Hong Kong acordou?

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Nesta semana acabou de maneira bastante insatisfatória (pelo menos para os que protestavam) o movimento de “ocupação” nas ruas de Hong Kong, pedindo por reformas no sistema eleitoral e que acabou se expandindo para outras áreas como desigualdade de renda e segurança. O tráfego foi restabelecido e mais de 200 manifestantes foram presos, com seus acampamentos destruídos pela polícia da cidade.

Pensando que na última vez em que um protesto dessa magnitude aconteceu contra o governo chinês ele ficou conhecido como “massacre”, até que o desfecho não foi tão ruim, mas o fato é que tais protestos não alcançaram nenhum dos objetivos. O governo chinês não cedeu às pressões, o governo local continua sujeito às decisões do partido e a propaganda estatal reafirma a noção de “um país, dois sistemas”.

Ao mesmo tempo, esse fracasso aparente esconde um grande sucesso. Primeiro, o mero fato de que o governo não pôde passar com tanques por cima dos manifestantes como se faria outrora, pela característica peculiar do governo de Hong Kong, tornou possível um tipo de protesto que não se vê mais na China continental. O impacto na vida diária dos cidadãos, e as demandas apresentadas, despertam uma noção de participação e reivindicações que incluiu a sociedade como um todo. O esvaziamento do movimento, seja pela ações mais violentas (como tentativa de invasão de prédios públicos), seja pelo transtorno por falta de transporte, não vão apagar a forte impressão que esse movimento trouxe, chegando a mobilizar dezenas de milhares de pessoas. As lideranças parecem acreditar que isso é apenas uma “retirada” estratégica, e que os protestos retornarão com força em algum momento no ano vindouro.

E agora começa a guerra de ideias. Os manifestantes têm reivindicações, o governo perdeu apoio, Beijing se preocupa. O desfecho disso tudo, se causará uma revolução silenciosa e progressiva na sociedade da ilha, ou se descambará para um conflito mais agudo, dependerá do quanto a China estiver disposta a ceder para a manutenção de sua “joia” ou intimidar e suprimir definitivamente as demandas. Mas do modo como afetou a ilha por completo, a chance de que seja um evento isolado é praticamente descartada e abre uma nova perspectiva para o futuro de Hong Kong.


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Reconhecer o problema

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O sistema internacional é como um clube. Pelo menos, quando pensamos em Estados. Para que aquela unidade política seja aceita entre os demais, não basta cumprir alguns requisitos próprios, mas ser aceito pelos “colegas”. Quando pensamos no tal Estado Islâmico, por exemplo, mesmo que consigam eventualmente assegurar um território e um governo, provavelmente jamais serão reconhecidos pela comunidade internacional por conta das atrocidades cometidas para chegar a essa situação. Por isso causa muita euforia a notícia de que parlamentos de países europeus (um dos últimos focos de resistência ao movimento) estão debatendo sobre leis para reconhecer o status de Estado para a Palestina – a Suécia mesmo já passou por cima disso e se tornou o primeiro Estado do continente a fazer isso há algum tempo. O caso mais recente foi uma votação simbólica no parlamento da França, mas algo parecido já ocorre na Inglaterra e Espanha.

O que isso tudo significa? Por mais que a aceitação internacional crescente signifique uma pressão enorme pela resolução pacífica, não representa necessariamente uma possibilidade de fim das hostilidades com Israel. O problema reside em dois pontos. Primeiro, a tendência é de endurecimento em Israel, com a consolidação de radicais e a possibilidade de uma legislação que tornaria o estado ligado à religião. Segundo, o reconhecimento do Estado Palestino como tal reduz a possibilidade de funcionar uma solução que é possivelmente uma das mais vantajosas, a de um Estado único.

