerne os dois países mais problemáticos no assunto, o Iran e a Coréia do Norte. Neste artigo abordarei a situação da República Popular Democrática da Coréia ou, como a maioria a conhece, Coréia do Norte, em virtude da afinidade de pesquisa.

O impasse da Coréia do Norte se dá após diversas (e quando digo diversas quer dizer que estamos na 6ª) tentativas de negociação entre o país e mais 5 países que seriam diretamente afetados em caso de algum “acidente” com o material nuclear norte-coreano (sem contar as negociações lideradas na década de 90 pelo presidente Bill Clinton). Eles formam a six-party talks, China, Estados Unidos, Rússia, Coréia do Sul, Japão e a própria Coréia do Norte. A negociação multilateral dura já há algum tempo, desde 2003, sem apresentar alguma solução para parar o desenvolvimento nuclear norte-coreano e, aliás, às vezes até piorar a situação em alguns aspectos.

Nos últimos meses a República Popular Democrática da Coréia (RPDC) já realizou cerca de 2 testes balísticos, onde lançou 7 mísseis no mar do Japão e no Oceano Pacífico e realizou um teste nuclear, em um subterrâneo do país, o que motivou uma reação de condenação instantânea da sociedade internacional perante o ocorrido. Em reunião do Conselho de Segurança da ONU em 12 de Junho de 2009, foi traçada a resolução 1874 que além de condenar os testes, complementa a resolução anterior de 2006, 1718, demandando a paralisação do programa nuclear norte-coreano e a volta do país ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) sobre a guarda da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). No entanto, o comprometimento da RPDC com o programa nuclear parece maior do que com o término deste, como já podíamos esperar.

Após tantas tentativas de negociação que terminavam em alguma das partes descumprindo o acordado, o objetivo da Coréia do Norte continua sendo o de obter facilidades e incentivos econômicos com o programa nuclear, aumentando seu poder de barganha com os Estados Unidos e seus aliados. Vale lembrar que a República Popular Democrática da Coréia apresenta direcionamento ideológico bastante forte, doutrina originária do fundador da República Kim Il Sung (o kimilsungismo ou juche), que prega o caminho da independência político-econômica do país, a auto-suficiência do Estado. Contudo, para um país que há uma década e meia vivia uma grave crise de abastecimento de alimentos para a população (e ainda vive grandes dificuldades), que tem uma crescente necessidade de novas fontes de energia, pois não consegue abastecer a totalidade do país, e se encontra dentro de um sistema global que cada vez mais apresenta uma interdependência entre os países, a República Popular Democrática da Coréia realmente parece estar em órbita.

Na terça-feira, o presidente da República da Coréia (Coréia do Sul), decidiu apresentar uma proposta de ajuda financeira e energética à Coréia do Norte para que esta, em troca, restabeleça o caminho da não proliferação nuclear. Ora, após tantas tentativas de negociação, sucessos e retrocessos, o presidente sul-coreano que, diferentemente de seu antecessor, possui uma linha de adoção de medidas muito mais duras com a o vizinho do Norte, parece agora querer resolver uma situação que se estende já há décadas em alguns simples movimentos. Contudo, é muito importante lembrar que ultimamente a Coréia do Norte tem se demonstrado muito mais atenta às políticas internacionais reagindo na mesma medida em que a sociedade internacional age (vide a reação deste país aos entraves da six-party talks no início do ano que o motivou a dar sequência aos testes balísticos que por sua vez deram o que falar no Conselho de Segurança da ONU em junho) e agora, novamente enuncia uma possível reaproximação dos países para a volta das negociações a partir do contato com a China.

Assim, estratégia básica: nunca baixe todas as suas cartas na mesa de uma só vez a não ser que saiba exatamente quais são as cartas do seu oponente e que a vitória é garantida. E em matéria de conhecer as cartas do oponente… sabemos o quão difícil é ver o que acontece dentro do país sob o regime mais fechado do mundo.

A nova resolução aprovada hoje, dia 24 de Setembro, pelo Conselho de Segurança (CS) contra a proliferação nuclear deve aumentar a pressão também sobre a Coréia do Norte, contudo, nada que mude radicalmente a conduta do país. Nesse momento o objetivo principal de Kim Jong Il é tirar proveito das negociações, depois de todas as demonstrações de “disposição” do país nos últimos meses.

Aguardemos a divulgação do conteúdo da proposta sul-coreana, bem como a resolução do CS ou de outras negociações para fazer mais comentários, pois até lá só podemos lidar com hipóteses.


