Sobre nossas cabeças

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size 810 16 9 nave x37b 300x168 Sobre nossas cabeças

Nesta semana, causou um certo rebuliço na comunidade cientifica a notícia do retorno de uma missão espacial secreta dos EUA. A espaçonave retornável X-37B, um veículo de teste orbital não tripulado, esteve voando (na verdade, caindo – uma órbita planetária é basicamente uma queda sem fim em direção à curvatura do planeta) em torno da Terra, pasmem, desde 2012. Após 22 meses, seu retorno levanta uma série de questões sobre a sua misteriosa finalidade.

Há satélites que passam muito mais tempo, é claro. Mas eles são feitos para ficarem na sua órbita até o fim de sua vida útil (ou trombarem com qualquer coisa) e virarem lixo espacial. Um veículo que vai para o espaço, fica mais de um ano em órbita e volta há de ter alguma particularidade. Seria apenas uma missão de teste da viabilidade do novo veículo, mas por que não ser feito pela agência civil, a NASA? Aí que começa a especulação, que vai de espionagem a possibilidades mais estarrecedoras, como uma plataforma de armas de alcance inigualável.

Devemos lembrar que existe uma convenção internacional para o uso do espaço. De 1967, o Tratado do Espaço Exterior surgiu no auge da corrida espacial entre EUA e URSS, e serviu principalmente para definir de quem era a culpa quando uma nave ou satélite artificial caísse na Terra, e seu ponto mais famoso, o de proibir o emprego de armas nucleares e de testes dos mesmos além da nossa atmosfera. Mas não diz nada sobre armas convencionais – tanto que nos anos 80 os EUA tiveram seu sonho de projeto Guerra nas Estrelas, com lasers interceptadores de mísseis e tudo mais.

A implicação de um projeto dessa natureza é enorme em termos de estratégia – SE for de aplicação puramente militar, claro. A utilidade dos satélites espiões já é reconhecida, mas uma plataforma móvel, capaz de com ajustes de rota se posicionar sobre quase qualquer lugar do globo, fora do alcance de qualquer sistema de defesa… seria uma nova etapa na capacidade de dissuasão. Na verdade, um salto sem precedentes desde a implementação da tecnologia nuclear. Mesmo pensando em termos mais realistas, como um veículo sub-orbital, capaz de realizar suas missões viajando além da atmosfera, já seria algo preocupante para quem não dispusesse dessa tecnologia.

Porém, há pelo menos duas considerações importantes. A primeira é que, independentemente do uso, provavelmente apenas os EUA vão dispor desse luxo por um longo tempo. Programas espaciais são caros, e por mais dinheiro e mentes que o país tenha dedicados a isso (veja China ou Índia) demora muito para alcançar um grau de excelência nessa área. Ou seja, mesmo que seja uma inovação assombrosa, se apenas os EUA vão dispor disso, literalmente nada vai mudar em termos geoestratégicos. Simples assim. A segunda, um pouco mais sensata, seria de que não se trata de um projeto puramente militar. Muitas das inovações da vida comum, do forno micro-ondas à meia de lycra vieram de novidades militares. A exploração espacial moderna parece rumar para o caminho das empresas privadas, mas a pesquisa estatal não deixa de ser uma opção. Devemos lembrar que boa parte dos astronautas são militares, então não é nada inédito que possa estar havendo uma cooperação entre as agências.

Não sei se no futuro haverá guerras espetaculares com bombardeios orbitais fazendo chover destruição, mas a navegação espacial é uma realidade e, acima de tudo, uma necessidade para o ser humano. Qualquer avanço nessa área deve ser comemorado, e a capacidade de colocar um veículo em órbita e recuperá-lo inteiro mais de um ano depois é algo mais que notável.


Categorias: Estados Unidos, Polêmica, Segurança


Imagem da Semana

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Acabou a lua de mel com o Brasil? Pelo menos com a revista britânica The Economist, sim. Aquela que em 2010 mostrava uma capa com um Cristo Redentor decolando como um foguete como símolo do país que crescia quase 8% ao ano, já não mostrava tanta confiança em 2013, com a imagem do mesmo Cristo em uma espiral decadente. Agora, com as eleições, o tom é azedo, com uma imagem que remete à Carmem Miranda cheia de frutas podres na cabeça. A capa foi recebida com indignação pelo governo. o que revela duas coisas. Primeiro, que linhas editoriais podem sim mudar – e não necessariamente a depender de interesses políticos. Segundo, a opinião dos governos pode mudar também – já que em 2010 e Economist era a coisa mais linda do mundo, mas hoje…


Quem é vivo aparece…

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L11160A8A1DF4499A97F9B27BAA61A358 300x168 Quem é vivo aparece...

