Tem coisas que não se ignoram…

Por

Bonita imagem, não? Fixe o olhar no meio dela por 3o segundos.


Agora volte a olhar lá novamente. Não apareceu nada?

Se não, parabéns, sua visão está ótima. Ali na imagem está a mão invisível do mercado.

E ela é invisível. Fato. Mas não é porque não se vê uma coisa que ela não exista. Aliás, que o diga o Hugo Chávez, que levou uma porrada de punho cerrado dessa mão. Não é porque ela é invisível que um soco dela não causa dor…

E foi assim que levou um golpe a política de preços fixos do governo da Venezuela. Seria muito bom se fosse possível manter os preços num patamar muito abaixo do mercado sempre. Gera muitos votos, inclusive.

Acontece que até no socialismo bolivariano do século XXI o mercado tem suas regrinhas básicas, e a principal delas, observada há séculos por Adam Smith, foi que o preço das coisas se estabelece no mercado de acordo com aquilo que os consumidores querem pagar e que os produtores querem receber.

Por mais que a economia comportamental e o Marx questinem esse processo, as evidências são claras: se o preço do leite está R$ 4,00 e as pessoas não querem (ou não têm dinheiro para) pagar esse valor, as vendas diminuem e os produtores são obrigados a baixar os preços. É a tal da lei da oferta e demanda.

Esse mecanismo leva (ou pelo menos ajuda) a um preço de equilíbrio. Se o governo tem a brilhante idéia de fixar um valor abaixo desse equilíbrio, uma coisa simples acontece: veja o caso do leite.

A criançada tá passando fome. O salário é baixo. Com o leite a R$ 2,00, eu posso comprar 20 litros / mês. Já a R$ 4,00, a coisa complica: 15 litros no máximo. A mulher vai ter de colocar água no feijão, uma farinha, enfim. O leite fica pro mês que vem.

O outro lado: Minhas vacas precisam se alimentar. A R$ 2,00, eu consigo comprar capim só pra 20 vacas, que me dão 100 litros de leite, que serão colocados no mercado. Já recebendo 4 reais por litro, compro mais capim, tenho mais vacas, que renderão 150 litros de leite, que vão pro laticínio.

Assim, as coisas vão se regulando. Se o governo decide que o leite deverá custar R$ 2,00, serei incentivado a comprar 20 litros por mês. Só que com esse preço o produtor não quer ou não terá como comprar o capim pras vacas renderem leite pra eu e os outros milhares que irão comprar mais leite do que com o preço normal.

Isso gera desabastecimento. O leite some das gôndolas dos mercados. E a Venezuela estava passando por isso.

Conclusão: o governo foi obrigado a aumentar os preços de uma só vez. A correção variou entre 8% para o queijo, por exemplo, até 147% para a sardinha. E tenham certeza que o Chávez ainda manerou no aumento pra não perder o apoio popular.

A chamada Política de Preços Compulsórios só serve pra gerar problemas. Ocultar as ineficiências da economia e gerar na população a sensação de que está tudo certo. Mas uma hora ou outra o problema aparece e a mãozinha invisível faz seu trabalho. Se não é pelo amor, vai pela dor.


Categorias: Américas


Honduras 2

Por

[post rápido]


Pessoal, a situação em Honduras é sui generis demais!

TODA a comunidade americana está contra o golpe. Seja Estados Unidos, Venezuela e até mesmo Cuba.

Fato inédito. E o povo lá anda revoltado também.

Não tenho idéia de onde isso possa parar. Mas confesso que estou ansioso para saber se a pressão internacional vai funcionar. E ainda mais para saber qual o resultado da combinação pressão internacional + interna.


Categorias: Américas, Polêmica, Política e Política Externa


Lições do Príncipe

Por

Dando continuidade ao tipo de abordagem do blog, não falaremos mais de notícias em si, os jornais estão cheios. Então, para comentários sobre a situação em si, ouça aqui este podcast gravado com o professor Luís Fernando Ayerbe, professor de Relações Internacionais da UNESP (muito bom!).