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais


A Assembléia Geral da ONU

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[Estou sem acesso à internet e fiquei uns dias sem postar, hoje faço dois posts]

Nada como uma crise internacional sem precedentes para fazer com que o mundo passe a olhar com mais atenção o que acontece no plano internacional. E a ONU, que infelizmente não tem muitas funções além de um grande palco para discursos e peripécias, passa a ter grande importância (Nessa hora eles lembram da ONU, Ivan). E tem gente que gosta de aproveitar os holofotes.

Veja o caso do Muammar Kadafi, líder da Líbia. Usou uma hora e meia do tempo dos presentes para defender o Talibã, rasgar a Carta da ONU e defender Obama. Aliás, ele já chamava a atenção meses antes da reunião quando queria instalar sua tenda no Central Park.

E o discurso do presidente Lula? (Leia a íntegra aqui) É a primeira vez na história dessa república que se esperou tanto pelo primeiro discurso da Assembléia Geral. Isso é ótimo para o nosso país. Esse pelo menos usou bem o palco! Não sou fã da Política Externa adotada por esse governo, mas o fato é que o Brasil hoje tem a voz que sempre quis ter no mundo.

Mas, infelizmente, besteiras ainda continuam sendo feitas. Lembram da visita que o Ahmadinejad faria ao Brasil (Leia aqui e aqui)? O governo parece que havia percebido à época o quão comprometedora a visita seria e a cancelou. Agora, o Lula usou a reunião da ONU para aparecer com o Ahmadinejad. Pura imprudência.

O fato é que o Brasil quer ser gente grande, como diz o Giovanni. E toda criança que quer ser grande gosta de fazer pirraça. Quando a adolescente está crescendo, desafia os pais saindo com o menino que a família não gosta. É mais ou menos isso que tem acontecido. O Brasil, além de todos os fatores econômicos e políticos que nos ligam com o Irã, gosta de aproveitar os momentos com eles para mostrar ‘independência’. Mas à medida que a criança cresce, a pirraça passa. Isso deve acontecer logo com o Brasil…

Outro momento importante da reunião: o discurso do Obama. Veja mais aqui e aqui. Se o Bush se colocava como o xerife do mundo e os EUA como o grande ‘resolvedor’ de problemas, Obama já deixou claro que com ele a história é outra.

E a Rússia? Após resolver os problemas do escudo anti mísseis com os EUA, dá sinais de que pode cooperar na questão nuclear. O grande problema para aprovar resoluções mais contundentes para o Irã e Coréia do Norte no Conselho de Segurança era a Rússia. O discurso do presidente russo sinalizou que eles podem ter mudado de idéia. E a China já se manifestou.

Mas com a Rússia não se brinca.

Mas parece que o Conselho de Sergurança até já aprovou algo sobre armas nucleares. Mas aprovar algo sério e específico sobre Irã e Coréia do Norte é outra história. Até porque a Rússia pode até cooperar, mas a China também tem poder de veto.

Por enquanto é isso. E tem reunião do G-20 logo mais!


Categorias: Organizações Internacionais


No olho do furacão

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[Post rápido e polêmico – viu, Adriana?]

É impressionante como nesse governo ninguém nunca sabe de nada…

Num belo dia de sol em Tegucigalpa o Zelaya se materializa em frente à embaixada brasileira. Isso mesmo. Ele aparece lá do nada.

E no Brasil? Ninguém sabe de nada…

O mais engraçado, no entanto, é a postura do Brasil. Quando o senhor Omar Hassan-Bashir, presidente do Sudão, é condenado pelo Tribunal Penal Internacional, o Brasil não se manifesta. É o princípio da não interferência.

Quando o Chávez deita e rola na Venezuela, de novo, princípio da não interferência.

E quando nosso presidente resolve se manifestar, normalmente não sai nada além de algo que algum outro Chefe de Estado pensaria duas vezes antes de falar.

E quando Honduras está numa crise interna gigantesca? O Brasil não só se manifesta como consegue sair da posição de expectador para a de ator principal e entra no olho do furacão.

Aí, claro, é acusado de ingerência. E onde fica a retórica da não interferência agora?

Nada contra o governo se manifestar e agir de vez em quando. Aliás, já postamos sobre isso aqui muitas vezes. Um país que almeja a posição que o Brasil quer não só pode como deve se manifestar. Veja dois dos posts sobre o assunto aqui e aqui.