…e no caso da Coreia do Norte é uma boa notícia. A fim de desmentir boatos que circulam há semanas sobe seu estado de saúde, o líder do país, Kim Jong-un fez uma aparição pública esta semana para mostrar que está firme e forte na condução da nação. A questão é que o herdeiro da dinastia Kim estava sumido há quase 40 dias e não compareceu a eventos políticos importantes, o que causou todo tipo de especulação (especialmente dos sul-coreanos) sobre todo tipo de sinistro que pudesse ter acometido o grande líder, de um golpe militar a problemas de saúde graves, e até mesmo a morte. Na verdade, essa possibilidade ainda não está descartada – há que diga que seja um sósia roliço…

Naquele mundo à parte da realidade que existe no país asiático, o que se sabe é que Kim apareceu de bengala e parece ter a saúde fragilizada. Em essência, a confirmação de sua permanência é uma boa notícia, pois o marechal de 31 anos já demonstrou reiteradas vezes ser um líder bem mais ponderado que seus antecessores (o que o colocaria em choque com os mais conservadores e radicais do partidão). Kim Jong-un, de educação ocidental, pode ser o fiel da balança quando pensamos na relação da Coreia com sua vizinha do sul e as potências ocidentais.

Apesar dos disparos e eventuais escaramuças, atitudes recentes como a liberação da entrada de familiares separados desde a época da guerra da Coreia, e reuniões militares de alta patente reforçam a noção de que nunca antes os países estiveram tão perto de chegar a um consenso sobre seu conflito congelado. Apesar da bravataria e testes de mísseis, a possível retomada do “six-party talks”, a negociação com os EUA, Rússia e outros países sobre o programa nucelar norte-coreano é um sinal extremamente louvável de que se pode vislumbrar uma solução pacífica para a questão.

Ainda persistem temores, especialmente do Japão, além de rusgas pontuais como o problema da libertação de três americanos presos por espionagem, mas não era possível pensar nesse tipo de aproximação clara quando Kim Jong-Il estava no poder. Cercada em mistério pela censura oficial, o que dá para saber sobre a Coreia do Norte é que Kim Jong-um tem um impacto positivo nas relações internacionais do país, e a sua permanência deve ser, de certo modo, comemorada.

 

 


Categorias: Ásia e Oceania, Defesa, Política e Política Externa, Segurança


X UNSP

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UNSP X UNSP

Caríssimos leitores,

Entre os dias 08 e 13 de novembro, ocorrerá o X United Nations Model of São Paulo (UNSP). Famigerado modelo da ONU organizado pelo tradicional Grupo de Estudos, Pesquisa e Simulação de Organizações Internacionais (GEPESOI) da UNESP Franca, o UNSP é um dos mais tradicionais do Brasil, crescendo a cada edição. Trata-se, portanto, de um evento altamente recomendável aos entusiastas de simulações de organizações internacionais e interessados em conhecer melhor seu funcionamento.

Em 2014, o tema geral será “A busca por um bem-estar internacional do âmbito humanitário ao político-social”. Serão simulados os seguintes órgãos com seus respectivos temas:

– Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Sudão do Sul: Da crise política aos conflitos étnicos” (simulado em português e individual);

– Conselho das Nações Unidas para Direitos Humanos. “A impunidade perante as violações dos Direitos Humanos dentro do contexto das Crianças Soldados” (simulado em português e individual);

– Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR). “Environmental Refugees: the urgency of the situation and conditions of the refugee camps” (simulado em in glês e em duplas)

– Assembleia-Geral da ONU, com tema surpresa

Para mais informações, acessem www.gepesoi.com


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E lá vai o Evo…

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post E lá vai o Evo...
E não é apenas o Brasil se encontra em ano decisivo de escolha presidencial: também nossa vizinha Bolívia esteve hoje em dia de votações para presidente, senadores e deputados. Contudo, ao contrário das inesperadas reviravoltas em território brasileiro, o pleito boliviano se passou com certa tranquilidade – pesquisas indicam vitória de Evo Morales no primeiro turno.

Possivelmente com aproximados 60% dos votos, temos um Evo que vai garantindo um terceiro mandato, até 2020, à revelia do que antes se previa na própria Constituição do país. Com um perfil, no mínimo, polêmico, considerado “autoritarismo populista e pragmático” por alguns analistas, talvez estejamos visualizando a abertura de um precedente para sua continuidade no governo – aspecto que não representa, de fato, uma boa prática ao sistema político sul-americano, favorecendo a permanência no poder por tempo indeterminado.

