Democracia, pero no mucho

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456254000.0 300x198 Democracia, pero no mucho

O mundo se volta para China esperando a reação de Beijing aos protestos em Hong Kong.  Iniciados nesse fim de semana, à moda dos protestos de ocupação europeus e nos EUA, pequenas multidões se aglomeravam em espaços públicos pedindo por democracia. Apesar de nem chegar perto da truculência de 1989 (mesmo por que o governo da região é autônomo), a polícia honconguesa fez o que qualquer polícia do mundo faria e chegou atirando gás nos manifestantes. A reação, como qualquer massa de manifestantes no mundo faria, foi de se aglomerar ainda mais em protesto à violência policial. O resultado é que hoje temos 80 mil pessoas nas ruas e uma incógnita.

A razão de tudo isso são as eleições do governante da ilha. Desde que deixou o domínio inglês, Hong Kong funciona num modelo de “um país, dois sistemas”, com uma autoridade semiautônoma na ilha e funcionando no capitalismo de mercado. Um dos pequenos benefícios disso era a capacidade de escolher os próprios governantes. Nisso a China não mexe – mas neste ano, porém, resolveram que é o governo central quem vai escolher os candidatos, possivelmente limitando aos amigos de Beijing. Ou seja, o povo de Hong Kong vai escolher seus líderes – mas entre os escolhidos pela China. E isso enfureceu a massa.

Agora o governo insular fica em uma encruzilhada. Tem de reprimir os protestos pois ainda é assunto de sua responsabilidade, e trazer Beijing para este cenário seria preocupante, sem contar que desagradar o governo central seria ainda pior. Por outro lado, angariar a insatisfação da população sem atender às demandas pode resultar em ainda mais protestos e a coisa sair do controle. Sem contar que Hong Kong tem uma transparência muito maior que outras partes da China para a mídia internacional, então os resultados podem ser catastróficos. A própria China já se move no sentido de tentar abafar o caso, seja para evitar intrusão estrangeira, seja para que o exemplo não espalhe ideias estranhas para outras regiões menos satisfeitas do país, mas qualquer repressão mais pesada pode ter o efeito inverso e espalhar ainda mais insatisfação como quase todas as revoltas do mundo nos últimos 3 anos demonstraram.

Desdobramentos internacionais à parte, talvez a grande lição disso tudo… seja para o Brasil. A uma semana das eleições nacionais, onde insatisfação com os rumos da política se tornam piada, fúria retórica vazia ou indiferença, a revolta do povo honconguês diz muito sobre espírito cívico, sem apelar às bobagens do nacionalismo ou da violência.


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Perfumes revolucionários?

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post1 Perfumes revolucionários?

Uma das notícias intrigantes da última semana havia sido o anúncio, por parte da empresa pública de cosméticos cubana Labiofarm, do lançamento de duas novas fragrâncias intituladas… Ernesto e Hugo. A dita “homenagem” ao cubano Ernesto Che Guevara e ao venezuelano Hugo Chávez chamou a atenção – não pelo tipo de fragrância ou pelo interesse dos amantes de perfumes pelo mundo afora, mas principalmente pelo impacto político de se transformar o nome dos líderes revolucionários comunistas em marcas para venda no mercado internacional…

Segundo o laboratório, a escolha dos títulos se deu após pesquisas junto ao público e as famílias de Che e Chávez teriam autorizado o uso de seus nomes para este fim. Nas palavras de Mario Valdés, diretor da área de investigação e desenvolvimento da Labiofarm, “Hugo tem notas cítricas e amadeiradas que dão uma expressão de masculinidade” e “Ernesto tem algo de essências frutadas com elementos de carvalho, que dá um sentido varonil” [...]. Por mais que possa parecer irônico, os produtos foram efetivamente anunciados com previsão de lançamento no mercado no início de 2015.

Ontem, contudo, o governo cubano se pronunciou por meio de nota no jornal estatal Granma, caracterizando como “irresponsável” o anúncio dos perfumes, proibindo sua fabricação sob a justificativa de que “os símbolos da revolução são e sempre serão sagrados”.

