Imagem da Semana

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E um dos assuntos cujas imagens e dados mais têm impressionado é a crise da epidemia de Ebola, na África Ocidental, que já tem mais de 3.000 casos e 1.550 mortes confirmadas, segundo o último boletim oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS). A transmissão, principalmente em Serra Leoa, na Libéria e na Guiné, ainda não foi controlada e os casos se multiplicam a cada dia.

Essa semana houve o primeiro caso confirmado de um cidadão britânico, o qual foi removido em operação digna de filme de ficção científica (foto), com a grande mídia e a Europa em comoção diante da possibilidade, ainda que remota, de que a epidemia se alastre para outros continentes.

O drama que está sendo vivido pela região afetada denota as dificuldades em se controlar uma epidemia deste porte sem infraestrutura para atendimento, com comunidades cada dia mais isoladas e sem condições mínimas para recuperação (alimentos e medicamentos).

O risco de que se generalize e se estigmatize (ainda mais) o continente africano diante da presente situação é claro. Clara também é a necessidade de disseminação da informação e de apoio adequado aos países para que criem localmente condições de superação da epidemia com a urgência que a situação demanda…

[Para dúvidas frequentes sobre Ebola, acesse a página oficial do Ministério da Saúde sobre o tema.]


O cálculo da intolerância

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O HOMEM q calculava 244x300 O cálculo da intolerância

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


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100 anos depois: visões da guerra

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Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

O legado empírico e teórico para as Relações Internacionais

A Grande Guerra, mais conhecida como Primeira Guerra Mundial (IGM), começou o período bélico do século XX, ou seja, iniciou a sequência do que viriam a ser longos anos e décadas de conflito direto ou indireto entre potências de determinadas conjunturas. Obviamente, tratam-se da Segunda Guerra Mundial (IIGM) ocorrida entre 1939 e 1945 e da Guerra Fria, a qual terminou por volta de 1990, quando, em 1989, caiu o famoso Muro de Berlim e, em 1991, finalmente ruiu o Império Soviético. Se, por esse lado, houve mais destruição territorial e desmoronamento de Estados-nações, por outro as Relações Internacionais, com letras maiúsculas, vieram a conhecer seu período de existência, propriamente dito. Momentos nos quais essa área tomou corpo como ciência e trouxe consigo os grandes debates internacionalistas. Pode-se dizer, de outro modo, que da IGM o movimento empírico trágico dos conflitos sustentou o curso expressivo teórico dessa arena mundial.

Por conseguinte, o legado empírico da IGM foi ter conformado o futuro das relações econômicas e geopolíticas entre as principais potências. O pontapé da IGM foi o assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, fazendo com que a Áustria-Hungria declarasse guerra à Sérvia. Formaram-se, de lados totalmente opostos, a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo) e a Tríplice Aliança (Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália).

Até aqui, nada de novo na “Guerra das Trincheiras”. Entretanto, somente em 1917 os Estados Unidos entraram no conflito ao lado da Entente. Isso, inclusive, vai ser um traço característico do país: adentrar os conflitos em momentos posteriores ao seu início e sempre ter como palco territórios para além mar. Como se sabe, a Aliança foi a grande derrotada da IGM, quando, em 1918, fora assinado o Armistício de Compiègne e, em 1919, tomou forma o muito conhecido Tratado de Versalhes. Na teoria, o acordo simbolizou a “estabilidade e paz futura” nas relações intereuropeias. Todavia, na prática, proveu a culpa por todas as mazelas da guerra à Alemanha, a qual saiu derrotada e fracassada das mesas de negociação.

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Adolf Hitler

Já no final da IGM e logo após a mesma, essa postulação de vitoriosos e derrotados trouxe consigo a propagação de duas ideologias que marcaram fortemente a IIGM e a Guerra Fria, quais sejam o Nazifascismo e o Socialismo tendo como lideranças a própria Alemanha (acompanhada da Itália) e a Rússia, respectivamente. Tem-se, aqui, logo no começo do século XX, a faísca das relações interestatais procedentes. O Nazismo tornou-se ponto de apoio alemão, fez surgir lideranças como Adolf Hitler que invadiu a Polônia em setembro de 1939 e começou a IIGM. Por sua vez, o Socialismo Russo ganhou devotos e serviu de base para a criação da União Soviética, que mais tarde viria a ser um dos lados da balança no conflito frio.