Entretanto, com resultados claros na redução da pobreza extrema durante seu governo, aliado a um alto crescimento econômico (na expressiva faixa de 5%), Evo abre caminho para seguir na liderança da Bolívia demonstrando-se estável no poder e protagonista de medidas alinhadas com as necessidades sociais. Apesar de o caminho ser longo, não se pode subestimar o potencial de crescimento da Bolívia, cuja administração pública certamente merece crédito pelas medidas adotadas até o momento.

No que se refere ao Brasil, principal parceiro comercial da Bolívia, laços “de confiança”, apesar de “distantes”, dão o tom da relação durante o governo de Dilma, que não chegou a visitar seu homônimo boliviano, além de ter vivenciado a crise com a “fuga” do ex-senador e opositor ao governo de Evo Roger Pinto. A situação desencadeou a mudança do nome do chanceler brasileiro, porém o solicitante de refúgio no Brasil ainda é esperado em sua terra para julgamento pelo governo…

Se eleições normalmente nos remetem a momentos de inflexão e mudança, na Bolívia o clima é, todavia, de continuidade. Avaliação positiva em alguns aspectos, negativa em outros, somente o que se pode afirmar com segurança é que lá vai o Evo… até onde, será?


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As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


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O mundo às urnas

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votos 283x300 O mundo às urnas

Ontem tivemos eleições gerais no Brasil, e apesar do impacto tremendo disso na vida política nacional (e claro, internacional), vamos falar no dia tradicionalmente dedicado pelo blog a eleições, de outros escrutínios que acontecem pelo mundo. Ou melhor, aconteceram, pois em pelo menos dois países o fim de semana foi movimentado para seus eleitores como foi para os brasileiros.

Para pegar o gancho, na Bulgária, terra da família da atual presidente, as eleições legislativas mostraram a vitória do partido de centro-direita GERB. Porém, como parece ser a regra em países europeus em crise, o partido não obteve a maioria e encontrará dificuldades em se articular com os demais especialmente o Partido Socialista. O populista ex-primeiro ministro Boiko Borisov tem a ingrata tarefa de levar o país mais pobre da União Europeia (sim, até mesmo a Grécia tem renda por cidadão maior), em um ambiente de crise política e corrupção endêmica que se arrasta por quase 25 anos (desde o fim do comunismo) somado a uma crise bancária que ameaça seu principal banco e espanta o investimento estrangeiro.

Um pouco acima, na Letônia, as eleições parlamentares levaram o partido Harmonia à maioria e devem dar fim ao governo de coligação atual que já dura 9 meses. Assim como a Bulgária, o país se encontra na UE, e em situação delicada – mas pela presença do gigante russo ao lado. O Harmonia é um partido de tendências pró-Moscou, e com isso é esperado que recomece a haver uma influência significativa da política russa no país. Ao contrário da Ucrânia, porém, a Letônia é membro da OTAN, e uma interferência mais aguda como a que assola o celeiro da Europa desde o começo do ano é uma improbabilidade. Existe uma parcela significativa de russos étnicos no país, e o debate entre a manutenção dos laços com a Europa ou voltar a face a Moscou é um temor factível que pode resultar em divisões internas. Ou seja, problema a longo prazo.

Por fim, quando estivermos perto do segundo turno das eleições presidenciais aqui, lá nos EUA estarão ocorrendo as eleições do “mid term”, ou seja, do Legislativo. A decisão da composição da Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e do Senado contém a chave para o futuro do país, pois a distribuição dos partidos no Congresso vai definir se as políticas dos próximos dois anos vão render algo ou se um entrave político emperrará decisões vitais na área de Defesa e economia. Uma derrota republicana no Senado manterá um Congresso engessado e impopular, enquanto uma vitória poderá significar uma campanha de terror pela não-cooperação com as políticas de Obama e até mesmo definir as possibilidades reais de derrota democrata nas eleições presidenciais de 2016. E mesmo com essa eleição histórica a menos de um mês, o modelo de alistamento eleitoral voluntário mostra uma incrível taxa estimada de apenas 15% de eleitores interessados no assunto.

Logo teremos a chance de verificar o resultado desse evento, mas com estes exemplos fica aparente a situação de crise que a maior parte destes países enfrenta, de democracias consolidadas a novatos nesse clube pós-muro de Berlim.