Realmente alguém pensa que se pode governar sem apoio? Seja num regime democrático, monarquista, absolutista ou que quer que seja, não se governa sem uma base. Afinal, por mais concentrado que esteja o poder, ele nunca é tão tanto a ponto de uma pessoa sozinha manter o controle de tudo, inclusive dos interesses alheios, inerentes à raça humana e, conseqüentemente, à política em si. Por mais hobbesiano que se seja, nenhum cidadão sozinho consegue colocar as rédias no Leviatã.

O regime democrático, por natureza e definição, divide o poder por si só. Por menos que funcionem, as instituições democráticas têm seus poderes. E basta um interesse de alguém que tenha algo de poder para que eles apareçam. Quem nunca questionou a justiça brasileira, por exemplo? Os banqueiros conseguem os habeas corpus a que tem direito, enquanto os pobres…

A situação em honduras não foi diferente. O presidente Zelaya foi eleito por uma coalizão de direta. O congresso tem maioria com essa ideologia. Aliás, ele mesmo, um rico fazendeiro, representava a elite do país.

E eis que de repente o cara resolve virar pra esquerda. Alia-se à Venezuela, entra pra ALBA, começa a tomar medidas esquerdizantes no país, enfim. Aí, não tem jeito, sem apoio, ninguém se sustenta, por mais óbvio que pareça…

O estopim foi que ele quis dar uma da Chávez, Correa ou Morales e marcar pra setembro um referendo que podia dar a ele o poder de se eleger hasta la muerte. Na Venezuela, a situação é muito diferente. Chávez, em seu longo mandato, conseguiu indicar uma suprema corte que o apóie e tem 100% dos assentos no legislativo (lembrem-se que lá a oposição, nas últimas eleições para o congresso, teve a brilhante idéia de fazer um boicote. Conclusão: não elegeram quase ninguém…).

Em Honduras, não. O Congresso não apoiava mais o presidente, a suprema corte toda é contrária ao homem. Aí Maquiavel explica o resto: golpe.

O problema lá é que há um contencioso sobre o fato de ele ter renunciado ou não. Nunca saberemos a verdade. O fato é que os militares (já diziam por aí que tem as armas define o jogo…) tiveram de ser ‘acionados’ e retiraram o Zelaya do poder.

Mas por que um país tão ‘significante’ quanto Honduras está ocupando lugares tão privilegiados nos jornais?

1. Os assuntos ultimamente estão meio esgotados. Irã, Coréia do Norte, crise no senado, gripe do porco. Convenhamos, para a mídia, um golpe em Honduras veio muito bem para vender jornais.

2. A questão é que parece que a América Latina tem uma vocação para golpes militares. Os exércitos capengas das repúblicas das bananas por aí vivem a dar golpes. Qualquer motivo que seja é o suficiente para derrubar alguém do poder. E não são só golpes militares. Tem de todo tipo nessa cesta, civis inclusive, como a tentativa na Venezuela em 2002.

E aí que mora o perigo. Qualquer golpe, mesmo que seja para retirar um presidente que desobedeceu as ordens do congresso e do judiciário (como no caso de Honduras), mesmo com boas intenções, é um golpe contra o regime democrático, que por pior que seja é o único que dá ao povo a chance de se fazer representado de uma forma ou de outra. Ou alguém acha que a monarquia na América Latina seria interessante?

É um precedente perigoso.

O fato é que lá a população apóia o presidente. E aí outra vocação da América Latina volta a assustar: guerra civil… Vamos ver no que dá isso tudo.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


Podcast

Por

Quem acompanha o blog deve ter percebido que os podcasts estão meio desatualizados.


Pois é, é que eles estão passando por um momento de reflexão, avaliando sua curta existência de modo a se tornarem melhores.

Além disso, o cenário internacional anda meio repetitivo nesses últimos dias.

Então, faremos nessa semana a estréia de um novo ‘conceito’ em podcasts e veremos o resultado.

Efeito Gripe Suína

Por

Pois é, minha viagem pra Argentina pegou gripe do porco… Tive de cancelá-la. Ia já na semana que vem, mas o surto da doença me fez mudar de idéia. Aliás, não só a mim, mas a muitos brasileiros. Até as companhias aéras deixaram de cobrar multas, taxas, enfim, pra quem cancelar os bilhetes: reembolso de 100%.