O problema é a falta de coerência do Brasil. Diz que adota a não interferência, mas quando é um governo de esquerda (como o de Zelaya, que foi retirado do poder pela Suprema Corte do país por tentar modificar a constituição indevidamente – um novo tipo de golpe na América Latina, mas que não isenta o Zelaya de culpas), ou algum aliado qualquer, por mais atolado que esteja, como o presidente do Sudão ou o Egito no caso da Unesco, o governo não só se manifesta como dá todo tipo de apoio.

Se o nosso governo quer adotar alguma postura, que adote. Não há problema nisso. Mas que pare com esse discurso de não interferência quando há um assunto internacional urgente – como casos de desrespeito aos Direitos Humanos ou questões ambientais – e saia de cima do muro.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


A Volta de Zelaya (parte III)

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[Galera, é com muito orgulho que apresento o primeiro post do nosso colaborador fantasma Rafael Teixera Braz! Depois de muito tempo ele aparece por aqui! Mais sobre Honduras? Clique aqui]

Antes, veja alguns links aqui, aqui e aqui.

E cá estamos novamente no terceiro episódio de “A volta de Zelaya (parte III)”. Pois é senhores, Manuel Zelaya está de volta ao território hondurenho e dessa vez se encontra ilhado na embaixada brasileira de Tegucigalpa, no entanto a situação não é estável como já poderíamos esperar.

Segundo o Chanceler brasileiro Celso Amorin, o Brasil não tem nenhuma ligação com a volta do Presidente Hondurenho que chegou ao território do país por conta própria, e que após isso, pediu uma espécie de “asilo” ou mais parecido como um “refúgio” na embaixada brasileira onde se encontra até agora. Com essa jogada ousada por parte do presidente deposto as movimentações podem esquentar no país, pois afinal o intuito de Zelaya aparentemente é movimentar e motivar as massas que estão ao seu favor a organizar algum tipo de reação como forma de pressionar o governo a negociar uma retirada.

Estratégia ousada, no entanto, precisamos vê-la mais a fundo. Assim que chegou a Tegucigalpa e se “refugiou” na embaixada brasileira, cerca de 4.000 apoiadores de Zelaya se reuniram em frente á embaixada para divulgar seu apoio, porém pouco tempo depois, houve uma repressão bastante intensa desses manifestantes por parte da polícia que os “combateram” a cassetadas. O que começou com uma estratégia de levantar a população contra o governo de fato, terminou com uma contra-estratégia de forçar a embaixada a entregar Zelaya à justiça hondurenha, realizando um “cerco” do local e apontando diversos alto-falantes para a embaixada com o hino de Honduras tocado de uma forma bastante estridente, de forma a pressionar psicologicamente seus funcionários.

Contudo, entre esse jogo de pressão para cá e para lá, o governo brasileiro reitera o apoio ao presidente deposto ao mesmo tempo em que espera pela conclusão da situação por meio de uma negociação pacífica. No entanto, a situação se mantém complicada a medida que um ataque à embaixada brasileira seria um ataque ao território brasileiro e a partir daí, não preciso dar detalhes. Depois de recorrer ao governo Norte-Americano e ao secretário geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) para pedir a segurança das pessoas que trabalham na embaixada brasileira, o governo brasileiro através do presidente Lula pediu para que Zelaya não fizesse nada que desse pretexto aos “líderes do golpe de Estado” a invadir a embaixada brasileira.

O clima de tensão é bastante intenso, o governo interino de Honduras alegou que vai responsabilizar o Brasil por qualquer violência que ocorra mediante a situação. No entanto, cabe a nós pensar qual seria a chance de que uma real invasão ocorresse na embaixada e isso me leva a crer que é bastante improvável. O Brasil é reconhecidamente um país pacífico em termos internacionais, sempre favorável à resolução de conflitos por meio da negociação, além disso, a sociedade internacional já afirmou seu apoio contra o golpe dado e reiterou sua posição favorável à volta de Zelaya ao governo. Qualquer ataque à embaixada brasileira seria no mínimo um tanto impensado por parte do governo interino. É importante lembrar que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial também suspenderam a ajuda a Honduras como forma de protesto ao golpe.

O governo de Micheletti se encontra ilhado em meio ao cenário mundial. Uma atitude impensada agora poderia levar realmente ao afogamento do governo interino, e pensando por outro lado, não é que o Zelaya conseguiu o que queria? Após três tentativas de retorno à Honduras, consegue finalmente adentrar ao território e ainda atrai a atenção de todos para a situação, obrigando todos os envolvidos agora (inclusive o Brasil) a buscar uma resolução.
Como toda boa novela, a cada capítulo um novo personagem aparece com uma nova problemática que se liga a história principal. Não percam o próximo capítulo… essa novela está dando o que falar…


Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


ELE VOLTOU!

