Imagem da Semana

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Cheia Acre

Enquanto a região Sudeste do país vive o drama da seca na Cantareira, as imagens dessa semana mostram a gravíssima situação de cheia que está sendo vivenciada pelo Acre, no extremo norte do nosso país. Trata-se da maior tragédia em 132 anos, desde a criação da cidade de Rio Branco, com impacto direto na vida de aproximadas 71 mil pessoas.

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Já com 18 metros, o nível Rio Acre não para de subir e o prefeito de Rio Branco decretou no último domingo situação de calamidade pública na cidade. As imagens mostram o nível do desastre e nos levam a refletir sobre a amplitude do território brasileiro, o qual contempla realidades tão distintas ao mesmo tempo…


A arte na guerra

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Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


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Um ano sem aniversário

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A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


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Enquanto isso, no Afeganistão…

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Afeganistao

Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


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A desumanidade nossa de cada dia

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Broimp

 

A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


Categorias: Ásia e Oceania, Cultura, Direitos Humanos, Mídia, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Imagem da Semana

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As imagens da semana não poderiam deixar de envolver o Estado Islâmico e os últimos casos de execução sumária realizados pelo grupo. Após as polêmicas negociações que envolviam a “troca de liberdade” da iraquiana Sajida al Rishawi, condenada à morte na Jordânia por terrorismo, por um refém jordaniano e um japonês. Nos últimos dias, foram divulgados vídeos em que Kenji Goto, o jornalista japonês, é decapitado; e Muath al-Kasaesbeh, o piloto jordaniano, é queimado vivo.

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Em que pese o fato de que a veracidade das imagens e vídeos ainda está sendo verificada, a violência dos atos revela o nível de gravidade do tema, que afeta toda a comunidade internacional e cujas perspectivas futuras se mostram incertas e assustadoras…


Os dois lados da moeda

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Por tradição, os brasileiros são bem pessimistas com relação à economia (apesar de adorarem uma gastança e estarmos entre os países com menor tradição de poupança do mundo), principalmente por causa do histórico de hiperinflação assombra o noticiário (quem não viveu aquela experiência percebe como os mais velhos se preocupam). Essa é uma percepção que cabe no cenário atual?

Nesta semana, divulgaram-se dois relatórios sobre indicadores econômicos de teor diferente mas com causas semelhantes. O primeiro, mais perturbador, foi de como o Tesouro Nacional está com um rombo de mais de 30 bilhões de reais do ano passado, o primeiro déficit desde que a medição começou, comprometendo a dívida pública e exigindo medidas de ajuste que serão amargas. Por outro lado, o IBGE também anunciou que em 2014 a taxa de desemprego no país atingiu uma mínima histórica de 4,8%. Estamos falando de um nível próximo do pleno emprego, o que é fantástico em comparação a países que sofrem para alocar sua força de trabalho.

E existe relação entre as duas? Boa parte daqueles gastos do governo foi justamente para garantir o bom funcionamento do mercado de trabalho, com incentivos e desonerações que mantêm o consumo em alta (e por consequência, o emprego). Claro que o lado negativo disso é a inflação (aumenta o consumo, aumentam os preços), a que nossos economistas ortodoxos respondem com aumento na taxa de juros (já que aumentar impostos é muito impopular). Aumentando os juros, se espera que o consumo seja freado, e assim se controle a inflação. O interessante é justamente que o Brasil está na contramão do mundo com as taxas de juros elevadas – a tendência mundial é justamente de baixa nos juros para incentivar o consumo pós-crise. Países como a Dinamarca chegam a estar com juros negativos (ou seja, deixar dinheiro no banco faz o investidor perdê-lo).

Nem tudo são flores – essa situação de emprego em alta esconde alguns fatores (como alocação de mão-de-obra ociosa) e não é sustentável, logo o desemprego deve voltar a crescer justamente por conta dos ajustes macroeconômicos. Sem contar que a situação das contas públicas é alarmante. Mas é uma situação privilegiada sim – países como Espanha e Grécia estão com problemas de contas públicas semelhantes ao brasileiro, mas em situação ainda pior devido ao encolhimento da força de trabalho e desemprego galopante (na Europa está perto de 11%, intolerável mesmo no continente com um histórico de desocupação elevado por conta das políticas de bem-estar social). O Brasil tem a sorte de se colocar em uma posição na qual tem condições de controlar tanto o desemprego quanto a inflação em médio prazo – o que dependerá do quanto o governo estará disposto a investir nos setores corretos, cortar gastos e aguentar o impacto político, e do quanto a população aprenderá a poupar, tolerará os ajustes e a insatisfação.

A situação é complicada – mas podia ser pior. Podemos nos dar um pouco de otimismo.


