Os dois lados da moeda

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Por tradição, os brasileiros são bem pessimistas com relação à economia (apesar de adorarem uma gastança e estarmos entre os países com menor tradição de poupança do mundo), principalmente por causa do histórico de hiperinflação assombra o noticiário (quem não viveu aquela experiência percebe como os mais velhos se preocupam). Essa é uma percepção que cabe no cenário atual?

Nesta semana, divulgaram-se dois relatórios sobre indicadores econômicos de teor diferente mas com causas semelhantes. O primeiro, mais perturbador, foi de como o Tesouro Nacional está com um rombo de mais de 30 bilhões de reais do ano passado, o primeiro déficit desde que a medição começou, comprometendo a dívida pública e exigindo medidas de ajuste que serão amargas. Por outro lado, o IBGE também anunciou que em 2014 a taxa de desemprego no país atingiu uma mínima histórica de 4,8%. Estamos falando de um nível próximo do pleno emprego, o que é fantástico em comparação a países que sofrem para alocar sua força de trabalho.

E existe relação entre as duas? Boa parte daqueles gastos do governo foi justamente para garantir o bom funcionamento do mercado de trabalho, com incentivos e desonerações que mantêm o consumo em alta (e por consequência, o emprego). Claro que o lado negativo disso é a inflação (aumenta o consumo, aumentam os preços), a que nossos economistas ortodoxos respondem com aumento na taxa de juros (já que aumentar impostos é muito impopular). Aumentando os juros, se espera que o consumo seja freado, e assim se controle a inflação. O interessante é justamente que o Brasil está na contramão do mundo com as taxas de juros elevadas – a tendência mundial é justamente de baixa nos juros para incentivar o consumo pós-crise. Países como a Dinamarca chegam a estar com juros negativos (ou seja, deixar dinheiro no banco faz o investidor perdê-lo).

Nem tudo são flores – essa situação de emprego em alta esconde alguns fatores (como alocação de mão-de-obra ociosa) e não é sustentável, logo o desemprego deve voltar a crescer justamente por conta dos ajustes macroeconômicos. Sem contar que a situação das contas públicas é alarmante. Mas é uma situação privilegiada sim – países como Espanha e Grécia estão com problemas de contas públicas semelhantes ao brasileiro, mas em situação ainda pior devido ao encolhimento da força de trabalho e desemprego galopante (na Europa está perto de 11%, intolerável mesmo no continente com um histórico de desocupação elevado por conta das políticas de bem-estar social). O Brasil tem a sorte de se colocar em uma posição na qual tem condições de controlar tanto o desemprego quanto a inflação em médio prazo – o que dependerá do quanto o governo estará disposto a investir nos setores corretos, cortar gastos e aguentar o impacto político, e do quanto a população aprenderá a poupar, tolerará os ajustes e a insatisfação.

A situação é complicada – mas podia ser pior. Podemos nos dar um pouco de otimismo.


Categorias: Brasil, Economia, Europa


Aniversário do blog: seis anos de história

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seis anos

Um dia antes do aniversário da cidade de São Paulo e do aniversário do inesquecível Tom Jobim, quem assopra as velhinhas é a Página Internacional. Há seis anos, seis bons anos, nosso querido amigo Alcir Candido, idealizador deste blog, lançava o primeiro post e tão já apresentava a nossa missão:

“Nada mais nada menos do que oferecer uma visão sobre assuntos importantes do mundo, que afetam a vida das pessoas, mesmo que elas não saibam. No entanto, ficar mastigando e remoendo aquilo que todos estão cansados de ver já é demais…”

O tempo passou. Vieram outros colaboradores, novas ideias e – por que não – novos sonhos. Escrever, mesmo uma análise não tão aprofundada e mais compreensível das relações internacionais, também é sonhar. Sonhar que as palavras, de um modo simples, possam transcender a realidade e despertar a imaginação: é possível, oras, fazer um mundo diferente, desde que sejamos capazes de interpretá-lo a partir do próprio ponto de vista. Evidentemente, a construção da própria visão é um processo dialético. E nós, membros do blog, que hoje permanecemos com vocês, leitores, esperamos entusiasmá-los com esse sonho.