Discussões entre o governo cubano e suas empresas à parte, o episódio traz a particularidade de mostrar como importantes símbolos políticos podem ter sua imagem capitalizada por empresas que alcançam um nicho de mercado em ampla expansão. Quem nunca viu alguém usando uma camiseta com a clássica estampa de Che Guevara sem nada saber sobre sua história em si? A ideia de “revolução” se torna, cada dia mais, uma mera marca para ser comercializada em prateleiras pelo mundo afora enquanto a real importância política de figuras marcantes (ainda que polêmicas) parece se banalizar diante de aparências que maquiam a complexidade dos interesses políticos e econômicos em jogo…

[PS: Dois outros modelos femininos estavam também sendo produzidos pelo laboratório: Amalia, em referência a Amalia Simoni, importante nome feminino durante a Revolução Cubana, e Alba, em alusão à "Alternativa Bolivariana para as Américas"...]


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Clube do Bolinha – ou das bolinhas?

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RDLeon0 3048978b 300x186 Clube do Bolinha   ou das bolinhas?

Na semana em que a questão de gênero teve grande relevo com o discurso da Emma Watson na ONU, vem da Espanha mais um caso de como isso é um problema ainda.

Há alguns dias a seleção espanhola da Copa Davis (a Copa do Mundo de tênis) foi eliminada pelo Brasil e ficou de fora do grupo especial. Desfalques espanhóis e dedicação dos atletas brasileiros à parte (que foi realmente sensacional), seria mais ou menos como se o Brasil (uma “superpotência” do esporte) perdesse para o Paraguai (que tem bons atletas mas não faz nada de excepcional há anos) e ficasse fora da Copa no futebol. E claro que cabeças rolaram – especificamente do técnico, o ex-jogador (que já foi número 1 do mundo) Carlos Moyá.

E o gênero com isso? Para seu lugar, foi chamada Gala León, também ex-tenista e diretora esportiva. A reação mais contundente foi de Toni Nadal (tio do Nadal famoso), que considerou a escolha equivocada e que a técnica terá dificuldades “no vestiário” por se tratar de uma equipe masculina. A repercussão negativa dos comentários, tachados de machistas a antiquados, revela um problema nada velado na sociedade e que fica ainda mais evidente no mundo tradicional do esporte.

É comum vermos homens dirigindo equipes femininas ou atletas mulheres. Mas o inverso é uma raridade – quando ocorre, geralmente é algo por laços familiares ou é temporário. Pode-se argumentar sobre diferenças fisiológicas para a prática do esporte entre homens e mulheres, mas em teoria a preparação exige o conhecimento, algo que ambos os gêneros compartilham em igual medida. O que existe, no caso, é uma barreira social, histórica e econômica. Estudos apontam que, apesar das tendências de queda, a remuneração de homens e mulheres na mesma posição ainda tem uma diferença substancial em termos de valores. Mesmo no Brasil, por exemplo, as mulheres ganham em média apenas 73% do que os homens. Os avanços no mercado de trabalho ainda não têm o impacto suficiente em diversas sociedades para reverberar em mudança na estrutura e percepções de gênero mais enraizadas.

Também devemos lembrar que, como no caso da Espanha, um país às portas da crise política (a Catalunha está prestes a seguir o exemplo da Escócia e puxar um referendo para separação da Espanha) e já em crise econômica há algum tempo, o conservadorismo ganha força em momentos de insegurança. E parte do conservadorismo significa uma estrutura tradicional em que a igualdade de gênero vira mais um problema que solução. Certo ou errado, o fato é que León não deve ter problemas em trazer a equipe (mais que gabaritada) de volta ao grupo mundial da Davis – seu grande desafio, possivelmente, será a mera manutenção de seu cargo nesse contexto adverso.


Categorias: Cultura, Economia, Europa, Polêmica


Imagem da Semana

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Emma Watson faz discurso emocionante por igualdade de direitos na ONU e1411443833911 300x156 Imagem da semana

 

Em semana de Assembleia Geral da ONU, o discurso de uma mulher foi o destaque da semana no palanque da ONU – e não foi Dilma Roussef. Apesar de o Brasil tradicionalmente sempre abrir as sessões, o grande evento até o momento foi um discurso feito no domingo pela atriz Emma Watson, embaixadora da boa-vontade da organização para a agência ONU Mulheres. O discurso foi uma das formalidades para a campanha “He for she”, de incentivo à participação dos homens no combate à violência e às desigualdades de gênero. O que chamou a atenção foi a repercussão – um site anônimo promete divulgar fotos íntimas da atriz em represália a sua atuação. Apesar do objetivo de intimidação, no fim das contas, se isso ocorrer na verdade apenas reforçará e dará mais legitimidade ao objetivo da nobre luta desta jovem atriz.