E os meios diplomáticos evidentemente repercutiram as declarações e recomendações do governo brasileiro. Os ministérios do turismo do Chile e da Argentina pediram que o nosso ministro da saúde retirasse o que disse sobre os brasileiros não irem pra lá. Tudo bem que isso afeta nosso vizinhos, uma vez que muito da receita com turismo deles vem de nós. Por outro lado, o surto por lá parece estar maior do que a média, e eles iriam cuidar dos doentes que voltassem de lá, com questionou minha colega Adriana Suzart?

E eles que não se sintam privilegiados, a economia mexicana levou uma porrada da gripe suína. E os EUA, que estão lá por perto, já perderam muita gente por causa da doença.

O Brasil se solidariza até demais com os vizinhos, vamos falar a verdade. Não precisa também querer dividir o ônus dos impactos da doença.

Também temos de levar em conta a questão da mídia nisso tudo. Não confio 100% no que trazem os jornais. O objetivo deles é vender, e muitas vezes aumentar um pouco as coisas vende mais. Liguei pra Argentina pra cancelar o hotel e aproveitei pra saber como estavam as coisas. Disseram que no Brasil tem havido um exagero, e que os maiores focos não estão nem em Buenos Aires, mas nas províncias no norte.

Não sei. Assim como os jornais, eles também estão interessados no meu dinheiro. Então, não podem ser uma fonte 100% confiável.

E como o Brasil já está até com um processo disfarçado de racionamento de remédios, melhor tomar cuidado e não se arriscar a pegar essa gripe, não é? O Ministério da Saúde divulgou novas regras com relação ao tratamento da doença no Brasil, e uma delas é que só receberão o medicamento aqueles que estiverem em estado grave ou sejam do grupo de risco (idosos, crianças etc.).

Não tenho razões pra confiar na saúde pública deste país quando passo em frente a um hospital do SUS. Nesse caso, é melhor previnir do que remediar. Ainda mais quando a segunda opção já não é mais tão uma opção assim…


Categorias: Américas, Brasil


Do Irã à Ira

Por

[Pessoal, espero não cansá-los com outro post do Irã, mas é que agora ele é a bola da vez, substituindo a Coréia do Norte. Os holofotes das relações internacionais estão direcionados ao país e ele está no comando do grande espetáculo midiático mundial.]


O Irã está perdendo o seu acento e, consequentemente, está perdendo o seu gentílico: agora, quem nasce no país não é iraniano, é irado. Toda essa mudança decorre da última eleição presidencial, realizada há praticamente duas semanas, a qual desencadeou uma onda sucessiva de protestos. Previsível para uns, surpresa para muitos, o fato é que Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito com 62,7% dos votos, enquanto o seu principal opositor, Mir Hossein Mousavi, obteve apenas 33,7% dos votos. Armas nucleares e crise econômica parecem ser uma combinação perfeita para se obter sucesso eleitoral. Fraude ou milagre divino? A festa junina começou no país, só que as bombas não deveriam atingir pessoas…

Para Mousavi, a resposta é clara: a eleição foi uma fraude, uma vez que se cometeram “irregularidades em massa”. Por sua vez, Ahmadinejad replicou comparando a eleição com uma partida de futebol – vejam a exuberância intelectual do governante -, na qual, quando se perde, é natural que os torcedores fiquem zangados. Só não se esqueça, caro presidente, que esses “torcedores” levaram as próprias canetas para votar, pois tinham medo que a tinta das canetas fornecidas pelo governo desaparecesse na cédula, após o voto. Outro ponto chamativo: o comparecimento desta vez foi recorde (o voto não é obrigatório no país), atingindo a marca de 84%. Em 2005, esse número chegou a 51%.

E o aiatolá Khamenei? Um cara bacana que só detém a função de líder supremo político e religioso, controla as Forças Armadas, a mídia e a justiça, declarou que a eleição foi limpa e pediu que os candidatos derrotados apoiassem o governo eleito, ao invés de fazer provocações. Por outro lado, pediu a revisão dos votos. De fato, não se vence uma eleição sem o aiatolá no Irã. Ora pois, por que então não dizer que o resultado é fruto de um milagre divino? Quem vai contrariá-lo? Pois é, pensava-se que ninguém o faria, mas o povo iraniano, ou melhor, irado, não dá sinais de sossego. O aiatolá resolveu entrar na onda do funk e está ficando atoladinho; de figura sacra a estopim de protestos intermináveis.