Não convém recordar toda nossa trajetória. Apenas cabe ressaltar que este projeto do blog, em princípio modesto, acabou ganhando uma dimensão que muito nos orgulhou – e ainda nos orgulha. E nos orgulhamos não pelo que conquistamos, mas pelo que fazemos, pois fazemos por vocês, para vocês e com vocês, leitores da Página Internacional. Nosso maior orgulho é a felicidade que vocês, que nos acompanham diariamente ou não, estampam em nosso sorriso. Talvez isso signifique sucesso.

Todo aniversário é, antes, um momento de reflexão. Depois, de agradecimento. Refletindo, nós aproveitamos a data para assumirmos um novo compromisso com vocês. Vamos lançar uma nova série de postagens especiais, a exemplo do que fizemos no ano passado com uma série que tratou do centenário da Primeira Guerra Mundial. Neste ano, a Organização das Nações Unidas completa setenta anos de existência, a Organização Mundial do Comércio, vinte anos. Então, aproveitamos o momento para analisar a importância das organizações internacionais na política mundial: qual o papel delas? Elas têm contribuído para melhorar as relações entre países? São indagações, entre outras, recorrentes, as quais pretendemos discutir com vocês.

E, por fim, deixamos a nossa gratidão. Obrigado a cada um de vocês que nos ajudaram a construir estes seis anos de estrada. Foram anos que só nos acrescentaram intelectual e profissionalmente, além da enorme felicidade que eles nos trouxeram. Se, para lembrar o aniversariante Tom Jobim, é preciso sobreviver para atingir a idade da realização e ser feliz, não podendo sair antes do jogo, então, só podemos dizer que o jogo não acabou. Queremos ser feliz e realizados com vocês, leitores!


Categorias: Post Especial, Sem categoria


Falando em corrupção…

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Filipinas

O ano de 2015 começa para o Papa Francisco em uma importante viagem ao continente asiático, passando pelo Sri Lanka e pelas Filipinas. Depois de ter visitado o Sri Lanka e canonizado o primeiro santo do país, beato Joseph Vaz, hoje o Papa fez seu primeiro discurso desde a chegada às Filipinas, criticando principalmente a corrupção que vem sendo denunciada no país.

As Filipinas se situam em uma zona geográfica especialmente sensível, constantemente sujeita a tufões, ciclones e tsunamis, ainda mais em um contexto de mudanças climáticas em que as pessoas se encontram cada dia mais vulneráveis. No final de 2014, o país enfrentou o tufão Hagupit/Ruby, que havia sido previsto inicialmente com ventos de aproximadamente 300 quilômetros por hora, em região próxima àquela que foi atingida, no final de 2013 pelo tufão Haiyan/Yolanda que levou consigo a vida de pelo menos sete mil pessoas.

Se a força da natureza não pode ser controlada, os meios para reduzir o impacto de seus danos na vida das pessoas pode (e deve) ser tema de discussão de governos e da população civil. Esforços de prevenção se mostram, invariavelmente, muito mais eficazes que medidas para remediar os danos já causados.

Para tanto, deve haver engajamento político e planejamento estratégico de longo prazo, evitando esforços duplicados e falta de coordenação local. Se hoje em dia contamos com tecnologia suficiente para prever a chegada de eventos naturais tal como tufões com tempo hábil para a tomada das medidas necessárias, não existe explicação razoável para um desastre de grandes proporções que não envolva a falta de vontade política em trabalhar para que ele não aconteça.

Por outro lado, após a ocorrência de uma tragédia de grandes proporções como em que a mobilização internacional como o tufão Haiyan/Yolanda em 2013, chocantes foram as denúncias de que apenas aproximados 20% dos recursos alocados (em montante que soma milhões de dólares) teria sido alocado pela Defesa Civil do país em benefício das vítimas até setembro do ano passado, nove meses depois do desastre. Esta situação demonstra o despreparo/desinteresse de um governo diante de um quadro em que, além dos feridos e das vítimas fatais, centenas de milhares de pessoas se veem desabrigadas e absolutamente vulneráveis a novos desastres.