Quanto ao primeiro ponto, o premiê Netanyahu demitiu nesta semana membros moderados do governo e dissolveu a coligação, fazendo com que fosse necessária uma eleição em 2015. A tendência é que se mantenha no poder, com uma frente de partidos nacionalistas e religiosos. O grande temor é a aprovação de uma lei que define o país como uma pátria de judeus, o que implicitamente criaria uma diferenciação entre cidadãos – e marginalizando, por exemplo, os de origem árabe. Esse tipo de política radical reflete o fortalecimento do movimento conservador no país, e é um claro empecilho às negociações de paz. Mais que isolar o país politicamente, essa medida pode ser usada como munição para países árabes levarem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim das ocupações israelenses – que causará dano político de maneira inegável, sendo vetado ou não. Ao mesmo tempo, Israel está fortalecido no cenário regional, e o impacto destas políticas é uma incógnita.

Já no segundo ponto, se não impeditivo, o reconhecimento do Estado Palestino atrapalha um dos planos mais sensatos que une intelectuais de ambos os lados do conflito, que seria a solução de um Estado com as fronteiras pré-1967 e um governo conjunto. Basicamente, reconhecer a Palestina como Estado independente significa que a comunidade internacional nas entrelinhas não vê a solução de um Estado unificado como viável, ao mesmo tempo em que se configura como uma solução que contempla a maior parte dos interesses envolvidos, com o controle de territórios em disputa e a livre circulação de cidadãos.

Como sempre, apesar do clichê, o destino da crise entre palestinos e israelenses fica ao sabor de desenvolvimentos futuros, mas como o quadro se configura hoje, uma solução ainda é impensável.


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Adeus, Chespirito! Olá, América do Sul!

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post11 251x300 Adeus, Chespirito! Olá, América do Sul!

Nunca é demais recordar uma figura que marcou a infância e a adolescência – e até mesmo os anos adultos – de todos nós: Roberto Bolaños. Um gênio que traduziu o humor na inocente simplicidade do cotidiano de uma vila. Um herói atrapalhado, nem por isso ingênuo, cujo maior ato foi elevar a cultura latino-americana, muitas vezes marginalizada, ao imaginário popular mundial. Um eterno transeunte que continuará despertando, sem querer querendo, nossos risos mais irreverentes. Chaves, Chapolin, entre outros personagens clássicos, representam o espírito de um povo tropical, às vezes desajeitado, mas sempre alegre, em busca de melhores condições de vida.

É comum encontrar analogias entre a turma do Chaves e países da América Latina, por exemplo, a Chiquinha como a Venezuela ou Cuba, porque se acha independente e arruma confusão com todo mundo. Entre o tributo e a análise, este texto também é uma tentativa de interpretar às transformações da América do Sul, em específico, ocorridas nestes últimos anos à luz de um seriado infantil que tantos nos inspirou. Diferente de outras comparações, pretende-se, aqui, tratar os personagens como pessoas normais – e não como países – que compõem o rico cotidiano desta região.

Em primeiro lugar, uma observação geral sobre o contexto. Entre o fim dos anos 1990 e início da década passada, diversos governos ditos de esquerda ascenderam em praticamente toda a América do Sul, sendo a maior exceção a Colômbia. Sem entrar no mérito se isso ocorreu ou não devido à falência do projeto neoliberal, com base nos preceitos do Consenso de Washington (1989), é possível encontrar uma característica comum entre os líderes ascendentes: a exemplo de Bolaños, todos eles simplificaram os discursos e conseguiram chegar a todas as classes sociais. A erradicação da pobreza e da fome e a redução das desigualdades, previstas na maioria das constituições sul-americanas, tornaram-se o objetivo síntese de um projeto político relativamente simples. Um projeto que propôs enfrentar ferozmente uma realidade histórica negligenciada. Não foi difícil, assim, convencer os habitantes desta vila humilde de que tantos Chaves e Chiquinhas também deveriam ter condições de adquirir a bola quadrada de Quicos.

