2009: Uma retrospectiva de mistérios

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Há algum tempo, o poeta português Fernando Pessoa escreveu: “Todas as nações são mistérios. Cada uma é o mundo todo a sós.” 2009 foi um ano de mistérios, de nações e ações misteriosas, de tentativas de se produzir um mundo inteiro dentro das próprias fronteiras ou de procurar criar um mundo a partir do território nacional.

No início do ano, tomou posse o 44º presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com um discurso que conclamou a aproximação entre todos os povos, sob a liderança (e amizade) norte-americana. Neste ano, deveríamos escolher “a esperança em vez do medo”, segundo Obama. Nós escolhemos? Guantánamo deveria ser fechada, Afeganistão e Iraque deixados, um mundo sem armas nucleares criado, o meio ambiente preservado, o parte islâmica do globo agregada. Tudo isto em prol da paz. Do Prêmio Nobel da Paz, concedido pelas intenções, não pelas ações. Os Estados Unidos quiseram um mundo dentro de si mesmos.

Outros países se tornaram um mundo. No Sudão, o presidente Omar Hassan Ahmad al-Bassir foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional por causa do genocídio contra o seu próprio povo. Fato similar ocorreu na China, na província de Xinjiang, contra a minoria dos uigures (muçulmanos turcófonos), mas ninguém foi condenado. Nem mesmo o governo israelense foi condenado pela matança indiscriminada dos palestinos. Na Venezuela, Chávez lançou o gérmen para a perpetuação no poder, iniciativa também acatada por Uribe, na Colômbia. Irã e Coréia do Norte lançaram uma infindável empreitada nuclear. O Irã se converteu num barril de pólvora por causa das manifestações populares. Paquistão, Iraque e Afeganistão viveram sob a iminência de atentados violentos. G-8 e G-20 se reuniram para conter a crise econômica mundial. Cuba retornou ao imaginário político das Américas. E agora nós também conhecemos Honduras.

E os acontecimentos não param por aí. A ameaça terrorista está mais ameaçadora no mundo. A queda do Muro de Berlim completou 20 anos e ainda não abandonamos a idéia de fragmentar os povos, por mais que conclamemos a união de todos. Os países mais poderosos do mundo, diga-se aqueles que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU, reuniram-se diversas vezes para decretarem sanções contra os países aventureiros na questão nuclear, a qual ameaçava a própria sobrevivência do mundo, mas esqueceram que o apocalipse provém do meio ambiente. A Cúpula de Copenhague foi um fiasco.

E o Brasil? Eu, particularmente, arrisco-me a dizer que este foi um ano chave para o país convalidar o seu protagonismo crescente nas relações internacionais. Mas, é claro, este processo não foi tão simples e tampouco marcado só por avanços. Caminhamos ainda embalados pelo retrato da canção “Querelas do Brasil”: um Brasil que não se conhece, que não se merece e que mata a si próprio. Da epidemia da corrupção a uma sociedade inercial, dos encantos pelo estrangeiro a um consumo apátrida, das desigualdades sociais à disseminação da violência e da criminalidade. Com tantos problemas e dificuldades, por que pensarmos no externo? No Brasil “lá fora”?

Conquistar uma imagem positiva “lá fora” deve encorajar a conquista da mesma “aqui dentro”. Ao mesmo tempo, é necessário viabilizar as nossas potencialidades internas de acordo com as possibilidades externas. “Lá fora”, nosso governo e nossa diplomacia tiveram que atuar em eventos e casos sensíveis: Cesare Battisti e Sean Goldman, o acordo militar entre Estados Unidos e Colômbia, a mediação da violência do Oriente Médio e a interminável crise política de Honduras. Do ponto de vista econômico, depositamos uma enorme expectativa no pré-sal. Na área da defesa, estamos apressando os passos e correndo os riscos de “país grande”, segundo Nelson Jobim. Nossa missão de paz no Haiti completou cinco anos. Obama já disse que o nosso presidente é “o cara” e, de fato, Lula figura em diversas pesquisas como um dos líderes mais popular do mundo. Reforçamos o nosso compromisso para com o meio ambiente. Enfim, o Brasil está no mundo e espero que esteja para ficar!

Somos um país grande, do Oiapoque ao Arroio-Chuí, e a grandeza deve ser o nosso destino, aqui dentro e lá fora. É o que nos fará um povo grandioso. É o Brasil que conhece a si próprio e que o brasileiro merece. Que venha 2010!

As nações são mistérios, e as ações mais misteriosas. Que mundo fizemos dentro e fora dos territórios nacionais? Dentro e fora de nós mesmos? Decerto, poderíamos encerrar com o brilhantismo de Shakespeare, “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que a vossa vã filosofia possa imaginar.”

Por fim, desejo a todos vocês um Feliz Ano Novo, repleto de paz, saúde, amor e harmonia. Que todos possam alcançar muitas realizações em 2009. Um grande abraço!


Categorias: Post Especial


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Muito obrigado pelo elogio, Bianca.Espero depositar maiores expectativas para o ano de 2010. Embora não tenhamos começado muito bem, né?! A chuva anda castigando o nosso país, atentados eclodindo e assim por diante.Mas é só o começo. E é melhor a esperança do que a desconfiança.Beijos, até!

Bianca Fadel
Bianca Fadel

Giovanni, parabéns por mais um post fantástico ! =)Realmente, 2009 foi um ano de muitos mistérios, positivos e negativos, nas RI, boa parte dos quais apontados por você no texto.Aguardemos, pois, um 2010 também repleto de acontecimentos e fatos marcantes em política externa, especialmente para o Brasil.Sorte e sucesso a todos !Beijos ! Até mais !