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Imagem da Semana

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Independentemente dos resultados das eleições de hoje por todo o país, a imagem do dia reflete uma triste, apesar de recorrente, situação em época eleitoral: lixo espalhado pelas ruas, principalmente nas proximidades de locais de votação pelo Brasil afora. A foto acima é do Rio de Janeiro e ilustra o extremo de uma situação de poluição eleitoral.

Se a Lei das Eleições (n. 9.504/97) determina que o recrutamento de eleitores ou a chamada propaganda de “boca de urna” pode resultar em multa e detenção, a poluição nas ruas revela uma forma velada de influenciar os eleitores indecisos na última hora, o que, indiretamente, não deixa de constituir também crime eleitoral.

Aliás, toneladas de materiais (panfletos, cavaletes, faixas, etc.) têm sido apreendidas em todo o país durante o período pré-eleitoral por estarem dispostas em locais/horários irregulares. O Distrito Federal bateu o recorde nacional: 350 toneladas de propagandas ilegais – cuja destinação final, ao menos, deverá ser a reciclagem

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Um ideal para lutar?

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1out2014 300x145 Um ideal para lutar?

Uma das notícias mais inusitadas da semana foi a revelação de que um ativista preso em São Paulo durante os protestos da época da Copa do Mundo está hoje lutando ao lado dos rebeldes separatistas ucranianos. Assim como a notícia do ex-soldado norte-americano que se juntou aos curdos na luta contra o ISIS, são comuns as notícias de pessoas que largam tudo para se juntar a alguma causa – e explicam muito das dificuldades encontradas pelos Estados nos conflitos atuais.

Até o final da Idade Média e começo da Moderna, a regra era que Estados contratassem mercenários. Não no sentido negativo que o termo tem hoje, mas como pessoas que escolhiam um ofício bem específico, o de lutar para quem os contratasse. E era um serviço muito bem feito, como atestam os famosos mercenários suíços que pintam em quase todas as guerras do período. Com isso a população civil nem precisava se preocupar com os combates (a não ser que chegasse ao seu quintal…). Isso muda com a consolidação do Estado Moderno, que entre suas características inclui a formação de exércitos regulares, sob controle do rei (afinal, não parecia ser a melhor das ideias que estrangeiros ficassem a cargo da proteção do país) e a conscrição de soldados a partir da população civil. Acima de um dever profissional, o cidadão deveria ir ao combate por razões mais vagas, como o sentimento de dever ou o nacionalismo – ou apenas por pura obrigação para não ir preso. Isso vale para os conflitos que assolam o mundo até hoje, e como o cidadão comum geralmente não tem muito interesse em morrer pelo país (apesar das muitas exceções), é necessário que haja uma atuação pesada em termos de propaganda e alistamento (como nos EUA) para que essa atividade se mantenha. Os benefícios ofertados para o soldado de hoje tem de ser muito mais que um salário (como bolsas estudantis e plano de saúde) para que se arrisquem desse modo.

Então o que acontece com as pessoas que largam tudo para se juntar a uma causa, muitas vezes suicida, em outra parte do mundo? É irônico constatar que, enquanto noções vagas e até mesmo construídas como o nacionalismo era usadas como justificativa para a conscrição, boa parte desses viajantes o faz justamente por razões de identidade e comunidade. Talvez a primeira grande manifestação disso seja lá nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola, mas pense hoje nos americanos e ingleses que se unem à luta na Síria ou ao ISIS – fora o laço da religião não existe nada que os obrigue a isso. Mas o mundo contemporâneo possibilita a formação de redes de informação que facilitam a troca de informações e ideias, aproximando pessoas com experiências semelhantes em círculos de convivência atrativos e à revelia da noção de identidade nacional. E como pessoas sem nada a perder, dispostas voluntariamente a combater por sua causa, lutam de maneira acirrada, por vezes indo além do que se espera da disciplina militar regular e recorrendo à guerrilha e ao terrorismo.

Tal é o desafio das guerras do século XXI. Na ausência de conflitos entre democracias, os mercenários de ontem não encontram reflexo nos combatentes de hoje. O que se opõe via de regra são exércitos regulares embasados em um modelo tradicional (mas custoso para que se mantenha funcionando), contra indivíduos dispostos às últimas consequências para defender um ideal – ou mesmo a luta destes entre si.


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Eleições, sociedade e mídia

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images Eleições, sociedade e mídia

Este post, diferente de outros que já escrevi, é muito mais um desabafo do que uma análise. Não é e nem deve ser interpretado como uma apologia a qualquer candidato a Presidente da República ou a qualquer outro cargo eletivo. Ele é o relato da frustração temperada pela desesperança: um povo que não conhece a si e nem a própria história é incapaz de transformar seu destino.