Houve a inversão de uma fórmula consagrada neste período: o bolo precisa ser repartido conforme o crescimento, não depois de pronto. Trata-se de um crescimento distributivo, às vezes aquém do que se espera, mas que contribua para a melhoria dos indicadores sociais. Daqui para frente, dificilmente as sociedades sul-americanas aceitarão crescer sem inclusão social, independentemente das políticas econômicas adotadas. Convém ainda ressaltar que esse crescimento, embora tenha sido favorecido pela elevação dos preços das commodities, foi alimentado pelo trabalho e aumento de renda. Muitos Seu Madrugas, que antes faziam bicos – engraxate, marceneiro, vendedor de pipoca, etc. –, conquistaram um emprego formal. Muitas Donas Florindas, que já desfrutavam de alguma renda, resolveram abrir um restaurante. Muitos Seu Barrigas compraram mais imóveis, muitos professores Girafales ensinaram mais alunos, muitos viajaram para Acapulco, enfim, muitas pessoas passaram a fazer parte de um processo, ainda incipiente, de transformação social, ao se desprender de mazelas históricas.

O problema é que as lideranças esquerdistas emersas na década passada tinham um discurso claro e simples para quando o Chaves não comia sanduíche de presunto. Agora, ele come. E não quer só o sanduíche. Também quer torta, bolo, churros, pirulito, etc. Mais do que isso, ele quer andar de bicicleta, pegar um ônibus para ir ao parque, deixar de morar em um barril. Há uma ampliação da “nova classe média” – ou, como dizem os críticos, dos “novos proletários” – que modificou seu pleito: da universalização do acesso a serviços básicos para a qualidade desses serviços. Esta nova condição, ainda não sedimentada, é o grande desafio das políticas públicas das próximas décadas, sem deixar de lado o enfrentamento dos desafios históricos. Há um clamor por mudanças na população, eventualmente consubstanciada por uma nova orientação em seus governos, que já se percebe nos pleitos eleitorais apertados – Brasil e Uruguai são os casos mais recentes.

Uma era se encerra, outra começa. A primeira, humorística, a segunda, política. Roberto Bolaños tornou-se o guardião de uma era para a cultura latino-americana e compreendeu, de forma inocente, o que a Ciência Política, Sociologia, Filosofia, entre outros campos do conhecimento, tentam explicar até hoje: a natureza dessa gente americana dos trópicos. Ela é imperfeita e desastrada, por definição, mas feliz e esperançosa, por convicção. E é essa gente bronzeada, como compôs o sambista Assis Valente, que hoje mostra o seu valor. Não contente apenas em ser parte de um processo de transformação social, quer ela ser condutora da própria transformação, o que pode iniciar novos episódios na vila sul-americana.


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Imagem da Semana

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A imagem da semana revela uma situação inusitada envolvendo o presidente Obama – ou mais especificamente suas duas filhas adolescentes. Seguindo a tradição estadunidense, Obama presidiu, na última quarta-feira, uma cerimônia típica da véspera do Dia de Ação de Graças, em que são “perdoados” dois perus que normalmente seriam consumidos no dia seguinte.

O inusitado da situação, na verdade, envolveu a postura das filhas presidenciais, Sasha e Malia, durante a cerimônia. As meninas trocaram olhares entediados e foram duramente criticadas por Elizabeth Lauten, assessora de imprensa do congressista republicano Stephen Fincher, em sua página no Facebook: “Eu sei que vocês duas estão no terrível período da adolescência, mas vocês são parte da família presidencial – tentem mostrar alguma elegância. Pelo menos respeitem o papel que desempenham”.

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A situação está gerando tamanha comoção que Elizabeth já se desculpou publicamente e anunciou que pedirá sua demissão no dia de hoje


A injustiça recorrente

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We are Michael Brown UPI David Broome 300x199 A injustiça recorrente