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A marca da Guerra Fria: a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética

A Alemanha também perdeu a Segunda Grande Guerra, a Europa ficou devastada e estatísticas somam aproximadamente 60 milhões de mortos nos seis anos de pleito. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu logo após, em 1948, como outra tentativa de se estabilizar a paz internacional. Mas, de caráter central, da IIGM tornaram-se potências os Estados Unidos e a União Soviética, os quais duelaram, mesmo que indiretamente, na conhecida Guerra Fria. Episódios como a Crise dos Mísseis de 1962 mostram a importância do conflito que terminou por volta de 1990, quando a União caiu e os Estados Unidos saíram vencedores. De lá pra cá, o mundo viu-se unipolar, multipolar e uni-multipolar. Em pleno século XXI, cogita-se uma possível queda estadunidense frente a uma elevação constante da China comandando iniciativas a exemplo dos BRICS. O debate é recente e ficará para o futuro próximo decidi-lo. A única certeza é a de que a atual conjuntura é fortemente impactada pela IGM.

De modo paralelo, mas convergente, o legado teórico da IGM foi ter provido a criação, propriamente dita, das Relações Internacionais enquanto área de conhecimento, campo de estudos e/ou ciência. Foi em 1919, mais precisamente na Universidade de Gales, no Reino Unido, que se criou a cadeira Woodrow Wilson de Relações Internacionais, tornando-se a primeira instituição mundial a adotar formalmente a disciplina acadêmica. Essa data, inclusive, abrange o período inicial do livro de Edward Carr intitulado “Vinte anos de crise – 1919-1939”, conhecida obra retratante da geração do Primeiro Debate Teórico das Relações Internacionais: Realismo versus Idealismo/Liberalismo.

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Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

A arguição de ambos os lados vai ter como ponto de fundamento justamente o que fora dito anteriormente, ou seja, a ótica da guerra e a busca plena e final de uma ordem de paz. Teóricos como Hans Morgenthau e Raymond Aron foram fortemente influenciados pela IGM, IIGM e Guerra Fria, fatos que comprovaram e deram sustentação às suas obras literárias. Se, de um lado, realistas se baseavam nas relações entre Estados e na anarquia internacional, de outros os liberais postulavam que um mundo melhor e mais pacífico deveria ser buscado.

Dessa primeira contenda proveio o Segundo Debate Teórico das Relações Internacionais com oposição entre Tradicionalismo versus Behaviorismo por volta da década de 1950. Aqui tomou forma uma querela metodológica no se pensar “Como fazer as Relações Internacionais?”. A explicação da realidade se opunha à compreensão da mesma e o novo “pensar científico” proveu as bases para o que veio a seguir. Em 1970/80, o Terceiro Debate Teórico das Relações Internacionais, o Neorealismo versus Neoliberalismo (Neo-Neo) surgiu contrapondo nomes como Kenneth Waltz e Robert Keohane. Obviamente, novas nuances surgiram aqui, mas a velha ótica do conflito e a busca por cooperação permaneceram da herança do primeiro debate pós-IGM.

Similarmente ao legado empírico da IGM para o atual século XXI, o teórico também se encontra em constante mutação e volubilidade. Já se postula a geração de um Quarto Debate Teórico das Relações Internacionais entre Positivismo versus Pós-Positivismo. É daqui que provêm teorias como Construtivismo, Teoria Crítica, Feminismo, Pós-Modernismo, etc. Se, como dito lá atrás, a China e os BRICS colocam reticências na conjuntura geopolítica mundial, pode-se afirmar o mesmo dessas novas concepções conceituais e teóricas, posto que elas também questionam os discursos dominantes anglo-saxões das Relações Internacionais.

Permanecem a dúvida e a incerteza para com as atuais conjunturas das relações internacionais, com letra minúscula, e das Relações Internacionais, com letra maiúscula. De todo modo, temos a confiança de que a IGM carrega consigo um imenso legado empírico e teórico para essas áreas. O jargão parece senso comum. Todavia, seria infundável afirmar que a Grande Guerra não deteve aspecto central nas relações internacionais. Todo esse jogo econômico e geopolítico do século XXI fundamenta-se lá atrás, entre 1914 e 1918, justamente no nascedouro da “ciência internacional”.


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100 anos depois: visões da guerra

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Venceslau Brás declara guerra 1917 100 anos depois: visões da guerra

O Brasil na política dos gigantes

Em 1914, o Brasil era outro. Era uma república nova, de fronteiras recém-delineadas, e muito dependente da produção e exportação de café. Um país dos grandes Barões de Café, e de seus estados produtores, que se enriqueciam a cada nova orientação de política fiscal e econômica em benefício do produto. Estado também dos grandes latifundiários que concentravam o poder político e econômico em outras regiões mais ao interior do país. No período, o Brasil era centro da produção mundial cafeeira, dominando quase um quinto do total. A despeito de tentativas de novos exportadores, como a Colômbia, a competição com o café brasileiro era ainda impensável.

À frente da Presidência, estava o político mineiro Wenceslau Brás. O presidente ainda buscava a unidade nacional, sonho de militares, diplomatas e intelectuais brasileiros. A despeito da estabilização das fronteiras no início do século, o país ainda defrontava-se com disputas internas, como a guerra do contestado entre Santa Catarina e Paraná.