Peregrinação

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kirchner 300x224 Peregrinação

Religiosos do mundo todo realizam viagens a lugares místicos ou sagrados para seu credo com a intenção de se aproximar da respectiva divindade, cumprir alguma penitência ou simplesmente fazer turismo. Nos últimos dias a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, perfaz seu calvário em busca da solução para o poço de problemas financeiros que se tornou seu país.

Primeiramente, um encontro com o papa Francisco no sábado. Após a troca de presentes (incluindo uma pintura da onipresente Evita, de modo irônico a resgatar a fonte inicial dos problemas platinos, a praga do peronismo) ficou claro que, apesar das rusgas no passado, o papa demonstra apoio à presidente em suas reivindicações com esta oportuna passagem pelo Vaticano. Como visto há algumas semanas, a Argentina tenta em vão pagar sua dívida com credores internacionais, que impediram o repasse dos recursos por discordarem do valor dos juros. Talvez, mais que o apoio do “soft power” eclesial, Cristina precise de um milagre para dobrar Paul Singer, o líder dos credores.

Daí vem a segunda parte da sua peregrinação – em Nova Iorque, onde se prepara para a Assembleia Geral da ONU daqui a dois dias, Cristina teve reunião hoje com George Soros. Outrora um dos “vilões” da economia internacional (e apontado por muita gente como culpado pela crise asiática de 1997) o megainvestidor tem muito interesse na solução do impasse, já que é um dos credores favorável ao pagamento. Sua intercessão no “clube dos magnatas” pode vir a ser bem mais oportuna para a solução dos problemas de Cristina.

Porém, de nada adianta resolver a questão das contas quando permanece a crise doméstica. Há quatro dias foi aprovada (na verdade “ressuscitada”) uma lei que controla preços e taxas de lucro, semelhante a uma implantada na Venezuela no começo do ano. A tentativa desesperada de conter a inflação galopante (na casa de 40%) a expensas do setor privado pode resultar, assim como no país bolivariano, em desabastecimento e mercado negro. Mas isso não abala a presidente, que tem entre seus planos a inusitada (apesar da não inédita) ideia de mudar a capital de Buenos Aires para a pacata Santiago del Estero, no noroeste do país, com menos de 300 mil habitantes e longe de tudo – inclusive dos protestos. Afinal, se a ideia deu certo no Brasil, por que não? A cada dia o noticiário mostra que, com tais políticas, cada vez mais um milagre seja necessário dentro da Casa Rosada.


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O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo

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Que a fome é um dos mais graves problemas sociais no mundo ninguém desconhece, mas não deixa de ser assustadora a estimativa de que, ainda nos dias de hoje, uma em cada nove pessoas no planeta sofre de fome crônica, totalizando aproximadamente 805 milhões de indivíduos em tal situação.

O dado foi divulgado essa semana com o lançamento do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo” (SOFI 2014, na sigla em inglês), por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

As agências romanas, que lidam mais diretamente com o tema da alimentação no sistema das Nações Unidas, publicizaram as últimas tendências no que se refere ao combate à insegurança alimentar e nutricional. Apesar de os números ainda demonstrarem que grandes esforços internacionais ainda são necessários na luta contra a fome, as perspectivas não deixam de ser positivas.

Na última década, cerca de 100 milhões de pessoas deixaram de passar fome, em um percentual mundial que baixou de 18,7% para 11,3%, segundo os dados do relatório. Nos países em desenvolvimento, a diminuição é ainda mais expressiva, caindo de 23,4% para 13,5%. Lembrando que a redução pela metade da fome no mundo se enquadra no primeiro dos “Objetivos do Milênio” até 2015, meta já alcançada por 65 países em desenvolvimento no mundo, dentre os quais se encontra o Brasil.

O estudo do caso brasileiro demonstra que os esforços empreendidos notadamente a partir do Programa “Fome Zero” têm garantido bons resultados e uma redução de 75% da pobreza extrema no país entre 2001 e 2012. Entretanto, dadas as proporções continentais de nosso país, o número de pessoas que permanece em situação de fome ainda é representativo: cerca de 16 milhões de pessoas (8,4% da população brasileira) – o que representa, por exemplo, o total de habitantes de Portugal e Finlândia somados…

O problema da fome tem solução, isto é fato. Engano é apenas pensar que se trata simplesmente de uma questão de doação de alimentos – pelo contrário, a fome representa um problema complexo que requer ações múltiplas e coordenadas em seu combate. O acesso aos alimentos deve ser viabilizado em consonância com o acesso à terra, a serviços públicos de qualidade, à tecnologia, etc. – um esforço integrado que viabilize a consecução do direito humano à alimentação adequada para a totalidade dos cidadãos do planeta.