O enredo é conhecido, bem como o desfecho. Periferia de um centro urbano, jovem negro abordado pela polícia, algo sai muito errado. Os policiais atiram contra o suspeito, que acaba morrendo. Na versão oficial, era alguém perigoso, que reagiu e foi alvejado por resistir à voz de prisão. Segundo a família e conhecidos, era uma pessoa de ficha limpa, honesta, que se tornou a mais nova vítima de uma polícia despreparada. A indignação na comunidade explode rapidamente, com protestos nas ruas, pneus queimados para interromper o trânsito e as forças policiais são mais uma vez enviadas para conter a turba. Enquanto parte dos manifestantes aproveita a baderna para promover quebra-quebras, destruir vidraças e saquear lojas, a polícia reprime com violência desproporcional parte das manifestações, o que gera indignação na mídia local e internacional. Quando as coisas parecem esfriar, os policiais envolvidos na morte são absolvidos em júri popular e mais uma vez a tensão cresce, com a população indignada pelo fato de que as acusações parecem distantes da realidade.

Brasil? Poderia muito bem ser uma manchete daqueles programas de fim de tarde, mas é exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, por conta da morte de Michael Brown, o jovem em questão. Durante a semana, até a Guarda Nacional foi enviada à antes pacata cidade de Ferguson para conter os distúrbios. Se o caso mostra que a truculência e despreparo policial para lidar com multidões, bem como a violência policial injustificada contra inocentes não são exclusividade tupiniquim (na verdade, parece ser a regra para o mundo todo), também serve de alerta para uma realidade de exclusão e preconceito ainda latente em um país que mantinha leis segregacionistas até o século passado.

Mais que o ultraje pela morte do inocente, percebe-se uma campanha de demonização da vitima. Mesmo que não fosse mal-intencionada, a culpa é sempre do que resistiu ou não obedeceu a ordens da lei. Provas e depoimentos inconsistentes, canais de notícias veiculando fatos enganosos ou pouco confiáveis sobre Brown, tudo leva a crer que a criação da imagem de um “vilão” para justificar a força letal é símbolo de um racismo que ainda possui grande apelo, mesmo que inconsciente, naquela sociedade.

Há pouco tempo também causou grande comoção a morte de Trayvon Martin, morto em circunstâncias parecidas. O caso de Brown causa mais comoção pelo fato de que alia ao racismo o elemento da injustiça pelo modo ambíguo com que o julgamento dos acusados está sendo conduzido. Mas nesta semana mesmo temos um novo candidato a caso de comoção nacional, com um elemento ainda maior de tragédia por se tratar de uma criança. Apesar de ser uma situação delicada (o menino estaria com uma réplica de arma de fogo ameaçando pessoas numa praça) um vídeo de segurança que capturou a ação mostra que os policiais atiram segundos após chegarem ao local – enquanto segundo a versão oficial teriam dado voz de prisão e apenas atirado quando o menino (mais uma vez) resistiu. Do modo como esse tipo de evento é retratado, fica difícil saber em que ponto terminam os fatos e começam as desculpas, e até mesmo se o menino efetivamente estava ameaçando as pessoas ou apenas brincando de uma maneira pouco saudável.

Dúvidas à parte, fica a certeza de que continuarão a ocorrer muitos fatos semelhantes pelo mundo afora, com jovens negros e pobres “resistindo” à voz de prisão e terminando estirados em calçadas. Mas aqui fica marcada a grande diferença disso para o Brasil – enquanto por aqui essas mortes são até comemoradas e os protestos ficam limitados à região ou bairro onde ocorreu o assassinato, nos EUA a onda de protestos contra o ultraje policial e legal está se alastrando por diversas cidades e terá um impacto social muito maior.


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O Papa é (mais que) pop

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papa post O Papa é (mais que) pop

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


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Um sonho futuro

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obama imigração Um sonho futuro

Em um ano que não vai deixar saudades para Barack Obama, pelo menos uma de suas decisões vai ter um impacto duradouro na sociedade norte-americana, e possivelmente benéfico. Nesta semana, o presidente recorre a decreto, um recurso não muito bem-visto nos meios democráticos, mas que funciona quando necessário, para aprovar mudanças nas leis de imigração do país e passar por cima da oposição cerrada no Congresso, legalizando milhões de imigrantes em situação irregular.