Na diplomacia, como em outras áreas de governo, mantinha-se o principal traço do final da monarquia: a indistinção entre a carreira pública e o espaço privado. Não havia, portanto, a tão aclamada burocracia do atual Itamaraty. Nossos diplomatas eram representantes de famílias com tradicional envolvimento na política ou na vida militar. O ministro à época, Lauro Müller, carregava essas características. O sucessor do Barão do Rio Branco, descendente dos primeiros imigrantes alemães no país, era ex-militar e havia sido governador provisório de Santa Catarina, quando foi convidado à carreira diplomática.

Em seu conjunto, a diplomacia brasileira ainda vivia sob o impacto do falecimento de Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco. Sua atuação brilhante, estabilizando as fronteiras do Brasil e corretamente, aproximando-se da potência ascendente – ao optar pela substituição do eixo Brasil-Europa pelo Brasil-Estados Unidos – inspirou a orientação dos anos ulteriores. Porém, seu estilo centralizador no Itamaraty deixou poucos espaços para a formação de uma burocracia coesa. Assim, os ministros tentavam ainda suprir o vazio sua ausência.

Iniciado o conflito na Europa, o Brasil optou pela neutralidade. Os intelectuais e homens públicos da época dividiam-se quanto à entrada do Brasil na guerra. De um lado os germanófilos, como Monteiro Lobato e Lima Barreto, defendiam a Tríplice Aliança. De outro, a maioria dos intelectuais, altamente influenciados pela cultura francesa da belle époque, preferiam a Entente.

Com a guerra, as exportações de café para nossos principais mercados decresceram significativamente. A utilização dos submarinos como arma, interrompeu as vias marítimas e dificultou o processo. Além da dificuldade logística, a Grã-Bretanha também inseriu o produto na lista de contrabando de guerra, complicando ainda mais a já difícil exportação cafeeira.

torpedeado navio brasileiro 100 anos depois: visões da guerra

O torpedeamento do navio mercante brasileiro Paraná, em 1917, pelos alemães foi um dos fatores mais imediatos que motivaram a entrada do Brasil na guerra. A imprensa e a opinião brasileira alvoroçou-se, pressionando o governo para entrar no conflito. Os a favor da Tríplice Entente, que já eram maioria, receberam o empuxo faltante para verem concretizada seu interesse. Em junho, o Brasil encerrou sua neutralidade e, após o torpedeamento do quarto navio mercante, declarou guerra à Tríplice Aliança. Assim começou uma história do único país sul-americano na Primeira Guerra Mundial, que teria consequências e influências futuras em sua história econômica e diplomática.

A participação brasileira foi bastante peculiar. A princípio, havia enviado uma missão médica direto à França e uma divisão naval, que iria primeiro a Dacar, a capital colonial francesa – futuro Senegal –, para depois juntar-se à Marinha da Grã-Bretanha. Porém, a divisão naval foi acometido pelo vírus da gripe espanhola, que provocou o falecimento de grande parte da tripulação. O resultado foi a entrada tardia da Marinha do país no conflito, um dia antes da assinatura do armistício, em 1918.

A história do país no conflito foi curta e com alguns prejuízos econômicos. Mas, se por por um lado, a participação brasileira no guerra não fora tão expressiva, por outro, o país foi capaz de retirar um número significativo dividendos positivos de sua atuação, tanto no plano econômico quanto diplomático. A economia da guerra dificultou o escoamento do café brasileiro para a Europa. Como forma de solucionar a dificuldade, o Brasil aproximou-se comercialmente dos Estados Unidos, passando a depender da demanda norte-americana. Essa nova relação comercial também culminou em muitos investimentos estadunidenses no país, tornando o Brasil não só um importante parceiro político, mas também comercial.

Um impactos mais interessantes da Primeira Guerra esteve no ponto de vista diplomático. No período, o mundo veria o germinar de uma nova característica do sistema internacional, a presença de instituições multilaterais, e o Brasil, com sua diplomacia oportunista, começaria a construir um consenso entre elites nacionais da importância que se desejava para o país nesse novo sistema. Dada sua participação no conflito, os bons relacionamentos diplomático-econômicos com os governos estadunidenses e a habilidade política do embaixador brasileiro Domício da Gama nos Estados Unidos, o governo brasileiro obteve três delegados nas Conferências de Paz de Versalhes, Epitácio Pessoa, Pandiá Calógeras e Raul Fernandes. As grandes potências participavam com cinco e as potências menores com dois ou um.

O fim da conferência foi o início do projeto do presidente norte-americano Woodrow Wilson de uma grande organização para regular as relações entre os países, a Liga das Nações. De forma semelhante ao sistema ONU, a Liga era composta por um Conselho Executivo, de membros permanentes e rotativos. Devido ao prestígio, o Brasil era recorrentemente reeleito como membro-rotativo, e desde 1921, desejava um posto permanente.

