20 anos com corpinho de 90…

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Nesse fim de semana a Rússia fez 20 anos – ao menos, sua democracia, pois em 1991 era eleito Boris Yeltsin e terminava o sombrio período do desmoronamento da União Soviética. Indícios de uma era de paz e prosperidade pós-comunismo? Nem tanto, pois a primeira coisa que fizeram foi invadir a Chechênia, e repartir todo o aparato estatal entre oligarquias misteriosas que encheram as listas de “mais ricos do mundo” de magnatas russos.

Em 20 anos, o que conseguiram? 3 presidentes, uma certa melhora em níveis de vida, crises econômicas, alguns atritos com países vizinhos, o direito de sediar uma Copa do Mundo… Bem parecido com o Brasil pós-1988 não? Fora o número de presidentes, o Brasil e a Rússia passaram por poucas e boas desde que adotaram formalmente a democracia. Qual a diferença primordial? A Rússia ainda tem muita influência na política mundial. Não apenas por sua cadeira permanente herdada da URSS no Conselho de Segurança da ONU e as centenas de ogivas nucleares em sua posse (ainda a segunda reserva destas em número no mundo; vale lembrar uma antiga piada: os EUA disseram à URSS que tinham um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes, ao que os soviéticos respondem que se quisessem seu arsenal bastava para fazê-lo uma única vez…), mas pela capacidade de influência na região e mesmo na Europa. Basta ver como decisões da UE ou da OTAN sempre levam em consideração as possíveis reações russas.

Por isso podemos dizer que a Rússia tem um corpo de 90 anos – afinal, muito de seu poder e instituições são herdeiros diretos da URSS, e se criou uma situação paradoxal. Se a China é um país comunista atípico, “capitalizado”, ao mesmo tempo a Rússia é uma democracia consolidada, mas ao mesmo tempo “ditadorizada”, com eleições livres, oposição organizada e afins, mas onde opositores são marginalizados e eliminados sumariamente, o Estado é truculento e sua burocracia é rígida, centralizada, e serve aos interesses de um hiperpresidencialismo. Nas mãos de Putin e Medvedev, ficou bem claro nas entrelinhas de seus projetos políticos o desejo pela nova ascensão da Rússia como potência mundial, e para isso o Estado precisaria de mão forte. Há até mesmo quem diga que as recentes rixas entre os dois sejam uma mirabolante manobra planejada por Putin para mostrar que existe dissonância interna e legitimar sua eventual terceira vinda ao poder.

Teorias da conspiração à parte, o fato é que a democracia russa cambaleia, fragilizada ao longo de 20 anos de tratamento de choque. E o irônico é que, enquanto persistir essa estrutura vertical e robusta de poder político centrado, essa nova e sui generis democracia russa ainda vai fazer muitos aniversários…


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