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[Post rápido]

E não é que ele voltou mesmo?
Mas só pra ‘negociar’.

Olha só, Kita, será mais uma peça do teatro? Veja o post do Luís Felipe Kitamura sobre o assunto aqui.

Com certeza.

E o governo declarou toque de recolher com medo da reação da população na cidade.

Aliás, onde o Zelaya está??? Na embaixada do Brasil, claro! Aliás, especula-se até que foi com ajuda do nosso governo que ele chegou na capital…

É esperar pra ver.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


As Armas e os Barões Assinalados na América do Sul

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[Pessoal, este post é do Giovanni Okado. Era para ser postado ontem, mas tanto eu quanto ele estávamos sem internet. Como ele ainda está sem, posto para ele]

Antes, clique aqui, aqui e aqui.

Há cerca de cinco séculos, a fabulosa obra Os Lusíadas, de Camões, era marcada pelas armas e os barões assinalados na ocidental praia lusitana. Hoje, pode-se trocar apenas o lugar do verso; as armas e os barões seguem assinalados. Estamos falando da América do Sul e da mais nova moda no continente: a corrida armamentista. Entre os anos de 2003 e 2008, estima-se que os orçamentos militares dos países sul-americanos aumentaram 91%. Duas considerações sobre esse dado: a) não é uma informação completamente atípica, tendo em vista o estado decadente de muitos exércitos do continente; b) o processo não se deu de maneira equânime nos países da região.

O termo “corrida armamentista” diz respeito à aquisição de armas. Quem o faz? Os barões, ou melhor, os presidentes e os militares e ministros mais próximos a eles. É do interesse da sociedade? Certamente não. Num continente onde os índices de pobreza e desigualdades sociais são alarmantes e prevalece a lúgubre herança ditatorial, as armas não parecem resolver os problemas. Ou resolvem? Há um enorme hiato entre a percepção da importância da Defesa por parte da sociedade e os desdobramentos que o assunto traz consigo. Assim como também há interesses ocultos nos esforços empreendidos nessa área.

Afinal de contas, defender o que e se defender de quem? A Venezuela, é claro, se defende do império de Satã (dos Estados Unidos). E defende as suas reservas de petróleo. Hugo Chávez declarou que o país tem o legítimo direito à Defesa e, por isso, selou parceria com a Rússia no último domingo. Foi acordado um empréstimo de US$ 2,2 bilhões destinado à compra de 92 tanques e modernos sistemas de mísseis antiaéreos. Aliás, há tempos que ambos os países sustentam acordos militares, os quais incluíram a compra de aviões, fuzis e helicópteros.

O Brasil também entrou na dança. Durante a visita do presidente da França, Nicolas Sarkozy, Lula acordou a compra de armamentos franceses no valor inicial de 8,7 bilhões de euro. Pelo acordo, o Brasil adquirirá 36 aviões de combate Rafale, 50 helicópteros e construirá – juntamente com a França – quatro submarinos convencionais e um de propulsão nuclear. Tal parceira acabou descontentando os Estados Unidos, que também tem uma proposta para o governo brasileiro, e o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, acabou admitindo que nada está completamente definido quanto à aquisição de armamentos.

E os demais países? Bem, o Chile é o país que mantém o maior orçamento militar (3,7% do PIB em 2006) e investe pesadamente na modernização de suas Forças Armadas, embora não esteja em conflito. Por outro lado, Colômbia, que luta internamente contra o narcotráfico, é forçada a investir em material bélico. Já a Argentina não adquire armamentos desde 1994. E o Uruguai reclama. Tabaré Vázquez refuta veementemente esta busca por armas.

E os interesses implícitos nas iniciativas de aquisição de armamentos? Ora, a Venezuela nada mais quer do que a implementação do projeto bolivariano de Chávez na América do Sul. O Brasil, além de proteger o pré-sal, visa a um assento permanente no Conselho de Segurança e, para muitos analistas, firmar-se como uma potência regional. O Chile, por sua vez, aproveita as suas reservas de cobre.

É evidente que todos exaltam a necessidade da Defesa como forma de cuidar do próprio território e manter a soberania. Mas é inegável que a Defesa não é um fim em si mesmo. É também uma possibilidade de projeção econômica e de aspirações políticas. Mais do que isso, é um jogo entre barões do século XXI e uma sociedade do século XV, excluída dos versos heróicos e de palavras orgulhosas, que narram a epopéia de poucos.


