100 ANOS DEPOIS: VISÕES DA GUERRA

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Plano de Schlieffen

Nada de velho no front. As novidades introduzidas pela Grande Guerra, a mãe de todas as demais guerras do século XX, influenciaram, para bem ou para mal, o pensamento estratégico-militar nos últimos cem anos. A velha guerra, inevitável e apocalíptica, foi vítima da agonia imperialista que abocanhou as grandes potências no último quartel do século XVIII e contaminou todo o mundo. A paz centenária foi cortada pelo barulho estridente das metralhadoras, e a belle époque sucumbiu ao quadro vermelho enegrecido da destruição.

Uma triste poesia aviva a memória dos esquecidos. Wilfred Owen, militar e poeta inglês, narrou em seu histórico poema “É doce e honroso” o desespero da morte provocado pelas bombas de gás e finalizou criticando a irracionalidade do conflito: “Meu amigo, você não iria, com tão grande entusiasmo e idealismo, contar/Para as crianças desejosas de alguma glória desesperada/A velha mentira: é doce e honroso morrer pela pátria.”. Sete dias antes do armistício, Owen morreu pela pátria, sem doçura ou honra.

Traço comum também está na obra de Erich Remarque, que sobreviveu às trincheiras e cuja frase que inicia este post parafraseia seu livro. A ruína da guerra centenária é retratada, por exemplo, nas menções aos efeitos do gás nos combatentes, que os fazia “vomitar seus pulmões queimados”. Mais impressionante, e reflexo da ruína, é o sentimento de desilusão: “Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra.”

O ar melancólico carregado por esses e outros sopros poéticos está indissoluvelmente ligado à capacidade de produzir o horror, até então sem precedente histórico. Para muitos, a Primeira Guerra Mundial inaugurou o período mais extremo da guerra moderna, desde a queda de Constantinopla (1453): a totalização da guerra. O aprimoramento das técnicas militares ampliou largamente o potencial de destruição.  A distinção entre alvos civis e militares se fez cada vez menos presente no planejamento estratégico-militar. Retornou-se à barbárie que se supunha superada: todas as atividades da vida de um Estado passaram a ser objeto de ações adversárias. O extermínio de populações, se necessário, tornou-se aceitável enquanto condição para se alcançar uma vitória absoluta sobre o inimigo.

A Grande Guerra é a antítese do progresso, material e filosófico, da Revolução Industrial. As estradas de ferro e a telegrafia sem fio, que tanto aproximaram povos e nações, colocaram-nos em campos opostos. Do motor a explosão e o motor elétrico, vieram os aviões, os carros de combates – estes dois não foram plenamente aproveitados neste conflito – e os submarinos, acompanhados de uma artilharia pesada (agora móvel) e com maior calibre, de metralhadoras mais leves e automáticas, dos gases de combate e do lança chamas. A guerra submarina, a propósito, talvez seja a principal expressão do desenvolvimento científico e tecnológico a serviço da belicosidade e, ao mesmo tempo, do avanço do front em direção aos não combatentes. Os submarinos, não apenas cortavam os suprimentos logísticos dos beligerantes, senão também condenavam à fome os cidadãos.

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Por suas características, a Primeira Guerra Mundial é enquadrada como uma guerra de segunda geração (iniciada em 1860 e encerrada com esse conflito). Nela, prevaleceram a supremacia do fogo sobre o movimento e a disciplina sobre a iniciativa. O combate era simultaneamente estático e de atrito, em que o atacante “empurrava a linha” e o defensor “segurava a linha”. A divisão do confronto centenário em duas fases retrata bem essa geração da guerra: a primeira fase, de movimento, de agosto a dezembro de 1914, com a tentativa frustrada da Alemanha implementar o Plano Schlieffen, e a segunda, de posição, após a fracassada ofensiva franco-britânica em Artois, 1915, até a vitória aliada na Batalha de Amiens, em agosto de 1918.

A segunda fase é, sem dúvidas, a mais agonizante. As trincheiras transformaram-se em sua marca inesquecível. Naqueles estreitos buracos de podridão, conviviam, harmoniosa e heroicamente, o ódio, o companheirismo e a esperança. Os combatentes bem sabiam que bastava um único comando para que esses sentimentos aflorassem. Eis o grito: “para cima!”. Todos saíam e se lançavam contra o inimigo entrincheirado, sem se importar com os canhões, metralhadoras e granadas, até o assalto final, quando a baioneta, a faca e a pá se convertiam nas melhores armas – para os sobreviventes, é claro, desse curto percurso fúnebre.

A tentativa alemã de vencer a defesa de Verdun, travada entre fevereiro e julho de 1916, é bastante representativa da segunda fase da guerra. Trata-se de uma batalha de 2 milhões de soldados, com um milhão de baixas. Imponência maior é demonstrada pela quantidade de granadas lançadas nesse período: 22 milhões de alemãs contra 21 milhões de francesas (quase 290 mil granadas por dia!). Ressalta-se que não é por acaso que a melancolia ditou o tom da literatura pós-guerra. Nem é o acaso que levou Einstein a perguntar a Freud, na carta que lhe enviou, se seria possível controlar a evolução da mente humana, de modo a torna-la à prova das psicoses do ódio e da destruição.

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A Primeira Guerra Mundial põe fim a uma geração. Só que, como todo acontecimento humano, a guerra traz suas conexões entre o passado e o futuro. A gênese da blitzkrieg remonta as tropas de assalto alemãs (sturmtrüppen) utilizadas intensamente na primavera de 1918. O Plano Schlieffen recupera a mesma estratégia que o general cartaginês Aníbal empregou para aniquilar os exércitos romanos na Segunda Guerra Púnica e prenuncia o que seria o maior objetivo estratégico-militar norte-americano no século XX: ser capaz de lutar duas guerras ao mesmo tempo em qualquer parte do globo. E a extensão do front para a população civil pode ser notada hoje, grosso modo, nos bombardeios israelenses a única usina elétrica na Faixa de Gaza.

Nem é doce nem é honroso morrer pela pátria, principalmente quando novas invenções elevam o medo e a dor da morte a um patamar jamais visto. Por isso a guerra nunca morreu na memória histórica da humanidade e tampouco deixou de influenciar o século XX de diversos modos. Ainda há muito a ser contado e lembrado.


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