Aos poucos, construiu-se o consenso entre alguns setores das elites nacionais de que o Brasil, por seu prestígio político-diplomático, deveria estar no centro das grandes decisões internacionais e, portanto, seria o representante autodeclarado da América – considerando que os Estados Unidos não ratificaram o Tratado de Versalhes. Ideias que repercutiram em um dos mais peculiares episódios de nossa diplomacia, a retirada do país da Liga das Nações, quando da inclusão alemã como membro-permanente. Mesmo após esse período, o entendimento das elites do lugar do Brasil a ser ocupado no mundo permaneceu, e viria a ser retomado, décadas depois, ao tratarem da reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Ao observarmos o conjunto da história do Brasil na Primeira Guerra Mundial, vemos a narrativa de um país em transição, de regime e na formação de suas ideias político-econômicas. Se o conflito teve alguma contribuição significativa para o Brasil, o campo da política externa salta aos olhos como um dos principais. Poder-se-ia argumentar que o Brasil havia realizado uma leitura errada de seu papel no mundo por razões de legitimidade interna, e, por isso, teria passado por um constrangimento internacional. Porém, ilusão ou não, não se pode negar que a diplomacia brasileira ainda persegue um status diferenciado no mundo e Primeira Grande Guerra teve papel importante na construção desse imaginário. Tratou-se, portanto, da história de um Brasil que, por diversas razões, arriscou-se na política dos gigantes.


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100 anos depois: Visões da Guerra

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Reconciliation 100 anos depois: Visões da Guerra

[Franz Marc, Réconciliation, 1912]

Sobre reconciliação e transformação

Uma guerra pode ser analisada sob diferentes perspectivas. Os principais aspectos políticos, econômicos e estratégicos tendo sido apresentados em textos anteriores da série “100 anos depois: Visões da Guerra” (confiram aqui), a reflexão de hoje se concentra nos aspectos de reconciliação e transformação do conflito.

Em uma linha temporal, pode-se avaliar que qualquer conflito passa por diferentes momentos: prevenção (antes), gestão de danos (durante), e resolução e transformação (depois). Isto significa que, quando os mecanismos pacíficos de negociação e diálogo se esgotam, têm início confrontações diretas que levam ao sofrimento de todos, mas especialmente da parte que se mostra mais frágil durante os confrontos. Fatores que impactaram diretamente no pós-Primeira Guerra foram: a duração do conflito, sua quantidade de vítimas, o poder de destruição vislumbrado e as perdas provocadas por um confronto sem precedentes.

Um legado importante para esse processo, protagonizado por parte do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), foi a evolução no tratamento dos prisioneiros durante a guerra. Antes, no decorrer de um conflito, dificilmente poderia ser esclarecido se os soldados dados como desaparecidos tinham efetivamente morrido durante os combates ou se encontravam em poder do inimigo. Destaca-se a importância da “Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra” no árduo processo de reestabelecimento de laços familiares entre aqueles milhares de prisioneiros que, protegidos pelo direito internacional humanitário, não mais podem constituir alvo ou “moeda de troca” durante o conflito, e suas famílias. Os esforços neste sentido culminaram na Convenção relativa aos Prisioneiros de Guerra de 1929 (arcabouço utilizado durante a Segunda Grande Guerra) que baseou a própria III Convenção de Genebra de 1949. Garantir, reciprocamente, a dignidade de tratamento dos combatentes em poder do inimigo por si só constitui um argumento importante para criar as bases futuras de reconciliação pós-conflito.

A resolução do conflito, no momento em que as partes chegam a um acordo de cessar-fogo, constitui momento essencial para o fim das hostilidades, porém representa apenas o primeiro passo de um longo caminho de transformação que deve ser percorrido pelos beligerantes para uma paz duradoura.

Conceitos como memória, perdão, verdade e justiça se enquadram no dito momento de transformação, talvez o mais complexo e demorado a ser alcançado. Entender a paz não somente como ausência de guerra (a chamada “paz negativa”), mas principalmente como construção de um ideal comum de convivência destaca-se como elemento crucial no processo de reconciliação.

Com a Conferência de Paz de Paris, em 1919, foi ainda constituída a Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), organismo internacional multilateral destinado à meta de manutenção da paz que se desenhou no pós-Guerra, porém diante de um contexto geopolítico de grandes diferenças e desconfianças, pautado pela visão dos “vitoriosos” que logo veria uma nova ascensão de regimes totalitários. O “esboço” da estrutura da atual Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou ideais importantes, apesar de suas dificuldades de concretização na prática, e lançou as bases para o debate sobre responsabilidades coletivas em prol da reconciliação e da paz.

Uma Europa pacificada não seria, contudo, realidade duradoura após o final da Primeira Grande Guerra, que só foi “primeira” porque não foi única, tendo sido seguida, poucos anos depois, por mais um confronto de dimensões mundiais.