E Ahmadinejad também vai entrando na dança e se atolando na confusão que se espalhou pelo país. Para alguns pesquisadores, os atos de protesto no Ira assemelham-se àqueles que levaram à Revolução de 1979. Entretanto, naquele ano, o sistema de informação não era tão avançado. As atuais manifestações vão além do que os olhos podem ver e os ouvidos, ouvir. O povo irado não sai à rua apenas gritando “Roubo, roubo, roubo!” ou “Morte ao ditador!”, a rebeldia também é transmitida por sussurros. A censura promovida pelo governo aos meios de comunicação não consegue ser total. A internet e os celulares se converteram em importantes instrumentos de luta: moblizam a população e transmitem informações. A mais recente: o vídeo da morte de uma mulher, Neda, que provocou pesar e ultraje.

Por fim, muitos se perguntam onde estaria o mêssianico Obama nesta hora trágica. Por enquanto, o presidente dos EUA adota uma posição mais comedida, alvo de pressões internas. É possível fazer duas inferências sobre essa postura (a vocês, leitores, caberão fazer outras). A primeira, Obama está contradizendo o seu discurso ao mundo islâmico, proferido no Cairo. A segunda, a retórica norte-americana de intervenção em nome da democracia e dos direitos humanos já não se sustenta por si mesma. E agora, Obama?

Coitado do Irã. Como é lastimável esta transição no país. Talvez, em toda a gramática mundial, nunca a perda de um acento significou tanto.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


E lá vai o Obama!

Por

Eita que esse Obama é esperto demais. Veja aqui a nova dele. Restabelecer as relações diplomáticas com a Venezuela. E mais: reabrir a embaixada na Síria!

Já dissemos isso aqui no blog milhares de vezes: não tinha outra saída. A situação nos Estados Unidos estava de um jeito, que qualquer um que assumisse que tivesse o mínimo de bom senso teria de dar uma mudada nos rumos da política externa. O Bush esgotou as doutrinas de segurança. Só que o Obama está conseguindo não só fazer isso, como também virar o jogo e colocar os ‘inimigos’ contra a parede.

É isso mesmo. Ele virou a mesa. Assim como o Bush esgotou as doutrinas de segurança, a retórica do demônio do norte está quase vestindo o paletó de madeira. Um caso recente que pra mim mostrou o quanto esse Obama sabe mexer as peças do seu joguinho de xadrez: o discurso no Egito. Ouça nosso podcast: “um novo começo ou uma jogada de mestre?“.

Numa jogada, ou num discurso, ele mostrou respeito ao Islã, conhecimento sobre a cultura, admitiu os erros, deu o recado que ainda é o presidente da nação mais poderosa do mundo e estendeu a mão. “E agora?” deve ter se perguntado o presidente do Irã.

O que o Bush dava pros Chávez, Ahmadinejads, Moraleses da vida era munição. Motivo pra falarem mal. E aí ele respondia fechando embaixadas, movendo exércitos, enfim… O resultado? Mais motivos pros outros falar. O Obama fechou a boca desse povo todo. Tanto que o Chávez até autógrafo pra ele pediu. Não tinha jeito. E agora as embaixadas estão se reabrindo.

Não é só de ataques que se faz uma batalha. O recuo também é um movimento tático. Obama soube recuar no momento certo e desarmou os inimigos. Agora ele começa a atacar novamente, só que com novas armas.


Categorias: Américas, Estados Unidos


Follow up – MERCOSUL – De boas intenções…

Por

(A charge não tem TANTO a ver com o post, mas é muito engraçada!)

Irã, Coréia do Norte, Brasil, enfim. Polêmicas não têm faltado nessas últimas semanas. Então, vamos dar um tempo hoje nessas discussões todas. Que tal ficarmos por dentro dos acordos comerciais que o Brasil participa hoje ou está negociando? É interessante saber quais acordos estão em vigor ou sendo negociados (estes últimos no âmbito do Mercosul somente, uma vez que o Tratado de Assunção proibe que os países fechem acordos isolados a partir da data de entrada em vigor do Mercosul).