Vamos por partes. A reforma da imigração sempre foi uma das principais bandeiras de Obama (lembrem-se que grande parte dos eleitores que o colocaram na Casa Branca são os de origem latina, imigrantes ou descendentes), com a finalidade de resolver o problema dos quase 12 milhões de ilegais no país. Porém, o que se viu foi uma onda de deportação recorde, igualando em dois anos a quantidade de deportados em oito anos de Bush filho. A razão disso é o velho problema da política de oferecer agrados a opositores para tentar colher os frutos no futuro. Visando ao apoio republicano, Obama teve de endurecer as políticas as aguentar as críticas em cima disso, na esperança de que quando a nova legislação de reforme fosse votada, tivesse a simpatia dos opositores. Não deu muito certo, seja por que os republicanos não engoliram esse macete, seja pelo fato de que conseguiram conquistar a maioria nas duas casas e agora estão pouco se importando com quaisquer políticas de Obama – ou, pior, se dedicando a sabotá-las.

Sem alternativa, o presidente abraçou uma alternativa mais modesta, e por meio de decreto deve beneficiar quase 5 milhões de ilegais com o abrandamento de condições para a deportação. Permanece o rigor com os que chegaram recentemente ou cometeram crimes, mas aqueles que estão há mais de 10 anos ou tenham filhos cidadãos norte-americanos podem acabar permanecendo. O decreto não chega ao ponto da concessão de cidadania (que era um dos pontos principais da nova lei), mas é um passo importante para manter funcionando uma das principais engrenagens da economia norte-americana ao trazer uma enorme parcela de população economicamente ativa para o setor formal.

Basta lembrar que, em comparação a outras economias desenvolvidas maduras, os EUA são a única em que não há déficit populacional. A Europa em crise sofre com a redução da força de trabalho, mas isso não acontece nos EUA por ser um polo de atração tão forte de imigrantes, que substituem os aposentados em ritmo estável. Pensando mais adiante, os impactos em longo prazo são ainda maiores, pois a contribuição dessa camada da população para planos de previdência social e programas assistenciais é imprescindível para que as contas fechem. Conseguir inserir legalmente uma parcela na casa dos milhões de cidadãos, que já estão na economia de algum modo mas sem participar do sistema, é uma medida impopular com setores mais conservadores (apesar de a maior crítica dos republicanos não ser às medidas, mas pelo fato do presidente ter passado por cima do Congresso) mas ao mesmo tempo assenta bases para uma fundação sólida do sistema previdenciário nas próximas décadas, e a depender dos rumos do mandato, pode acabar sendo a maior contribuição de Obama para o país em seus dois mandatos.


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Escravidão moderna

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Fonte: BBC.CO.UK

O Brasil tem, hoje, aproximadamente 155 mil pessoas vivendo em condições de trabalho escravo. No mundo a estimativa é de cerca de 35 milhões de homens, mulheres e crianças, meio por cento da população global, que se encontram na mesma situação. Esses dados foram divulgados pela organização não governamental (ONG) “Walk Free Foundation” em seu “2014 Global Slavery Index”.

Por “escravidão moderna” entende-se o envolvimento de uma pessoa que controla ou possui outra tendo como resultado a privação da liberdade desta última. Trabalho forçado, exploração sexual, tráfico de órgãos e servidão absoluta são alguns dos exemplos práticos que entraram nos resultados em questão. De mais notório, a pesquisa chegou a dois resultados principais. Em primeiro lugar, pelo fato da mesma ter uma metodologia mais específica e apropriada, viu-se que a escravidão moderna em 2014 aumentou em relação ao ano passado. E, em segundo, constatou-se positivamente na maioria dos países, dentre os 167 analisados, a existência de leis e regras específicas no combate à escravidão. Todavia, suas implementações permanecem escassas e fracas.

Em torno de 60% da escravidão moderna está situada em cinco países: Índia, China, Rússia, Paquistão e Uzbequistão. Mauritânia, na África, lidera o ranking com sua “escravatura hereditária” de 4% do total da população. Na América, o Haiti é o país com o pior número e o México é o que apresenta o maior índice absoluto de escravos com aproximadamente 267 mil pessoas exploradas. Do lado oposto está o continente europeu como um todo, representando somente 1,6% dos 35 milhões de escravos modernos.