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[Tradução: 1) Membro de milícia vingando a morte de seu cunhado em 1917; 2) Soldado vingando o estupro de sua prima em 1944; 3) Bebê pensando em vingar seu pai em 2023.]

A construção de uma memória coletiva em que a vingança não figura como atitude prioritária leva gerações, tal como a charge acima ilustra. Se a guerra oficialmente se encerrou em 1918, certamente na prática levaria décadas para desaparecer do imaginário popular – tempo não respeitado pela subsequente consecução da Segunda Grande Guerra.

Relembrar o ocorrido, com o grande objetivo de não reproduzir atos nefastos como aqueles perpetrados há 100 anos, constitui parte do processo de transformação ainda vivido pelo continente europeu e pelo mundo inteiro. A imagem abaixo retrata o projeto comum de paz, união e democracia por meio de um abraço carregado de simbolismo e impensável há exatamente um século.

Abraço 100 anos depois: Visões da Guerra

Os presidentes da França e da Alemanha, Francois Hollande e Joachim Gauck, respectivamente, estiveram na última semana em Hartmannswillerkopf, na Alsácia, em um monumento que marca os cem anos da declaração de guerra da Alemanha à França, local onde estão as cinzas de aproximadamente 12 mil soldados desconhecidos, cujas vidas se perderam durante os anos de conflito.

Nas palavras do general norte-americano William T. Sherman, “somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno”. Se as consequências da guerra são dolorosas, tal como as da Primeira Guerra o foram, construir coletivamente os meios para superá-las se faz mais do que necessário. Deve-se potencializar, portanto, uma reconciliação não apenas baseada em imposições, mas principalmente na transformação de mentalidades de modo a que não mais se enxergue a guerra como uma opção e tampouco o outro como inimigo.


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A imagem da semana foi o emocionante reencontro da presidente da organização argentina “Avós da Praça de Maio”, Estela de Carlotto com seu neto, Guido de Carlotto – filho de pais militantes que foram assassinados durante a ditadura militar (1976-1983). A organização tem como objetivo descobrir o paradeiro de crianças desaparecidas nesse período por meio de um banco de DNA iniciado nos anos 1990 com o objetivo de comparar os dados das avós com possíveis netos que voluntariamente buscam o exame genético no país.

Antes da Copa do Mundo, foi realizado um encontro das Avós com a seleção de futebol argentina, tendo a foto com o jogador Messi (abaixo) motivado Guido a realizar o teste de DNA – ele hoje tem 36 anos e cresceu como Ignácio Hurban, com poucas e vagas informações sobre seus pais biológicos, já desconfiando há algum tempo de sua própria identidade. Seu parentesco com Estela foi, desta forma, confirmado.

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O histórico de militância dos pais falecidos, somado à luta da avó para reconstruir seu passado e reencontrar o neto roubado apresenta um simbolismo ímpar para um país que, como vários na região, viveu um triste e violento período ditatorial. Há décadas buscando virar essa página de sua história, certamente a líder Estela tem sua motivação renovada para seguir na luta em apoio às suas centenas de companheiras na organização para as quais os netos seguem desaparecidos…


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O mundo dá voltas, e como todo bom Realista tradicional diria, o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã – desde que com um adversário em comum. Exemplo clássico disso foi a Guerra Fria, quando os Aliados da II Guerra Mundial, EUA e URSS, após darem a devida sova na Alemanha, passaram a se rivalizar na ausência de um mal maior. Pois bem, os EUA passam por isso de novo neste exato momento. E em duas frentes.

Enquanto Obama autoriza seus caças a bombardearem posições do ISIS no Iraque, a OTAN suspende as ações de cooperação com a Rússia, em um claro sinal de descontentamento que remete à rusga de Moscou com Washington. Ambos os casos revelam como as dificuldades da política internacional fazem os parceiros desse jogo mudarem de lado sem aviso.

No caso da Rússia, é pedra cantada faz um bom tempo. Várias análises demonstram que Bush e Obama tentavam se aproximar de Putin enquanto o governante russo dava de ombros e se empenhava em projetos de fortalecimento interno e projeção regional. Deu no que deu, como vemos nos posicionamentos opostos na Ucrânia e na Síria. Especialmente na Ucrânia, onde o apoio velado aos separatistas faz com que um dos grandes aliados estratégicos dos EUA (lembrem que não é apenas o lado europeu – a Rússia tem grande peso no lado do Pacífico, onde fervem as águas entre Japão e China, e os EUA tem todo o interesse do mundo na estabilidade da região) acabasse se vendo do lado oposto numa disputa política intrincada e perigosa. A cereja do bolo foi o asilo concedido ao ex-analista da NSA Edward Snowden, que agora pode vir a se tornar um cidadão russo (uma baita ironia, diga-se de passagem).