Primeiro os acordos que estão em vigor:

Antes de entrar no Mercosul, o Brasil havia fechado dois acordos bilaterais, um com o México e outro com a Guina. Depois disso, no âmbito do bloco, temos acordos comerciais com a Bolívia, Chile, Cuba, Colômbia, Venezuela, Equador e Peru. Recentemente, fechamos um acordo com a Índia, que deve entrar em vigor nos próximos 30 dias.

Os acordos que estão sendo negociados (todos no âmbito do Mercosul):

Israel, Jordânia, Marrocos, Turquia e União Aduaneira da África do Sul. Existe ainda um acordo na fase inicial de negociação com o Conselho de Cooperação do Golfo e um com a União Européia que nunca saiu do papel e dificilmente andará com essa crise toda… Aliás, nenhum destes acima tem chance de sair do papel tão cedo…

Pois é. Achou pouco? Eu também. Aliás, os empresários brasileiros em geral têm a mesma opinião. É engraçado que um país com o Brasil tenha tão poucos acordos que ofereçam preferêncais tarifárias, o que facilita o comércio, que fica mais barato sem ou com redução das tarifas.

Ah, mas tem a tal da Rodada Doha! Ilusão. O governo, inclusive, já parece mais lúcido e não aposta no fim da Furada Doha ainda esse ano, como chegou a afirmar nosso ministro de Relações Exteriores.

Estive em um evento este ano em que tive a oportunidade de ouvir um ministro defendendo a política brasileira de investir em acordos multilaterais. Veja aqui o post que fiz na ocasião. A posição do governo não mudou de lá pra cá.

O fato é que o Mercosul inviabilizou muita coisa. Ficamos, na verdade, na mão dos ‘parceiros’ com relação aos acordos comerciais que queremos fechar, uma vez que nada se pode mais fazer a menos que seja no âmbito do bloco.

É interessante para os estrategistas do Itamaraty, que podem treinar suas habilidades de negociação com os vizinhos para conseguir fechar um acordo comercial qualquer. Por outro lado, a Argentina, se quiser, pode bloquear um acordo que nos favoreça. Creio que quando do fechamento do Tratado de Assunção, a intenção foi das melhores, a fim de evitar as tais assimetrias comerciais entre os membros.

Mas, de boas intenções, o inferno está cheio. O uso desse mecanismo pode claramente ser político se algum membro quiser. Nem quero imaginar o que pode acontecer quando a Venezuela entrar…


Categorias: Américas, Organizações Internacionais


Mais tensão no Irã – nesse angu tem caroço

Por

Já chegam a 17 os mortos nos protestos no Irã e muita gente questiona: seria o fim do regime dos aiatolás?

Minha tese: não. Os protestos ocorrem não porque se questiona o regime em si, mas o resultado das eleições. O governo do presidente Ahmadinejad foi controverso não só na comunidade internacional, mas dentro do próprio país.

O isolamento da comunidade internacional pelas declarações e posicionamentos ‘questionáveis’, inflação, economia em baixa e, claro, seu conservadorismo exacerbado que não combina com um país que tem cerca de 70% da população com até 30 anos. Infelizmente, os dados que se conseguem sobre as eleições no Irã não são muito confiáveis, mas é claro que nesse angu tem caroço.

E todo mundo quer mexer o angu. Minha avó dizia: quando tem muita mão mexendo o doce, passa do ponto. O governo americano chegou até a usar seu pequeno poder de influência pra adiar uma manutenção do Twiter que o bloquearia no Irã por algum tempo. Pra quem não sabe, o segundo idioma da blogsfera é o farsi, língua oficial do país. Por lá, os blogs têm muita força.

O Lula, claro, não podia perder a oportunidade de falar besteira. Segundo nosso presidente, a diferença entre os votos recebidos por Ahmadinejad e Mousavi, que foi grande, indica que não houve fraude. O que ele esqueceu é que muitos ditadores africanos, que nosso governo apóia quando se omite de muita coisa, elegem-se com diferenças ainda maiores com indícios claríssimos de fraude. Aliás, em sua última eleição, Sadam Hussein foi eleito com nada mais nada menos que 100% dos votos…

O poder do Irã não está somente na cadeira sagrada do Aiatolá. O presidente também tem muitos poderes por lá, como o controle da mídia, do programa nuclear e a indicação de milhares de cargos de confiança, como os governadores, que com certeza afetam as decisões centrais do regime.