 

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Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

 

Especificamente sobre o Brasil, nosso país melhorou em relação ao ano passado, tendo saído da 94ª para a 143ª posição na escala da pesquisa. A ONG ainda deu destaque para políticas nacionais como a PEC do Trabalho Escravo e o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Em contrapartida, afirmou que ainda é baixa a identificação de vítimas decorrentes de abuso sexual no território nacional.

Interessante notar que houve uma proporcionalidade direta entre instabilidade política de determinados Estados e a vulnerabilidade da população para com a escravidão moderna. Obviamente, conflitos civis e/ou guerras religiosas enfraquecem a perenidade de leis domésticas, cujos objetivos centrais, no caso aqui retratado, são garantir a liberdade individual. O Brasil melhorou, a Europa mantém a dianteira, mas a discrepância permanece e, cada dia mais, será necessário o trabalho de interdependência entre os atores governamentais e não governamentais. E é aqui que se deve destacar o trabalho da “Walk Free Foundation”.

PS: Para ter acesso direto ao “The Global Slavery Index 2014”, clique aqui.


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Imagem da Semana

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Foi realizado no último final de semana o encontro do G-20 na Austrália, com os líderes que respondem por 85% da riqueza global reunidos em um mesmo espaço.

Se a imagem da semana certamente foi a foto oficial com os líderes dos 19 países mais poderosos do mundo mais a União Europeia, a capa do jornal australiano “Courier Mail” deu um tom descontraído às boas-vindas e também merece registro…

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Onde há fumaça…

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Enquanto a Agência Espacial Europeia faz história no espaço, aqui na Terra tivemos uma notícia tão surpreendente quanto a expectativa do pouso de uma sonda em um cometa longínquo. O que antes parecia impossível abismou a comunidade internacional, de um jeito positivo, quando EUA e China declararam um esforço conjunto para, entre outras modalidades de cooperação, reduzir as emissões de gases estufa pela primeira vez na história.

Quem acompanha o noticiário internacional sabe das motivações por trás da recusa em assumir os compromissos do protocolo de Kyoto, a base para o esforço global em reduzir os problemas de mudanças climáticas. Os maiores responsáveis pelas emissões sempre foram contrários às reduções “arbitrárias” que danificariam seu crescimento econômico. Por isso a surpresa com o anúncio, mas existe muito mais por trás dessa cooperação (nem tão) inusitada.

Primeiro, os países ainda não entraram no esforço “global” por assim dizer. Quando necessário, quiseram adequar suas reduções aos próprios termos, ou seja, à revelia da comunidade internacional. Não se trata de intransigência, mas pragmatismo – fica o recado para o mundo de que algo precisa ser feito, e será, mas do jeito que os gigantes quiserem. O fato de China nem estabelecer um teto para essa meta, mas apenas dizer que vai reduzir as emissões até 2030, bem vago mesmo, é indicativo disso. Ao mesmo tempo, é histórico por ser o primeiro movimento claro e oficial de ambos em direção a políticas ambientais mais sustentáveis, mas as expectativas podem não corresponder à realidade quando for necessário avaliar os resultados de tais políticas.

E claro que existe um jogo político. O anúncio das metas de redução veio em um grande pacote de cooperação sino-americano, que passa por acordos econômicos e militares. Isso se deu após uma reunião de cúpula dos países asiáticos, e Obama acabou tendo algumas conversas breves e pouco amistosas com Putin por ocasião disso. A relação gélida com Moscou contrasta com a aproximação clara de Washington com Beijing, eleito como o grande rival e parceiro na região nos últimos anos. Mais do que uma novidade bem vinda para o cenário ambiental, essa declaração conjunta pode significar uma mudança drástica mas já em curso nas relações de poder daquela região do mundo.


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