[No site da FAO podem ser encontradas maiores informações sobre o tema: http://www.fao.org/publications/sofi/en/]


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Há… uma semana!?

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relogio Há... uma semana!?

Aqui no blog temos a seção “há um ano” em que postamos análises das consequências dos fatos que, bom, aconteceram há um ano. Mas nessa semana agitada, já se faz necessário rever as postagens de poucos dias atrás por que durante esse período em que a Terra deu pouco mais de 7 voltas no próprio eixo muita coisa aconteceu.

Sobre a epidemia de Ebola na África, começa hoje a quarentena nacional em Serra Leoa. Cerca de 6 milhões de pessoas estarão impedidas de saírem de casa, não para evitar o alastramento da doença – mas para que seja mais fácil identificar os infectados. A situação exige essas medidas drásticas, mas faltam condições e pessoal. Sem auxílio, a estimativa é que, sem os casos contabilizados e com a possibilidade de alastramento e mutações do vírus, até 2015 a epidemia a casa dos milhões de infectados.

Enquanto isso, um pouco ao norte, a coisa esquenta no Iraque com os primeiros ataques de países ocidentais a bases do ISIS/Estado Islâmico, efetuados pela França. A expectativa é que se mantenham os ataques aéreos, mas ao longo da semana o comandante das Forças Armadas dos EUA cogitou a possibilidade de enviar tropas em solo caso seja necessário. Obama já refutou essa possibilidade, pois com as implicações dessa empreitada passando até pela crise ucraniana (já que o apoio da Rússia nas operações será essencial e isso deve afetar negociações que vão de Damasco a Kiev) a última coisa que quereria é mais uma impopular incursão armada para causar a morte de americanos.

Por fim, ontem aconteceu o tal referendo na Escócia acerca da independência do Reino Unido. E para a felicidade dos professores de Geografia, a terra da rainha continuará a ter seu fundo azul com a cruz diagonal branca, pois resultados preliminares apontam a vitória do “não”, permanecendo o vínculo histórico. Análises sobre a razão disso passam por muitos fatores, o principal deles o risco econômico que a opção pela separação apresentava e o fato que o “sim” havia sido superestimado. Bom para David Cameron, que não entra pra história como o Primeiro-ministro que destruiu o Reino Unido, mas tem problemas pela frente por ter sido um dos responsáveis por esse plebiscito em primeiro lugar, e agora para agraciar o parlamento escocês, que vai receber alguns poderes (e mais dinheiro) como parte de um acordo proposto como medida preventiva da separação.

Não é possível nem escrever o “postando e relembrando” por ser algo tão recente, mas imagino como será o “há um ano” de setembro de 2015 se os eventos dessa semana repercutirem como o esperado…


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O abacaxi ucraniano

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Ukraine soldier Russia Slovyansk 300x207 O abacaxi ucraniano

A quantas anda a Ucrânia? Talvez a palavra-chave seja insatisfação, que está aparecendo por todos os lados.

Semana passada um cessar-fogo iniciado no dia 5 tem tido sucesso (leia-se – respeitado por quase todos) em evitar as mortes que pipocavam diariamente em confrontos entre forças ucranianas e separatistas. Mas nem tanto – confrontos isolados levaram a pelo menos seis mortes que abalam o tênue acordo. Como se vê no caso de Israel e Palestina, sempre há aqueles mais beligerantes dispostos a arruinar o esforço de entendimento.

Enquanto isso, o parlamento da Ucrânia tenta resolver o impasse agradando a todos – na terça ratificou o famigerado acordo de comércio com a Europa e concedeu status especial às regiões em distúrbio. Basicamente, concede um grau mínimo de autonomia a essas localidades por três anos e possibilitando que façam eleições além de anistiar os combatentes (exceto aqueles envolvidos na derrubada do avião de passageiros da Malaysian Airlines) e atender a maior parte das reivindicações sem que os separatistas precisem largar Kiev pra trás. Na ideia, reivindicações de todos os lados são atendidas. Na prática, é praticamente a aceitação de que estão prestes a perder nacos de seu território (tendo sido aceito com relutância pelo presidente Poroshenko), enquanto o acordo com a União Europeia, visto como um passo necessário ao ingresso no clube europeu, irrita tanto os líderes separatistas quanto Moscou.

Por fim, nesta semana entraram em vigor as mais novas sanções da UE, EUA e Canadá contra a Rússia, reflexo direto da crise na Ucrânia. São mais diretas pois afetaram não apenas o acesso a mercados financeiros, mas também o setor petrolífero e empresas estatais russas. Desnecessário dizer quem fica insatisfeito nessa história, mas a Rússia o faz com classe – o presidente Putin afirma que é um esforço ineficaz e que pode até mesmo ajudar a Rússia em longo prazo, enquanto quer levar os países ocidentais à OMC por essa “injustiça” comercial. No fim das contas o efeito colateral é um rejuvenescimento da OTAN e, apesar do conflito ser uma possibilidade remota (pra não dizer impossível), a aproximação que se desenhava entre Rússia e EUA nos últimos 20 anos parece ser coisa do passado.

O centro de tudo, é claro, é quem mais sofre. A Ucrânia sofre o risco de fragmentação, instabilidade interna constante ao longo do ano e consequências econômicas nocivas. A depender do resultado do plebiscito na Escócia, os grupos separatistas podem ganhar ainda mais força. Mas sempre fica a lição de que, no mundo atual e interdependente, as consequências vão muito além das suas fronteiras. Pelo menos eles ainda têm a amizade inabalável do grande Canadá.


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O “sim” da discórdia?

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scotland 300x199 O sim da discórdia?

Quem assistiu o filme “Coração Valente” de 1996 deve achar que a relação entre Escócia e Inglaterra não seja das melhores. De fato, em alguns momentos predomina o atrito, mas na média a cooperação entre esses dois países sempre foi a regra (e benéfica para ambos). Tanto que a Escócia é, ainda hoje, membro do Reino Unido, tendo governo próprio e podendo mandar time para disputar a Copa do Mundo, mas com a Rainha da Inglaterra como chefe de Estado e mandando seus atletas para as Olimpíadas junto com ingleses, galeses e norte-irlandeses. Isso pode estar com os dias contados.

Pesquisas recentes mostram que o movimento separatista ganha força e a ideia de uma Escócia independente no sistema internacional é uma realidade plausível. Nesta quinta-feira ocorrerá uma consulta popular de resultado imprevisível já que pela primeira vez na história uma sondagem favorável à separação (ou o grupo do “yes”) mostrou um resultado vitorioso, mesmo que pela margem mínima de 51%.

O que significaria uma Escócia independente? Em termos políticos, apesar da extinção do Reino Unido como o conhecemos hoje, as mudanças seriam poucas, mas em termos econômicos, isso pode abalar a estabilidade dos dois lados. Como membro do Reino Unido, a Escócia faz parte da União Europeia e mantém a Libra como moeda oficial. Se tornando independente, essas duas situações podem ser comprometidas já que a Escócia não estará mais ligada ao Banco da Inglaterra (o BC deles), e tecnicamente precisaria cumprir todas as condições para ingressar na UE já que estaria surgindo como um novo Estado, e isso é algo difícil na atual conjuntura econômica. Do lado inglês, a saída da Escócia significa uma fratura territorial (quase um terço do território) e populacional significativa.

Então por que está acontecendo esse movimento? Afinal, parece que as consequências serão majoritariamente negativas. A razão disso tudo está um pouco no nacionalismo, um pouco na economia. Os escoceses rejeitam duramente os partidos ingleses e as políticas tomadas na última década, além de assumirem um perfil mais alinhado aos países europeus continentais com políticas de bem estar social. A crise econômica enfrentada pelo país é vista como consequência dessas políticas, e com isso cresce o movimento de insatisfação. Ao mesmo tempo, os “unionistas” preferem continuar nessa condição ao afirmar que a saída do Reino Unido piorará a situação com fuga de capitais e bancos – o maior banco da Escócia já avisou que mudará para Londres caso o referendo de separação seja aprovado.

Tudo indica uma situação de completa incerteza – as porcentagens não são definitivas e tanto o “yes” quanto o “no” podem vencer; a Escócia está saindo entre outros motivos por temer a saída do Reino Unido do Euro mas pode não ter condições de ingressar por conta própria no bloco; a crise econômica, principal fator de incentivo à secessão, pode ser agravada. Com isso, a única certeza é que com movimentos mais expressivos como a Catalunha, os Bascos, a rixa na Bélgica e a crise na ucrânia, seja o Reino Unido, uma das uniões mais estáveis e duradouras do sistema internacional, que esteja sob o risco mais concreto de se fragmentar.


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Para o tudo ou nada

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Obama.Guilty 300x190 Para o tudo ou nada

Ontem, completaram-se 13 anos dos ataques terroristas do 11 de setembro. Enquanto homenagens eram feitas às vítimas em Nova Iorque e Washington, onde os ataques são uma memória triste, em outras partes do mundo aquele dia continua a afetar diretamente a vida de milhões de pessoas, da instabilidade interminável do Afeganistão à insurreição do ISIS/Estado Islâmico da Síria e Iraque. Por isso se tornou tão simbólico que o presidente Obama tenha anunciado anteontem em discurso uma nova “guerra ao terror” ao grupo que anda chocando o mundo com sua intolerância e violência.

O que podemos tirar disso tudo? Pelo menos três coisas.

Primeiro, o que diabos os EUA ainda estão fazendo por lá? Apesar do apoio internacional, o grosso da operação será feito por eles.  Uma década inteira de intervenção no Iraque e no Afeganistão demonstraram por A mais B que uma invasão em larga escala não deve ter resultado sem que haja sacrifício enorme de vidas de todos os lados. Por isso o modo de operação está seguindo a ideia do que foi feito na Líbia, de maneira “limpa”, com ataques aéreos, sem envolvimento direto de tropas, além de apoio logístico e financeiro a seus “aliados”. Claro que no caso da Líbia o resultado não foi nada melhor (ou até poderíamos dizer que foi pior, com o vácuo de poder que literalmente divide o país hoje). O uso de drones também está em pauta, apesar de serem armas que matam mais civis que os alvos desejados. Ou seja, nada de novo com relação à parte operacional.

Segundo, qual a motivação? No discurso, Obama afirma que o ISIS é uma organização terrorista e tem meios para se tornar uma ameaça a cidadãos norte-americanos no futuro, por isso os ataques. A tal ideia do ataque preventivo de Bush filho, agora em uma versão de menor escala. Nem vamos entrar na discussão sobre o funcionamento da ONU e todas as legalidades (ou não) envolvidas. Como já comentai anteriormente, a ação dos EUA, desastrada, é a causa de boa parte dos problemas atuais daquela região ao ter rompido o delicado equilíbrio tripolar entre Irã, Iraque e Arábia Saudita. Desse modo, a terra sem lei do Iraque se tornou um oásis para os grupos extremistas (que antes não existiam por lá) e virou o berço do ISIS. No mínimo, portanto, qualquer ação os EUA deveria ser com vistas a limpar a sujeira que eles próprios fizeram – mas aparentemente o resultado será ainda mais complicações caso o plano não dê resultados e o ISIS não venha a ser derrotado definitivamente.

Por fim, chegamos ao terceiro ponto: quais as implicações regionais? Por que dos interesses envolvidos, os EUA se encontram em uma situação embaraçosa. Na Síria, a guerra civil já é tripartite – Assad contra frente Nusrah (vulga Al Quaeda) e agora o ISIS, todo matando uns aos outros. Agindo contra o ISIS, os EUA deveriam tomar parte de um dos lados, mesmo que indiretamente, mas seus aliados moderados agora são inexpressivos e fica entre a opção menos pior, o violador de direitos humanos, ou o grupo que orquestrou o 11 de setembro. É desnecessário indicar qual seja a melhor opção para Washington. E no Iraque, onde a ofensiva tem mais chances de dar certo, pode acabar tendo que trabalhar junto do Irã, o que em longo prazo seria ótimo para todos os lados mas vai de encontro a mais de 30 anos de retórica de inimizade entre os países.

No fim das contas, essa opção pela ofensiva parece muito mais uma manobra política para aproveitar a data e responder à opinião pública indignada pelos degolamentos do ISIS (apesar de pouco ligar para o que acontece no México, ali do lado, onde tanta gente ou mais é decapitada pelo narcotráfico). O histórico nada favorável das intervenções norte-americanas no Oriente Médio somado aos embaraços diplomáticos que pode causar parecem fazer dessa operação mera bravata para aproveitar a data de triste memória.


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