Categorias: Américas, Defesa, Europa, Paz, Segurança


O indivíduo como ator de sua representação

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[O Luís Felipe Kitamura está sem internet hoje, por isso, estou postando um texto que ele enviou ontem]

Historicamente, o Estado teve sempre um papel central no que concerne a provisão dos direitos básicos de seus cidadãos. Deveria, para isso, incluir políticas para a educação, saúde, cultura, lazer, entre tantos outros. Desde os ideários liberais até os realistas – faço referência essencialmente aos expoentes modernos, que defenderam a adoção de um contrato social, primeiro para defender os indivíduos de seus semelhantes e posteriormente do próprio Estado.

Por muitas gerações tal assumpção prosperou incólume, afinal configurava a positivação (o estabelecimento das funções de forma objetiva e verificável) dos direitos individuais perante a coletividade, assim como o papel do Estado neste processo. Nas Relações Internacionais, a posição central do atores estatal tornou-se regra básica, gerando a inferência de uma ordem internacional anárquica, pautada nos interesses nacionais – visão que foi predominante inconteste até meados do século XX.

No decorrer do século XX, no entanto, surgiram fatos que se contrapunham a lógica estabelecida. Primeiro na esfera intra-estatal, Estados instituíam explicitamente políticas que cerceavam os direitos dos seus cidadãos, não provendo o mínimo às suas necessidades, e ainda dando preferência a partir de critérios de raça, etnia e preferência política ou social. O ponto extremo, neste sentido, foram as atrocidades perpetradas na Segunda Guerra Mundial. O mero conhecimento e bom senso advindo dos ordenamentos internos não eram mais suficientes. O Regime Internacional dos Direitos Humanos ganhou corpo, à medida que demandou determinadas condutas dos Estados que desejassem participar ativamente da Comunidade Internacional. Havia agora critérios mínimos de respeitos aos direitos dos cidadãos e os atores estatais que continuassem a desrespeitá-los estariam submetidos ao ajuizamento da comunidade internacional. O Estado perdeu, neste ínterim, parte de sua proeminência.

A nova dinâmica internacional, considerando os grandes avanços desde o final do século XX, só fez expandir a transparência dos efeitos das ações estatais; claramente ineficientes em grandes porções do mundo. Todos estão cansados de saber os problemas: pobreza, distribuição de renda, serviços de saúde precários, descaso ambiental, educação precária. Esta miríade de questões – ao menos, despertaram e fortaleceram iniciativas da sociedade civil. Os projetos do Terceiro Setor crescem ano a ano, gerando impactos sociais em suas comunidades. Tal nova lógica não se contrapõe ao Estado, pelo contrário, age no intuito de balancear e auxiliar as políticas estatais. O trabalho não visa mudar o sistema, mas buscar áreas onde existam entraves e os meios para remediá-los, não momentaneamente e sim no sentido de expandir os direitos e as ferramentas para que o ciclo de ativação social do indivíduo se perpetue. Na atualidade, em minha opinião, a principal fonte de representação dos cidadãos é a sociedade civil, nela ficam estabelecidas a insatisfação com a realidade enfrentada e o engajamento pela mudança. A força deste trabalho se consubstanciará em longo prazo, até que o dia em que a soberania popular (das idéias democráticas) vai, de fato, permear as escolhas políticas.

Muito me revolta a manifestação do presidente do Senado, José Sarney. A mídia é inimiga das instituições políticas? Quem representa o povo? Não me iludo, o acesso à informação não é simétrico, mas a expansão do espaço para o debate, seja pelos veículos tradicionais, seja pela mídia social, tem muito a contribuir para as instituições democráticas. O discurso do nosso caro representante político pode “colar” para muita gente. Contudo, não terá longa vida. Somente sobreviverá até o dia em o povo (esse mesmo a que Sarney faz referência) perceber que ninguém o representa. Explico, as ferramentas e as novas estruturas disponíveis permitem ao povo se representar através de toda e qualquer manifestação e iniciativa social, cultural ou política. Os nossos representantes lá estão para defender um dos pilares do regime democrático: as instituições. Enquanto isso, já que o debate é internacional para o nosso senador, são grandes os exemplos internacionais, regionais e locais que têm crescido a consciência social. Foi grande minha digressão para chegar a este ponto; o que defendo, em última instância, é a diminuição da proeminência das esferas institucionais frente a uma lógica que fez imprescindível ao cidadão encontrar uma nova forma de se representar. Mesmo pequenas iniciativas vão, paulatinamente, cessar a auto-proclamada representação do povo tanto pelos políticos, como pela mídia de caráter enviesado.


Categorias: Mídia, Política e Política Externa