No caso do Iraque, a consequência é ainda mais incrível. Se no caso da Rússia a aproximação pós-Guerra Fria está virando um descontentamento, a intervenção norte-americana pode ser o elemento que faltava para trabalhar em conjunto com ninguém menos que o centro do “Eixo do Mal” de Bush filho. Podemos retomar a culpa pela origem do ISIS na ação norte-americana desde 2002 e definir que qualquer ação no Iraque não será menos que resolver um problema que eles próprios criaram, mas a organização radical tem a capacidade de polarizar quase todo mundo contra eles, incluindo Al-Qaeda e o Irã. Os EUA não estão dispostos a mandar tropas depois do trabalho que Obama teve para retirá-las, mas o enfraquecimento do ISIS pode vir a significar uma ação efetiva do Irã para reduzir a instabilidade e dar suporte ao governo local, seu aliado.

As implicações são muitas, chegando até mesmo ao conflito da Síria (onde os EUA estão se tornando inimigo dos dois lados), logo pensar em uma ação conjunta de fato de EUA e Irã parece improvável. Porém, indiretamente, pode ser um rumo interessante para os EUA que Teerã ajude a manter a estabilidade da região, e a lenta reaproximação após a eleição de Hassan Rouhani tornou factível o que antes era impensável. No mundo da geopolítica, o pragmatismo é uma virtude.


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100 ANOS DEPOIS: VISÕES DA GUERRA

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Nada de velho no front. As novidades introduzidas pela Grande Guerra, a mãe de todas as demais guerras do século XX, influenciaram, para bem ou para mal, o pensamento estratégico-militar nos últimos cem anos. A velha guerra, inevitável e apocalíptica, foi vítima da agonia imperialista que abocanhou as grandes potências no último quartel do século XVIII e contaminou todo o mundo. A paz centenária foi cortada pelo barulho estridente das metralhadoras, e a belle époque sucumbiu ao quadro vermelho enegrecido da destruição.

Uma triste poesia aviva a memória dos esquecidos. Wilfred Owen, militar e poeta inglês, narrou em seu histórico poema “É doce e honroso” o desespero da morte provocado pelas bombas de gás e finalizou criticando a irracionalidade do conflito: “Meu amigo, você não iria, com tão grande entusiasmo e idealismo, contar/Para as crianças desejosas de alguma glória desesperada/A velha mentira: é doce e honroso morrer pela pátria.”. Sete dias antes do armistício, Owen morreu pela pátria, sem doçura ou honra.

Traço comum também está na obra de Erich Remarque, que sobreviveu às trincheiras e cuja frase que inicia este post parafraseia seu livro. A ruína da guerra centenária é retratada, por exemplo, nas menções aos efeitos do gás nos combatentes, que os fazia “vomitar seus pulmões queimados”. Mais impressionante, e reflexo da ruína, é o sentimento de desilusão: “Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos, e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra.”

O ar melancólico carregado por esses e outros sopros poéticos está indissoluvelmente ligado à capacidade de produzir o horror, até então sem precedente histórico. Para muitos, a Primeira Guerra Mundial inaugurou o período mais extremo da guerra moderna, desde a queda de Constantinopla (1453): a totalização da guerra. O aprimoramento das técnicas militares ampliou largamente o potencial de destruição.  A distinção entre alvos civis e militares se fez cada vez menos presente no planejamento estratégico-militar. Retornou-se à barbárie que se supunha superada: todas as atividades da vida de um Estado passaram a ser objeto de ações adversárias. O extermínio de populações, se necessário, tornou-se aceitável enquanto condição para se alcançar uma vitória absoluta sobre o inimigo.

A Grande Guerra é a antítese do progresso, material e filosófico, da Revolução Industrial. As estradas de ferro e a telegrafia sem fio, que tanto aproximaram povos e nações, colocaram-nos em campos opostos. Do motor a explosão e o motor elétrico, vieram os aviões, os carros de combates – estes dois não foram plenamente aproveitados neste conflito – e os submarinos, acompanhados de uma artilharia pesada (agora móvel) e com maior calibre, de metralhadoras mais leves e automáticas, dos gases de combate e do lança chamas. A guerra submarina, a propósito, talvez seja a principal expressão do desenvolvimento científico e tecnológico a serviço da belicosidade e, ao mesmo tempo, do avanço do front em direção aos não combatentes. Os submarinos, não apenas cortavam os suprimentos logísticos dos beligerantes, senão também condenavam à fome os cidadãos.

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Por suas características, a Primeira Guerra Mundial é enquadrada como uma guerra de segunda geração (iniciada em 1860 e encerrada com esse conflito). Nela, prevaleceram a supremacia do fogo sobre o movimento e a disciplina sobre a iniciativa. O combate era simultaneamente estático e de atrito, em que o atacante “empurrava a linha” e o defensor “segurava a linha”. A divisão do confronto centenário em duas fases retrata bem essa geração da guerra: a primeira fase, de movimento, de agosto a dezembro de 1914, com a tentativa frustrada da Alemanha implementar o Plano Schlieffen, e a segunda, de posição, após a fracassada ofensiva franco-britânica em Artois, 1915, até a vitória aliada na Batalha de Amiens, em agosto de 1918.