Os fatores dessa frustração serão concentrados, neste texto, em dois atores fundamentais do atual ciclo eleitoral: sociedade e mídia. Nesse período, praticamente todos, sem exceção e principalmente quem nunca se interessou, tornam-se especialistas em política. Por isso, não raro, constata-se a elevação do nível de bobagens divulgadas, a ascensão do sentimento de intolerância e o baixo nível do debate em torno de programas de governo – os quais, na verdade, deveriam ser de Estado.

Em primeiro lugar, as ideias e as propostas dos presidenciáveis – à exceção daqueles que conhecemos – são cada vez menos direcionadas para os eleitores e cada vez mais direcionadas para mídia. Importa aquilo que repercute, não necessariamente o que é essencial para o país. E a repercussão tem um preço: a construção de estereótipos, que alimentam a desinformação e a intolerância. “Isso é coisa de PTralha!” ou “Os tucanos privatizaram o país!”. Mesmo quem propõe o fim dos estereótipos – ou da polarização, como queiram – ou fica no vazio, ou fica na farsa.

Nós, sociedade, caímos na armadilha. Talvez por causa de nossa volúpia por simplificações grotescas. É mais fácil aceitar e reproduzir uma informação, especialmente quando ela reforça nossa identidade e convicções como contrárias àquelas que negamos, do que ir atrás da informação. O compromisso com a veracidade acabou. Prevalece a desinformação ou, pior, a falsificação da informação combinada com a intolerância e o sensacionalismo, que também são utilizadas nas campanhas. Um exemplo claro é a afirmação de que o Brasil propõe dialogar com terroristas que cortam cabeças. Afirmar isso é, no mínimo, desconhecer os princípios constitucionais de nossas relações exteriores e a tradição diplomática brasileira.

Em segundo lugar, ou a voz das ruas dos protestos de junho de 2013 não foi ouvida pelos presidenciáveis, ou o povo não soube o que pedir nem o que esperar. No máximo, apenas dois dos candidatos poderiam acolher essa voz, porém, estão bem abaixo nas intenções de voto. Isso leva inevitavelmente a seguinte dedução: o povo é radical e genérico no pedido, mas conservador na mudança, seja por temor, seja por inaptidão. Daí resulta a escolha na hora de votar, preferindo a opção “menos pior”, que pode ou não ser diferente da situação, em vez da melhor opção, aquela em que se confia de fato.

Outro ponto que cabe observar é a inversão das prioridades no debate eleitoral. São os temas polêmicos – legalização das drogas, aborto, criminalização da homofobia, etc. – que ocupam o centro do debate e não as políticas e as estratégicas dos programas de governo que contemplam esses temas. Não faz sentido discutir legalização das drogas e aborto, por exemplo, descolados dos programas para saúde e segurança públicas, bem como sua integração com outras políticas públicas. Dizer se é favorável ou contra não é o mesmo que propor ações consonantes com as próprias posições no contexto de uma ampla e integrada estratégia. Em grande medida, a mídia é a responsável por polemizar, por canalizar o debate em torno desses temas estruturados, não estruturantes, deixando a sociedade à deriva da audiência.

Finalmente, a votação clarifica o profundo abismo social no Brasil. Ela praticamente reflete uma versão adaptada da luta de classes das análises marxistas. Quem tem menor renda, vota no PT; quem tem mais, no PSDB (ou PSB). Ambos se criticam pelas razões inversas, enxergam-se como mutuamente excludentes e cultivam um sentimento recíproco de intolerância. Uns dizem, por exemplo, que políticas de transferência de renda são compra de votos, outros propagam o apocalipse dos programas sociais. Convém lembrar que nenhum candidato propõe o fim de programas dessa natureza. Os argumentos dos dois são injustificáveis. Trata-se de uma política de Estado, aliás, tão velha e praticada quanto à própria Economia. É, antes, um problema de ênfase – investir demasiadamente em uma área em detrimento de outra –, não motivo de intolerância e de segmentação social. Isso deve ser compreendido e aceito pela sociedade sem titubear.

Está chato! Sinceramente, ou nós – e também a mídia – evoluímos conscientemente enquanto seres pensantes em política, ou nós deixamos, de acordo com o senso comum, esse assunto relegado na discussão – como futebol e religião – para evitar brigas. Não é assim que se pensa no futuro do país, pela exclusão das diferenças. É, sim, pelo diálogo construtivo das alteridades, indispensável ao jogo democrático. Mas talvez isso fique para 2018, quando voltaremos a falar de política novamente.


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