Categorias: Brasil, Economia, Europa


Aniversário do blog: seis anos de história

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seis anos

Um dia antes do aniversário da cidade de São Paulo e do aniversário do inesquecível Tom Jobim, quem assopra as velhinhas é a Página Internacional. Há seis anos, seis bons anos, nosso querido amigo Alcir Candido, idealizador deste blog, lançava o primeiro post e tão já apresentava a nossa missão:

“Nada mais nada menos do que oferecer uma visão sobre assuntos importantes do mundo, que afetam a vida das pessoas, mesmo que elas não saibam. No entanto, ficar mastigando e remoendo aquilo que todos estão cansados de ver já é demais…”

O tempo passou. Vieram outros colaboradores, novas ideias e – por que não – novos sonhos. Escrever, mesmo uma análise não tão aprofundada e mais compreensível das relações internacionais, também é sonhar. Sonhar que as palavras, de um modo simples, possam transcender a realidade e despertar a imaginação: é possível, oras, fazer um mundo diferente, desde que sejamos capazes de interpretá-lo a partir do próprio ponto de vista. Evidentemente, a construção da própria visão é um processo dialético. E nós, membros do blog, que hoje permanecemos com vocês, leitores, esperamos entusiasmá-los com esse sonho.

Não convém recordar toda nossa trajetória. Apenas cabe ressaltar que este projeto do blog, em princípio modesto, acabou ganhando uma dimensão que muito nos orgulhou – e ainda nos orgulha. E nos orgulhamos não pelo que conquistamos, mas pelo que fazemos, pois fazemos por vocês, para vocês e com vocês, leitores da Página Internacional. Nosso maior orgulho é a felicidade que vocês, que nos acompanham diariamente ou não, estampam em nosso sorriso. Talvez isso signifique sucesso.

Todo aniversário é, antes, um momento de reflexão. Depois, de agradecimento. Refletindo, nós aproveitamos a data para assumirmos um novo compromisso com vocês. Vamos lançar uma nova série de postagens especiais, a exemplo do que fizemos no ano passado com uma série que tratou do centenário da Primeira Guerra Mundial. Neste ano, a Organização das Nações Unidas completa setenta anos de existência, a Organização Mundial do Comércio, vinte anos. Então, aproveitamos o momento para analisar a importância das organizações internacionais na política mundial: qual o papel delas? Elas têm contribuído para melhorar as relações entre países? São indagações, entre outras, recorrentes, as quais pretendemos discutir com vocês.

E, por fim, deixamos a nossa gratidão. Obrigado a cada um de vocês que nos ajudaram a construir estes seis anos de estrada. Foram anos que só nos acrescentaram intelectual e profissionalmente, além da enorme felicidade que eles nos trouxeram. Se, para lembrar o aniversariante Tom Jobim, é preciso sobreviver para atingir a idade da realização e ser feliz, não podendo sair antes do jogo, então, só podemos dizer que o jogo não acabou. Queremos ser feliz e realizados com vocês, leitores!


Categorias: Post Especial, Sem categoria


Falando em corrupção…

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Filipinas

O ano de 2015 começa para o Papa Francisco em uma importante viagem ao continente asiático, passando pelo Sri Lanka e pelas Filipinas. Depois de ter visitado o Sri Lanka e canonizado o primeiro santo do país, beato Joseph Vaz, hoje o Papa fez seu primeiro discurso desde a chegada às Filipinas, criticando principalmente a corrupção que vem sendo denunciada no país.

As Filipinas se situam em uma zona geográfica especialmente sensível, constantemente sujeita a tufões, ciclones e tsunamis, ainda mais em um contexto de mudanças climáticas em que as pessoas se encontram cada dia mais vulneráveis. No final de 2014, o país enfrentou o tufão Hagupit/Ruby, que havia sido previsto inicialmente com ventos de aproximadamente 300 quilômetros por hora, em região próxima àquela que foi atingida, no final de 2013 pelo tufão Haiyan/Yolanda que levou consigo a vida de pelo menos sete mil pessoas.

Se a força da natureza não pode ser controlada, os meios para reduzir o impacto de seus danos na vida das pessoas pode (e deve) ser tema de discussão de governos e da população civil. Esforços de prevenção se mostram, invariavelmente, muito mais eficazes que medidas para remediar os danos já causados.

Para tanto, deve haver engajamento político e planejamento estratégico de longo prazo, evitando esforços duplicados e falta de coordenação local. Se hoje em dia contamos com tecnologia suficiente para prever a chegada de eventos naturais tal como tufões com tempo hábil para a tomada das medidas necessárias, não existe explicação razoável para um desastre de grandes proporções que não envolva a falta de vontade política em trabalhar para que ele não aconteça.

Por outro lado, após a ocorrência de uma tragédia de grandes proporções como em que a mobilização internacional como o tufão Haiyan/Yolanda em 2013, chocantes foram as denúncias de que apenas aproximados 20% dos recursos alocados (em montante que soma milhões de dólares) teria sido alocado pela Defesa Civil do país em benefício das vítimas até setembro do ano passado, nove meses depois do desastre. Esta situação demonstra o despreparo/desinteresse de um governo diante de um quadro em que, além dos feridos e das vítimas fatais, centenas de milhares de pessoas se veem desabrigadas e absolutamente vulneráveis a novos desastres.

Pregando o diálogo entre os povos e a importância da união, a sétima viagem internacional do Papa Francisco está sendo também marcada por uma enfática crítica à desigualdade, à corrupção e aos desvios de verbas. Dada a gravidade do problema e, principalmente, das consequências para as pessoas mais pobres e suscetíveis a desastres, esperemos que o tema não seja exclusivamente parte de discursos, mas sim da prática dos governos…


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Terrorismo, um rabisco sem graça

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O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


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