100 anos depois: visões da Guerra

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“O dinheiro é a raiz de todos os males”. O famoso adágio, na verdade uma corruptela de citação bíblica, não poderia ser mais verdadeiro quando consideramos um dos maiores terrores que afligiu a raça humana, havendo quem considere que a Primeira Guerra Mundial tenha sido um conflito bem mais violento (apesar de menos mortes) que a Segunda. Nesse caso, o impacto na Economia andou de mãos dadas com a Política, e este será o tema de nossa imersão pelo tema de hoje.

Para entender a guerra de 1914, devemos retroceder um século antes – na época das campanhas napoleônicas, raiz da criação do principal fator político do conflito, o chamado Concerto Europeu. Com a saída de cena do imperador francês derrotado, as potências europeias instituíram um sistema (chamado até por alguns de uma governança primitiva) em que reuniões diplomáticas manteriam a estabilidade entre as potências e evitariam novas guerras ou que um novo Napoleão surgisse. O problema é que, como nos aponta Henry Kissinger, não contavam com um ardiloso general prussiano, Otto von Bismarck, que não apenas conseguiu dar vida ao pior pesadelo da França desde os tempos de Richilieu, ao unificar os germânicos, mas habilmente manteve o sistema estável fazendo e desfazendo alianças enquanto criava um gigante industrial.

O surgimento da Alemanha, incrustada no meio da Europa, causou não apenas um tremor político, mas também econômico. Até meados do século XIX, a Grã-Bretanha, grande potência mundial, o império onde o Sol nunca se punha, se encontrava na liderança econômica e financeira com sua marinha mercante, o maior mercado consumidor e seus banqueiros. No começo do século XX, isso mudou – rivais industrializados como EUA, Alemanha e Japão despontavam. Porém, todos compartilhavam a maior característica da economia internacional no momento – a adoção do padrão-ouro clássico, que garantia o equilíbrio de preços mediante o lastreamento de moedas em ouro com câmbio fixo, não apenas fortalecia a Libra, como permitiu ao mundo conhecer um período extremamente integrado de produção e comércio internacionalizados.

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Porém, o século XX trouxe nuvens sombrias. A balança europeia, sagazmente equilibrada por Bismarck, não teve o mesmo tratamento por parte de sucessores menos doutos como Napoleão III ou o Kaiser Guilherme II, e o resultado foi a guerra Franco-Prussiana, o conflito entre as potências continentais que resultou no sistema de alianças que seria a gênese da I Guerra Mundial. Além da rivalidade geopolítica, a instabilidade crescente era reflexo também de conflitos econômicos, seja a luta por mercados, seja a entrada tardia da Alemanha no clube dos Impérios. O efeito cascata das alianças, que deveria neutralizar as animosidades pela iminência de conflito, não resistiu ao avanço tecnológico e industrial dos beligerantes representado em uma genuína corrida armamentista assentada em linhas férreas, nem ao jogo de provocações entre as potências que estourou naquele julho de 1914.

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A consequência econômica mais profunda e duradoura do conflito, certamente, foi o choque do padrão-ouro e o fim do comércio liberal. Autores como Jeffry Frieden consideram que aquele tenha sido um momento com integração de mercados ainda maior que o atual, pois apesar da tecnologia ainda incipiente haveria menos barreiras ao comércio. A consequência mais famosa, a Crise de 1929, seria um dos frutos dessa instabilidade financeira. Destruídos pela guerra, os países europeus abandonaram o padrão e se afundaram em dívidas com financiamento de títulos norte-americanos. De fato, a entrada dos EUA se deu muito mais pelo risco de calote em caso de derrota de seus devedores do que pelo clamor da opinião pública de lá. A crise de superprodução subsequente, o crack de 29 e o aumento da intervenção estatal nas economias têm seus efeitos até hoje. Se o atual sistema foi moldado em Bretton-Woods, após a Segunda Guerra, a herança de barreiras comerciais e intervencionismo que dificulta o serviço da OMC ate hoje começa com a derrocada dos Europeus em 1918.

Politicamente, a destruição na Europa também significou o fim dos Impérios. A grande onda de independências que sucedeu com o final da Segunda Guerra Mundial não surgiu de uma hora para a outra – a fragilização do poder metropolitano, participação de soldados coloniais e de protetorados na guerra europeia e o despertar ideológico nacionalista teve seus impactos do Oriente Médio à Indochina. Quem perdeu com isso, definitivamente, foi a Inglaterra, alijada de sua posição de centro econômico e político do mundo. Tal posto viria a ser assumido por uma potência relutante, os EUA, que já apresentavam a maior economia do mundo mas fechados ao comércio. Sua progressiva participação em assuntos internacionais e integração aos mercados estrangeiros teria suas consequências nas décadas seguintes.

Enquanto isso, na Europa, o tratado de Versalhes causava enorme pressão econômica e política nos derrotados.  A crise fomentava o conflito entre os socialistas, em excitação após o sucesso da revolução na Rússia, e partidos de extrema direita que tiveram os resultados lamentáveis vistos 20 anos depois.

Por fim, mas não menos importante, a breve participação do Brasil não conflito não deixou de afetar nossa economia de maneira profunda: as oscilações no preço de nossa maior exportação, o café, por causa do conflito, fizeram com que o país adotasse diversas medidas com a finalidade de garantir o preço do grão e proteger o produtor nacional. Apesar de todos os esforços, a situação se mostrou insustentável após a crise de 1929, e com a ascensão de Getúlio Vargas, o País passa lentamente a tomar o rumo da industrialização, ainda que pontual, consumada durante a guerra mundial seguinte. Sem o choque na produção cafeeira decorrente do conflito, a gênese do processo de evolução da matriz econômica brasileira e uma das causas da ascensão de Vargas, a industrialização poderia ter sido muito mais tardia.

Portanto, vemos que a consequência mais profunda do conflito foi o legado do conflito entre medidas liberalizantes e protecionistas. Até hoje os governos enfrentam dificuldades para adentrar mercados enquanto levantam barreiras para proteger seus setores sensíveis, barreiras estas que surgiram em sua versão moderna como um reflexo necessário do esforço de reconstrução pós-guerra. A época dourada do livre comércio encerrada em 1914 não teria semelhante até que caísse a Cortina de Ferro, e ainda assim com um grau menor de integração. Porém, a economia também encontrou efeitos mais pontuais (e positivos) como resultado do desenvolvimento de novas tecnologias. Basta lembrar de coisas hoje rotineiras, como os aviões com fuselagem de metal (desenvolvidos durante a guerra), fertilizantes (cuja necessária fixação de nitrogênio foi descoberta pelo mesmo homem que inventou armas químicas usadas pela Alemanha) e até mesmo a cirurgia plástica (surgida em sua acepção moderna com o pioneiro Harold Gillies tratando de soldados feridos ou desfigurados), que movimentam a economia e trouxeram inúmeros benefícios para a sociedade, tiveram sua origem naquele nefasto quinquênio.


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