O Aiatolá, por sua vez, controla a Guarda Revolucionária, milícia armada com muitos soldados e indica a metade dos membros do Conselho dos Guardiões, que entre as finalidades está controlar o processo eleitoral.

Essa estrutura de poder é forte. Tem uma história revolucionária por trás disso tudo. Não se derruba assim do dia pra noite, por mais que alguns queiram. Por isso, insisto na tese de que o Irã tem as condições necessárias para manter a ordem no país, e que o ocorre é ocasional, dada a surpreendente vitória esmagadora de Ahmadinejad.

No entanto, amados, não sou dono de uma bola de cristal, e nunca se sabe o que pode ocorrer. O angu a gente sabe como é até chegar no ponto. Mas quando tem tanta mão mexendo um doce que já passou do ponto, ninguém sabe o que pode acontecer.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


Não vê, não ouve e não se pronuncia

Por

[Essa semana não teremos podcast]

Essa semana o Brasil foi recebido com críticas em Genebra, em ocasião da reunião do Conselho de Direitos Humano da ONU.

O motivo? Quem leu o post do Giovanni (logo abaixo deste) deve ter uma noção. Não se trata especificamente do Haiti, mas do rumo que nosso governo toma quando o assunto é relacionado à alguma denúncia de violação dos Direitos Humanos.

Alguns exemplos vêm do medo de se perder aliados, como no caso do Sudão. O presidente daquele país está com o mandato de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional e há denúncias graves de violações dos Direitos Humanos por lá. O Brasil? Não faz nada. Não quer perder um importante aliado na África que tem algo de comércio conosco. Não condena, não ajuda, enfim. Prefere seguir o tal do princípio da não interferência…

O xadrez da política explica outros, como o caso do senador Cristovam Buarque e as eleições da UNESCO (não entendeu? Clique aqui).

Outras vezes, a simples retórica sul-sul já ajuda a entender alguma coisa, como no caso do Sri Lanka, quando com o voto do Brasil o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que não condenou de forma clara o governo do Sri Lanka pelo tal do ‘banho de sangue’ contra os Tigres Tâmeres aleando a tal da não ingerência.

Isso sem falar no apoio dado aos nossos vizinhos quando tomam alguma atitude ‘questionável’.

Tudo bem. É uma conduta que o país decidiu adotar e não há nada de errado nisso tudo, de verdade. O problema é que o Brasil não é um país hoje com significância reduzida no cenário internacional. Tudo bem de novo. Há países com relativa importância, como a Suíça, que preferem se manter neutros sobre quase tudo. O problema de novo é que o Brasil acha que tem o direito de ser gente grande, como diz o Giovanni. Quer assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, quer ser BRIC, quer sair primeiro da crise, enfim…

Como um país que não toma atitudes sobre quase nada pode querer ter poder de veto no mais importante órgão das Nações Unidas? Como o Brasil quer ser respeitado se quando o presidente de um parceiro insignificante mata milhares de pessoas o Itamaraty não faz outra coisa se não soltar uma nota em papel timbrado com alguma declaração vazia?

Estar no Conselho de Segurança da ONU como membro permanente não tem outra função que não a simbólica. O órgão não é respeitado nem pelos Estados Unidos nem uma Coréia do Norte qualquer. As operações de paz são mais criticadas que o Hugo Chávez em véspera de referendo.

No entanto, é justamente o valor simbólico que importa. Estar lá é a prova de que o país faz diferença no jogo de poder mundial, ou na estrutura do poder, como diriam os neo-realistas. É ser gente grande. A configuração do Conselho hoje revela nada mais nada menos do que a distribuição do poder no mundo após a segunda guerra mundial, o que não é pouca coisa. E é justamente por esse status todo que quem está lá não quer abrir a porta pros demais.

Pois é. Os macaquinhos que não vêem, não ouvem e não falam podem ser até bonitinhos pra ficar em cima da mesa, mas não pra ficar em cima de uma cadeira permanente do Conselho de Segurança da ONU.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos