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Categorias: Post Especial


A rede e o outro

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Não é surpresa alguma que hackers simpatizantes ao Estado Islâmico tenham feito o que fizeram essa semana, tirando do ar por horas várias redes de televisão de um conglomerado francês. Antes de tudo, a linguagem da informática é eminentemente matemática, com sua lógica e condicionais, e todos sabem que os orientais são muito melhores nisso há alguns milênios. Por isso chamamos nossos algarismos de arábicos e se vê a quantidade de asiáticos no Vale do Silício. Mas o elemento importante aqui é a aparente contradição dos métodos com os objetivos do grupo.

Oras, o ISIS tem por meta restabelecer um califado à moda antiga na Síria e no Iraque. E portanto rejeita não apenas o modelo de funcionamento do Estado moderno, mas o próprio modo de vida ocidental. E para isso… usam boa parte da tecnologia que esse próprio modo de vida originou. Por mais que seja um desenvolvimento técnico, não teríamos a internet que conhecemos hoje sem a popularização do computador pessoal e da própria rede como um ambiente de negócios e lazer. Há uma certa dose de ironia nisso tudo.

Mas o mais interessante é que provavelmente o ataque não veio do ISIS. Ou pelo menos dos membros “oficiais”, que estão lutando contra curdos e peshmergas com rifles e facões no deserto. Como já discutimos no blog, a sociedade da informação atual propicia o surgimento dos simpatizantes a certas causas de maneira espontânea, e em qualquer lugar. Os terroristas do jornal e do mercado não eram sírios ou iraquianos, mas franceses, descolados da sua própria sociedade e atraídos para a forma de protesto mais radical contra sua condição.

Do mesmo modo, ainda nem é possível saber de onde vieram os ataques. É bem plausível que os hackers da TV5 sejam franceses, atacando do próprio território europeu em apoio a seus colegas islâmicos. O impacto vem em duas frentes, tanto pela repercussão do ataque, extremamente refinado e robusto, que deixou 200 países sem um canal francês, e ao mesmo tempo nos leva a refletir sobre a condição da sociedade contemporânea, que tanto é causa (em parte) do fenômeno terrorista quanto oferece os meios mais eficazes para que seja empreendido, da cooptação e recrutamento à execução dos atos.


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Post do Leitor

Post do leitor – Andrew Zanelato

[Confiram abaixo mais um ótimo texto do leitor Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, em que ele analisa as eleições parlamentares em Israel e seu impacto nas relações do país com a Palestina, relações tão históricas quanto complexas. A Página Internacional é um espaço aberto a contribuições de seus leitores, não deixem de participar! Basta enviar um e-mail com seu texto para [email protected] que retornaremos o contato. Boa leitura!]

Por que o Hamas é o maior aliado de Netanyahu? (E vice-versa)

Israel

Na terça-feira, 17 de março, ocorreram as esperadas eleições parlamentares em Israel. O atual premiê, Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, se reelegeu e continuará no cargo que ocupa desde 2009. No entanto, foi surpreendente o resultado da União Sionista, grupo de centro-esquerda liderado pelo líder trabalhista Isaac Herzog, que chegou a liderar as pesquisas, mas terminou em segundo lugar.

Um dia antes da eleição, em uma última tentativa de ganhar mais apoio dos eleitores dos partidos de extrema-direita e religiosos (especialmente os ultra ortodoxos), Netanyahu declarou aquilo que já era evidente há anos (mesmo que depois tenha voltado atrás): que enquanto for Primeiro-Ministro não haverá Estado palestino. Para completar, ainda criticou os cidadãos árabes de Israel, que decidiram votar em massa em seus opositores, ofendendo assim 20% da população do país. Apesar de sua vitória e suas declarações terem sido lamentadas internacionalmente e internamente, inclusive de modo reservado pelo próprio governo americano, muitos judeus e apoiadores de Israel no mundo todo comemoraram, argumentando que Netanyahu é um líder forte e capaz de destruir os inimigos de Israel, como o Hamas. Na verdade, porém, não há nada melhor para o Hamas que o próprio Netanyahu.

Amos Oz, maior escritor de Israel e ativista pela paz, certa vez disse que o conflito na verdade não é entre israelenses e palestinos, mas entre radicais e moderados dos dois lados. Se analisarmos a fundo a questão, sem paixões, ideologias ou maniqueísmo, veremos que ele não poderia estar mais certo.

Primeiro, é necessário entender o que é o Hamas. Não se trata apenas de um grupo armado ou de terroristas, o Hamas é uma ideia, uma ideia de luta armada contra a ocupação israelense (ou mais que isso, pois sua carta de fundação defende a necessidade da destruição total de Israel de seu povo). A força do Hamas vem do apoio da população à sua ideia, pois ele se alimenta do ódio palestino contra Israel, e sem isso ele morre, como já quase aconteceu algumas vezes durante a década de 90. Não é possível destruir uma ideia usando força militar, pelo contrário, isso só a fortalece, especialmente neste caso, em que as ações militares contra Gaza e as mortes que causam só aumentam o ódio contra o Estado judeu e o apoio ao Hamas.

De fato, se observarmos os dados de pesquisas de opinião na Palestina, veremos que em abril de 2013, a maioria da população apoiava a resistência pacífica contra a ocupação, e o apoio ao Hamas estava bem baixo. Esse cenário ainda persistia um ano depois, em abril de 2014, pouco antes da Operação Borda Protetora, com a popularidade do Hamas muito baixa e o apoio às negociações pacíficas de Abbas com Israel muito alto. Entretanto, em agosto, um mês após a guerra e os 2.200 mortos em Gaza, o apoio ao Hamas e à luta armada estava nas alturas, mesmo que ele tenha caído um pouco em setembro, quando a poeira estava baixando. Ao mesmo tempo, enquanto Mahmoud Abbas, do Fatah, aparecia muito à frente de Ismail Haniyeh, do Hamas, nas pesquisas presidenciais anteriores à guerra, logo após Haniyeh surgiu ganhando disparado, e na última pesquisa, em janeiro desse ano, ainda aparece bem à frente de Abbas.

A outra ideia principal na Palestina é a defendida hoje pelo presidente da Autoridade Palestina, Abbas, e se trata de negociações e cooperação por um tratado de paz com Israel. As acusações feitas por Netanyahu, de não haver parceiros pela paz e de Abbas ter sabotado as negociações de Kerry são falsas (o próprio Netanyahu quem as sabotou), assim como as de que ele encoraje o terrorismo, já desmentidas inclusive pelo chefe do Shin Bet. Ações como a guerra de Gaza e as últimas declarações de Netanyahu só enfraquecem a ideia da possibilidade de negociação e de convivência pacífica, destruindo assim a popularidade de Abbas e ajudando o Hamas, que já declarou que espera que agora o Fatah desista de ideias pacifistas.

A única coisa que pode destruir uma ideia é outra ideia mais poderosa. Assim, o que poderia enfraquecer o Hamas seria um acordo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina, que melhorasse as condições de vida dos moradores da Cisjordânia e assim mostrasse de forma prática que a convivência é mais benéfica que a destruição. Isso não é algo difícil de perceber. Por que então Netanyahu faz justamente o contrário?

Porque o mesmo ocorre em Israel. As guerras, os ataques, a sensação de um inimigo sempre à espreita, a visão de que todos os palestinos são terroristas fortalecem um líder agressivo como Netanyahu, e fortalecem os radicais israelenses, nos quais ele tem se apoiado cada vez mais. O isolamento ainda maior de Israel na comunidade internacional decorrente de suas declarações é outra coisa que fortalecerá os radicais, especialmente os mais nacionalistas. Assim, os radicais israelenses e palestinos são na verdade aliados informais, fortalecendo-se mutuamente para destruir qualquer chance de convivência pacífica, e enfraquecendo mutuamente os moderados dos dois lados.

Os resultados da União Sionista são surpreendentes porque os trabalhistas, do mesmo modo que grupos pacifistas como o Shalom Aksheva, estavam praticamente mortos na política do país. Uma vitória de Herzog teria sido muito benéfica para o processo de paz, uma vez que ele foi eleito líder do Partido Trabalhista focando em esforços de paz com os palestinos (enquanto sua adversária Shelly Yachimovich se focou em assuntos econômicos), e após sua eleição, um dos primeiros atos foi um encontro com Abbas.

Não há solução para o conflito Israel x Palestina que não seja a cooperação voluntária. Ações militares e “líderes fortes e corajosos” só aprofundam o problema, pois a coragem de que se precisa agora é a de dialogar com o vizinho. Se seguir nesse caminho, Israel acabará sem nenhum aliado. Netanyahu e a extrema-direita são ainda mais prejudiciais aos israelenses que aos próprios palestinos, assim como o Hamas é mais prejudicial aos palestinos que os próprios israelenses, e no fundo, ambos são a mesma coisa…


Categorias: Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Post do leitor


Post do Leitor

Post do leitor – Andrew Zanelato

[Com os recentes acontecimentos na Tunísia, que está inclusive sediando essa semana o Fórum Social Mundial, vale a pena conferir a análise abaixo de Andrew Zanelato, estudante de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos, sobre o país e seus desafios após a “Primavera Árabe”. Caso você também queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected], a Página Internacional é um espaço aberto ao debate e à reflexão sobre os temas de interesse de seus leitores. Boa leitura!]

tunisia

Era 18 de dezembro de 2010. Em Ben Arous, na Tunísia, um vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi, ateia fogo ao próprio corpo em desespero após a apreensão de suas mercadorias por funcionários do governo, que há anos o extorquiam alegando que ele não tinha uma licença para trabalhar. Foi o estopim de uma revolta nacional contra a corrupção, inflação, desemprego e falta de liberdades no país, que ganhou o nome de “Revolução de Jasmim”, e depois se espalhou para os outros países do norte da África e do Oriente Médio, dando origem à “Primavera Árabe”. Porém, ao contrário da maioria desses outros países – onde os protestos resultaram em guerra civil, anarquia ou volta de ditaduras – a Tunísia seguiu num caminho estável e democrático, e após as eleições de novembro de 2014, já pode ser considerada oficialmente a primeira democracia do mundo árabe, se tornando uma esperança para a região e uma resposta àqueles que não acreditam na compatibilidade entre muçulmanos e democracia. Mas por que as coisas estão dando certo na Tunísia e em seus vizinhos, como a Líbia e o Egito, não? Há muitos fatores envolvidos, porém cinco deles merecem atenção especial.

O primeiro tem a ver com a unidade nacional e a força das instituições. A maioria dos países árabes enfrenta problemas com conflitos entre religião e secularismo, tribalismo e instituições, sectarismo e identidade nacional, e o clássico embate entre ditadura e democracia. Na Tunísia, é visível que a opção democrática foi a escolhida, e escolhida pela própria população, não por uma imposição estrangeira como ocorre, por exemplo, nas intervenções americanas (como disse uma vez o professor de Relações Internacionais da Boston University Andrew Bacevich, “a democracia é uma porta que tem de ser aberta por dentro, não forçada”). Além disso, as instituições são fortes, e não há problemas sectários ou étnicos, diferente do Marrocos e da Argélia, onde há conflitos entre árabes e bérberes. A religião também ocupa um papel secundário na sociedade (por exemplo, o aborto é legal desde a década de 60), e o partido islamista vem mantendo um diálogo pacífico com os seculares.

O segundo fator é o papel histórico dos militares tunisianos, bem diferente daquele dos egípcios. Enquanto no país das pirâmides os militares continuaram atuando na política, para depois intervirem e restaurarem uma ditadura em que hoje governam com mão de ferro, os tunisianos entregaram o poder aos civis e discretamente voltaram aos seus quartéis. Isso se deve ao fato de que o fundador da Tunísia, Habib Bourguiba, nunca confiou no Exército e o restringiu ao papel de defender as fronteiras, sem participação na política. Apesar de ser um líder autoritário, Bourguiba baseava seu poder no carisma, no seu passado como líder do movimento de independência e na repressão policial, que continuoucomseu sucessor Ben Ali, que também manteve os militares restritos a assuntosmilitares. A situação é muito diferente do Egito, onde os mesmos militares têm se mantido no poder desde a queda da monarquia.

O terceiro fator é que o caminho escolhido para solucionar as divergências entre os diferentes grupos políticos (principalmente entre religiosos e seculares) foi o diálogo, outra diferença para o Egito, onde os partidos religiosos foram literalmente esmagados pelos militares. Logo após as primeiras eleições após a queda de Ben Ali em 2011, os religiosos moderados do Ennahda saíram vitoriosos das urnas, porém buscaram criar colisões com partidos laicos. Nos últimos anos, o Ennahda cometeu muitos erros que o fizeram perder apoio popular, e nessas eleições de outubro de 2014 o vitorioso foi o Nidaa Tounès, partido laico que reúne políticos de direita e esquerda, porém mais voltado ao liberalismo, com seu líder Beji Caid Essebsi, um liberal laico, sendo eleito presidente em dezembro. O Ennahda aceitou a derrota sem problemas e ainda felicitou os vencedores, que agora devem formar uma coalizão ou com outros partidos liberais, ou com a centro-esquerda ou até mesmo com o próprio Ennahda.

Já o quarto fator envolve a área econômica. A maioria dos analistas vê a liberalização econômica ocorrida na Tunísia durante o regime de Ben Ali de forma negativa, pois as empresas privatizadas acabaram nas mãos de aliados do regime, que também dominaram os ramos em que o Estado se retirou, como o turismo e o mercado imobiliário. Por isso, alegam que o liberalismo econômico, ou “neoliberalismo” como preferem usar, fortaleceu o regime e enfraqueceu a democracia. Porém, se olharmos mais amplamente, os efeitos dela não foram totalmente negativos. É verdade que os ativos ficaram nas mãos de apoiadores do regime, porém, se a economia ficou concentrada nas mãos deles, é porque não foi uma liberalização verdadeira, com direito à livre concorrência, mas de cartas marcadas, e por isso o ouro todo acabou nas mãos dos “amigos do rei”, ou melhor, “amigos do ditador” (como ocorreu também no Brasil). Apesar disso, não faltam exemplos históricos de nações ditatoriais em que uma liberalização econômica foi seguida de uma liberalização política algum tempo depois, como foi o caso de Chile, Coréia do Sul, Taiwan e Indonésia. Isso ocorre porque o aumento da liberdade econômica causa uma perda de controle político sobre os cidadãos (como vem ocorrendo na China), que passam a ter maior independência civil e, com isso, maior consciência política. Isso foi o que ocorreu na Tunísia. Outro fator importante é que em 2013 a economia tunisiana cresceu 2.3%, enquanto no mesmo período o Egito continuou em recessão, e esse crescimento ajudou na manutenção da estabilidade.

Finalmente, o quinto e último fator nesta análise foca no campo do Direito. A Tunísia aprovou em janeiro de 2013 uma constituição que talvez seja a mais avançada daquela região do mundo, garantindo direitos iguais para homens e mulheres, mecanismos contra a corrupção e a violência, liberdade religiosa (incluindo aos ateus) e até mesmo proteção ambiental. Na aprovação do texto, o então presidente, Morcef Marzouki, declarou que “com o nascimento desse texto, nós confirmamos nossa vitória sob a ditadura”. Além disso, também foi aprovada uma nova lei eleitoral, bastante livre e representativa, e que garante espaço as mulheres nos cargos políticos.

Hoje em dia é normal ver os termos “árabes” e “democracia” sendo apresentados como antônimos, porém os que têm essa visão se esquecem de que, muito antes de se espalharem pelo Ocidente, conceitos como individualismo, secularismo, ceticismo e liberalismo já estavam nas cabeças de pensadores árabes na época da Era de Ouro Islâmica. Talvez o que está acontecendo na Tunísia represente o início de uma nova era de ouro, apesar de ainda existirem muitos desafios pela frente. Os atentados terroristas dessa semana no Museu de Túnis abalarão a economia, já que o turismo é um de seus principais setores, além de reavivaremos fantasmas do terrorismo e do ISIS. Entretanto, o país deve se recuperar e, apesar de ainda não constituir uma democracia “perfeita”, certamente os tunisianos estão trilhando um caminho importante neste sentido. Não só os outros países árabes, mas também países do Ocidente, como o próprio Brasil, têm muito a aprender com esse pequeno país do norte da África.


Categorias: Post do leitor


Gerenciar riscos para evitar desastres

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Vanuatu

Um dos piores desastres socioambientais da história do Pacífico Sul atingiu o arquipélago de Vanuatu neste final de semana. Muitos de nós talvez nunca tenhamos ouvido falar de Vanuatu até hoje, mas trata-se de um país formado por cerca de oitenta ilhas na Oceania e que está absolutamente devastado após a ruidosa passagem do ciclone Pam.

Mapa Vanuatu

Com ventos de mais de 300 km/h, o impacto do desastre ainda está sendo avaliado, mas dezenas de vítimas fatais já são contabilizadas pelas Nações Unidas. Existe a certeza, contudo, de que é crítico o isolamento do país após a passagem do ciclone que afetou o fornecimento de energia elétrica, o acesso à água e aos alimentos, além de ter provocado destruição física das construções, principalmente na capital Port Vila.

A Cruz Vermelha da Nova Zelândia estima que mais de 100 mil pessoas tenham sido direta ou indiretamente afetadas pelo desastre, o que torna urgente o apoio humanitário à população local, liderado pelos vizinhos Austrália e Nova Zelândia no momento.

Desastres socioambientais são passíveis de acontecerem (e até previsíveis) em diversas regiões do mundo, o que faz parte de uma realidade que não podemos controlar. Contudo, o debate deve se voltar justamente à construção de resiliência principalmente nos locais mais vulneráveis para que o impacto possa ser reduzido ao máximo.

Coincidentemente, está acontecendo essa semana em Sendai, no Japão, a Terceira Conferência Mundial em Redução de Riscos de Desastres, coordenada pelas Nações Unidas e fruto de amplo diálogo com Governos, iniciativa privada e sociedade civil sobre o tema.

A importância do assunto é inegável já que as estatísticas demonstram que, desde 2005, mais de 700 mil pessoas morreram e cerca de 1,7 milhão de pessoas foram afetadas por desastres no mundo. No âmbito intergovernamental, o principal objetivo do encontro é aprovar um novo marco de ação, atualizando Quadro de Ação de Hyogo no contexto pós-2015.

Mais que gerenciar o desastre em si, a prioridade deve ser gerenciar os riscos de desastres, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Redução de Risco de Desastres (UNISDR). De fato, situações de desastre como a que está sendo vivida em Vanuatu deixam clara a necessidade de prevenção e gestão de riscos para evitar ou, pelo menos, minimizar o impacto das catástrofes desse gênero na vida daqueles que mais sofrem suas consequências.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Meio Ambiente, Organizações Internacionais


Crise institucional?

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Emitir opinião sobre a crise venezuelana é como escolher entre pular na frigideira ou no fogo. Críticas ao governo serão recebidas como subserviência ao imperialismo e ao capital. Defender o governo é visto como esquerdismo cego e ignorância de violações a direitos humanos e políticos. Como tudo na vida, o extremismo prejudica a análise, então que tal tentarmos uma análise mais ampla?

Quais os problemas da Venezuela? Basicamente, hiperinflação (quase 70% ao ano, a maior do mundo), câmbio desvalorizado (e caótico, com mercados oficial, paralelo e negro) e um problema grave de abastecimento (de papel higiênico a preservativos). A oposição bota a culpa no governo. O governo, na oposição e em uma possível conspiração internacional. Como é de se esperar, os dois lados tem sua parcela de culpa. De fato, o governo parece ser o maior responsável – mais do que a falta de carisma ou liderança de Maduro, a herança do bolivarianismo de promover benefícios sociais e controle estatal dos fatores produtivos está finalmente tendo seu preço com fuga de capital e escassez de bens de consumo (exemplos não faltam na história comprovando o efeito desse tipo de medida) em uma economia dependente de exportação de commodities. Sem contar o problema da corrupção e gerenciamento inadequado. Por outro lado, parte da oposição provavelmente quer se valer do desgoverno para alcançar objetivos políticos – a única solução para Maduro agora seria fazer as pazes com o setor privado, mas parte dele aparentemente se recusa a negociar com o governo.

O resultado dessa rixa é uma oposição ativa (lembrando que Maduro foi eleito por uma margem estreita de votos) e protestos que levam a uma reação violenta do governo há mais de um ano. Aqui não tem como negar a culpa de Caracas – por mais que os supostos “inimigos do regime” (uma expressão que geralmente não aparece em democracias) estejam conspirando para derrubar governos e criar instabilidade, não é correto ou aceitável a supressão de direitos, prisões arbitrárias ou a morte de manifestantes em confrontos desiguais com forças públicas. Sem uma imprensa que não seja governista, fica difícil contestar a visão do governo sem recorrer aos testemunhos dos próprios opositores, que relatam histórias de perseguição e intolerância.

E eis então que os EUA entram na parada. Criticando veementemente essas violações, na semana passada Obama autorizou sanções contra autoridades venezuelanas. Isso apenas esquenta as discussões, com o ultraje por uma “intervenção” norte-americana em assuntos domésticos. Esse tema vai longe, com a questão da soberania e da suposta “responsabilidade” internacional em defender direitos humanos. Mas vamos nos limitar ao seguinte fato: os EUA são o maior parceiro comercial da Venezuela, e a Venezuela é um dos maiores exportadores de petróleo para o Tio Sam. O interesse norte-americano parece bem claro: estabilidade na Venezuela significa suprimento de petróleo. E para a Venezuela é mais importante ainda a manutenção de boas relações com Washington. Por isso, de certo modo os EUA exageram com as sanções – isso realmente trará estabilidade? Ao mesmo tempo, a resposta de Maduro, que obteve autorização do parlamento para governar por decreto em situações de segurança nacional comprometida (um critério vago, que pode incluir de uma invasão dos EUA ao combate de protestos) gera um desbalanço institucional completo, com a hipertrofia do executivo, um legislativo acuado e o judiciário nas mãos do governo. Para um governo que se defende como uma democracia por conta das eleições e da representatividade, pouco se vê do equilíbrio de poderes.

Interesses egoístas, gerenciamento ineficiente, influência externa desastrosa… a crise venezuelana não prece ter um fim tão próximo. Mas independentemente da responsabilidade (que não pode de modo algum ser creditada a um ou a outro sem ignorar uma complexa cadeia de problemas), quem paga a conta é bem sabido, nas filas dos mercados e sofrendo bordoadas da polícia nos protestos.


Categorias: Américas, Economia, Polêmica, Política e Política Externa


Imagem da Semana

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Cheia Acre

Enquanto a região Sudeste do país vive o drama da seca na Cantareira, as imagens dessa semana mostram a gravíssima situação de cheia que está sendo vivenciada pelo Acre, no extremo norte do nosso país. Trata-se da maior tragédia em 132 anos, desde a criação da cidade de Rio Branco, com impacto direto na vida de aproximadas 71 mil pessoas.

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Já com 18 metros, o nível Rio Acre não para de subir e o prefeito de Rio Branco decretou no último domingo situação de calamidade pública na cidade. As imagens mostram o nível do desastre e nos levam a refletir sobre a amplitude do território brasileiro, o qual contempla realidades tão distintas ao mesmo tempo…


A arte na guerra

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Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


Categorias: Conflitos, Cultura, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Um ano sem aniversário

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A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


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Enquanto isso, no Afeganistão…

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Afeganistao

Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


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