A segunda fase é, sem dúvidas, a mais agonizante. As trincheiras transformaram-se em sua marca inesquecível. Naqueles estreitos buracos de podridão, conviviam, harmoniosa e heroicamente, o ódio, o companheirismo e a esperança. Os combatentes bem sabiam que bastava um único comando para que esses sentimentos aflorassem. Eis o grito: “para cima!”. Todos saíam e se lançavam contra o inimigo entrincheirado, sem se importar com os canhões, metralhadoras e granadas, até o assalto final, quando a baioneta, a faca e a pá se convertiam nas melhores armas – para os sobreviventes, é claro, desse curto percurso fúnebre.

A tentativa alemã de vencer a defesa de Verdun, travada entre fevereiro e julho de 1916, é bastante representativa da segunda fase da guerra. Trata-se de uma batalha de 2 milhões de soldados, com um milhão de baixas. Imponência maior é demonstrada pela quantidade de granadas lançadas nesse período: 22 milhões de alemãs contra 21 milhões de francesas (quase 290 mil granadas por dia!). Ressalta-se que não é por acaso que a melancolia ditou o tom da literatura pós-guerra. Nem é o acaso que levou Einstein a perguntar a Freud, na carta que lhe enviou, se seria possível controlar a evolução da mente humana, de modo a torna-la à prova das psicoses do ódio e da destruição.

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A Primeira Guerra Mundial põe fim a uma geração. Só que, como todo acontecimento humano, a guerra traz suas conexões entre o passado e o futuro. A gênese da blitzkrieg remonta as tropas de assalto alemãs (sturmtrüppen) utilizadas intensamente na primavera de 1918. O Plano Schlieffen recupera a mesma estratégia que o general cartaginês Aníbal empregou para aniquilar os exércitos romanos na Segunda Guerra Púnica e prenuncia o que seria o maior objetivo estratégico-militar norte-americano no século XX: ser capaz de lutar duas guerras ao mesmo tempo em qualquer parte do globo. E a extensão do front para a população civil pode ser notada hoje, grosso modo, nos bombardeios israelenses a única usina elétrica na Faixa de Gaza.

Nem é doce nem é honroso morrer pela pátria, principalmente quando novas invenções elevam o medo e a dor da morte a um patamar jamais visto. Por isso a guerra nunca morreu na memória histórica da humanidade e tampouco deixou de influenciar o século XX de diversos modos. Ainda há muito a ser contado e lembrado.


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O dilema Israel-Palestina

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Nos estudos de relações internacionais, um tema bastante conhecido nas análises da Teoria dos Jogos envolve o chamado “dilema do prisioneiro”, uma grande situação de incerteza, em que a confiança no “outro” se torna a base para negociações que visem otimizar os resultados para todos os envolvidos. Contudo, essa vertente teórica baseia-se na lógica de que os atores envolvidos são racionais e procuram a todo momento maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, com frequência independentemente do “outro” na negociação (veja mais sobre essa teoria em nossa coluna “Conversando com a Teoria”).

O que se tem, portanto, é que, no grande tabuleiro de decisões, “trair” predomina sobre “cooperar”, pois a opção “trair-trair” representa a solução dominante mais proveitosa, independentemente da decisão do outro. Entretanto, trata-se de um “equilíbrio ineficiente”, já que a opção “cooperar-cooperar” é a que de fato potencializa os resultados para ambas as partes. (Entenda melhor o dilema aqui.)

O tema central da discussão é, portanto, a confiança. Ocorre que diante de situações de crise, esse tema representa, de fato, aquilo que mais dificilmente se logra garantir, justamente porque as partes envolvidas se negam a “dar o primeiro passo” no sentido de acreditar no outro, arriscando-se a ponto de permitir possíveis perdas.

O histórico conflito entre Israel e Palestina representa um dos mais complexos cenários de incerteza e falta de confiança mútua que resulta em dramáticas consequências para vítimas inocentes. O embate atual, que já completa praticamente um mês, figura entre os mais sangrentos da história na região e reflete uma nítida situação em que a culpa é de todos, mas, assumidamente, de ninguém – sendo os civis os principais afetados diante de uma comunidade internacional que assiste passivamente a uma situação dita “incontrolável”.

O terceiro ataque a uma das escolas mantidas pela Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos (UNRWA), ocorrido neste domingo e caracterizado como ato criminoso pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, retrata o descontrole que se está criando nesta zona de conflito. O número de deslocados pelo conflito remonta a mais de 440 mil, segundo a UNRWA, superando toda a estrutura existente para apoio humanitário aos afetados. O vídeo do porta-voz da agência desabando em lágrimas em plena transmissão televisiva ao vivo é extremamente tocante.