Pregando o diálogo entre os povos e a importância da união, a sétima viagem internacional do Papa Francisco está sendo também marcada por uma enfática crítica à desigualdade, à corrupção e aos desvios de verbas. Dada a gravidade do problema e, principalmente, das consequências para as pessoas mais pobres e suscetíveis a desastres, esperemos que o tema não seja exclusivamente parte de discursos, mas sim da prática dos governos…


Categorias: Ásia e Oceania, Meio Ambiente, Polêmica


Terrorismo, um rabisco sem graça

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O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


Categorias: Conflitos, Cultura, Direitos Humanos, Europa, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Os lêmingues

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Não hão nada que possa ser dito sobre os lamentáveis atentados na França que já não tenha sido comentado nesses últimos dias. Hoje, a caçada humana teve fim, com os irmãos suspeitos pela chacina do Charlie Hebdo sendo mortos em uma fábrica e apesar de notícias inconclusivas, os reféns de um mercado judaico em Paris teriam sido libertados, também com a morte do sequestrador, em ações simultâneas.

É necessário muita cautela com relação a notícias dadas em tempo real. De barrigadas a imprensa da era da internet está cheia. Mas o que se sabe é que os envolvidos em ambos os casos possuíam ligação, e existe uma tendência preocupante nisso tudo. Me valho de um exemplo tolo, mas que é bastante ilustrativo dessa dinâmica. Sou um cara grande, então quando vou a algum evento onde se pague ingresso para comer, como feiras e jantares comunitários, faço o máximo para aproveitar, o que às vezes significa repetir o prato. É interessante reparar que, após a primeira rodada, geralmente as pessoas se sentem pouco à vontade para entrar na fila novamente. Eis que fiz uma aposta com meu pai certa vez – “vou entrar na fila, e vamos ver o que acontece”. Dito e feito: logo após surgir na fila com o prato em mãos, outras pessoas começam a seguir até que se forme uma nova fila para os repetecos. Não sou nenhum especialista, mas sei que existem vários estudos sobre psicologia de multidões que reforçam esse tipo de dinâmica: na ausência de liderança, basta alguém fazer o papel de vanguarda para que outros sigam.

Para o bem ou para o mal, o ser humano é social, e tende a repetir comportamentos. E infelizmente é o que vimos nesta semana – sem novidade alguma: desde os tiros em Columbine, cresceram assustadoramente os ataques armados a escolas e afins nos EUA. Para um fenômeno como o terrorismo, que atualmente pode surgir de maneira “espontânea” com agentes independentes (lembrem dos atentados em Boston, na Austrália, e por aí vai), vemos como basta um único atentado para inspirar outros a segui-los. Infelizmente, podemos esperar que mais eventos dessa natureza possam acontecer em outras partes da Europa nos próximos dias ou meses. Como os lemmings (ou lêmingue, um simpático animal com fama injusta de ser suicida), do jogo eletrônico, em que as criaturas seguem instruções para seguir objetivos mesmo que isso cause sua morte, os terroristas do futuro estão à espera desses pequenos estímulos, impulsos, para que executem sua tarefa abominável.


Categorias: Europa, Segurança


Nous sommes Charlie

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Je suis Charlie

[Charge do artista gráfico francês Jean Julien]

Se o lema do dia de hoje foi (ou está sendo) “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”), não poderíamos deixar de afirmar: nós somos Charlie. Nous sommes Charlie.

Somos Charlie porque acreditamos na liberdade de imprensa e de expressão como um princípio e nos meios de comunicação como um espaço aberto à reflexão – não imune a críticas, mas nunca sujeito a atos de barbárie. Somos Charlie porque defendemos o diálogo como o único meio para se alcançar a paz e o respeito mútuo como única arma legítima.

Somos Charlie porque repudiamos toda forma de violência em qualquer circunstância. Somos Charlie porque o trágico episódio ocorrido hoje em Paris não foi um ataque apenas à revista Charlie Hebdo e a seus colaboradores, mas a todos que acreditam que um mundo melhor se constrói apenas com base na tolerância e no diálogo.

Em luto pelas vítimas e em apoio aos familiares e feridos, a Página Internacional é Charlie.


Categorias: Europa, Paz, Post Especial


Imagem da Semana

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E a imagem da última semana de 2014 não poderia ser mais triste e ao mesmo tempo intrigante. No ano em que já havia sido registrada a queda de dois voos da companhia Malaysia Airlines, mais uma tragédia aérea foi registrada.

