100 anos depois: visões da guerra

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O Brasil na política dos gigantes

Em 1914, o Brasil era outro. Era uma república nova, de fronteiras recém-delineadas, e muito dependente da produção e exportação de café. Um país dos grandes Barões de Café, e de seus estados produtores, que se enriqueciam a cada nova orientação de política fiscal e econômica em benefício do produto. Estado também dos grandes latifundiários que concentravam o poder político e econômico em outras regiões mais ao interior do país. No período, o Brasil era centro da produção mundial cafeeira, dominando quase um quinto do total. A despeito de tentativas de novos exportadores, como a Colômbia, a competição com o café brasileiro era ainda impensável.

À frente da Presidência, estava o político mineiro Wenceslau Brás. O presidente ainda buscava a unidade nacional, sonho de militares, diplomatas e intelectuais brasileiros. A despeito da estabilização das fronteiras no início do século, o país ainda defrontava-se com disputas internas, como a guerra do contestado entre Santa Catarina e Paraná.

Na diplomacia, como em outras áreas de governo, mantinha-se o principal traço do final da monarquia: a indistinção entre a carreira pública e o espaço privado. Não havia, portanto, a tão aclamada burocracia do atual Itamaraty. Nossos diplomatas eram representantes de famílias com tradicional envolvimento na política ou na vida militar. O ministro à época, Lauro Müller, carregava essas características. O sucessor do Barão do Rio Branco, descendente dos primeiros imigrantes alemães no país, era ex-militar e havia sido governador provisório de Santa Catarina, quando foi convidado à carreira diplomática.

Em seu conjunto, a diplomacia brasileira ainda vivia sob o impacto do falecimento de Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco. Sua atuação brilhante, estabilizando as fronteiras do Brasil e corretamente, aproximando-se da potência ascendente – ao optar pela substituição do eixo Brasil-Europa pelo Brasil-Estados Unidos – inspirou a orientação dos anos ulteriores. Porém, seu estilo centralizador no Itamaraty deixou poucos espaços para a formação de uma burocracia coesa. Assim, os ministros tentavam ainda suprir o vazio sua ausência.

Iniciado o conflito na Europa, o Brasil optou pela neutralidade. Os intelectuais e homens públicos da época dividiam-se quanto à entrada do Brasil na guerra. De um lado os germanófilos, como Monteiro Lobato e Lima Barreto, defendiam a Tríplice Aliança. De outro, a maioria dos intelectuais, altamente influenciados pela cultura francesa da belle époque, preferiam a Entente.

Com a guerra, as exportações de café para nossos principais mercados decresceram significativamente. A utilização dos submarinos como arma, interrompeu as vias marítimas e dificultou o processo. Além da dificuldade logística, a Grã-Bretanha também inseriu o produto na lista de contrabando de guerra, complicando ainda mais a já difícil exportação cafeeira.

torpedeado navio brasileiro

O torpedeamento do navio mercante brasileiro Paraná, em 1917, pelos alemães foi um dos fatores mais imediatos que motivaram a entrada do Brasil na guerra. A imprensa e a opinião brasileira alvoroçou-se, pressionando o governo para entrar no conflito. Os a favor da Tríplice Entente, que já eram maioria, receberam o empuxo faltante para verem concretizada seu interesse. Em junho, o Brasil encerrou sua neutralidade e, após o torpedeamento do quarto navio mercante, declarou guerra à Tríplice Aliança. Assim começou uma história do único país sul-americano na Primeira Guerra Mundial, que teria consequências e influências futuras em sua história econômica e diplomática.

A participação brasileira foi bastante peculiar. A princípio, havia enviado uma missão médica direto à França e uma divisão naval, que iria primeiro a Dacar, a capital colonial francesa – futuro Senegal –, para depois juntar-se à Marinha da Grã-Bretanha. Porém, a divisão naval foi acometido pelo vírus da gripe espanhola, que provocou o falecimento de grande parte da tripulação. O resultado foi a entrada tardia da Marinha do país no conflito, um dia antes da assinatura do armistício, em 1918.

A história do país no conflito foi curta e com alguns prejuízos econômicos. Mas, se por por um lado, a participação brasileira no guerra não fora tão expressiva, por outro, o país foi capaz de retirar um número significativo dividendos positivos de sua atuação, tanto no plano econômico quanto diplomático. A economia da guerra dificultou o escoamento do café brasileiro para a Europa. Como forma de solucionar a dificuldade, o Brasil aproximou-se comercialmente dos Estados Unidos, passando a depender da demanda norte-americana. Essa nova relação comercial também culminou em muitos investimentos estadunidenses no país, tornando o Brasil não só um importante parceiro político, mas também comercial.

Um impactos mais interessantes da Primeira Guerra esteve no ponto de vista diplomático. No período, o mundo veria o germinar de uma nova característica do sistema internacional, a presença de instituições multilaterais, e o Brasil, com sua diplomacia oportunista, começaria a construir um consenso entre elites nacionais da importância que se desejava para o país nesse novo sistema. Dada sua participação no conflito, os bons relacionamentos diplomático-econômicos com os governos estadunidenses e a habilidade política do embaixador brasileiro Domício da Gama nos Estados Unidos, o governo brasileiro obteve três delegados nas Conferências de Paz de Versalhes, Epitácio Pessoa, Pandiá Calógeras e Raul Fernandes. As grandes potências participavam com cinco e as potências menores com dois ou um.

O fim da conferência foi o início do projeto do presidente norte-americano Woodrow Wilson de uma grande organização para regular as relações entre os países, a Liga das Nações. De forma semelhante ao sistema ONU, a Liga era composta por um Conselho Executivo, de membros permanentes e rotativos. Devido ao prestígio, o Brasil era recorrentemente reeleito como membro-rotativo, e desde 1921, desejava um posto permanente.

Aos poucos, construiu-se o consenso entre alguns setores das elites nacionais de que o Brasil, por seu prestígio político-diplomático, deveria estar no centro das grandes decisões internacionais e, portanto, seria o representante autodeclarado da América – considerando que os Estados Unidos não ratificaram o Tratado de Versalhes. Ideias que repercutiram em um dos mais peculiares episódios de nossa diplomacia, a retirada do país da Liga das Nações, quando da inclusão alemã como membro-permanente. Mesmo após esse período, o entendimento das elites do lugar do Brasil a ser ocupado no mundo permaneceu, e viria a ser retomado, décadas depois, ao tratarem da reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Ao observarmos o conjunto da história do Brasil na Primeira Guerra Mundial, vemos a narrativa de um país em transição, de regime e na formação de suas ideias político-econômicas. Se o conflito teve alguma contribuição significativa para o Brasil, o campo da política externa salta aos olhos como um dos principais. Poder-se-ia argumentar que o Brasil havia realizado uma leitura errada de seu papel no mundo por razões de legitimidade interna, e, por isso, teria passado por um constrangimento internacional. Porém, ilusão ou não, não se pode negar que a diplomacia brasileira ainda persegue um status diferenciado no mundo e Primeira Grande Guerra teve papel importante na construção desse imaginário. Tratou-se, portanto, da história de um Brasil que, por diversas razões, arriscou-se na política dos gigantes.


Categorias: Política e Política Externa, Post Especial, Primeira Guerra Mundial


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