O governo de Israel afirma não mirar propositalmente em prédios civis, mas reitera que o grupo extremista Hamas se “esconde” em locais de grande concentração de inocentes – atribuindo a culpa pelos mortos e feridos ao próprio grupo. Já o Hamas nega qualquer acusação neste sentido, reafirmando que seus ataques se justificam como legítima defesa e em nenhum momento são proporcionais àqueles perpetrados pelos israelenses.

Talvez nunca se descubra efetivamente “quem começou”, mas será que a pergunta realmente a ser feita é mesmo esta? Em uma situação de incerteza como a que se vive no momento, o dilema do prisioneiro se aplica perfeitamente para analisar a falta de confiança e a busca pelo resultado “mais seguro”, independentemente do custo humano envolvido, que Israel e o Hamas vêm alastrando.

Enquanto as duas partes não visualizarem o cessar-fogo e as negociações como a “solução ótima” para o conflito, a opção “trair-trair”, infelizmente, vai continuar predominando. Diante do fracasso do cessar-fogo proposto para ontem (previsto para durar 72h, mas que durou efetivamente apenas 1h30), as negociações entre as partes no Egito saem absolutamente prejudicadas. Iniciativas diplomáticas possuem, por consequência, cada dia menos credibilidade e a desproporcionalidade gigantesca entre as partes em termos de organização militar e infraestrutura tornam os palestinos cada dia mais vulneráveis.

Em respeito às vítimas de ambos os lados, mas especialmente daquele mais frágil, e em apoio aos civis que se encontram em situação de risco absoluto no território palestino, a principal pergunta que deverá ser respondida nos próximos dias é quem, de fato, dará o primeiro passo para cooperar e reconhecer que o ganho coletivo pode representar maiores ganhos individuais também…


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Devo, não nego…

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Nas últimas semanas, o centro do noticiário sul-americano foi a Argentina. Após a dramática derrota na final da Copa do Mundo, os hermanos enfrentam outro desafio, desta vez muito mais sério, com uma nova crise da dívida. A retenção dos pagamentos a credores “abutres” resultou, no dia de ontem, no vencimento do prazo para negociações e, oficialmente, no segundo calote do país em menos de quinze anos.

Para quem não lembra, no ano de 2001 aconteceu a mesma coisa – e a crise atual é consequência daquela. No turbilhão do começo do século XX, a Argentina simplesmente não tinha dinheiro para pagar os credores e fez valer o ditado do “devo, não nego, pago quando puder”. A dívida foi renegociada ao longo da década, e alguns investidores resolveram comprar esses títulos mais baratos – esperando receber de volta os ativos no valor original, lucrando horrores em mais uma das divertidas apostas que apenas o capitalismo nos proporciona. Essa é a fonte do problema – um grupo liderado pelo magnata Paul Singer quer receber centavo por centavo o valor total, enquanto a maioria dos credores (especialmente aqueles que emprestaram o dinheiro originalmente) aceitou uma solução intermediária em que receberiam menos, mas receberiam. O dinheiro (a bagatela de alguns bilhões) foi depositado em banco norte-americano, os “abutres” entram na justiça e com isso, uma corte da cidade de Nova Iorque decidiu o destino de uma nação do outro lado do planeta, em um daqueles momentos bizarros do Direito Internacional.

Tecnicamente, não é um calote – a Argentina tem o dinheiro dessa vez. Mas como ainda há litígio, não pode desembolsar, e por isso o atraso. O cenário tem um impacto negativo, e como usual tenta-se identificar culpados nisso tudo, mas é complicado. Apesar de relativamente imoral, a atitude dos investidores é legítima – já estava definido por acordo que as divergências seriam levadas àquela corte, então não se trata de ingerência dos EUA ou qualquer coisa do tipo. A Argentina apresenta boa fé para o pagamento, mas ao mesmo tempo não deixa de ser a principal culpada pelas desastrosas políticas econômicas do século XX que fizeram de seu PIB, outrora seis vezes maior que o brasileiro, agora cinco vezes menor, e da postura intransigente durante as renegociações.

O que parece certo é que o impacto sistêmico não será tão grande como o de 2001 – provavelmente haverá uma renegociação. Mas as consequências práticas e pontuais serão visíveis. O mercado financeiro sofre com essas crises, e a perda de confiança desvaloriza o Peso, que por sua vez esfria a economia. O resultado é inflação e desemprego. Por sua vez, o problema respinga no Brasil, que vende menos para um de seus maiores parceiros comerciais. Resta saber se o resultado disso fortalecerá Kirchner pelo discurso de combate aos abutres estrangeiros, ou se fortalecerá a oposição e dividirá ainda mais o país.


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