O avião da companhia AirAsia Indonésia (filiada à companhia malaia AirAsia) caiu no trajeto entre a Indonésia e Cingapura, com 162 pessoas a bordo. Destroços do avião e corpos de vítimas estão sendo encontrados na região, sendo que condições meteorológicas e falhas de autorização se enquadram, até o momento, como elementos que podem explicar o motivo da queda, ainda incerto.

A imagem acima, idealizada por artista na praia de Golden Sea, na Índia, faz alusão específica também ao voo MH370, sem dúvida a catástrofe mais misteriosa do ano passado: em março, o avião simplesmente desapareceu no trajeto entre Kuala Lumpur e Pequim com 239 pessoas a bordo sem que, até o momento, nada tenha sido localizado ou explicado. Além disso, em julho, o voo MH17 também da companhia Malaysia Airlines foi abatido ao sobrevoar área de guerra entre Rússia e Ucrânia, vitimando 298 pessoas. Tristes tragédias que marcaram o ano de 2014, infelizmente…


Novo ano, nem tão novo discurso

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Nesta semana em que se completa mais um ciclo presidencial, a expectativa do que poderemos esperar nos próximos quatro anos vem em grande parte do discurso na posse de Dilma Rousseff, ocorrida ontem. Como esperado, o foco principal foi dado a questões de cunho doméstico, especialmente as mais controvertidas como reforma política e combate à corrupção, mas com especial atenção dada aos problemas da economia. E as relações internacionais com isso?

Do discurso de Dilma, podemos traçar dois pontos principais ligados a relações internacionais, justamente a questão da economia e, de maneira breve (e preocupante), a política externa. Parte de sua fala foi dedicada à questão da necessidade de retomada do crescimento e o temido ajuste de contas públicas. A crise mundial de 2008 não bateu por aqui, mas o problema que era dos europeus naquele momento agora é nosso: como ajeitar as contas sem que o povo pague com benefícios sociais incompatíveis? Basta ver a discussão que rendeu o ajuste nas condições para obtenção do seguro-desemprego (ocorrido no começo da semana) que podemos esperar um ano turbulento, e cheio de protestos, caso esses ajustes sejam feitos como o esperado. Ao mesmo tempo, a retomada do crescimento depende de fatores dos dois lados, dentro e fora, como a alta do dólar (que culpa do aquecimento da economia norte-americana) quanto dos famosos gargalos de desenvolvimento (com problemas de infraestrutura acumulados que agora cobram seu preço para o país). O desafio é grande, especialmente numa semana em que grandes parceiros comerciais do Brasil (e do Mercosul), Argentina e Venezuela, admitem oficialmente que estão em recessão e mostram um cenário sombrio para 2015 no continente.

Isso nos dá o gancho para o segundo ponto – a política exterior. Quem nos acompanha sabe que a diplomacia de Dilma foi no mínimo tímida, em comparação a Lula. As poucas linhas dedicadas ao tema, reforçando o compromisso com o Mercosul e os mercados regionais (em crise) e com a dedicação nas relações Brasil-EUA (abaladas há algum tempo) mostram que a possibilidade de mudança nessa área é pouca, e preocupante. A atenção a crises domésticas, somada a perda de recursos para o MRE (que faz transparecer uma crise existencial no Itamaraty), leva a crer que mais uma vez a política externa será um tema secundário no governo Dilma. Mesmo o relativo sucesso do BRICS pode não ser suficiente para alçar o Brasil àquela posição de protagonismo almejada por tantos anos na época de Lula. Se isso era viável ou não, é outra história, mas o ímpeto não parece o mesmo. A indicação do novo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, embaixador de carreira em Buenos Aires e Washington, ou seja, um nome extremamente competente, é um bom sinal, já que se trata de uma das poucas escolhas técnicas de Dilma, mas até aí o ex-ministro Patriota também era, e o contexto não leva a crer que vá haver mudanças significativas nesse setor – seria muito mais uma indicação para evitar danos maiores que para buscar novidades em nossa política externa.

2015 está aí, com a novidade e a esperança que sempre acompanha o ano-novo, mas o sinal de alerta está ligado para o Brasil. Cautela e prudência são as palavras-chave para este novo governo, que em face de perturbações domésticas cada vez mais marginaliza oportunidades e importantes questões internacionais.


Categorias: Américas, Brasil, Economia, Política e Política Externa


Oriente esquentando

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coreia

Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Paz, Segurança


E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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